Naive - Hiatus

22 Capítulo vinte e um


Notas iniciais
Agradecimentos a todas as leitoras a avalanche de reviews do último capítulo. Gracie!
E capítulozinho dedicado à Manuca Ximenes e amagarrote pelas recomendações que eu ameeei.

Os passos soavam ruidosos contra o chão rústico do castelo, eram tão decididos o quanto eu queria aparentar estar. Parei diante da grande porta fazendo uso de outra lufada de ar. Não estava verdadeiramente nervosa ou hesitante, mesmo sabendo que deveria. Apenas permiti-me relaxar mentalmente e ajeitar a postura quando o lacaio abria as grandes portas.

O ruído fora o tão estrondoso quanto esperava-se para uma porta daquele porte e Jacob, que residia à ponta da longínqua mesa de madeira maciça, levantou a cabeça, visivelmente não esperando por visitas ou companhia para aquela refeição, e não conseguiu sustentar-me o olhar por mais do que dois instantes.

Eu andei o quão pomposa poderia, ereta, sem deixar-me abalar por sua presença, não desta vez, mantendo o olhar ao seu rosto quando ele próprio não o conseguia e tomei meu lugar à mesa, na outra extremidade, pela primeira vez agradecida pelo cômodo ou pela mesa serem tão ridiculamente grandes naquele grande castelo. Ficar perto de Jacob ainda causava aquela mesma inquietação nervosa, os mesmos calafrios agourentos apesar do rosto ou da postura não demonstrarem o mínimo resquício de abalo, por dentro tremia e tinha o coração tão inchado que tudo o que queria era voltar ao quarto e debruar-me em lágrimas como havia feito durante toda à tarde.

O sol, ainda que tímido, tingia a sala. Não eram mais do que seis da tarde e o dia fora cinzento e ventoso e conforme ia apresentava-se amargamente mais frio.

Jacob tinha a um prato de folhas verdes e ovos a sua frente que cheiravam bem, mas nada mais havia conseguido comer depois que eu havia adentrado a sala. Fez um gesto aos lacaios e mandou-os retirar o prato e trazer outros e mais outros. Sopas, legumes, carnes e queijos e o jantar não passara-se disso. Imersos no silêncio abismal, nos olhares de soslaio, mordiscando não mais do que alguns frangalhos de comida.

— Quero conversar com vós — A voz saíra estranha, profundamente rouca e gutural. Ainda tinha a garganta seca e retesada apesar do vinho e da água que havia bebido. Tinha passado grande tempo da tarde entre lágrimas e choros nervosos que sabia que Jacob ouvira.

Jacob levantou o rosto da torta de morangos que remexia com o garfo, espontaneamente ergueu os sobrolhos surpreso. Conversar comigo fora uma coisa que não esperava por pelo menos essa semana, mas ali estava eu, não surpreendo apenas a ele mas a mim própria.

— Assim que terminar subo ao quarto para ter convosco.

— Preferiria que fosse em vosso escritório — Fui direta.

Lembrei-me do escritório de Jacob, frio, úmido e mal iluminado, por mais velas que pudessem se acender, e, sobretudo impessoal, então de súbito a ideia pareceu-me jubilosamente exímia.

Jacob, porém não vacilou, manteve a expressão firme no rosto.

— Como quiseres.

Fora preciso mais uns bons dez minutos de ambos revirando a sobremesa com o olhar fixo no prato para encaminharmo-nos ao escritório. Na cabeça reproduzia tudo o que teria de falar, tudo o que havia ficado engasgado na garganta e tudo o que queria ainda saber. Mal sabia por onde começar a conversa e tinha ideias, fundadas o suficientes, para acreditar que Jacob, do outro lado da mesa, rolava-se em sua mente sobre quais respostas dar-me, ou se, ao fim a ideia daquela conversa seria exímia. Eram duas mentes que borbulhavam em um cômodo onde a única coisa que se ouvia eram o tintilar dos talheres.

No caminho o coração não batia, tamborilava e desejei aceitado ter o brandy oferecido por Jacob após o desjejum. Pouco ligava para a boa digestão, não havia comido mais do que sentia-me confortável e apenas dirigi-me ao cômodo afim de vir a ter com Jacob a conversa que a muito deveria. O desejo súbito no brandy residia na confiança e na brandura que qualquer bebida alcoólica proporcionar-me-ia.

O caminho ao escritório fora o tão compungido quanto o jantar havia sido em si. Os passos de Jacob ressoavam a minha frente e meu estômago enrolava-se, as pernas bambeavam. Quando chegamos manteve a porta aberta para que eu pudesse entrar.

Lá dentro estava mais quente, a lareira ainda ardia seu fogo calmo em brasas no mesmo local onde recordava-me e as janelas e cortinas estavam todas fechadas. Havia vindo ao escritório apenas uma vez, que me lembrava, na vez onde eu fora descoberta por Jacob a ser uma criatura bebedora de sangue, e parecia irônico que agora encontrávamo-nos ali para discutir a recém-descoberta de mais uma criatura monstruosa para a família.

Jacob passou por mim e tomou seu lugar atrás da mesa, acendeu a um candelabro e apontando para a cadeira a sua frente disse:

— Sente-se, Renesmee.

Com a voz mais calma do que habitualmente era.

Tinha o rosto plácido e as expressões tão lindas, quase divinas. Parecia doentio e nefando sequer cogitar que era o que realmente tinha visto na última madrugada.

— Temos que nos falar, o que aconteceu ontem, é impossível, é ridículo! — Disse gaguejante, tentando convencer mais a mim do que a ele com as palavras. Havia passado todo o dia tentando entender e não chegara a conclusão nenhuma.

— Você sabe o que viu — Foi tudo o que disse.

— Sei, mas... Não pode ser, não é? — Precisei respirar. — Jacob, o que você é?

Uniu as sobrancelhas porém respondeu sem hesitar:

— Sou um lobisomem.

— Um... Lobisomem? — Contive o fôlego. — Isso é o que me está dizendo que é? Acreditei que os lobisomens não eram mais que mitos, contos inventados para assustar aos meninos!

— Acreditava que os vampiros também o eram, não?

— Como funciona? Digo, fora atacado por um ou o que?

— Não sei bem como funciona Ness, só sei que é hereditário, passado pelo sangue. Sou um lobisomem assim como meu pai fora um e meu avô foi e assim por diante, e isso acontece a mais tempo do que sei, a muito mais tempo do que existo. Depois da puberdade aconteceu minha primeira transformação e tem sido assim todos os meses desde então, em todas as noites de lua cheia.

O silêncio inundou-nos. O ar era rançoso e todos os discursos ensaiados em minha cabeça fugiram-me como poeira.

— O sinto Renesmee — Jacob disse. — Acredite que sou sincero quando digo-te que jamais perdoar-me-ei por ter atacado-te. Quando transformo-me não sei bem o que acontece, tudo fica nublado, não tenho mais controle sobre minha mente e lembro-me de poucas partes, quase sempre lembro-me de nada. São só pinturas cinzas e vermelhas, sem sentidos e sangrentas. Não tenho controle sobre mim, poderia ser minha mãe a minha frente e ainda assim atacá-la-ia sem qualquer pudica.

— Então es um monstro Jake — Minha voz saíra dura sem que pudesse refreá-la.

— Não o nego que sou. Apenas não tenho controle sobre o que faço.

— E achas que eu tenho?

A pergunta era retórica, sabia tão bem quanto ele o que pensava e por mais desculpas que Jacob pudesse pedir seus conceitos e convicções não se mudariam. Olhou nervosamente para papéis a sua frente e a vontade que tinha era de sair porta afora e não ter mais de voltar, mas a dúvida que de repente assolou-me era capaz de deixar qualquer tipo de coisa de lado.

— Quanto... Quanto tempo vives Jake? É um imortal como os vampiros? — A voz estava tão engasgada na garganta que saíra em um fio.

— Não — Jacob disse. — Envelheço Nessie, assim como pode ver que meu pai envelheceu. Tenho uma saúde melhor, nunca adoeço, sou mais forte e envelheço mais lentamente, mas assim que estiver velho demais para as transformações e elas então pararem envelhecerei tão depressa quanto um humano e um dia morrerei.

A resposta fez parar o coração por longos segundos. Senti a cabeça leve e a vertigem que assolou-a. A ideia de não ter Jacob era então desesperadora e absurda demais e a vontade que tinha agora era de estar em seus braços, em seu colo, sendo preenchida por ele e por seu calor.

— Olha, nunca foi minha intenção que descobrisse assim — Ele disse.

— Nunca foi sua intenção que um dia chegasse a descobrir, não? O que esperava? Moramos juntos!

Jacob não respondeu, nervosamente lançava olhares às frestas da janela, ao campo que tinha lá fora.

— Cameron. Diga-me, porque todo este joguinho convosco, toda a perseguição?

Uniu os sobrolhos quando tornou a olhar-me.

— Matei sua companheira, ele quer vingança.

— A menina...

— Sei que não fois-te tu — Jacob interrompeu-me.

Sabia do que eu falava. Ainda não conseguia tirar a menina da minha mente. Era assombroso demais. Morta, azul, dura ao chão frio, com os olhos brilhantes vidrados ao nada. Cheirando a sangue e a morte. Apenas as lembranças e as pernas estremeciam sob o vestido, os pelos arrepiavam-se.

— Foi ele — Completou. — Seu cheiro empreguinado havia tudo, minhas narinas arderam. Precisa de sangue agora mais do que antes e aqui era a fonte mais próxima que poderia arrumar, presumo eu, e aproveitou para mandar-nos vosso aviso, claro.

— Do que estas falando?

— Ontem à madrugada. Das poucas coisas que recordo-me fora de ter acertado a um vampiro. Mordi-o no braço e presumo que não foste tu, sim Renesmee?

Franziu o cenho quando olhava atentamente a cada parte de mim.

— Não estas ferida, está? — A voz saíra mais alta, um tanto desesperada, com uma histeria que Jacob preferiria manter dentro de si controlada.

Então o coração tornou a bater mais forte, havia comportado-se a todo o momento mas bastava uma mínima atitude que demonstrasse que Jacob importava-se que desesperava-se novamente ensejando dar a ele o alívio que necessitava o quanto antes possível.

— Não, não, não — Tropecei nas palavras querendo respondê-lo rápido, com toda a inexperiência transmitida pelas bochechas que insistiam em corar. — Não atingiu-me.

Jacob soltou o ar preso nos pulmões, seu amplo peito relaxou-se e voltou a apoiar-se contra a cadeira.

— A mordida do lobisomem vos infecciona, pode ser letal.

— Então estamos livres de Cameron? — O alívio jubilante transpareceu por minha voz. Uma boa noticia ao meio de tantas outras más.

Jacob uniu o cenho não tão facilmente convencido.

— Receio que não seja tão fácil. Cameron está longe de ser néscio, sabe-se Deus quantos anos tende a ter. Livrar-nos-á por um tempo, para tratar da ferida e com sorte podemos esperar que gangrene.

Que gangrene e que lhe caia o braço, era o que realmente desejava.

Assenti. Aquilo era tudo o que esperava saber e a conversa com Jacob estava então encerrada, poderia voltar então para meus planos, para meus próprios pensamentos.

Comportei-me como esperava, como havia ensaiado no quarto, portar-me sem deixar-me levar pelas emoções, tão indiferente e formal o quanto pudesse ser e não havia fraquejado diante de Jacob uma vez que fosse. Isso fez o peito inchar de orgulho.

Quando levantei e recolhia o longo vestido cheio de panos Jacob tratou de estreitar-me entre seus braços, fora rápido o bastante ao levantar-se da cadeira e contornar a mesa, o tão rápido que eu não havia notado, não permitiria se tivesse. Minhas mãos contra seu peito o manteve longe, e não atrevi-me a olhá-lo nos olhos.

— Agora não Jacob — A voz saiu pedinte, cansada, abafada diante tanto anelo. — Não, por favor!

Forças era tudo o que não teria para lutar para o manter afastado, não quando estava tão perto, tão quente, com o cheiro a rodear-me e deixar-me tonta.

— Ness precisa me perdoar, por favor — Sua voz era rouca ao tocar-me o rosto, e levou-me a encarar seus olhos, profundos olhos negros dotados de uma angústia que era genuína, cruel erro, eram tão hipnotizantes como um demônio atraindo-me para sua armadilha, como uma canção aos meus ouvidos entorpecidos, tudo o que desejava era ter os lábios estreitados contra os seus.

Levou uma das mãos ao meu rosto, ajeitou uma mecha de cabelo por detrás de minha orelha e parou com as mãos cálidas em meus braços.

Seu aroma rodeava-me, estava em mim, um cheiro tão forte que deixava-me com tanta sede, sedenta, faminta. A garganta ardia, arranhava e eu não lembrava-me quando fora a última vez a beber, ou o porque de estar no escritório de Jacob e não no quarto, ou no porque ainda que com a sede que sentia o corpo encolhia-se diante dele, alertado pelo perigo como se temesse por algo.

Suas grandes mãos acariciaram-me as costas e fora o suficiente para fazer-me os lábios esbaforidos irem de encontro ao seu ombro, como era fraca sentindo o toque cálido e febril de sua pele lisa. Jacob fechou os olhos ébrio ao sentir-me e aquilo encheu-me com uma sensação de brio furaz.

— Não sei se posso, não sei se consigo — Sussurrei ainda com um resquício de sanidade, resquício que parecia se esvair a cada segundo mais.

Estava bêbada por seu cheiro, bêbada por minha sede, e eu precisava dele, precisava prová-lo mais uma vez.

O êxtase fora estarrecedor ao sentir sua veia trepidante sob minha língua, batia tão forte, tão cheia de vida, tão vigorosa, tão Jacob. Ele não pareceu se importar ou notar que minhas presas haviam saído e arranhavam a pele de seu pescoço, bem onde sua veia saltava, enquanto as minhas unhas agarravam-se fortemente contra a pele de suas costas.

Estreitou-me mais contra seus braços, metendo umas das mãos por debaixo do vestido, suspendendo-o e levantando minha perna de encontro a ele, de encontro ao seu membro que estava tão rijo que fez-me gemer contra seu ombro, inundando o meu próprio sexo também. Subiu mais a mão por minha coxa, até a minha parte sensível e pôs os dedos ao redor de meu sexo. Estava sem fôlego e ofeguei ao ver como respondia ao seu contato. Voltei a ofegar quando abriu-me mais as pernas e começou a acariciar-me. Numa deliciosa carícia que faziam seus dedos tão suaves descerem e subirem pelo meu clítoris, tão hábeis e ágeis enquanto aprofundavam-se em mim e percorriam todo o meu caminho deixando-o inchado e latejante, cada vez mais úmido para si.

Arrancou-me inúmeros soluços secos, fazendo-me arquejar e movimentar o quadril contra a sua mão.

— Eu, eu... — Ele disse com a voz abafada, rouca como nunca. — Eu me preocupo convosco — Concluiu. — És importante para mim.

O coração encheu-se no mesmo momento, porém fora de pesar. Antes pularia de alegria por tais palavras, por quaisquer palavras que viessem dos lábios de Jacob mas no momento senti que não eram o suficiente. Esperava que Jacob finalmente declarasse as esperadas palavras, e acreditei que de fato o faria, mas com tudo o que saíra de seus lábios fora “es importante para mim” e “es importante para mim” simplesmente não era suficiente hoje.

Lembrei-me do porque estava ali e do porque sentia medo de sua presença, e com tamanho desdouro constatei o que fazia. Ainda tinha as presas para fora, a garganta ardendo, o rosto contra seu pescoço, o sexo ao redor de seus dedos, e lutei ao erguer os braços e apoiá-los no peito de Jacob, empurrando-o e afastando-o quando todo o corpo quente clamava pelo seu.

— Penso que seria melhor que voltasse para vosso quarto Jacob, no terceiro andar — Disse não conseguindo encará-lo.

Jacob deixou cair a cabeça. Aquelas palavras tinham sabor de bílis para ele.

— É obvio Renesmee — Respondeu. — Será como desejas.

Contive o fôlego, mas ele não. A centímetros de distância de mim Jacob esvaziou os pulmões visivelmente cansado. Meus olhos encheram-se de lágrimas ao escutar aquele som. Pisquei para contê-las e ao impulso de consola-lo.

— Tudo o que peço é que não saias de casa essa noite. Terei de sair e agora que sabes de tudo sabes o perigo a que corre.

— Não sairei — Disse convicta em manter a promessa.

— Também não pedirei que decidas o que vais fazer agora Renesmee, mas não gostaria que soubessem meu segredo, por isto peço-te que o guarde.

Era até irônico, um lobo pedir a uma vampira que guardasse o seu segredo, como se em algum momento eu tivesse pensado em contar para alguém. Se havia alguém que guardava segredos então esta era eu. Ainda assim forcei-me a respondê-lo antes de sair a passos largos e apressados:

— Não tens com o que se preocupar Jacob, não contarei a ninguém.

Notas finais
Beeeeeijos!