Naive - Hiatus
5 Capítulo quatro
Havia se passado uma semana ao incidente. Uma semana sem felizmente a visita de Jacob, assim eu poderia pensar, colocar a cabeça no lugar, mesmo que isso parecesse impossível com todas as coisas que estavam acontecendo, e com o casamento que a cada dia se aproximava mais.
Os dias passavam-se se arrastando, as noites voando. Adquiri novos hábitos, não tão aprazíveis, mas colocando em questão as opções que tinha era com certeza a melhor. Passei a saquear todas as noites a granja da casa, em uma tentativa que conseguisse suprir às vontades, suprir os gritos que a garganta dava, ardendo como se estivesse em chamas toda a vez que alguém se aproximava.
Estava funcionando de fato, melhorando a angústia e disfarçando a sede. A noite havia se tornado minha melhor companheira, a melhor hora de todo o dia infernal mergulhado em angústia e perguntas sem respostas. Quando o sangue das galinhas descia pela minha garganta o alívio era sem igual, o coração chegava a bater mais calmo, plácido.
Com os novos hábitos vieram as novas capacidades e era impressionante tudo o que eu poderia fazer agora. Conseguia derrubar um cavalo arisco sem o mínimo esforço, conseguia correr mais rápido do que um. Os sentidos haviam melhorado em dobro, a visão, o olfato, a audição, tudo amplificado. A força e a agilidade vieram juntas e parecia que essa força crescia cada vez mais que o sangue me era posto no corpo.
A noite era sem dúvidas minha melhor amiga. Era quando eu podia correr, me alimentar, me sentir livre e por fim deitar a cabeça no travesseiro e deixar o torpor tomar conta de mim, deixando que com o sono viessem os sonhos, aquilo ainda fazia-me sentir infimamente normal.
Apesar dos sonhos que não me foram tirados a realidade ainda estava ali, batendo constantemente em minha porta, arrastando-me e mostrando-me que deveria enfrentá-la, enfrentar a tudo. O sangue de Jacob ainda fazia parte de mim, apenas ao pensar meu corpo frio contra o vidro da janela tornava-se mais quente. Eu conseguia sentir o gosto de seu sangue, em cada culminante detalhe, como se aquele momento pudesse ser revivido agora mesmo. Eu ainda sentia o seu cheiro, eu ainda sentia absolutamente tudo.
Estava sendo forte até agora, forte até um ponto onde jamais pensei ser. Bom, ao lado de Jacob toda essa força se esvaia e eu não poderia suportar. Cada célula de meu corpo avisava-me isto a cada segundo posta ao seu lado e foi exatamente por este motivo que me pus a escrever uma carta ao mesmo solicitando sua presença. O criado encarregado do bilhete já havia retornado, e jurado-me que havia entregado a carta em mãos, deste este momento eu não conseguia desgrudar-me da janela, o coração célere, não dando descanso um só segundo.
O intrigante era o tempo que eu demorei a decidir fazer aquilo, eu não sabia por que, parecia o melhor e mais natural a se fazer. Talvez eu soubesse, talvez eu soubesse desde o dia em que tinha se dado início a toda a esta loucura, eu deveria me afastar dele, eu deveria não voltar a vê-lo mais. O egoísmo parecia falar mais alto e nos primeiros dias a ideia de ver-me longe de Jacob parecia absurda demais para ser posta em prática, mas aqui estava eu, posta como a um soldado esperando-o, esperando-o para dar-lhe o melhor que eu poderia, uma vida normal, longe de um monstro despresível como eu, ele não merecia aquilo, ninguém merecia aquilo.
Lá fora o tempo começava a mudar, o sol hílare era encoberto por nuvens cinzas e uma garoa fina dançava no céu, molhando os cristais da janela, produzindo um barulho que me acalmava.
O ordeiro coração não teve muitos minutos de descanso já que se pos veloz, retumbando contra minhas costelas assim que a carruagem se fez vista percorrendo rápido todo o caminho de pedras rústicas que davam acesso a mansão.
Pus-me de pé em um pulo, percorrendo o caminho que os tapetes persas faziam pelo meu quarto de cima abaixo, tentando ordenar os pensamentos, tentando prescrevê-los em ordem, logo todos os discursos ensaiados minuciosamente frente ao espelho haviam evaporado de minha mente e com um gemido contrariado pus-me em direção as escadas.
Jacob estava de pé, parado na sala de visitações, já havia sido atendido por um lacaio e dispensava seus serviços. Tive que respirar repetidas vezes, lembrar-me dos motivos de estar ali.
Estava perfeito. A camisa branca de algodão egípcio metida nas ajustadas calças negras, as botas altas e polidas postas por cima dela e o casaco bordado azul marinho, posto por cima da camisa, impedindo-me de ser seu largo peito nu, ao menos isso.
Com uma breve reverência Jacob aproximou-se.
- Ao que devo a honra do convite? Posso perguntar?
- Absolutamente. Temos que.. conversar. – Minha voz tremeu, saiu vacilante. Os cenhos de Jacob uniram-se, deixando sua expressão mais rígida.
- Sou todo ouvidos. – A voz rouca pronunciou-se, eu tive que parar de respirar, logo seu cheiro havia se espalhado por toda a habitação e a ardência em minha garganta foi só mais um lembrete do sentido de tudo aquilo.
- Eu estive pensando e não sei se acho este casamento mais tão afável.
Apertou os dentes fortemente, pude ouvir seu leve estalo, o rosto ficou ainda mais rígido, indecifrável.
- Dê-me um motivo para desmerecê-lo então.
Um bom motivo, era tudo o que tinha e não tinha ao mesmo tempo em mãos. O motivo mais plausível era que eu havia me transformado em um tipo de criatura bebedora de sangue hórrida que não conseguia entender, mal conseguia acreditar que poderia ser possível, mas contar isso a ele era mais que impraticável.
- Não nós amamos. Não acho que gostarias de passar o resto da vida ao lado de uma mulher que não ama. – Disse da maneira mais convicta que poderia.
As palavras proferidas por minha boca foi a primeira coisa que passou-me pela cabeça. A expressão de Jacob relaxou e ele riu, uma risada amena que veio do peito, fazendo-o vibrar.
- Em que tipo de realidade vives? Tenho que perguntar. – A voz adquirida carregada de sarcasmo. — Amor? Acredita que de fato algum casamento é movido por amor.
Não era especificamente uma pergunta.
- Acredito, ou pelo menos acredito que este deveria ser o principal fator e será por isto que irei discorrer com meu pai ainda hoje. – Respondi-o impetulante.
Apesar dos milhares de livros sobre amor e contos românticos que pus-me a ler todos esses anos nunca de fato acreditei que o amor fosse a base dos casamentos, ou o principal motivo de um, mas eu estava sem argumentos ali.
- Não, não irá. – Disse respirando fundo, claramente tentando se acalmar.
No segundo seguinte suas mãos apertavam fortemente ao redor de meus antebraços.
- Quase toda a cidade foi convidada e só se fala neste maldito casamento o tempo inteiro. Não serei feito de tolo na frente de todos. – Ele gritou.
Suas mãos sacudiam-me e Jacob parecia um animal. Pisquei os olhos fortemente, tentando reconhecer se aquilo de fato estava transcorrendo. Minhas forças sobrehumanas pareciam ter sido aniquiladas agora.
Eu me sentia frágil, quebrável e a mercê embaixo do aperto forte de Jacob, que logo já estava produzindo dor. Simplesmente não conseguia fazer-me reagir sobre aquilo, eu sabia que se quisesse o derrubaria sem o mínimo esforço, mas ao invés disso eu cedia diante sua presença e meus grandes olhos castanhos, vultos pelas lágrimas encaravam-o.
Soltou-me no segundo seguinte, a respiração descompassada sendo brandamente audível em meus ouvidos assim como seu coração.
Minhas mãos foram ávidas até o braço, atritando-os, tentando minimizar a dor e a vermelhidão presente ali. Jacob afastou-se, segurando firme nas beiradas da mesa a sua frente. As costas largas subiam e desciam freneticamente enquanto ele tentava normalizar a respiração.
- Se quiseres proferir com seu pai fique confortável para fazê-lo, mas devo lembrá-la que um reles conde nada pode fazer quando o assunto envolve um duque. – Jacob preferiu ainda de costas a mim. Virou-se em um movimento rápido, encarando-me com os olhos negros. — E eu acharia depreciativo demais que o nome da família Cullen passasse a ser atribuído maldosamente, ou que perdesse seu prestígio frente à alta sociedade.
Seus olhos letais e impetuosos analisavam cada ação por mim realizada, cada expressão feita por meu rosto pálido e junto à sua fala o tom implícito da ameaça se fez presente, encoberto pelo tom agora suave de sua voz mas ainda ameaçador o suficiente para não fazer-me duvidar dele.
Eu havia utilizado de um argumento frágil e débil, meu subconsciente sabia o porquê de estar a fazer aquilo. Eu ainda tinha que vê-lo, eu ainda tinha que deitar ao seu lado, eu ainda tinha que sentir o peso de seu corpo contra o meu, sua virilidade, e eu ainda tinha que sentir o doce gosto de seu sangue novamente deslizando em minha língua.
- Esse casamento, querida noiva, irá acontecer de qualquer maneira.
Foi ele a dar o ultimato e sair porta a fora na mesma rapidez que havia entrado.
Assim que saiu me permiti respirar, sentindo seu cheiro embriagante que estava por toda a sala. Uma alegria doentia tomou conta do meu peito fazendo o coração gaudiante acelerar pela missão fracassada.
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