Notas iniciais
Obrigada pelos reviews suas lindas!!

— Precisa comer duquesa — Cassie disse expirando enfadada. Aquela era só mais uma de suas muitas tentativas em fazer-me deglutir alguma coisa e seria, como todas as outras, frustrada.

— Não o quero Cassie — Disse encarando a bandeja a minha frente.

Suco de laranja, pão de aveia quente, geleias de cores vivas e romãs gordas, coloridas e redolentes que fariam qualquer pessoa ter o apetite instigado na hora, mas que a mim nada passavam além de areia enjoativa que fazia o estômago contorcer-se em reprimenda. Além do mais, não queria vomitar de novo, não queria nem mesmo arriscar isso, e o cheiro que subia das geleias de frutas causavam-me náuseas.

— Estas assim a dois dias, se não comer como pretendes melhorar? Podes responder-me?

Sugando todo o seu sangue, quis responder, mas não queria descontar minha frustração sanguínea na donzela, que era em si muito abalizada. Precisava de sangue e não de comida.

— Não preciso melhorar pois não estou doente, estou apenas indisposta — Disse simplesmente desejando por fim naquele assunto enfadonho que não iria, de maneira alguma, levar-nos a lugar algum.

Lancei um olhar à cama ao meu lado, vazia, com os lençóis ainda quentes e revirados que exalavam seu cheiro. Havia estado vazia desde a hora em que acordei, desde que os fracos raios do sol haviam incidido e invadido pelas janelas. Sentia falta de seus braços, do calor esquizofrênico que sentia logo de manhã quando enrolava-me neles.

— E Jacob, onde está?

— O duque saiu bem cedo, disse que tinha de resolver algumas coisas mas que estaria de volta antes que a senhora acordasse.

Atrasado, pensei desgostosa.

— Pediu para que insistisse que comesse — Cassie disse com um tom e olhos acusadores.

— Bem, parece-me que irá falhar para com isto. Leve a bandeja Cassie.

— Pode deixar a bandeja Cassie — Disse um profundo tom rouco no momento em que a donzela iria leva-la.

Deixou com que os finos dedos deslizassem da madeira e curvou-se em uma reverência.

— Senhor — Pronunciou fitando o chão, então rapidamente ergue-se e deixou o quarto.

— Terei de ser eu a alimentá-la todos os dias Renesmee? — Jacob perguntou em tom ríspido.

Cruzou os braços na frente do peito e franziu o cenho a espera de alguma resposta.

— Não quero comer Jacob, — suspirei. — sabes bem do que preciso.

Jacob conseguiu controlar suas expressões, estava ficando a cada dia melhor nisto. Seu rosto perfeito não mostrava nada para além de serenidade e brandura, mas por detrás da máscara de suas feições imaculadas pude escutá-lo contrair e apertar fortemente o maxilar e os dentes rangeram em reprimenda e repúdio.

Tinha aceitado bastante coisa até ali e parecia incrível que conseguíssemos acertar-nos tão harmoniosamente ao longo das semanas, mas pedir que aclamasse minhas preferências nutricionais vampirescas era demais e sabia bem disto.

— Está tudo muito bom Nessie, garanto-te, a senhora Thompson cozinha maravilhosamente bem.

Seu tom ameno e pedinte fez-me sorrir, não condizia ao senhor altivo e orgulhoso que erguia-se em minha frente.

— E não o duvido que esteja — afirmei. — Sinto o cheiro, mas a comida em nada afeta-me, muito ao contrário, sinto náuseas só ao vê-la. Se pudesse beber algum sangue, então teria certeza de que ficaria melhor.

A última parte fora sussurrada, tenuemente com a voz fraca enquanto sentia a garganta arder em chamas. Jacob dirigiu-me grandes olhos negros angustiados que brilhavam à luz dourada do sol, deixando-o ainda mais garboso do que habitualmente era.

— Mas bebeu sangue a três dias atrás.

— Sangue animal. Estou com sede — Admiti.

— Façamos um acordo, que tal?

O sorriso havia voltado a seus lábios quando aproximou-se da cama.

— Comes alguma coisa e prometo-te que passo o restante do dia contigo, o que me diz?

A ideia animou-me ferozmente. De pronto agarrei o copo de suco de laranja, bebericando os primeiros goles. Ao menos o estômago não havia se revoltado.

— E não a noite? — Disse com um sorriso descomedido enquanto esticava-me para depositar a bandeja na cabeceira ao lado da cama.

Jacob franziu o cenho, apertou mais os braços em frente ao peito.

— Eu disse comes alguma coisa, e não bebes — Disse.

Peguei uma das grandes romãs e dei uma mordida, senti sua polpa açucarada deslizar suavemente por minha boca. Mastiguei-a e lancei-lhe um sorriso forçado.

— Satisfeito agora?

O cheiro doce da fruta havia inundado irritantemente o quarto. Jacob anuiu, andejou o caminho que os tapetes faziam de frente a cama ainda com os braços cruzados e disse:

— Terei de viajar, a propósito já deveria ter ido.

— Fazes sempre a mesma viagem todos os meses e sempre ficas fora sete dias, devo esperar que seja diferente desta vez?

Sabia com desalento que não adiantaria que pedisse para que ficasse, não havia ficado das últimas vezes, desta não seria diferente certamente, mas existia ali algum grande mal estar com sua ausência, com vê-lo ir, não era apenas a saudade, que fazia o peito quase explodir nos dias mais austeros, era algo mais, algo que apenas não sabia dizer o que era, mas que existia e pairava no ar definitivamente.

— Receio que não Ness. Preciso cuidar de outras terras que tenho e isso não é algo apressurado, mas volto para teus braços o mais rápido que conseguir, prometo-te.



O ocaso havia caído e juntamente com ele os passos de Jacob soaram no corredor lá fora. Pouco tempo depois e adentrava o quarto com algo hirsuto e cinzento nos braços. Semicerrei os olhos, a visão estava embaçada como uma nuvem pela tontura e o monte de pelo cinzento em seus braços se remexeu. Longas orelhas se eriçaram assim como os pelos e o pequeno e rosado focinho farejou o ar estagnado a sua volta chacoalhando nervosamente. Jacob aproximou-se da cama e depositou-o em meus braços. Era roliço e quente e aconchegou-se entre minhas pernas repousando sobre os cobertores.

— Um coelho? — perguntei sem ver nenhum sentido aparente àquilo.

— Não é um presente Nessie — Jacob afirmou como se pudesse ouvir o que eu pensava e por baixo das palavras categóricas e eloquentes pude encontrar o sentido e entendi o que queria dizer com o que não fora dito, com o silêncio que havia-o impregnado.

Fora preciso que Jacob levasse-me a um passeio, pelas redondezas, ainda dentro de suas terras para que visse que realmente não era um capricho. Senti-me mal e com tonturas, então teve que trazer-me de volta. Ainda assim havia comprido a promessa e passado o dia ao meu lado, ainda que na cama, conversando e analizando-me com o olhar inquisitivo e preocupado.

Não fora preciso mais de seus olhares inquisidores, minhas presas saíram e com isso a sede em minha garganta inflamou ainda mais. Entre meus dedos ergui o coelho e mordi-o, quebrando seu pescoço para que não sentisse mais dor do que precisava, e para que não agonizasse até o fim. No outro canto do cômodo Jacob desviava os olhos escárnios, levando-os às janelas e à coloração laranja opaca entre as nuvens cinzas.

O sangue do coelho não era tão quente, não era tão forte, de longe não era tão saboroso e havia acabado rápido demais, mas ainda assim trouxe consigo algum conforto. Seu corpo caiu inerte na cama sem nenhum ruído enquanto limpava o sangue em meus lábios.

— Terei de ir, não há outra maneira — Jacob murmurou ainda encarando a janela. — Mas por favor, por favor não saía para caçar Nessie. Cameron está quieto a suficiente tempo para fazer-me preocupar.

— Isto não deveria descansá-lo? — disse com o tom ameno. — Talvez tenha desistido.

Pensar em minha família completamente desprotegida a metros e mais metros de distância era o suficiente para deixar-me aterrada e sem sono e eram a aquelas esperanças a qual agarrava-me, esperanças essas que Jacob quebrou assim que sua voz tornou a soar:

— Pois aposto tudo o que tenho que não.

Voltou a encarar-me e os músculos de sua face se retesaram quando tornou a falar:

— Se não conseguir controlar-se então beba a um dos criados, mas não saia de casa na minha ausência, entendido? — Soou firme e despótico e tudo o que pude fazer fora assentir com um gesto.

Franziu o cenho, estava visivelmente preocupado quando andejou até a cama com a face carregada em fadiga.

Plantou um beijo em minhas têmporas que fizeram-nas flamejar. Fechei os olhos ao sentir sua respiração, seu hálito doce. Meu rosto ergueu-se em reflexo e seus lábios deslizaram como seda por minha bochecha para tomar-me os lábios em um beijo sedento onde o ar era a única coisa escassa.

Meus braços enrolaram-se em volta de seu pescoço quando senti sua língua quente deslizar para dentro de minha boca, fazendo-me sentir tonta e gemer contra sua língua. Jacob agarrou em minha cintura quando tive que voltar a buscar o ar depositando os beijos em meu pescoço enquanto grunhia.

Uma lufada mais de ar e tinha então os lábios estreitados contra os meus novamente e o desejo era tão grande, tão irrefutável e tão palpável... Até que Jacob levou a vista até as janelas, uniu as sobrancelhas hirsutas e negras sobre seus olhos e praguejou baixo contra meus lábios diminuindo a intensidade do beijo que eu fazia questão em prolongar.

— Sentirei sua falta — grunhi sem fôlego em seus lábios enquanto procurava seus olhos, suas íris negras e dilatadas.

O aperto que meus braços faziam ao redor de seu pescoço estreitou-se e minhas unhas deslizaram por sua nuca, esperava que assim ele não fosse ou que não se movesse.

— Eu também — ele suspirou com a testa colada a minha.

Beijou-me uma vez mais fazendo-me sentir o calor que emanava e que deixaram meus lábios formigando, então desvencilhou-se sofregamente de meus braços como se não fossem nada.

— Fique bem Nessie — pronunciou com a voz rouca.

Ficarei, senti vontade de dizer, não desobedecê-lo-ei e não encontrará nenhum cadáver quando regressar, por mais difícil que fosse ao menos pensar em ficar sem sangue por nem mesmo mais um dia.

Mas então deixei-o que afastasse-se com o coelho sem vida entre as mãos e que saísse, levando consigo o resquício mínimo de sol.



O som que os galhos das árvores faziam ao rasparem contra o vidro das janelas era arrepiante e o gemido lânguido e mórbido do vento contra as paredes de pedra do castelo preenchiam o cômodo num mau agouro sonoro.

Talvez tenha sido isso que acordou-me a princípio, fazendo-me abrir os olhos vendo não mais que um palmo a frente, tudo preto, disforme e fúnebre, com quarto estagnado na mesma canção de vento e galhos assim como todo o restante do castelo. Com o tempo a visão foi-se acostumando com a pouca luz propiciada pelas velas que ainda ardiam e os objetos foram tomando suas devidas formas um a um.

Eu deveria tentar voltar a dormir, eu deveria parar de preocupar-me tanto com Jacob que provavelmente estaria bem e longe a essa altura, mas todas as preocupações pareceram esvair-se quando ergui os olhos até a altura da janela, e o coração pôs-se quase à boca.

A princípio não era mais do que uma forma negra e mal delineada que espreitava, mas com o tempo foi-se tomando forma e não poderia ser! Deveria ser um delírio, um sonho, um devaneio ou qualquer coisa assim, tinha que ser! Mas ainda assim estava ali, mesmo quando franzi a visão desfocada e sonolenta na tentativa de melhorá-la, mesmo quando esfreguei os olhos com os dedos, ele ainda estava apoiado na janela, observando-me.

Só poderia ser ele, mas não, por Deus não! O rosto pálido, os cabelos castanhos na altura dos ombros, os olhos profundos e principalmente o sorriso sádico que nunca saia dos lábios não deixavam-me enganar.

— Nessie, não sabe o tamanho das saudades que senti de ti.

Notas finais
Então, deixem aquele reviewzinho, próximo capítulo cheio de emoções, prometo! E se eu não postar antes do natal ou ano novo já fica ae um FELIZ NATAL pra todas e um lindo, maravilhoso, cheio de homens e dinheiro ano novo pra vocês ok?
Bjks.