Namoro por Aluguel
10 Fofocas de corredor
Notas iniciais
Uma dor de cabeça terrível me assolava, e como se fosse o destino, a palestrante convidada para explicar sobre arquitetura na idade média tinha uma voz fina e irritante.
Uma mensagem de texto chegou.
“Oi”
Rapidamente, vi quem era o contato. Não o tinha salvo.
“Quem é você?”
Alguns segundos depois veio a resposta.
“Uma pessoa que quer saber da peguetes do Miguel. Quem é você?”
“Meu nome é Noé... Noé da sua conta” Digitei rapidamente, guardando o celular na bolsa.
Quando a palestra acabou, eu tinha mais de cem mensagens não lidas, todas do número estranho. Ignorando-as, joguei o aparelho na bolsa novamente e ajeitei os cabelos em um rabo de cavalo.
Miguel faltara à aula hoje, como é de costume.
– Oi. – Falou Tobias, adentrando na sala. – Eu achei remédio de dor de cabeça na minha bolsa.
Estendeu uma cartela cheia de pílulas brancas, peguei-a e já coloquei um comprimido na boca, engolindo sem água.
– Obrigada.
– De nada. Só passei para dizer que sexta foi incrível, poderíamos sair novamente.
– Claro, qualquer dia desses.
Ele se sentou na cadeira à minha frente.
– Creio que eu tenha estragado todo o clima quando mencionei Miguel e minha irmã, então só quero pedir desculpas.
– Talvez tenha estragado um pouquinho. – Admiti, rindo- Mas quem nunca disse algo errado em um encontro?
– Então admite que foi um encontro?
Não disse nada, apenas coloquei minha bolsa no ombro.
– Tenho que trabalhar agora, mas você poderia passar lá no café depois, sabe, deixar uma boa e generosa gorjeta para certa garçonete...
– Vale gorjeta de beijo? – Indagou, fazendo aquela cara de safado que quase todo garoto sabe fazer.
– Esse tipo de gorjeta significaria uma demissão para mim,então não.
– Foi uma brincadeira, mas vale se eu te der um centavo?
– Claro, assim posso juntar dez e comprar uma goma de mascar. – Falei, irônica.
– Goma de mascar? Que tipo de pessoa fala goma de mascar? É Chiclete!
– Chiclete é a marca. – Rebati. – Gosto de falar de forma culta.
– Nossa, foi mal, PhD em português.
Rimos.
– Sério, preciso ir.
Ele se levantou e deu um beijo em minha bochecha, tentei não corar.
– Até mais. – Disse ele.
* * *
– Alerta vermelho! – Melissa disse. – As fofoqueiras da faculdade já estão sabendo de você e Tobias.
– Mas nós só estamos... Ficando, eu acho.
– Querida, elas são sensacionalistas, você sabe disso.
– Danem-se elas, quero mais é que fofoquem mesmo. – Falei, imitando a voz de uma senhora idosa.
– Ana, você é um amorzinho, mas nunca mais fale assim, me dá medo.
– E ainda diz que é minha amiga, francamente. – Falei com desdém.
Um cliente nos lançou uma cara feia, como se dissesse “Pare de brincadeira e vá trabalhar”. O café estava quase vazio, com exceção dos funcionários e do cliente mal-humorado.
Como se tivessem sido invocados, um grupo de jovens entrou no café.
– Posso ajudá-los? – Indaguei, com o bloquinho de notas. Alguns deles ainda se organizavam na mesa.
– Quatro pães de queijo e uma fatia de torta de frango, por favor. – Uma moça de cabelos avermelhados disse — E quatro latas de refrigerante.
Anotei o pedido e fui organizá-lo no balcão. Não pude deixar de ouvir a conversa animada dos jovens.
– Gente, vocês não sabem da novidade. – Disse a moça a quem eu havia atendido. – A ficante do Miguel respondeu a Cora.
– Jura? – Outra voz feminina disse. – O que ela disse? Quero detalhes.
– Perguntou quem era a Cora e falou que seu nome era Noé.
– Muito clichê, se quer saber. – Um rapaz disse. – A piada do Noé só não é pior que a do pavê ou pacumê.
– Ora, Jadson, seu pai vive contando a piada do pavê.
– Por isso que eu detesto-a, quase todo dia é a mesma coisa.
Os jovens explodiram em risadas.
– Gente, dá para focar no caso do Miguel? Acho que a Cora vai arrastar a cara da garota no asfalto.
– Bom, nós avisamos que ele não é cara que quer coisa séria. Ela queria o que, que ele fosse um príncipe da Disney?
– Cora é muito carente, de verdade. Tenho dó dessa garota que está ficando com ele.
– Acho que deve ser mais que ficar, aquele cara não fica com ninguém mais de uma semana.
– Vai ver ele encontrou a garota de ouro.
– Miguel não precisa de ouro. – Disse outra voz masculina. – Ele tem a faculdade inteira.
– Bom, ele não vai ter vinte e tantos anos para sempre.
Tentando parecer indiferente, coloquei os salgados pedidos no micro-ondas. Depois que ficaram prontos, coloquei tudo o que foi pedido em uma bandeja e levei para eles.
Assim que terminei, encaminhei-me para o apertado banheiro dos funcionários.
Peguei o celuar, vendo que tinha mais mensagens não lidas, dessa vez eram trezentas, todas eram coisas como “Oi, pode me responder?” “Mande-me uma foto, um nome” “O que você tem com Miguel?”.
Comecei a me perguntar onde diabos eu tinha me enfiado e o que tinha feito comigo mesma.
Digitei rapidamente uma mensagem para Miguel, ela dizia que Cora era uma desesperada. Ele estava online no WhatsApp, mas não visualizou quando enviei a mesma mensagem.
Em seu status constava a frase “Sou um anjo mal compreendido”, o que era meio irônico, já que ele não era nem uma coisa e nem outra. Voltei para o balcão.
E dei de cara com a minha chefe.
– Ana, estava usando o celular no banheiro? – Indagou Sra. Austen.
– É... – Comecei, mas ela me interrompeu.
– Querida, sabe que sou uma boa pessoa, mas não admito que faça uso disso durante o trabalho, têm clientes esperando por atendimento.
–Desculpe. – Falei. – Não irá se repetir.
– Bom mesmo. – Disse ela, dando de costas. – Agora vá atender aos clientes, por favor, não quero deixa-los aborrecidos.
Abaixando a cabeça, encaminhei-me para atender o pessoal.
* * *
– Entra no carro. – Alguém me disse, agarrando meus ombros.
Comecei a gritar.
– Ana, só entra no carro.
– Droga, Miguel, você tem que aprender a parar de me assustar. Onde se meteu a droga do dia todo? Pelo menos leu a mensagem que eu mandei? – Perguntei.
– Relaxa, eu estava curtindo a vida com alguma garota que conheci na fila do posto de gasolina.
– Viu a droga da mensagem? – Perguntei.
Ele passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os.
– Se eu te dissesse que não, daria um tapa na minha cara?
– Daria um chute tão forte em suas partes baixas que você não seria capaz de ter filhos novamente. – Falei. – Mas eu sei que você nem checou o celular, então tanto faz. O que faz aqui?
– Vim dizer que amanhã, depois do trabalho, você vai ter que dar uma passadinha lá em casa.
– E para isso eu precisava entrar no carro?
– Gosto de ser dramático.
Bufei, encarando a fachada do Mocca café.
– Acontece que não vai rolar, sem querer ofender, mas sua família é um saco, além do mais amanhã é dia de aula, se eu atrasar dez minutos minha mãe já fica doida achando que fui sequestrada.
– Você vai ter que ir, e dessa vez vai ser somente eu, meus pais , minha irmã e o marido dela, prometo.
– Olha, não vai dar.
– Não foi um pedido, foi um comunicado.
– Não posso chegar tarde em casa.
– Então não volte para casa, problema resolvido.
– Claro, minha mãe ficaria bem mais tranquila se eu não voltasse.
– Ana, faça esse sacrifício, por favor... – Disse, fazendo cara de cachorro sem dono.
– Droga, não faça essa cara, fica igualzinho ao meu irmão.
– Você não negaria um pedido para ele...
– Acabou de dizer que foi uma ordem, não um pedido.
– Ana, você precisa ir.
– Vou ver o que consigo fazer.
Ele sorriu.
– Agora corre, vai perder o ônibus se ficar papeando. Sua mãe não te ensinou que não se fala com estranhos?
– Seu humor é de péssima qualidade, sua mãe não te ensinou a contar piadas?
E dei as costas, deixando um Miguel risonho atrás de mim. Sério, ele é muito estranho, essa frase não teve graça.
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