Namoro por Aluguel
9 O jantar que me deixou de saco cheio
Notas iniciais
– Docinho, você está adorável nessa calça. – Miguel elogiou falsamente.
Olhei para a calça branca de couro, que combinava perfeitamente com a blusa azul e os sapatos pretos.
– Obrigada — Sorri, falsamente também.
Estávamos em um restaurante de alto nível da cidade, toda a família de Miguel estava presente: avós, tios, primos, namorados de primos, todos riquinhos mimados que me davam nos nervos.
– Acredita nisso? Ela me deu um Iphone 6, sendo que eu queria o 6 Plus, depois reclamou que terminei com ela. – Diz um dos primos, Enzo. Um rapaz de pele morena e cabelos com luzes loiras, “bombado”, deve viver na academia.
– Aquela garota não prestava, ninguém de classe social abaixo ama, só querem nosso dinheiro. – Disse a mãe de Enzo, a tia Alice. Mulher que , segundo Miguel, sempre usa casacos de pele combinados com o loiro tingido de seus cabelos.
Contive a vontade de dizer que os mais pobres prestam muito mais do que ela.
– Já aconteceu algo assim com você, Ana? – Indagou ela, remexendo na aliança de casada. Seu marido morrera dois anos atrás, porém ela ainda usava a aliança.
– Não, nunca tive um namorado sério antes de Miguel. – Falei. – E creio que nunca terei um depois.
Um coro de suspiros tomou conta da mesa, deixando-me enjoada. Um garçom trouxe os petiscos pedidos, depois anotou os pratos principais que cada um iria comer.
A mãe de Miguel estava sentada na ponta da mesa, mexia as mãos freneticamente, como se estivesse incomodada com algo. Diane , a irmã grávida, também faz o gesto da mãe.
Elias mexia no celular.
– Pai — Chamou Miguel. — O senhor parece nervoso.
Ele larga o celular, mas nega que esteja nervoso.
– Então, Ana, como conheceu Miguel? – Indagou Valentina, uma das primas. Ela me parece ser a menos fútil de todos ali.
– Estávamos no elevador... – Começo a contar os detalhes da mesma mentira. Ela continuava a prestar a atenção, mexendo nos cabelos curtos e castanhos.
– Só posso dizer uma coisa, meu neto teve uma sorte imensa em encontrar uma moça como você – Disse a avó materna, Zaila. A senhora devia ter uns setenta anos, mas era bem conservada, não fosse sua postura e sua voz poderia facilmente se passar por alguém de sessenta. Os cabelos, tingidos de preto, eram bem curtos.
– Eu é que tive a sorte de encontra-lo – Menti, sentia-me mal, a mulher falou com tanta doçura, tanta alegria.
Um outro assunto tomou conta da mesa, mas ainda senti o olhar de um dos primos de Miguel pesar em mim. Lembrei-me do que ele me dissera antes do jantar: Tome cuidado com o primo Pierre, ele sempre quis tudo que era meu, vai fazer de tudo para achar um erro entre eu e você, uma mentira. E, caia entre nós, mentira é algo presente entre nós dois.
Tentei não parecer nervosa, se ele descobrisse que não éramos namorados...
– Ana? – Indagou Miguel. – Podemos ir até o carro por um instante?
– Largue a menina um pouco, desse jeito ela vai enjoar de você. – Disse uma tia, Verônica, se não me engano. – Assim como enjoei do meu marido.
O marido lançou uma cara de riso para ela, depois disse que ela só não enjoava de si mesma e do dinheiro.
Levantei-me, afastando a elegante cadeira de madeira com encosto vermelho da mesa. Miguel entrelaçou suas mãos nas minhas e fomos andando até o lado de fora do restaurante, pisando suavemente no piso de madeira escura.
O vento gelado balançava meus cabelos do lado de fora.
– Te salvei de boas perguntas ao trazer-te até aqui, do lado de fora. – Disse ele, soltando as mãos das minhas.
– É. – Disse, contendo a vontade de dizer “Graças a Deus”, afinal, apesar de tudo aquela era a família dele.
– Só vim dizer que está se saindo bem, mas as perguntas ainda não pararam. Daqui um tempo minha mãe e minha tia Verônica vão começar a “sessão de tortura”, me entende?
– Como assim?
– Minha mãe é boa pessoa, mas sempre que está com a tia Verônica ela muda bastante, vira uma verdadeira bruxa.
– Animador – Ironizei – Mas acho que dou conta.
– Você não dará conta, acredite, então só peço para que aprenda a mentir muito bem.
– Tá.
– Agora vamos voltar, fingindo que estávamos namorando.
Ele me conduziu para o lado de dentro.
* * *
– Você deveria engordar, pequena garota. – Disse Verônica, balançando seus cabelos castanhos na altura dos ombros – Homem gosta de mulher com curvas, com carne para apertar.
– Amor, tenha classe.- Disse o marido dela, cujo não me recordo o nome.
– Moça, você deveria ganhar peso, homem não gosta de osso. – Ela disse, tentando melhorar o que havia dito.
– Eu desisto – Disse ele.
– Eu gosto do meu peso, senhora – Disse – Um dia irei engordar, é inevitável.
– Então ganhe peso agora.
– Gosto das minhas roupas, não quero perde-las.
Miguel me beliscou de leve, era o gesto que dizia “você disse algo errado, conserte agora”.
– Ah, doce menina, você tem condições de comprar quantas roupas quiser, não é?
– Claro.
Graças a Deus o garçom chegou com a comida, livrando-me do assunto. Lembrei-me das aulas de etiqueta que eu assistira via internet: Não colocar os cotovelos na mesa, não cortar a alface (somente dobrá-la) , esperar para comer,mastigando com calma e classe, colocar o guardanapo no colo e tantas outras coisas.
Apesar de saber de tudo isso, foi difícil não cair de cara no pequeno pedaço de lasanha que meu prato continha.
* * *
– O que você acha do aumento do preço do Dólar? – Indagou a mãe de Miguel.
Esforcei-me para dizer a coisa certa.
– E quanto às promoções que fazem a classe C lotar os shoppings? – Verônica perguntou
–Acho que todos deve ter acesso, isso é bom para os comerciantes. – Falei.
– Eles estão lotando as nossas lojas, acha isso justo?
– Eles não comprar em lojas de luxo.
– Como sabe disso?
– Gosto de pesquisar.
– Deveria cuidar mais de si mesma e deixar de fazer essas pesquisar inúteis.
Senti o sangue subir até a cabeça, sabia que eu estava vermelha.
– Vou ao Toalete, com licença . – Falei, sorrindo.
Saí andando calmamente. Abri a porta do amplo banheiro, encaminhando-me para o espelho.
– Droga de jantar – Murmurei.
Ajeitei os cabelos, prendendo-os em um coque bem arrumado. O que eu estava fazendo nesse lugar? Poderia estar em casa, provavelmente vendo um filme com meus pais, mas estou aqui, nesse inferno de jantar,acompanhada de madames idiotas e homens que só falam de negócios. Mentindo para minha mãe, para a avó de Miguel (que, além de Valentina e da mãe de Miguel, é a única que parece ter juízo) e , acima de tudo, mentindo para mim mesma. Eu não sou essa garota que responde perguntas sobre a classe C no shopping, Não sou essa fútil.
Peguei meu celular, que estava no bolso e verifiquei as mensagens. Uma delas era uma foto de Lucas comendo pipoca, com a legenda “ Seu irmão está comendo toda a pipoca.” Em outras mensagens, minhas mãe perguntava sobre como eu estava , se Melissa estava bem, se eu precisava voltar para casa.
Doía mentir, eu só queria sair correndo e largar aquele jantar. Queria chegar em casa,colocar meu pijama e assistir à um filme comendo pipoca feito uma porca, queria ser eu mesma.
Guardei o celular no bolso e esforcei-me para voltar até a mesa, apesar de tudo o que eu sentia, era minha faculdade que estava em jogo.
Passei a noite respondendo perguntas , fingindo-me de apaixonada e bancando a inteligente.
Não pude deixar de sentir saudades da noite passada, de quando fui eu mesma com Tobias.
* * *
– Você realmente se saiu bem. – Miguel elogiou. – Mas ainda acho que seria melhor se fosse para minha casa.
– Não, eu tenho que voltar para casa. Passe a noite fora e fale que passou a noite no meu apartamento.
– Pode ser. Vou ligar para meus contatos.Cora parou de te ligar?
– Parou.
– Ótimo, pelo menos dessa vez não demoraram a cancelar o plano do celular. Mas, mudando de assunto, como você está?
– Como eu estou?
– É, foi uma noite difícil.
– Estou bem, acho que fui uma ótima atriz.
– Eu sei. Pelo menos não precisamos nos beijar, se fosse pelo tio David eu não teria desgrudado de você.
Abri a porta do carro, encostando a sapatilha no chão. Já havia trocado de roupa, estava usando uma roupa normal, uma coisa minha.
– Tchau – Eu disse.
– Tchau. – Ele respondeu. – Ah, o que aconteceu ontem entre você e Tobias? Seguiu meus conselhos?
– Por que quer saber?
– Só quero deixar claro que vocês devem ser discretos, se minha família ou amigos de meu pai te virem com um rapaz tudo irá por agua abaixo.
– Tá.
– Tente não de apaixonar, não quero ter que fingir namorar uma apaixonada.
Não respondi, apenas desci do carro e caminhei até minha casa.
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