Naive - Hiatus

20 Capítulo dezenove


Não mais que um piscar de olhos e sua figura lúrida estendia-se diante de mim. Ajeitou os cabelos desgrenhados por detrás das orelhas e dirigiu-me seu sorriso, com as presas longas e afiadas brilhando contra as luzes das velas e da lua.

Gritei. O que mais havia de se fazer? Reuni todas as minhas forças e gritei até sentir os pulmões arderem, parecia que milhares de grãos de areia retorciam-se dentro deles e deixavam-no em carne viva. A garganta ficou seca e tensa de novo, o gosto da bílis subiu à boca. Sua mão agarrou firmemente em meu pescoço, içou-me e reduziu o clamor a não mais do que um chiado ridículo e prescindível. Dentro daquelas paredes de pedra nada daquilo bastaria.

— Socorro! — O brado ficou restringido àquele quarto, a nós.

Não sabia o que sentia; frustração, medo, raiva, temor, parecia bem como um misto de todos. Mas, em proeminência, sentia raiva de mim mesma, da facilidade demonstrada por Cameron ao retirar-me da cama e atirar-nos janela afora apesar de toda minha resistência. Eu era uma vampira e ainda assim sentia-me fraca, frágil e inútil.

Do lado de fora a floresta era silenciosa como nunca antes fora, ou talvez fosse só a velocidade em que corríamos, o vento batia tão vigoroso contra meu rosto que ouvir qualquer coisa que não fosse ele e nossos próprios passos exigia atenção, mas, ainda assim, nada. Nenhum animal, nenhuma pessoa, o absoluto do nada.

Paramos de correr quando o espaço entre as árvores tornou-se esparso. Estávamos no meio da floresta, bem longe do castelo, bem longe de tudo, e eu não conhecia os arredores, eu ao menos conhecia as árvores que encaravam-nos como espectadores ansiosos pelo desenrolar daquela noite.

Cameron retirou as mãos de mim, apoiou-se num grande tronco de carvalho sorrindo como um menino que ganha um presente, estava satisfeito consigo mesmo. Meus pulmões aclamaram quando o ar voltou a passear livremente por ele, puro, gélido e simples e meu pulso formigou dolorido e roxo sob meu aperto enquanto tentava massageá-lo.

Então era isso? Traria-me aqui apenas para sorrir-me? Para trotar comigo? Para provar-me o quão mais forte do que eu ele era? E da facilidade o qual foi dominar-me? Não ficaria para conseguir tal resposta. Meus pés agiram, o mais rápido que conseguiam e logo eu estava em movimento de novo, com os pés soltos sobre a relva, mas a falsa liberdade não persistiu por muito tempo. Seu vulto negro, hílare e garrido dos mais sinceros risos segurou em minha mão, como se segura a mão de uma criança irascível que quer atravessar a rua e logo vi que persistia de novo estagnada no mesmo lugar.

— Socorro! — Gritei, ainda mais alto que da vez anterior.

A voz produzia um eco sinistro com todo aquele espaço e todas aquelas árvores.

— Socorro! Socorro!

Cameron esperou, observando a cena como se observa uma fruta simplória com o ar desinteressante. Mas minha garganta estava seca e eu estava cansada e sem ar de tanto gritar e receber o nada como resposta, nada além dos nossos coração batendo, com o meu aos solavancos.

— Xiu Renesmee, poupe-se de algum esforço supérfluo — ele disse. — Soltar-te-ei e não ira correr, não ira gritar como uma louca, estamos de acordo? Não pretendo demorar muito mais tempo do que o necessário com você e desse joguinho de gato e rato nada fluirá.

Vi-me livre de seu aperto. Afastou-se alguns passos enquanto arrumava o cabelo com uma fumaça nívea saindo de sua respiração.

— O que quer? — A voz não saíra tão segura ou altiva quanto desejava. A bem da verdade parecia mais como um gemido de medo, um pedido categórico para que deixasse-me ir ilesa.

— Terminar o que comecei. Sabe Nessie, não gosto de coisas inacabas e tão pouco gosto de ter meus planos mudados e você mocinha, fez-me ter de fazê-lo.

— Não passas de um sádico! — praticamente esputei.

— Sim, dizem que sou e sei bem que é a verdade, mas receio que estas tão ansiosa quanto eu para acabar com isto de uma vez por todas, então vamos lá, aproveitar esta noite adorável em que seu cachorro anda acorrentado em qualquer ruína adiante.

Em um ponto Cameron possuía pretexto, estava tão farta quanto qualquer um de seus joguinhos sádicos intermináveis, mas nada do que era proferido por seus lábios faziam qualquer sentido ou propósito aos meus ouvidos.

— Do que estás falando?

— Oh Nessie, quando ajes assim ainda acredito na sua pureza, fico tocado com o brilho da ingenuidade que vejo brotar em seus olhos. Quando é que irá acordar bela? Quando é que deixaras de ser tão tola?

Aproximou-se um ou dois passos.

— Teria um prazer gaudiante ao esclarecer-te algumas coisas, mas veja, não temos tempo.

Cameron já estava perto demais para minha zona de refrigério, a menos de um passo conseguia sentir a respiração gélida que saia de suas narinas e batia como um sopro mórbido em meu rosto. Todos os meus sentidos estavam alertas, todos prescrevendo-me a fugir, correr e gritar e antes que pudesse ao menos pensar fazer qualquer coisa Cameron pôs uma mão no tronco da árvore onde eu persistia estática e tremulante e reclinou-se, deixando-me sem saída.

— Não quero destruir este lindo, quebradiço e imaginável castelo em que vives, pelo menos não no dia de sua morte, imagina que tétrico e trágico seria. Até mesmo pra mim, eu digo. Morreras como uma tola, sim, mas como uma tola feliz. — Continuou a despejar mais suas palavras de pouco sentido, mas de uma coisa com firmeza eu sabia, o meu fim estava próximo.

Sua mão que estava livre subiu por minha cintura, acompanhando as linhas do tecido da chemise, meu coração pôs-se a bater acelerado contra as costelas num salto quando passou seus dedos frios e suaves por minha pele exposta até chegar ao pescoço e quando apertou-o interrompeu minha respiração. Meu corpo rostiu tenro contra a madeira espessa da árvore quando foi içado e neste momento eu já não tinha ar algum nos pulmões.

Enfiou a mão desocupada no bolso do casaco que ia até os joelhos e de lá retirou um esteio de madeira afiada. Levantou-o com o mesmo sorriso fácil entre os lábios e fechei os olhos esperando por meu fim. Se esta seria minha última visão que não fosse Cameron, instável como sempre. Foi em Jacob que pensei quando cerrei os olhos, quando o mundo se tornou negro por um instante, e foi seu rosto que surgiu, seus olhos negros entre as trevas de minha morte, sua voz grossa e profunda que veio-me à mente e então eu só teria de esperar, esperar por um fim o qual não veio.

Quando abri os ohos temerosa esperando encontrar a expressão sádica e insana de Cameron o que encontrei em seu lugar fora algo bem distinto disto. Cameron ainda erguia-me entre suas mãos, ainda tinha-me apertada contra a árvore e sem ar, porém a estaca que tinha entre os dedos outrora estava no chão, repousada entre o limo e as folhas que apodreciam e encarava-me com uma expressão surpresa, quase que estupefato. A expressão não durou muito, quando notou que observava-o colocou no rosto então a mesma expressão de sempre. Desviou os olhos dos meus e percorreu todo o meu corpo com um olhar minucioso enquanto sorria com ainda mais veemência e vivacidade a cada parte recém analisada.

— Renesmee, quando penso que és o seu fim surpreende-me novamente! — Exclamou com os olhos e as presas brilhantes pela luz da lua. — Parece-me que estas a ficar boa nisto.

Estava pronta para chutá-lo, para gritar, para lutar, para tentar fazer qualquer coisa, mas Cameron ergueu o rosto, cheirou o ar a nossa volta e então tornou a sorrir.

— Parece-me que as coisas não permanecem por muito tempo monótonas nesta família. — ele disse.

Segurou-me mais forte pelo pescoço e desencostou-me do tronco em tempo de deixar-me ver a figura que saia por detrás das árvores, Jacob. Vestia apenas calças ajustadas bege, com a expressão mais mau humorada e rude do que nunca parecia também um tanto transtornado, tinha os cabelos longos em desordem e o que havia por detrás do ardor do ódio em seus olhos era também um aterrador temor e desespero.

— Jacob! Olá, não deveria estar enjaulado em qualquer lugar por aí? Estas a ficar descuidado depois de tanto tempo de prática.

Uma lágrima desceu por meus olhos em meu pedido surdo. Tudo o que queria era Jacob em segurança, bem longe dali, mas mal conseguia encontrar as forças para respirar.

— Solte-a! — A voz era dura e eloquente, carregada em fúria.

Cameron ignorou-o, continuou a falar andejando por entre as árvores comigo suspensa e sem ar por seu aperto.

— Devo dar-te os parabéns pois ouço um coraçãozinho batendo.

E sorriu para si mesmo. Jacob que parecia tão mais sem paciência ou tempo para os joguinhos de Cameron avançou um passo e meio seguro em nossa direção mas parou assim que o vampiro tornou mais forte o aperto que mantinha em torno do meu pescoço.

— Não, não, não! — Cameron disse erguendo-me.

Um pouco mais de força por um pouco mais de tempo e eu estaria desmaiada, sentia isso, a cada pontada de tontura mais forte, a cada súplica por ar que os pulmões faziam, a cada vez mais nublada visão que adquiria.

Cameron afrouxou um pouco o aperto, deu aos pulmões alguns segundos de ar escasso. Jacob franziu o cenho, parecia ser ele ali quem sentia a dor.

— Sabe Jacob, acho que finalmente achei o seu ponto fraco.

O vampiro sorriu, e olhou por um instante o céu nublado acima de nós, a lua era cheia e branca, ofuscada pelas nuvens que o vento ia levando consigo. Olhou de novo para Jacob, com o mesmo sorriso perverso.

O corpo de Jacob veio ao chão, e o meu retorceu-se sob a palma firme de Cameron. Convulsionou sobre as folhas, enterrando as unhas fortemente na terra úmida. Jacob tremia enquanto seus ossos pareciam sair do lugar, os músculos alongavam-se e retesavam-se e a pele dava lugar a uma espessa pelugem negra. Então, do chão o que ergueu-se em seu lugar foi um gigantesco animal grotesco e hediondo, apoiou-se sobre os quartos traseiros e elevou o grande corpo hirsuto que possuía o dobro do meu tamanho. De suas grandes presas amareladas gotejavam saliva quando ergueu a cabeça e o focinho até a lua, agora não mais ocultada por nuvem alguma.

— Espero com lisura que saias viva. — Cameron sussurrou ao meu ouvido enquanto observava a cena.

Depositou um beijo em minhas têmporas e não teve muito mais tempo de fazer qualquer coisa a mais do que me soltar. No segundo seguinte o animal avançava brutalmente em nossa direção e meu corpo que iria para o chão sofreu um impacto muito maior, o de seu corpo, sendo arremessado sabe-se lá quantos metros a frente, parado por uma velha árvore que aguentou todo o impacto apenas rangendo.

O animal pareceu entreter-se algum tempo em Cameron, içou o corpo coberto por pelos apoiando as garras no tronco da árvore em que o vampiro havia subido e que agora pulava de copa em copa, transformando-se em um borrão e rapidamente sumindo às vistas. O animal grunhiu, enlouquecido pela presa perdida, então cheirando o ar pareceu dar-se conta que eu ainda estava ali, sentada sobre as folhas caídas, observando tudo aquilo como se observa um sonho sem razão.

Seu enorme tronco reclinou-se, seu peito subia e descia conforme a respiração saía e entrava esbaforida de suas narinas. Enrugou o focinho e mostrou-me a fileira de dentes enormes e pontiagudos como adagas de onde uma liga densa de saliva branca corria-lhe em direção ao pescoço hirsuto. Senti seu olhar puramente selvagem sobre mim, mirando sanguinariamente minha garganta e rapidamente sobre as quatro patas, sem nem mesmo um resquício traço de lucidez, avançou diretamente em minha direção.

Uma breve hesitação retesou meu corpo por meio segundo, segundo este em que vi seus longos dentes brilharem sobre meus ombros, onde por centímetros o lobo não conseguira atingir.

— Jacob, por Deus, pare! — Gritei em desespero.

Mas aquele não era Jacob, ou pelo menos em nada parecia ser, nem mesmo nos olhos, negros como os dele, mas em nada humanos, em nada lúcidos.

Avançou outra vez em minha direção, mas decidi que não ficaria tencionando-o a voltar a razão. Nada naquela noite parecia ter uma razão, nada parecia ser certo.

Quando veio em minha direção dotado de toda a fúria saltei, passando por cima de si. O lobo era bem mais atroz, forte, porém não era mais veloz e possuía bem menos destreza que qualquer vampiro. Talvez conseguisse fugir dele, talvez conseguisse correr e foi o que de fato fiz, deixando para trás todos os granhidos e rosnados ameassadores de furor e todo o barulho de tamanha destruição que o lobo exaltado produzia na floresta.

Metros e metros a frente já não conseguia mais ouvi-lo, porém não era alivio o que sentia. As pernas estavam bambas, doridas embaixo do tecido da chemise, eu sentia que desmoronaria a qualquer momento, não só física, mas principalmente mentalmente. O que diabos havia acontecido? O que diabos estava acontecendo? O que diabos eu faria? Aonde estava o lobo? Aonde estava Jacob? Aquilo era Jacob? As perguntas eram tantas e martelavam com tamanho fervor em minha cabeça que era impossível manter-me estável diante delas em minha mente, portanto deixei-as de lado, precisava recompor-me e não possuía tempo ao meu favor, logo ele me acharia! Eu tinha eu que conseguir uma saída, uma alternativa, qualquer coisa, tinha que sair dali, mas estava no meio da floresta, sabe-se lá a que distância do castelo e cada mínimo farfalhar de folhas desestabilizava-me prontamente.

O que fazer? O que fazer? O que fazer?

Respirei fundo, conceitrei-me em meus poderes, em não desabar sobre o chão úmido e em manter-me a mente vazia, leiga a qualquer tipo de situação resultante daquela noite, e quando enfim vislumbrei do campo aberto, do cheiro espargido e da estrutura nua e cinza do castelo quase caí em lágrimas tamanho era o alívio. Com os passos desajeitados, desgraciosos e aos tropeços aproximei-me da grande porta e com o que restava-me de forças utilizei para golpear a aldrava.

Demorou mais do que esperava, mas depois de alguns minutos uma senhora com o rosto redondo e as bochechas robustas e avermelhadas atendeu a porta segurando um candelabro. Seu rosto passou de pura curiosidade em descobrir o desconhecido que batia à madrugada para desespero quando meu corpo praticamente despejou-se tenro por cima dela.

— Senhora, senhora? Por Deus o que aconteceu? Estas encharcada.

Não sabia que estava encharcada, mas estava, o tecido fino da roupa havia aderido-se a pele e era transparente e o cabelo úmido, como se tivesse acabado de passar por uma tempestade só condimentava ao aspecto deplorável em que encontrava-me, mas àquela altura não sabia nada, não sentia nada, nada importava, apenas ansiava o conforto de meu quarto e descobrir na manhã seguinte que tudo não havia passado o mais absurdo e vívido sonho.

— Ollie, venha, ajude-me. — A voz da senhora Thompson trouxe-me de volta a realidade, mas não sentia-me muito diferente que uma caixa vazia, nula a tudo.

Ollie segurou-me em seus braços e levou-me escada acima, com a senhora Thompson em seu encalço. Dentro do quarto estava quente e banhado pelo dourado das luzes das velas, era como receber um abraço quente após toda a umidade e escuridão da floresta.

Coube a senhora Thompson a tarefa de trocar-me a roupa, depois de tantas perguntas retóricas sobre o que havia ocorrido e do porquê de meu estado.

Ao final de tudo repousava em meu quarto, como em todas as noites ocorria, sob os quentes cobertores, com as roupas secas e a cabeça referta em pensamentos e teorias. A menor hipótese de conseguir dormir parecia absurda, apesar disso, a escuridão aprofundou-se até cobrir meus olhos, encher minhas narinas e tapar minhas orelhas, e deixei de enxergar, cheirar ou ouvir, e as paredes do quarto desapareceram, os cômodos desapareceram, as luzes tremeluzentes das velas desapareceram, e tudo ficou preto e parado, preto e frio, preto e morto, e preto...

Notas finais
Deixem review né galera?
Bjs