Naive - Hiatus
21 Capítulo vinte
Notas iniciais
Capítulo novo tá ae, mals a demora.
Juntamente com os primeiros dedos de raios de sol batidas insistentes soaram pelo quarto. Não ouve tempo para olhar pela janela, para observar as primeiras reminescências de feiches de luz douradas que dançavam como elegantes foliões no chão, ou de respirar, processar e tentar entender tudo que havia discorrido durante a noite. Parecia tão absurdo, tão longuinquo, toda uma vida que fora sonhada, mas que não era real, que não pertencia-me e que hoje, de repente, tudo era tomado de mim e desvanescia-me ao redor.
Seus olhos negros como a noite e tão inconscientes quanto os de um morto foram a primeira coisa que tornou a relampejar em minha mente, como um trovão, antes mesmo de ter aberto os olhos. Aquela criatura era uma casca vazia e oca e pensar nisto causava-me mais calafrios e náuseas do que era capaz de expressar. Completamente desprovida de qualquer consciência, humana ou animal, a única coisa que preenchia-o era o ódio, uma ferocidade tresloucada. Jacob era uma abominável e desprezível criatura da noite, daquelas de que contavam-me histórias para amedrontar-me e que deixavam-me sem dormir.
Agarraria-me fortemente a qualquer ideia de tudo não ser mais que um sonho, por mais absurdo que tudo fosse, se o corpo não doesse e crepitasse no exato momento em que tentei mover-me, lembrando-me de que não o era.
Do lado de fora do quarto as batidas persistiam, mais fortes, mais altas e sonoras. Sabia claramente quem era, conhecia bem seu cheiro como o de nenhum outro, cheiro que outrora fazia o coração saltar por antecipação, mas que agora apenas trazia consigo o puro rastro de uma aflição, agonia e temor sem fim.
O coração implorou que ignorasse-o, que desse a ele qualquer tempo para reestruturar-se mas a razão acabou ganhando, por pelo menos esta vez. Queria ouvir o que Jacob tinha a dizer, estava curiosa sobre que tipo de explicação mirabolante e absurda daria-me.
Assim que abri a porta o coração vacilou, como sempre acontecia diante da figura dele, debateu-se como um louco contra o peito no instante em que meus olhos focaram os olhos angustiados e distantes dele e por um instante Jacob não era mais uma criatura nefanda, era apenas um homem, o homem que eu amava.
Não esperou por convites ou cerimônias, adentrou o quarto assim que conseguiu algum espaço fazendo questão por não tomar-me o rosto.
Fechei a porta ansiosa por detrás de nós. Ele ainda cheirava a floresta, o maldito cheiro que não saia dele nunca, os cabelos persistiam desalinhados e sem controle e Jacob não vestia nada além de um robe carmesim atado a cintura. Claramente a primeira coisa que fizera ao colocar os pés em casa fora cobrir-se e procurar-me.
— Renesmee, eu, eu...
Tomou fôlego por um segundo, apreensivo com a situação, mas fixou os olhos negros e intensos em mim quando disse:
— Eu sinto muito.
Jacob não era o tipo de homem que pedia desculpas, por mais errático que estivesse em qualquer situação. Sabia bem, por sua fama de entufado que nunca de fato havia-as pedido em toda a vida e aquilo tão pouco havia apresentado-se de maneira aprazível para ele, fazia questão em deixar claro pelo rosto neutro, mas ainda assim com traços rudes em sua expressão sublime, feria-lhe o tão estimado orgulho obsecrar o perdão de uma mulher.
— É isto o que tens a dizer-me depois de tudo Jacob? Pois agradeço o obséquio e peço a sua licença — Disse fazendo a reverência.
Eu ainda precisava tentar colocar minha mente no lugar, processar aquilo tudo e o precisava fazer longe de Jacob.
— O que esperas que eu diga? — Pronunciou indignado. — Isto é culpa sua, se não fosse tão parva não necessitaria de minha ajuda.
— Oh, a sua ajuda! — Não pude deixar de soltar ao mais ácido e sútil tom irônico.
Jacob só poderia estar brincando! Por mais nubilosas que as coisas pudessem apresentar-se lembrava bem do que havia ocorrido, era uma cena que nem tão pouco conseguiria esquecer, por mais que tentasse.
— Então deveria estar a ter delírios quando pensei ter visto-te vindo para cima de mim. Mas acho que devo agradecer-te, pois não? Realmente seria mais poético ser morta por ti e não por Cameron.
Jacob franziu o cenho, ajeitou-se em toda a sua pomposa postura de não se abalar.
— Eu sinto muito.
— Sente muito... Sente muito pelo o que Jacob? Por despresar-me a cada segundo de nossos dias juntos e não ter ao menos o decoro de procurar esconder isto? Pelo olhar de asco que não consegue abandonar-te o rosto toda a vez que olha-me? Por esconder-me verdades? Por mentir-me? Por atacar-me? Ou apenas por fazer-me perder toda a confiança que eu ingênua detinha-te? Sentia-me segura ao seu lado!
Nem mesmo eu sabia que sentira todas aquelas coisas e que havia-as guardado comigo, até que tudo começou a sair.
— E não há porque não sentir-se mais. — Jacob disse com a voz sufocada na garganta. — Eu nunca Nessie, nunca deixaria nenhum mal acontecer-te.
As palavras de segurança tampouco trouxeram conforto. Sentia tamanha agônia nas entranhas que o corpo tremia debaixo da camisola e queria cair em lágrimas tamanha era a decepção e o descontentamento que sentia, mas não o faria na frente dele.
Tentou aproximar-se estendendo as mãos e em puro reflexo recuei na direção contrária, estirando o braço como defesa, criando um espaço, uma barreira para atentá-lo a ficar longe.
Fora mágoa o que relampejou brevemente em seus olhos negros? Se fora Jacob soube esconder muito bem, no segundo seguinte nada mais existia em seu rosto além de sua expressão intransponível.
Recuei até sentir a madeira da cama contra minhas pernas e com algum apoio sentei-me sobre o colchão e os lençóis desarrumados com a cabeça a mil. Queria que Jacob afastasse-se, precisava ficar sozinha, queria parar de sentir aqueles calafrios e aquele temor sufocante simplesmente por estar diante dele.
— Es um lobisomem, tranforma-te em um lobo, eu... — As palavras eram desconexas e todo o sentido ao proferí-las consistia em tentar fazer a ideia fixar-se em minha cabeça, não parecer assim tão absurda como soava agora.
"Tens que reconhecer que ela tão pouco tem a culpa."
A voz relampejou em minha mente, tão alta e tão clara como no dia.
"Ela simplismente não tem culpa!"
Então estava de novo no corredor, ouvindo a conversa alheia escondida e amedrontada como um rato. A voz rouca de Jacob em minha mente fez-me o coração acelerar, debater-se debilmente contra minhas costelas rápido e desesperado como naquela tarde.
"O senhor sabe o porquê dela estar assim, sabe a quem Cameron queria atingir quando a transformou."
"Dei-lhe apenas uma tarefa e não a cumpriu, como pôde?"
"Era tudo tão simples, havia sido para isto que criei você"
Havia sido para isto...
O entendimento acertou-me como um soco nas entranhas, e doeu tanto quanto tal. Senti o quarto rodar por um segundo, o coração acelerou, o corpo ficou tenro, a barriga retorceu-se em calafrios.
— Sabias, sabias o tempo todo — Soltei incrédula.
— Do que estas faland...
— Do que sou! Sou o que sou por culpa sua, não?
O recém entendimento fez-me a mão repousar sobre as têmporas, como se por tal ato pudesse aprisionar a razão, que parecia querer escapar daquele quarto como uma donzela de sua madrasta. E Deus tudo fazia tanto sentido agora, um sentido tão claro e sinistro que admirava-me não tê-lo constatado antes. Como um quebra cabeças onde a única que não conseguia encaixar as peças era eu. Peças que estavam sempre a minha frente, expostas... E diante da falta de respostas de Jacob não haveria maior validação.
— Deus como fui tola! — A voz saiu chorosa e esbaforida.
Jacob ainda encarava-me absorto em seu silêncio, parecia procurar as palavras certas para dizer naquela hora, apesar de não haverem palavras certas.
— Sou um monstro! Abomino tudo o que sou, o que faço, o que desejo. Como pôde ser tão vil Jacob? Como pôde quando sabias o tempo todo que a culpa por ser o que sou es tua? Sim, sabias o tempo todo... O plano de Cameron, estava incluída meramente por ser sua noiva, o alvo sempre fora você. Eu poderia ter uma vida normal, poderia ser feliz, por Deus eu poderia ter filhos! Não era para mim ser assim, mas tirou-me isto e ainda assim tratou-me mal, desprezou-me, fez-me pensar que eu era o único monstro da relação.
Não sabia que havia começado a chorar até que as lágrimas já escorriam pelo rosto, quentes e grossas deixavam a visão turva.
Havia um bolo dentro de mim, tanta aflição que não poderia ser exprimida por gritos, palavras ou lágrimas, a sensação ruim apenas havia aderido-se a mim como uma segunda pele.
— Desculpe-me — Jacob disse-me encarando o chão.
— Dei-te tudo o que tinha, sempre, tentei o meu melhor por você, pois amo-te Jacob, tanto que sinto que posso sufocar a qualquer momento, mas o que deu-me em troca? Mentiras! — Gritei. — O que nunca quis enxergar é que não passas de um monstro, tão ruim quanto eu.
— Não sou como um vampiro nojento como você Renesmee! — Jacob disse duro, porém muito eloquente em suas palavras. — Falas de amor como se uma sanguessega como você conseguisse amar.
Aquilo fora como uma bofetada. Então além de tudo Jacob não acreditava no que nutria por ele. Se não sentisse o que sentia porque ficaria todo esse tempo na casa, ao seu lado, aturando tudo o que havia tido que aturar?
Jacob pareceu sentir o peso de suas palavras tanto quanto eu. Com as mãos tremulosas e cerradas em punho dirigiu um olhar compungido ao chão, contudo não fez a mínima menção de desculpar-se, ao final era o que ele realmente pensava.
Respirei fundo, carreguei os pulmões com todo o ar que poderia necessitar, precisava manter a calma ali, estava gritando e desestabilizando-me como um bronco, mas ao final de tudo o que menos queria naquele momento era esgrimir, só não podia continuar olhando o seu rosto agora, só fazia aflorar mais a cólera que borbulhava em mim agora.
— Deixei-me Jacob, por favor — Disse remansada apesar de estar quase a explodir por dentro.
Dirigi-me à porta e deixei-a aberta, a brisa de ar que passeava pelo corredor fazia-me bem, deliciosamente tentadora. Jacob encarou-me com os olhos esbugalhados, como se o que tivesse acabado de dizer fosse a coisa mais absurda e nefanda possível.
— Não vou sair Renesmee — Disse ele convicto enquanto franzia os grossos cenhos. — Temos de conversar, vamos resolver isto.
Seus olhos eram pedintes, quase marejados, fez-me querer hesitar por um segundo mas suas palavras ainda soavam em minha cabeça tão altas.
— Pois então quem sai sou eu.
Andei o mais rápido que se podia para uma casa cheia de criados, apesar de naquela manhã tudo estar tão deserto como nas madrugadas. Não olhei para trás, qualquer passo a menos, qualquer segundo de hesitação e Jacob teria-me em seus braços de novo.
— Nessie não seja absurda — Ouvi-o dizer atrás de mim antes do ruído da porta do quarto sendo fechada soar.
Consegui cruzar todo o patamar antes de ouvir seus passos por detrás de mim e a agonia consigo subiu a espinha, retorceu o estômago. Apressei-me, descendo as escadas aos pulos para chegar ao primeiro andar. Ainda andejava apressurada quando notei o pequeno montículo de pessoas aglomeradas na extremidade do corredor. Isso, seria o ensejo perfeito para tomar a palavra com alguns criados e adiar assim qualquer tipo de conversa malquista que Jacob ainda poderia tornar a querer ter, mas não fora preciso muito mais do que alguns passos para atentar que as coisas não estavam usuais como deveriam.
Uma mulher destacava-se. Gritando e chorando ela jogava pragas aos céus de joelhos, entre seus braços robustos um corpo morbidamente branco repousava sem vida. O transtorno passava-se para as outras pessoas ao redor, todos com expressões lôbregas no rosto. Meu olhar atentou rapidamente para Cassie, que estava de pé em meio as pessoas e chorava com profundas olheiras enquanto era consolada por um rapaz qualquer, ela evitava olhar, todos evitavam olhar o que era inevitável. Havia um corpo no chão, azul e rígido pelo frio a menina repousava com os olhos fechados como se estivesse sonhando. Eu a conhecia, mesmo que não fosse mais do que apenas de vista, era filha de um antigo e fiel casal de criados da casa, prima de Cassie a menina cuidava do jardim e colhia flores e frutas quando não estava correndo e brincando pelos corredores, cheia de vida. Não podia ter mais do que doze anos, quem fora capaz de tamanha crueldade?
O cheiro atingiu-me logo e cheirava a sangue e morte. Fez-me a cabeça rodar, leve e vazia e o estômago não tardou-se a reclamar, contorceu-se e o gosto horrível avidamente subiu-me a boca. Era impossível conter o vômito.
— Senhora! — Disse uma criada que havia pousado os olhos em mim.
Jacob chegou logo atrás, segurou meus cabelos enquanto ainda vomitava apoiada ao chão. Com o estômago vazio pude então levantar-me, seus braços auxiliaram-me e quando já estava erguida o suficiente apoiou as mãos em minha cintura. O estômago retorceu-se de novo e se não estivesse vazio pronta estaria para colocar tudo para fora uma vez mais. O frio na espinha ainda subia quando ele estava próximo de mim e tomava-me asco apenas por olhar em seu rosto.
— Não me toque! — A voz sairá fria e dura assim como sabia que minha expressão também estava.
Os olhos de Jacob marejaram, brilharam em um tipo de decepção porém seu rosto permaneceu intrasponível. Retirou as mãos de mim e livre de si pude ir em direção ao jardim, precisava de ar mais do que nunca.
Notas finais
Beijinhos.
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