Naive - Hiatus
6 Capítulo cinco
Notas iniciais
O que estiver em itálico neste capítulo é a Renesmee lembrando ok?
Beijinhos.
Os braços tremiam apesar do esforço descomunal em mantê-los parados, sem vida ao lado do corpo. Bella havia alertado-me para não pensar muito sobre o assunto, evitar qualquer inquietação. Completamente inútil, tudo me lembrava da ocasião, tudo me lembrava do erro que estava prestes a cometer e das possíveis consequências por ele acarretadas.
A barra enorme do vestido branco adornado em ouro arrastava-se no chão conforme meus pés moviam-se. O espartilho parecia mais apertado do que nunca antes, parecendo refletir todos os sentimentos sufocados e a angústia guardada.
Preferi seguir o conselho de minha mãe, permitir-me um momento de descanso, nem que este fosse escasso, eu sabia que a realidade logo me arrastaria de volta. Eu só precisava colocar de lado o desespero esdrúxulo que parecia querer tomar conta de mim.
Meu corpo permitiu-se cair sobre a cadeira acolchoada, ela rangeu pelo peso excedente sobre ela. Suspirei, nada daquilo funcionava, nada daquilo tirava o peso do casamento dos meus ombros e onde quer que meus olhos dirigissem o olhar era só mais um aviso, um presságio do que viria a se proceder pelas próximas horas.
Me dei por vencida observado os lacaios açodados andarem de um lado para o outro pelo jardim, nas mãos traziam enormes bandejas e pratos da mais fina prataria que brilhavam refletindo o sol da manhã. O casamento procederia-se aqui, daqui a algumas horas.
Estava grata pelos minutos sozinhas, esses eram os primeiros de todo o dia. A manhã havia sido corrida, com todas as arrumações e banhos aromáticos e maquiagens para estar perfeita para o grande dia. Talvez parar não fosse tão bom assim, talvez parar significasse pensar e isso era o que eu menos necessitava no momento.
Meu corpo aconchegou-se melhor a cadeira, o melhor que o enorme vestido permitia-me fazer.
Lembrar das duas noites passadas só aumentavam o sentimento de me sentir uma tola, fraca.
Eu estava pronta, o mais difícil eu já havia conseguido, preparar-me para aquilo, eu já tinha convicção de que seria o melhor e mais prudente a ser feito. Então com uma pequena mala de mão feita à couro estava posta, dentro algumas roupas e objetos de primeira necessidade.
Esperei todos se retirarem para seus devidos quartos e graças as novas hablidades pude constatar-lo com convicção.
Desci cautelosamente as escadas sem emitir um só ruído, saí de casa o mais rápido que pude, olhar para trás só deixaria as coisas mais difíceis, olhar para trás só me trariam as lembranças à tona, me deixaria fraca, vulnerável, e eu provavelmente não conseguiria ir embora.
Do lado de fora do grande casarão não havia mais do que eu e aquele céu aberto e escuro, nem mesmo as estrelas haviam se atrevido a sair naquela noite. Uma única e solitária lua crescente iluminava parcialmente o caminho de pedras, banhando todo o local com sua luz prata mágica. Os cabelos voavam insanos, em todas as direções e apertei a pequena mala contra meu peito.
Eu estava conseguindo, ao contrário do que pensei cruzei os primeiros passos para fora de casa sem grandes dificuldades. Gaudiante notei o grande portão de madeira a minha frente. Observando-o agora sua onipotencia e magnitude pareciam afrontar-me, dizer-me que simplismente pulá-lo e ir embora não seria tão fácil como de fato pensei. Prefiri ignorá-lo, encaixeando meus pés em uma de suas frestas. Os dedos alcançaram sua parte superior e tudo que eu precisa fazer agora era impulsionar-me e seguir o meu caminho. Meu pai sofreria, minha família sofreria e minha mãe sofreria como ninguém, mas aquilo era preciso, eu estava ficando sem alternativas. Então por que eu não conseguia simplismente impulsionar o corpo e correr madrugada adentro?
Jacob acabaria com minha família, com o prestígio que por ela era carregada, mas pensar em coisas tão triviais agora parecia-me tolice. Eu precisava fazer aquilo.
Meus dedos apertaram a madeira em minha mão, estraçalhando-a. Mais um pouco de força e o grande portão viria abaixo, aos meus pés, fácil como espalhar partículas de dentes de leão no ar. Com o estrago minha mãe pensaria que fui sequestrada e poria metade da cidade em minha busca, mas até aí eu já estaria longe demais.
Não teria como dar errado. Ninguém nunca mais me veria, ninguém nunca mais me encontraria. Então eu estaria livre para me isolar e viver do jeito como um monstro como eu merecia viver.
Meu corpo foi ao chão. Não me importei com a lama que sujava a manta negra a qual havia colocado. Eu nunca conseguiria dar as costas e ir embora, eu jamais teria tal afoiteza.
Nunca os sentimentos estiverem tão embaralhados, tudo parecia amplificado, complicado demais e a sensação de que estava fazendo tudo errado era algo que não se dava para simplesmente ignorar. Eu queria, e como queria, por apenas alguns minutos, algumas horas limpar minha mente e parar de me preocupar com o que quer que fosse.
As batidas na porta trouxeram-me a realidade.
– Sua mãe pediu que trouxesse algo para a senhorita comer. — Disse a voz abafada do outro lado da porta.
– Não necessito de nada. — Respondi.
– Ela insistiu que trouxesse senhorita. Disse-me para não sair daqui até que termine todo o prato.
– Então entre. — Disse desgostosa.
Eu conhecia muito bem Isabella Swan, ela não cederia nunca então eu seria forçada a engolir alguns alimentos não tão mais apetecíveis ao meu paladar, mas nada que me fizesse repugnar tal ato.
Os passos da criada contra o piso de madeira iam retumbando por meus ouvidos, assim como o meu ritmo cardíaco ia aumentando conforme seu cheiro inundava todo o quarto. Ouviu-se o barulho da prataria sendo deixada sobre algum móvel de madeira mas não ouviu-se o som de seus passos novamente, deixando-me sozinha, nem tampouco o seu cheiro se fez menos notável. Fui obrigada a esticar-me da cadeira e encarar seu corpo esguio parado ao lado do prato, ela sorria harmoniosa.
– Obrigada. Tem permissão para retirar-se agora.
– A senhorita não ouviu o que disse a pouco por detrás da porta? Sua mãe ordenou-me que não tirasse meus pés deste quarto até que a senhorita não tenha comido-o todo.
– Eu entendo mas não acho que seja necessário.
– Acho que conheces melhor que ninguém vossa graça e como não gosta de ser contrariada. Além do mais sabe-se que a senhorita não tem se alimentado como deveria ultimamente.
Sorri. Era a única reação que consegui esboçar.
O melhor a ser feito então era comer, empurrar a comida insípida goela abaixo e deixar minha mãe feliz, menos preocupada.
A moça a minha frente pegou o prato e o copo de cima da mobília a andou em minha direção ainda com o sorriso no rosto, alheia ao perigo que estava colocando a si própria permanecendo ali. Inclinou o corpo colocando o prato sobre um móvel ao lado da cadeira onde eu ainda permanecia sentada fielmente e o perfume de flores reles veio junto com o cheiro de seu sangue, embriagando-me. Fazia-se uns bons três dias desde que não havia bebido nem uma gota de sangue. Com o maldito casamento os criados e lacaios não paravam de andejar por toda a casa, a qualquer hora do dia ou da noite, o resultado disso era que a cada dia eu ficava ainda mais pálida e a calidez em minha garganta ficava cada vez mais díficil de ser amornada, ignorada.
Ela parou em minha frente enrolando um dos cachos de cabelo dourado que caiam de seu penteado com o dedo.
Segurei o prato em minhas mãos e quando abri a tampa o odor de pão e ovos cozidos disfarçaram o seu cheiro. A criada sorriu quando me viu colocar um bom pedaço na boca.
– Sabe, seu casamento vai ser um dos mais bonitos já vistos em toda a Devon. A senhorita não tem ideia de como está ficando gracioso tudo lá embaixo.
Sua voz trouxe de volta algo que com sua presença havia ganhado um segundo plano, o casamento.
Toda a angustia pareceu voltar de uma maneira muito mais aterradora, os sentidos ficaram turvos e tudo que conseguia ouvir eram as batidas de seu coração.
Então tudo aconteceu rápido demais, mais rápido do que eu pudesse perceber, mais rápido do que eu pudesse evitar. Logo eu estava colocando o prato sobre a mobília ao lado e em um piscar de olhos estava parada a sua frente.
Seu coração ainda batia calmo, alheia a todo o perigo a qual circundava. As coisas estavam fora de controle, eu não me sentia mais eu mesma, eu não sentia mais nada além da queimação na garganta, além do sentimento de que se eu não sugasse até a última gota de seu sangue tudo aquilo não teria um fim. Era como se essa fosse minha válvula de escape.
Os olhos cor de mel me encararam, meu rosto a poucos centímetros do seu.
– Assustaste-me senhorita! — Exclamou. — Deseja alguma coisa?
A resposta para sua pergunta foi uma ação. Meus dentes afiados cravaram em sua garganta e eu pude experimentar uma vez mais do êxtase absoluto, incomparável.
Ela tentou gritar, o som foi encoberto por uma de minhas mãos, que foram a sua boca sufocando-o. Ela agonizava em meus braços e a sua luta, o chiado inepto que produzia sua garganta só pareciam aumentar a minha sede, deixar aquilo ainda mais estimulante.
Parecia-me um déjà vu, um devaneio funesto, mas quem agonizava e lutava por sua vida em meio aos braços frios não era mais eu, era ela.
O justo era reconhecer que por mais fabuloso fosse aquele gosto não poderia ser comparado ao de Jacob, nada poderia ser comparado. Não havia toda a adrenalina, não havia o sentimento de estar a fazer algo proibido, abominável, algo que eu nunca deveria fazer, não havia todo o palpitar do meu coração frenético, não havia o gosto de seu sangue febril e doce descendo por minha garganta e deixando-a em brasas.
A criada parou de debater-se em meus braços, as batidas do coração diminuíram até perderem totalmente o batimento e o seu corpo tenro acabou por despencar em meus braços. Nem isso impediu-me de sugar até a sua última gota de vida. O sangue que saia agora não era mais tão quente, nem tão deleitoso, mas a minha sede ainda era tanta...
Soltei-a quando não havia mais o que haurir. O corpo sem vida bateu no chão e o barulho de seus ossos contra a madeira fizeram-me despertar do transe.
A minha frente o corpo da mulher jazia, não deveria ter mais de trinta anos e por mais que fosse apenas uma criada poderia ter uma vida feliz. Era formosa e não teria dificuldades em encontrar um marido — se já não tivesse-o encontrado — ter filhos e uma família. Aquilo foi tirado dela por mim e agora tudo o que restava da donzela era um corpo hirto e extremamente pálido devido a falta de sangue.
O mais assustador era que eu sabia que se tivesse outra oportunidade como aquela aquilo voltaria a transcorrer-se e por mais grotesca que fosse a cena eu não conseguia me comover, me arrepender. Eu só tinha que dar um jeito na situação, disso plena consciência eu tinha, não poderiam encontrar um cadáver em meu quarto.
Meu olhar foi astuto até as janelas e observei os lacaios que ainda passavam pelo jardim, eu só precisaria de um segundo.
Peguei o corpo inerte da mulher em meus braços sem dificuldade alguma e quando certifiquei-me que nenhum servente passava pulei a janela. Logo eu não era mais do que um vulto pela manhã dos pastos verdes da casa.
Meus pés corriam sozinhos, na velocidade insólita a qual estava me acostumando. Eu sabia para onde estava indo.
O sol da manhã, forte e imprevisto para Devon fazia minha pele arder um pouco. O corpo que carregava em meus braços foi deixado sobre a terra fresca. Aquele era o lugar onde eu costumava brilhar quando era criança, quando minha mãe e minhas tias traziam eu e minha prima apenas para ver-nos brincar.
Ajoelhei-me ao lado de seu corpo, na grama, e minhas mãos cravaram na terra, cavando-a. Eu não havia trazido comigo qualquer instrumento, teria que torcer para que não sujasse todo o vestido.
Em poucos minutos o buraco já estava cavado e coloquei seu corpo dentro dele sabendo que naquele dia, naquela cova, não estaria apenas sendo enterrado o corpo de uma mulher, mas também o pouco que ainda restava-me de humanidade.
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