Naive - Hiatus
17 Capítulo dezesseis
Notas iniciais
Haviam se passado seis dias. Seis dias angustiantes, seis dias a base apenas de sangue animal, nada além das galinhas e em algumas noites porcos roubados e sugados até não haver mais nem mesmo uma gota.
A falta de sangue humano já começava a causar os primeiros efeitos. Uma dor de cabeça infernal, como um enxame de abelhas na cabeça que nunca parava, além da tontura de tempos em tempos que deivaxa a visão turva e branca como em um dia de nevasca.
Alguma coisa na semana havia sido boa, ao final de tudo. Havia ficado com a família, com a minha mãe, mas isso só pareceu acontecer para confrontar-me com a verdade de que eu não era mais a mesma e de que as coisas não eram mais iguais.
Ao longo dos dias havia recuperado-me do ataque também. Agora podia andar sozinha, fazer eu mesma as coisas que fazia anteriormente. Poderia até mesmo correr, na velocidade que melhor desejasse se isso não fosse amendrontar as pessoas ou levantar as suspeitas de o que eu era.
Dona Isabella Cullen bem que parecia saber que alguma coisa havia mudado. Era astuta como sempre, mas provavelmente deduzia ser algo relacionado com o casamento e havia enfadado-me além do normal com a preocupação excessiva e todos os ''Por que não comes Renesmee? Está tudo tão gostoso.'' Bem, a resposta era simples, porque eu não sentia vontade de comer e sim de beber, a todas as vinte e quatro horas do dia, porque a comida passava com um gosto não muito diferente de areia na minha garganta, mas mamãe provavelmente não gostaria daquela resposta.
Suspirei ao olhar para o céu. O sol numa bola efervescente e laranja se punha a oeste e já parecia tocar nos ondulantes campos verdejantes ao redor do castelo. Eu não iria obedecê-lo e estava verdadeiramente aborrecida por não conseguir, mas aquilo provavelmente evitaria uma tragédia.
Amanhã voltaria para o castelo, para minha casa e tinha toda a certeza, como o ar que respirava agora, que não aguentaria ficar ao lado de Jacob se assim não fizesse, não aguentaria ficar ao lado de ninguém como estava agora e a dor de cabeça só parecia aumentar a cada hora que se passava. Eu precisava de sangue.
Teria que ser rápida. Não poderia correr o risco de alguém sair a minha procura e não achar-me, e despertar todo o desespero exarcebado de Isabella, e todo o autoritarismo de meu pai, e depois a reprimenda, que provavelmente receberia de Jacob, além do olhar de reprovação. Isso se não olhasse-me com asco, mas a quem poderia culpar? Teria de ser uma caça rápida, limpa, uma caça como eu nunca havia conseguido antes.
E antes mesmo de o pensamento se concluír os pés já se moviam, andejavam na velocidade normal, a que todos estavam acostumados. Não poderia dar-me ao luxo de correr e alguém estar a fitar pelas janelas, mas assim que chegou a floresta, assim que senti o cheiro úmido da relva e das folhas intactas as pernas moveram-se por vontade própria, na velocidade vertiginosa que transformava toda a floresta em um borrão verde musgo. Logo era instinto e apenas isto, fora ele que guiou-me a leste, seguindo o caminho contrário ao que o sol fazia todos os dias. Meus pés mal sentiam o contato com o chão, o vento batia furioso e impiedoso contra meu rosto quando finalmente o cheiro fez-me parar.
Era um homem na altura dos quarenta anos, com os cabelos em um castanho rude que faltava no topo da cabeça e fazia-a brilhar contra o sol alaranjado. Sob o nariz um pomposo bigode e suas roupas surradas e mal cuidadas tampavam a exorbitante barriga.
Um único movimento rápido e tinha-o de frente para mim. Encarou-me com uma expressão que primeiro era de susto e surpresa, mas que rapidamente transformou-se em um sorriso lascivo enquanto encarava-me o corpo.
— Posso ajudá-la senhorita?
— Certamente que sim — Foi apenas o que fora dito antes de dar alguns passos mais na direção do homem que ainda trazia no rosto o sorriso exultante.
O sorriso não durou muito, na verdade durou apenas os segundos até que percebesse que a força exercida em meus braços contra seu pescoço era demais, o tempo que levei para que as presas saíssem e encravassem na carne gorda de seu pescoço e o sangue jorrasse, como uma torrente quente contra minha boca enquanto ele tentava debater-se debaixo de meus braços com seus gritos reduzidos a um irritante chiado desesperado sob a palma da minha mão.
Suguei-o até que não restasse mais o que haurir, mesmo depois de seu coração fatigado entregar-se na batalha entre a vida e a morte e seu sangue já não saísse tão quente ou potente como antes, mas suguei-o e em cada gota jorrada contra minha boca sentia a vida do homem vindo a mim quando meu coração bateu onipotente, quando senti-me mais forte, quando a cor e as forças pareceram voltar-me.
Seu corpo fora deixado no chão da floresta, no mesmo local onde o crime havia acontecido. Não havia tempo a se perder e nem mesmo falsos moralismos com o que se preocupar. Dali a alguns dias provavelmente achariam o corpo e culpariam a alguma raposa, ou lobo, ou javali, qualquer coisa andante e com vida, mas com certeza a filha de Edward Cullen não estaria no meio das suspeitas.
Quando retornei ao quintal o sol já não estava mais no céu, mas nem tampouco ainda as estrelas. Lisa, Cassie e Alex caminhavam ao redor gritando meu nome quando Lisa avistou-se.
— Renesmee! — Bradou enquanto corria ao meu encontro.
Ansiosamente lancei o olhar mais minucioso e perspicaz ao meu vestido, que ironicamente naquele momento era bege, mas pela primeira vez a caça fora realmente limpa. Não havia nenhum trapo do vestido fora do lugar e nem mesmo uma única gota de sangue escarlate, agradeci aos céus por isto.
Quando alcançou-me lançou os braços magros ao redor do meu pescoço, fazendo sua risada sonora e hílare retumbar em meus ouvidos. Então desprendeu-se de mim e quando retornou a falar tinha os cenhos franzidos e a boca apertada em uma expressão tenuemente irritada.
— Estas a ficar louca de vez? Onde estavas? Como sais à floresta novamente sozinha depois de tudo o que aconteceu?
Por detrás de seus ombros observei Alex aproximar-se e Cassie seguir caminho em direção à casa acenando com um sorriso gentil.
— Estava apenas dando um passeio. Gosto de andejar, gosto da natureza.
Meia verdade. Andar nunca havia incomodado-me muito desde de que a distância não fosse exorbitante, agora isso não era mais um problema realmente e bem, gostava da natureza até certo modo.
Perguntava-me quanto tempo teria demorado na caçada. Poderiam-se ser segundos, minutos, horas ou até dias. Quando se tratava de sangue o tempo já não importava, nada importava.
— Quer dizer então que a Nessie guarda dentro de si um espírito libertino e truculento? — Alex disse ao aproximar-se com seu sorriso galante e os olhos azuis luzindo.
Enlaçou a cintura de Lisa e beijou-lhe o pescoço, passando protetoramente as mãos no pequeno montículo de sua barriga. Por incrível que se parecesse sua barriga e seus seios pareciam crescer um pouco mais a cada dia.
— Como nem imaginas Alex — Gracejei.
Poderia ser bastante coisa, mas atlética nunca fora uma das características que qualquer pessoa daria-me, ou isso fora pelo menos antes da transformação. Alex sim era atlético, praticava todos os esportes que conhecia e tinha muitos prêmios de torneios.
— Seria prudente que passasse a tomar algum cuidado, qualquer dia desses apareço em um de seus torneios e teremos uma nova campeã em Devon.
— Vamos, conte-me.
Lisa rolava e sobre minha cama enquanto seu cabelo claro ondulava bagunçado na frente de seu rosto. Como não obteve resposta apoiou-se nos cotovelos e encarou-me com os olhos azuis.
Permaneci calada, grande parte das coisas que passavam-se em minha cabeça não poderiam ser contadas, nem mesmo para Lisa, que era a pessoa em quem mais confiava no mundo.
— O que estas a passar nesta cabecinha avoada — Ela insistiu sorrindo.
Era incrível como apoiavasse sobre a barriga que começava a crescer como se nada estivesse ali.
— Não é nada.
— Se ganhasse algum dinheiro por todas as vezes em que ouço "não é nada", mas na verdade é alguma coisa estaria agora montada numa montanha de moedas de ouro.
Içou os braços ao ar e levantou-se da cama. Sentou no chão, ao meu lado, em meio a todo o caus que era o tecido de seu robusto vestido verde, com os braços pendentes na cadeira onde eu estava.
— Vamos Ness, sou sua prima, sou sua amiga. Sabes que podes contar comigo. Sempre pôde, por que agora seria diferente?
Lisa era insistente, uma coisa que parecia ser um mal de família de uns tempos para cá, mas de algumas coisas, coisas que realmente enchiam minha cabeça, poderia discorrer com ela.
— Estava pensando em Jacob — Suspirei.
Lisa sorriu, um sorriso de alguém que está interessado no que tinha a falar e olhou-me com os olhos luzentes.
— Alguém está anciosa por voltar para casa — Cantarolou. — Este brilho no olhar não esconde, ama-o!
— Amo, cada célula de meu corpo ama, mas e ele? É tão inconstante, tão imprevisível. Nunca sei o que ele pensa, nunca sei realmente o que ele quer ou espera e isto simplesmente deixa-me aflita.
Lisa ao meu lado suspirou.
— Não es a única aflita neste quarto.
— Conte-me suas aflições prima. Não conseguiu achar um vestido dourado bonito nesta cidade?
Lisa sorriu ironicamente.
— Preocupo-me de que algumas semanas mais e estarei tão grande que não será mais possível satisfazer Alex, se é que entende-me — Ergueu os olhos ao alto e soltou um longo suspiro. — Então receio que Alex arrume uma meretriz qualquer enquanto isso.
— Alex jamais faria isso, — disse com toda a certeza que tinha. Alexander Dufroy não parecia o tipo que procura prazer em outra enquanto a mulher está em casa grávida. Tratava Lisa bem, tão bem quanto pouco vi algum homem tratar uma mulher — ele te adora.
— Falas como se ainda tivesse dez anos — Dirigiu seu olhar às janelas, à noite escura e coberta de nuvens que havia caído. — Queria acreditar que sim mas a vida não é como nas histórias, Alex é um homem e é isso o que os homens fazem.
Lisa estava certa, adultério era tão comum como tomar um chá à tarde. Ainda assim a ideia de Alex com outra soava um tanto quanto absurda aos meus ouvidos.
— Ainda assim não imagino Alex fazendo isto, por isto receio não compartilhar de seus medos infundados.
— Discorri com minha mãe sobre isso, sabe o que me disse? — Dirigiu-me novamente o olhar, com um sorriso no canto dos lábios. — Para não me preocupar, que eles sempre voltam e contou-me que meu pai arrumou uma amante quando ficou grávida de Richard e de mim. Uma amante gorda, ela disse aos risos. E isto, segundo ela, deveria tranquilizar-me.
Jacob também teve uma amante, por um breve período, a qual eu matei, mas dizer aquilo para Lisa parecia que não ia tranquilizá-la, muito ao contário.
— Bem todos sabem que Rosalie tem seu jeito singular e túrbido de reconfortar as pessoas.
— Eu que o diga — Lisa riu.
Levantei-me da cadeira e sentei ao seu lado, puxei-a para meus braços embalando-a em um abraço.
— Tudo dará certo, verá.
— Dará — Confirmou. — Tanto para mim, quanto para você.
O jantar foi servido às oito, como sempre costumava ser na casa do conde Edward Cullen. Delongas era uma coisa que ele não admitia. A mesa estava cheia, como a algum tempo não estava e a família redizia reunida quase toda, por exceção de Jacob, mas imaginá-lo ali parecia um tanto incoercível.
Até mesmo vovô Carlisle estava presente. Sentado à ponta da mesa, comia calado. Eu sabia, assim como todos, que sentia falta de vovó, ainda que fosse entufado o suficiente para não admitir. Depois de sua morte não era mais nem metade do homem pândego e jubiloso que custumava ser apesar de sempre tratar a mim e a todos com docuras e gentilezas, não havia homem em toda Devon que fosse mais educado ou honroso que o avô e isso enchia o peito de orgulho na mesma proporção que de comiseração. Deveria ao menos tentar, escolher outra mulher para passar os últimos anos, poderia ser mais jovem, bondosa como ele, rica...
— Bem Emmett, parece-me que passará à minha frente novamente — O pensamento e o barulho dos talheres e conversas foram interrompidos pela voz de meu pai que atraiu a atenção de toda a mesa. — Teve filhos primeiro e agora terá netos também.
Emmett de frente para si sorriu. Não era um ultraje mas sabíamos que Edward não gostava que o irmão mais novo fosse o primeiro a ter filhos, e agora a ter netos.
Meu pai casou-se primeiro e minha mãe não conseguia ter filhos, ele não a culpava, amava-a demais para isso, mas o pesar não era coisa que fosse capaz de controlar e desde o nascimento de Richard ele existia. Então eu nasci, mas o tão esperado herdeiro homem não veio, ele não viria nunca.
— Diga-me Nessie, quando me dará um neto?
Eu sorri para ele, um sorriso que mostrava mais do que cordialidade mas sim lástima. Edward não teria um neto, assim como nunca teve um filho. De repente a ideia de Jacob, antes tão abominável, não pareceu ser tão ruim assim. E se pegássemos uma criança? Um criança de outra pessoa para poder chamar de minha.
Limitei-me a olhá-lo nos olhos e dizer:
— Bem, Jacob e eu estamos trabalhando nisto.
Risos e gracejos foram abafados o máximo que poderiam, mas Lisa não conseguiu conter-se e gargalhou com altivez.
— Desculpe! — Tentava dizer em meio a crise de risos.
Ainda tentava entender o que se passava quando a voz de Alex tornou tudo mais simplório e óbvio.
— Ora acho que Jacob está tão feliz quanto seu pai por vocês estarem trabalhando nisto então — Colocou tudo em um tom malicioso que não deixava sombras de dúvidas.
Senti o rosto queimar, com o entendimento veio a vermelhidão, não só de meu rosto, mas no de meu pai também que não fez questão em controlar a careta descontrariada enquanto o resto da mesa não limitou-se e gargalhou alto, até mesmo minha mãe juntando-se a eles.
Quando a alvorada nasceu vinda do horizonte leste já permanecia acordada a umas boas duas horas. Agradeci quando os primeiros dedos serpentejantes do nascer do sol infiltraram as janelas com seus feixes dourados. Inquieta na cama, remexi-me ansiosa, perguntando-me quando Jacob mandariam buscar-me, mas quanto antes começasse o dia, antes o terminaria e o faria em casa.
Não demorou muito. Bastou que tomasse, forçadamente, o desjejum e arrumasse-me para que ouvisse o barulho da carruagem contra a estrada pedregosa antes mesmo de avistá-la. Avisei os criados para cuidar de minha mala e esperei-a aparecer na estrada da varanda, sob uma fina que garoa que começava a cair e o coração saltando do peito de excitação.
Notas finais
Deixem os reviews lindos de sempre que não fazem as mãos caírem para me deixar inspirada haha
Beijinhos.
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