Naive - Hiatus
23 Capítulo vinte e dois
Notas iniciais
Então é isso, peço perdão mais uma vez, isso não voltará a se repetir. Voltem lá rapidinho, beijinhos e aproveitem esses dois capítulos. Espero que gostem desse :*
A chuva torrencial não dava trégua, assim igualmente como o vento. Não era algo a que se pudesse dar crédito, tendo em vista o pleno inverno de Devon, mas aquilo era mais do que um cenário insigne para um enterro. Não apenas para o enterro, mas para a confusão a que tinha em minha cabeça.
Passado se haviam dois dias. Os dois dias mais compridos de minha vida. Haviam sido suficientes? Nada ansiava mais do que perdoar Jacob, dar a ele outra chance, havia mudado tanto desde que havia conhecido-o, entretanto juntamente com ele eu própria havia mudado também e a pergunta que rondava minha mente era se teria a paciência e a pujança os suficientes para aguentar tudo o que ainda sabia que teria de aguentar.
Nada estava resolvido, tudo se portava, aliás, bem longe disso. A relação com Jacob era um caminho sinuoso em que teríamos de enfrentar. Pois não sabia o quão disposto Jacob estaria nisso, ou se, de fato em algum momento estaria ou estivera disposto.
Não queria ficar num lugar onde enganaram-me, mas tampouco queria partir, e se partisse para onde iria? Para qualquer lugar, insistia a distante e tênue voz que fazia a questão de responder em minha cabeça todas as vezes em que a pergunta surgia. Você é uma vampira, pode ir aonde quiser, pode ter o que quiser. Não precisa dele, não precisa de ninguém. Você pode ser forte o bastante, pode satisfazer as suas vontades e tomar todo o quanto de sangue que desejar, sempre que estiver com sede.
E estava, por Deus como tinha sede! Não havia passado um só dia sem que pensasse em ir, apenas para aplacar a sede, a dor no peito que a falta começava a fazer-me sentir. Não tratavam-se mais de dores de cabeças ou tonturas periódicas, mas do fato da garganta queimar a cada maldito minuto e que ficar perto de alguém, quem quer que fosse, era maior do que qualquer tortura. Ainda ali, no enterro, com todos os criados enfermos em torno não conseguia pensar em outra coisa que não fosse seus sangues, em tomar a todos, ir embora e viver como realmente deveria viver, aplacando minha sede.
Por outro lado o futuro que esperava-me se fosse estava bem ali, ao meu lado, esbofeteando-me a cara. Se fosse e aplacasse minha sede como desejava não seria mais íntegra do que Cameron, e era isso o que queria? No final das contas tornar-me um ser saciado, mas sem um pingo de pujança, totalmente enlouquecida?
Não sabia mais. Aquela sede abrasadora tornava pensar, no que quer que fosse uma tarefa difícil demais, que exigia atenção demais e fora por isso que havia isolado-me.
Jacob estava do outro lado do algar ao qual o coveiro cavava. Não protegia-se da chuva como eu e a maioria das pessoas faziam debaixo de uma árvore, por isso tinha os cabelos e o sobretudo encharcados.
Não havia tirado os olhos de mim, mas havia sido cordial e honroso cumprindo sua parte do acordo pungentemente. Não havia vindo procurar-me um dia que fosse, não havia pressionado-me por uma resposta peremptória em momento algum, e ainda assim havia sido amargo demais ignorar seus olhares suplicantes ou fazer caso omisso da tristeza que aqueles olhos pareciam transmitir. Pareciam que devoravam-me em busca do perdão. Chegavam-me até a alma, estremeciam-me o corpo e derretiam-me o coração, e inflamavam-me a garganta. A única maneira de manter o controle seria evitando-o e fora o que havia feito durante esses dias desde a conversa. Evitando-o pessoalmente, pois minha mente rondava ao seu redor a todo o momento.
Jacob, ainda era um enigma pra mim, o mais afanoso deles. E se havia uma coisa sobre si que poderia dizer era que lutava dentro de si contra ele mesmo. Possuía barreiras demais dentro de si, havia-as criado e construído com o tempo. Barreiras tão fortes que não sabia se um dia chegariam a rachar-se, ainda mais quebrar-se totalmente.
Quando havia dito outrora que era importante pra ele aquilo fora o tão reconfortante e encantador como um abraço, e havia tocado-me e estremecido-me de fato, mas ainda assim não estava disposta a aceitar alguém pela metade e era isso que Jacob era. Não era meu, não era de ninguém, talvez nunca fosse dele mesmo um dia e eu já havia feito coisas demais, passado por coisas demais, tido que aguentar coisas demais para agora conformar-me então com o que ele estava disposto a dar-me.
Queria-o sim, com todo o coração e como queria, mas queria-o de todo, completo, pois era assim o que amava. E não estava disposta a aceitar nada menos do que isto.
Os dias haviam sido calmos depois da descoberta. A não ser pela visita, há um dia dos guardas da cidade. Vieram averiguar o que acontecera. Era a segunda menina morta no castelo dos Black em questões de meses e embora Jacob com toda a sua influência não fosse sofrer nenhum dolo por isto havia sido o suficiente para deixá-lo aos nervos, além do normal.
Desta vez as reclamações não vieram a mim, mas tinha ouvido a bronca que havia despencado mal humorado sobre todos os criados e as ameaças de demissões por não cumprirem o seu trabalho quanto a segurança do castelo.
"Como posso dormir tranquilamente sabendo que há alguém andando por meus corredores e matando donzelas?"
"E a duquesa, o que teria acontecido se está tragédia tivesse a atingido?"
"É de um desdoiro desmesurado que isto aconteça aqui!"
"De hoje em diante quero rondas diurnas e noturnas por todo o castelo, todos os dias."
Como se criados matusquelas e treinados no pátio do próprio castelo, em sua maioria, pudessem realmente fazer algo que fosse alguma vez chegar a impedir Cameron. Eles por si só estavam assustados em demasia. Mas se gritar desafouros aos quatro ventos fosse um tipo de terapia para Jacob que a praticasse então, não interviria.
Cameron não havia aparecido mais desde então, e a contagem de corpos mortos na cidade havia caído. Seria ingenuidade demais cogitar a sorte? Ter um pouco de esperança? O que desejava era nunca mais ter de encará-lo, que caíssem os dois braços.
— Minhas condolências a duquesa — Um dos criados tirou-me do pensamento enquanto curvava-se em um meneio.
Limitei-me a acenar. Ainda que sentisse a dor maior ali não era a minha. A família da menina debruava-se em lágrimas e lamentos e era meu dever reconfortar a todos, conduzir a situação como não havia feito da vez anterior. Pois bem, desta vez devia isto a menina morta no caixão, a família plangente que ela havia deixado e que servia a família Black a anos. Permaneci ao lado da tumba, consolando os criados com palavras e gestos gentis como a etiqueta que minha mãe a muito havia ensinado-me.
Apesar de não conseguir parar de remoer tudo o que havia acontecido desde a fatídica noite consegui agir como se nada houvesse acontecido entre Jacob e eu, embora não o tenha olhado nos olhos em nenhum momento sequer. Melhor havia sido assim. Tinha estado chorando, era tudo o que parecia fazer ultimamente e apesar da generosa aplicação de talco a pele pálida estava vermelha e tinha a pele de debaixo dos olhos extremamente mais roxa, os olhos virtualmente fechados pelo inchaço. Parecia o natural, tendo em conta a solenidade do rito funerário em meio a uma coleção de criados enfermos, mas se tivesse dirigido para ele o olhar, uma vez que fosse, teria visto que ainda andava chorando, e saberia que ele era o culpado de ter posto aquelas lágrimas em meus olhos, e então veria-me fraca, uma vez mais, e veria como suas ações afetavam-me.
A noite em que havia descobrio-o fora a última vez que feria-me fraquejar novamente, ver-me as pernas bambas com o coração a saltar, tinha feito a promessa a mim e lembrava-a tortuosamente todas as noites antes de sem sucesso tentar dormir.
Quando a caixa de madeira fúnebre fora trazida Cassie não aguentou-se e caiu em lágrimas e soluços, sendo apartada por um primo. A donzela havia passado os dias triste e melancólica, entre lágrimas finas e lamentos, mas parecia que ver o caixão ali, com o corpo da menina dentro dele tornava tudo mais real e juntamente com o burburinho e as lamentações dos empregados em volta a chuva recomeçou a martelar mais forte, grossas gotas que caiam castigando o chão ou a qualquer um que se atravesse debaixo dela.
O caixão fora posicionado em seu lugar e neste momento tudo tornou-se curiosamente silencioso. Os murmúrios haviam parado ou seria eu? Meu corpo estava mole, o coração batia lânguido e o corpo parecia oscilar ao olhar o melancólico céu de aquarela com todas as tonalidades de cinza que tinha sobre a cabeça, ele chorava, grossas lágrimas contra meu rosto. No segundo seguinte estava deslizando e deslizando e então estava no chão. Conseguia sentir o cheiro de terra fresca perto do rosto, mas não conseguia encontrar as forças para levantar.
A visão tornava-se cada vez mais turva, não sabia bem dizer se pela chuva ou pela atípica fraqueza, e então todos os rostos dos criados dirigiam-se a mim, e dentre deles estava Jacob. Olhava-me preocupado com os cenhos franzidos e só então lembrei-me da promessa nequice de nunca mais parecer fraca diante de si novamente. Estava pronta para levantar, a fraqueza irritava-me tanto quanto irritava a ele, mas até então estava tarde demais e eu mergulhei profundamente numa imensidão negra e reconfortante, onde nada havia mais do que eu.
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Quando os olhos abriram levou-se tempo para acostumar-se a claridade, com o dourado vigoroso de tantas velas ao redor. Tinha a garganta seca e sentia o corpo tenro, a primeira coisa que desejava ver quando abrisse os olhos era, atipicamente, um copo de água, entretanto deparei-me com espanto a figura de um homem a qual nunca havia visto na vida.
O sujeito sorriu-me por debaixo da hirsuta barba que começa a salpicar seus primeiros pontos brancos quando viu que o olhava enquanto criadas e mais criadas apressavam-se pelo quarto.
— Pegue frutas e sucos a duquesa. Frutas e sucos — O homem dizia com a voz forte a retumbar.
Devo ter batido com a cabeça e ainda estar a sonhar. Só isso explicava o homem ao meu quarto ou porque tudo não parava de rodar e sentia a cabeça leve.
O homem dirigiu-se a mim quando disse:
— Como se sente duquesa? — Sua voz era afável.
— Bem. — disse franzindo os cenhos ao homem, sem ter a certeza de estar sonhando ou não, ou do porque estar a respondê-lo. — Um pouco tonta e fraca, e com fome. — Disse sinceramente.
Ele deixou escapar um riso enquanto arrumava algumas coisas em um maleta.
O mal estar sentido mais cedo havia passado e o estômago não enrolava-se todo mais. Sentia ainda a sede, a sede abrasadora que parecia que nunca passava, mas isso não era algo a que aquele homem pudesse resolver.
— Ótimo então.
Quando levantou-se da cama pude ver o jaleco branco a qual usava. Fechou uma maleta de couro enquanto dava ordens a um dos lacaios. Um médico. Isso explicava a sonolência e a cabeça a rodar, deveria estar sob efeito de remédios, mas por que diabos eu necessitava de um médico? Nunca havia necessitado mais desde então.
Não tive tempo de perguntá-lo. Sentia-e mole e tonta demais e quando dei-me conta o homem saia pela porta enquanto dava instruções à senhora Thompson.
Do lado de fora do quarto, no corredor passos ansiosos ecoavam, tão alto que não se necessitava ter ouvidos apurados para se ouvir.
— Ela está bem? — A voz perguntou assim que o médico deixou o quarto.
Era a voz de Jacob, mesmo entre a maior das neblinas que era minha cabeça agora a voz dele sempre seria um farol. Estava ali, esperando por mim.
— A duquesa está ótima, se descansar não há porque de alarde.
Descansar, sim, era do que precisava e queresse ou não descansaria em muito em breve. As pálpebras haviam ficado então insuportavelmente pesadas e fechavam-se hora em hora contra minha vontade.
— Como pode estar ótima? Anda fraca e desmaia pelos cantos — A voz de Jacob era hostil.
O que queria era levantar daquela cama, agora mesmo. Diabos quando precisava parecer forte era quando fraquejava, já não conseguia ver mais do que neblina diante de meus olhos e até pensar tornava-se difícil.
Tinha a cabeça vazia, leve e tudo o que ecoava eram as vozes de Jacob e do médico, sem sentidos nenhum do lado de fora. Tudo era névoa. Malditos remédios.
— Ora Jacob levando-se em conta sua condição eu diria que isso é uma coisa bastante comum.
— Do que está falando?
— Estou falando que a duquesa está grávida, parabéns.
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