Nós, da Princess Louise Secondary School, não éramos o grupo mais unido que existia, porém a grande maioria de nós morava no mesmo local de Horfield. Então, para o bem ou para o mal, éramos uma comunidade e, como consequência, tudo o que acontecia naquela região do bairro acabava repercutindo na escola. E com os novos moradores da antiga casa dos Herbert não foi diferente. No dia seguinte, bastou eu pisar na escola para perceber que todos comentavam sobre eles e, especialmente, sobre o “garoto misterioso”.

Aparentemente, eu não havia sido o único a vê-lo, e nem o único a ficar cheio de perguntas sobre ele. Na verdade, todos os meus amigos pareciam ter alguma opinião sobre o garoto, ele existindo ou não.

— Tenho quase total certeza que é um anjo. — Embora fosse um consenso geral ignorar a opinião do Harry. — Senão um anjo, com certeza é um vampiro.

— Essas coisas não existem, cara.

— Você não viu a pele dele, Gavin!? — Parecia a coisa mais séria do mundo para o Harry. Mas eu simplesmente dei os ombros. — Como então você explicaria toda aquela brancura?

— É o único ponto que todos os relatos têm em comum — acrescentou hesitante o Josh, coçando o cabelo, que naquela época ainda era no estilo hi-top fade. — Mas isso não significa que ele seja um vampiro, Harry!

Minha vontade, francamente, era esquecer daquilo tudo. Mas quando Harry e Josh começaram a “discutir” sobre a veracidade do sobrenatural, tive certeza que não seria tão fácil assim fugir daquele assunto. Virei então para o Willie, encostado nos armário numa tentativa de parecer descolado.

— Deve haver uma explicação; ele talvez só não saia muito de casa.

— Aposto que é um doentinho. — O Willie ainda bateu no armário, calando Harry e Josh, e acrescentou: — Se não for louco, com certeza tem a doença das frutinhas.

Harry e Josh não ousaram contradizê-lo, eles nunca o faziam, pelo menos, não diretamente. Mas eu não gostei nenhum pouco do modo como o Willie falou; pareceu tão insensível, irônico e…

— Nós não sabemos de nada, Willie. — Normalmente... Sempre, na verdade, cabia a mim desafiá-lo. Eu o encarei fixamente e deu os ombros. — O garoto pareceu normal para mim.

— Então por que ele não está aqui agora? — Um presunçoso sorriso surgiu nos lábios dele; eu não tinha resposta. — Estou certo ou muito certo?

Faltava menos de uma semana para o início das férias, ninguém começaria a estudar nesse meio tempo. Mas isso passou pela minha ansiosa cabeça oca? Não, e, olhando em retrospecto, não deve ter passado pela cabeça de ninguém naquela escola. O Willie cruzou os braços e começou a rir na minha cara.

— Ninguém pode dizer com certeza que realmente o viu! — Eu sentia as minhas bochechas queimando de irritação. — Amanhã tudo isso já terá sido esquecido; sequer vamos lembrar dos vizinhos estranhos!

Sim, a agitação passaria e todos voltaríamos para a normalidade, ou, pelo menos, era isso que eu desejava. O Josh, naturalmente, concordou comigo, e o Willie também, mesmo que levemente cético e com uma afiada ponta de desdém. Quando, porém, chegou a vez do Harry, ele estava perigosamente pensativo. Eu já comecei a recuar.

— Um fantasma! — Todos gememos em desprezar. — Sim, agora tudo faz sentido!

Não esperamos pela muito lógica explicação dele. E, como se fosse até um sinal do céu, o sinal bateu logo em seguida e o Harry começou a correr atrás de nós.

O assunto do “garoto fantasma” morreu entre nós naquele momento; nem mesmo o Harry tentou ressuscitá-lo, até porque ele estava mais concentrado compartilhando comigo uma teoria que criou após assistir “O Retorno do Jedi” na noite anterior. Eu não acreditei muito, confesso; o imperador? Vivo? Mas, olhando em retrospecto… Era melhor se eu estivesse correto mesmo.

Porém, apesar do assunto ter morrido para o nosso grupinho, não morreu para o rosto da escola. A Sra. Armstrong-Barron, nossa professora de matemática, apesar de continuar nos ensinando, não fazia mais nenhuma questão de tentar nos conter. A conversa então rolava livremente pela sala, e o principal assunto era ele. Eu não entendia isso, francamente, eu não conseguia entender. Ao mesmo tempo que… Eu também queria tanto vê-lo…

De qualquer forma, porém, eu sabia que toda essa comoção não tardaria para acabar, então poderíamos pensar direito e o mistério do garoto novo deixaria de ser uma mistério. Eu estava convicto disso… Mas o mundo não concordava comigo. As horas passaram, o intervalo começou e acabou, o almoço correu e mais aulas se seguiram, porém o “garoto misterioso” continuava sendo comentado. E, na verdade, tudo parecia piorar.

— Tenho a leve sensação de que você acabará errado, Gavin — comentou o Josh, assim que entramos no vestiário para o treino de rugby.

Nem mesmo os jogadores do time da escola foram salvos da fofoca. As palavras “Herbert”, “garoto” e “estranho” ecoavam por todo o vestiário. Alguns dos caras falavam livremente, enquanto outros somente escutavam e ainda haviam os que faziam piadas. Lembro de sentir naquele momento um sentimento situado entre ansiedade e irritação. Mas, aparentemente, eu não era o único…

— Já estou farto disso. É só uma frutinha contaminada! — Todo o vestiário olhou para o Willie, e, consequentemente, também para Josh e eu. — Vocês querem provar dele ou o que, hein!?

O silêncio dominou por um breve momento o vestiário; eu cheguei até a pensar que iríamos levar um surra. Porém os caras apenas vaiaram o Willie e mandaram ele ir se ferrar; alguns jogaram as camisas nele, mas disso não passou. Logo depois, o “garoto misterioso” voltou a ser comentado. Eu olhei para o Josh e repeti:

— Logo tudo isso vai ser substituído pelas férias de verão, tenho certeza. — Não tardaria para todos lembrarem de suas viagens, acampamentos ou planos com os amigos. — E, falando nisso, ainda nem começamos a planejar o nosso verão.

Todas as vezes que eu havia mencionado isso anteriormente, o Willie dizia que teríamos tempo mais tarde. Mas o tempo das férias já havia chegado, se não fosse naquele momento, quando seria? Porém, eu franzi o cenho quando percebi a hesitação nos olhos de Willie e Josh. Até pensei em perguntar, mas o capitão do time avisou para todos se apressarem e simplesmente esqueci.

No restante daquela tarde, porém, invariavelmente me peguei pensando no “garoto misterioso”. Eu mesmo acreditava que o assunto logo seria esquecido, claro, mas isso não negava que eu também estava curioso… Muito curioso.


*****


Naquela noite, durante o jantar, eu não conseguia pensar em outra coisa que não fosse os novos vizinhos, para não dizer o filho deles. Na escola, eu neguei o máximo possível e, até certo ponto, consegui manter a minha curiosidade sob controle, mas em casa não fui tão bem-sucedido assim. Eram os meus vizinhos da frente, afinal de contas! Bastava eu olhar pela janela da sala para vê-los! E isso, ou talvez a ignorância, porque eu sempre odiei estar na ignorância, me deixava pensativo demais; num odiável silêncio.

E, para completar, estávamos todos particularmente calados durante aquela refeição. Tanto a mamãe quanto o papai pareciam cansados; aparentemente, o início das férias de verão afeta até mesmo o trabalho de uma supervisora de vendas e de um consultor financeiro. O único som que prevalecia era o da televisão, e ocasionalmente também o do vovô reclamando da novela.

— E como foi o treino de rugby? — Aparentemente, porém, eu não era o único incomodado com o silêncio. Olhei para o papai e dei os ombros.

— Foi o mesmo de sempre. — Não pareceu o suficiente para ele, então ainda acrescentei, forçando um sorrisinho: — O treinador Philips disse que em setembro finalmente pegaria pesado com a gente.

— Será que há alguma chance de você virar titular? — Se o requisito fosse o treino de mais cedo, jamais. — Imagina só a sua placa bem ao lado da minha no corredor da vitória: Owen Blandford; Gavin Blandford. Não seria o máximo?

Eu sorri com essa ideia, realmente animado com isso, mesmo que fosse impossível. O amor pelo rugby era somente uma das muitas coisas que papai e eu tínhamos em comum, e ainda temos, na verdade. Lembro como se fosse ontem da primeira vez que ele me levou para assistir um amistoso do Bristol RFC no Memorial Ground. E estávamos lá na primeira partida do Bristol Rugby na Liga Nacional; acho que só papai me levou porque percebeu que eu continuava sem muitos amigos após a partida do… Kirk…

Foi o papai também quem me incentivou a entrar no time de rugby da escola, mesmo que na posição de reserva. Naquela época, ele disse que logo logo eu viraria titular, mas nem mesmo eu sabia que era tão mediano assim nos esportes. E, infelizmente, lembrar disso só me deixou mais pensativo. Perfeito! Além de curioso com os novos vizinhos, eu também estava preocupado com a ideia de decepcionar o meu pai.

— Há algo lhe incomodando, Gavin?

Quase pulei da cadeira ao escutar a mamãe; eu nunca fui realmente bom em esconder coisas, principalmente sentimentos. Havia uma leve preocupação nos olhos dela; eu também não era de ficar calado e pensativo. Até pensei em negar ou simplesmente desconversar, porém, quando o papai se juntou a ela em olhar para mim, não tive outra opção senão falar:

— V-vocês já viram os novos vizinhos?

— Os Beauclerk? — Eu franzi o cenho, mais pelo sobrenome que pela naturalidade na voz de mamãe. — Encontramos com eles mais cedo, aparentemente, estavam atrás de um bom mercado.

— Queriam verduras frescas e sem “agrotóxicos” — acrescentou o papai, zombeteiro. — Mas qual o problema das verduras normais? Nunca vi alguém morrendo por causa de uma alface mais barata.

Na opinião do meu pai, contanto que não fosse veneno, qualquer coisa era comestível. E foi assim que ele me obrigou a comer grilos na última vez que fomos acampar.

— Achei o Beauclerk arrogante. — Sendo assim, ou o Sr. Beauclerk apertou demais a mão de papai ou apertou de menos.

— Pois achei os dois muito gentis, e o Sr. Beauclerk, confesso, muito bonito. — O papai revirou os olhos, enquanto a mamãe sorriu calmamente para mim. — Parecem pessoas decentes.

— Parecem dois hippies. — Imediatamente, porém, o papai arregalou os olhos e escutei um grunhido vindo da sala. — Oh, Deus, não!

Se havia uma coisa que o meu avô gostava, além das roseiras da frente e de falar da guerra, era de reclamar. Não me entenda mal, por favor, eu amava ele, mas o vovô, como qualquer outro idoso, estava sempre arrumando motivos para reclamar. Na maioria das vezes, as reclamações eram direcionadas a algo na televisão ou ao papai, embora às vezes ele também falasse do externo, o que foi o caso:

— E aviso logo que se começarem a ouvir aquelas músicas depravadas vou chamar a polícia! — O vovô sequer saiu da sala, mas talvez toda rua o tenha escutado. — Escute o que eu digo, Owen, pois você sabe muito bem que sou capaz disso!

— Eu nunca fui hippie, papai! E eu gostava de Queen, não Rolling Stones!

— Outra praga traidora…!

— Acho que já deu a hora do seu remédio, Jasper! — Se não fosse a mamãe, dificilmente sairíamos disso. — Lembre-se do que o médico disse sobre se irritar!

Ouvimos mais alguns resmungos, porém logo o silêncio retornou a casa. Confesso, então, que preferia os gritos, com eles, pelo menos, eu não escutava os meus pensamentos. Mas hora ou outra eu teria de perguntar, não? Infelizmente, eu sabia que não seria nenhum pouco viável ficar na dúvida. Mamãe e papai tinham visto o Sr. e a Sra. Beauclerk, então, logicamente…

— E quanto ao filho deles? — perguntei, assim que mamãe começou a retirar a mesa. — Vocês o viram, não viram?

— Não sabíamos nem que os Beauclerk tinham um filho. — Mamãe pegou o meu prato e, dando os ombros, seguiu para a pia. — Será que ele vai estudar na mesma escola que você?

— Dúvido muito que vão juntar o mestre Beauclerk com a ralé — zombou o papai, piscando para mim.

Mas eu não ri, muito pelo contrário, fiquei mais pensativo ainda. Se mamãe e papai não viram o garoto… Isso não confirmava que ele era somente fruto da nossa imaginação…? Não, talvez eu só tenha dado ouvidos demais ao Harry… Só podia ser isso, não?

Acabou que naquela noite eu fui dormir pensando justamente no final daquela conversa. Haviam tantas coisas na minha cabeça; nunca me considerei uma pessoa neurótica, mas naquele momento eu temi fortemente que fosse. No final, o meu desejo era simplesmente compartilhar os meus pensamentos, ter algum esclarecimento. Mas com quem?

Me virei na direção da parede do vizinho e adormeci lembrando daqueles tão longínquos dias em que eu nem precisaria buscar uma resposta, mas só bater.