Aquela noite, porém, não deixou de ser extremamente esclarecedora. É aquilo que dizem, não? Depois da tempestade, vem a paz, embora, como britânico, eu possa dizer com propriedade que nem sempre é verdade. De qualquer forma, comparado a terça, eu acordei muito melhor naquela quarta-feira. Meus pensamentos tinham tomado alguma ordem e eu conseguia pensar direito.

O vovô achou tudo muito suspeito, mas quando ele não achava tudo o que eu fazia suspeito? Mamãe, em contrapartida, ficou visivelmente aliviada; ela até me ofereceu uma carona para a escola, que eu neguei vocalmente. No Austin Metro? Nunca mais! O papai riu da minha reação.

— Garotos querem ser vistos em máquinas, Kate, não em carrinhos de brinquedo. — O rosto da mamãe ficou tão vermelho quanto o Metro; não aguentei e também comecei a rir dela. — E eu não disse que tudo estava bem? É normal nessa idade.

Essa última parte foi dita com mais seriedade, tanto que, momentaneamente, franzi o cenho. Mas mamãe deve ter percebido, porque, com o talento de uma musa shakespeariana, ela virou o rosto e começou a fingir lamentos. O vovô olhou para tudo com escárnio, mas papai e eu caímos na gargalhada.

Foi um bom café da manhã, e, mais que bom, foi uma preparação para o que viria. Durante todo o percurso para a escola, fiquei pensando no garoto Beauclerk; tentei refinar ainda mais os meus pensamentos. Porém, eu estava tão certo de que estava… bem, certo, que esqueci de um pequeno detalhe, e o esqueci de tal forma que só lembrei quando entrei no hall e dei de cara com o Willie…

— Você escuta isso, Gavin? É todo mundo falando do “garoto misterioso”! — Perto dos armários, na escadaria, andando por aí ou então parado; em todos os cantos onde eu olhava parecia haver alguém cochichando. — Você me deve uma.

Não preciso nem dizer que foi inútil lembrar que nada foi apostado, e nem que toda essa irritação do Willie já estava começando a me irritar. Ele só estava agindo assim por inveja, nada além disso! De qualquer forma, não foi até a aula de história, com o Sr. Craven, pouco antes do intervalo, que consegui compartilhar com os meus amigos o que eu havia descoberto.

O Willie já estava mais “calmo”, ou seja, ele só escutou em silêncio, enquanto conversávamos. O que foi bom, afinal, como o próprio Sr. Craven sempre dizia, ele não era a Igreja Católica para vender indulgências para alunos que causavam ba-l-búr-dia, e se havia algo que Willie gostava de fazer, era causar ba-l-búr-dia.

— E então? — questionei, assim que acabei de relatar a conversa que tive com os meus pais. — Não vão dizer nada?

Até hoje não consigo afirmar com toda a certeza se eles estavam perplexos ou simplesmente descrentes. O Willie me encarava com uma sobrancelha arqueada, enquanto o Josh parecia pensativo e o Harry… Bem…

— Eu não disse que ele só podia ser um fantasma! — O Sr. Craven olhou rispidamente em nossa direção, fazendo o Harry abaixar a cabeça e sussurrar: — Faz todo o sentido agora. Quase ninguém o viu e, quem viu, afirmou que…

— Você andou tomando drogas, cara!? — Toda a sala voltou-se horrorizada na direção do Willie.

— Sr. Nugent, gostaria de presentear sua família com uma visita à escola antes das férias? — O Willie ficou imediatamente ereto na cadeira e negou para o Sr. Craven, cujo olhar se voltou a mim. — O mesmo vale para você, Blandford, e para o Sr. Godwin também.

Poucos professores naquela escola colocavam tanto medo nos alunos quanto o Sr. Craven; ele era uma espécie de Richard III para nós, ou então uma Mary, a Sanguinária. Lembro perfeitamente do medo que eu sentia toda vez que ele olhava feio para mim; eu sentia um frio real subindo pela espinha. E o pior era que o Sr. Craven não gostava mesmo do Willie e de mim.

— O que você deseja que falemos, Gavin? — questionou o Josh, imediatamente após o professor virar o rosto. — Esse garoto… Beauclerk, não pode ser uma ilusão. É impossível todos terem imaginado a mesma coisa ao mesmo tempo.

— Embora hajam casos… — Sinalizei para o Harry se calar.

— Ilusão? Imaginado? Acho que vocês ouviram a parte errada. — Eles, incluindo o Willie, franziram o cenho, então expliquei: — Nunca vimos o garoto Beauclerk porque ele não estuda, e dificilmente estudará, aqui.

Um verdadeiro gênio, não? E pensar que levei um dia inteiro para chegar a uma conclusão tão óbvia. Mas sabe qual é o pior? Ninguém parece ter percebido o mesmo, vide a perplexidade que tomou de conta dos meus amigos.

— Faz um certo sentido, afinal ele é um Beauclerk. — O Josh coçou a cabeça e deu os ombros. — Talvez ele estude em algum internato ou escola particular.

— É o mais lógico — bufou o Harry, decepcionado.

Sim, era totalmente lógico! Eu mal conseguia conter o meu sorriso. Já conseguia até ver todo o burburinho caindo no esquecimento, quando, então, a nossa curiosidade poderia ser sanada sem maiores consequências. Porém, ainda faltava uma pessoa… O meu sorriso voltou-se ao Willie, que me encarava com uma mão no queixo.

— Ainda não estou convencido. — Havia somente seriedade no rosto dele, embora o tom fosse desafiador. — Continuo achando que esse Beauclerk é alguma frutinha contaminada. Que prova há do contrário?

— Você está certo, Willie, não tenho prova alguma. — Meu sorriso não falhou, o que trouxe tanto a atenção de Josh e Harry, como a desconfiança de Willie. — Mas conheço alguém que tem.

O Willie arqueou uma sobrancelha, enquanto o Harry e o Josh se entreolharam, curiosos. Eu tinha comigo o grande trunfo que iria calar o Willie, assim como todos os outros; eu estava convicto disso.

Quando, então, deu o horário do intervalo, liderei os três até o refeitório. E foi naquele momento que o Willie percebeu a quem estávamos indo buscar informações; ele arregalou os olhos, me parou e tentou de todas as formas possíveis impedir que fosse assim, e, quando não deu certo, até tentou fugir. Mas eu o agarrei e o empurrei pelo refeitório.

Não que eu fosse um adolescente desinibido, claro, porque, apesar de eu e o meu grupinho sempre chamarmos alguma atenção, o que sempre atribui, talvez erroneamente, a sem-vergonhice do Willie, eu odiava ficar em evidência. Sempre me considerei tão mediano, comum, por que chamar atenção? Mas, naquele momento em específico, isso foi esquecido. Harry, Josh e eu ríamos sem vergonha alguma das reclamações que o Willie praticamente gritava enquanto nós o empurrávamos. Os outros alunos no refeitório olharam para nós; alguns também riram, outros nos julgaram. Isso, porém, até que chegamos…

— Ora, mas o que temos aqui? Um esquisitóide, um semi-esquisitóide, uma cenourinha fresca e um babaca convencido. — Lauren Kelly, a autoproclamada maior da escola; maior fofoqueira, maior namoradeira, maior coquete. — O que desejam, queridos?

O olhar dela caiu imediatamente no Willie, para quem ela deu uma piscadela. Lauren sempre pareceu gostar particularmente dele. Talvez fosse aquele ditado em ações: dois errados que não formam um inteiro. De qualquer forma, eu sinalizei para o Willie falar, porém ele me empurrou… e sobrou para mim mesmo.

— Sua mesa está mais agitada que o normal, hein? — Eu ri, sem graça nenhuma, deixando-a imediatamente irritada. A mesa dela estava lotada de garotas, mas não eram amigas…

— Chegaram atrasados então, bando de fofoqueiros! — E, antes mesmo que eu pudesse falar, a Lauren avisou: — Não houve nenhuma matrícula nova… ainda.

Foi o suficiente. Quando me virei para trás, Josh e Harry pareciam mais convencidos ainda da razão, embora a “razão” do Harry fosse questionável, mas não o Willie. Ele estava com os braços cruzados e me encarava com escárnio. Mas eu sabia que estava correto; não havia prova nenhuma de que havia algo de errado no garoto Beauclerk.

— Então por que nunca o vimos?

Meu sorriso tremeu, porém eu simplesmente dei os ombros. Na verdade, eu não queria aceitar, não em voz alta, mas também desejava uma resposta para essa pergunta.