Nêmesis - A história nunca contada

2 Capítulo 1 (Parte 2) - 21 de junho


August acorda, vai ao banheiro, olha no espelho e passa a mão em seu rosto com certa frustração em relação a sua aparência cansada, seu ritual matinal. Em seguida escova os dentes, sai do banheiro, coloca a camisa que estava em cima da cama. Pega sua câmera, que funcionava como diário, já que não gostava muito de escrever, e coloca em uma mochila que estava ao lado da cama. Sai do apartamento abandonado onde mora e entra no carro que havia roubado.

Ligo a câmera:

— Oi, meu nome é August. Hoje é 21 de junho e tive uma recordação do que estava há muito tempo esquecido – diz com o veiculo já em movimento. – Ah, é, bons tempos aqueles! Antes de tudo isso acontecer, antes de termos sido declarados uma ameaça mundial, minha irmã ter sido raptada, meus amigos torturados e mutilados na minha frente, e minha cabeça ter sido colocada a prêmio – após um longo suspiro continua. – Bom, o básico da vida de qualquer um – ri com ironia. – O que seria da vida sem riscos? Afinal, a vida é preciosa porque temos apenas uma, e privaram meus amigos desta dádiva. Deve estar se perguntando o motivo, ou talvez não, mas independente do caso irei contar. Tudo isso começou por querer ajudar uma garota, Annie, aquela pestinha. Eu até que gostava dela. Bom, quem não gostaria de uma garotinha de oito anos? Ela era bonita, inteligente – faz uma pausa –, bem que me disseram: "tudo o que é bom, dura pouco". E foi o que aconteceu. Aos poucos, fomos descobrindo a natureza daquela garotinha, o que ela era de fato. Ainda não sei como ela pôde, ou como conseguiu, nos enganar, confiávamos tanto nela!

“Mas tudo bem, esse é o preço que pagamos por confiar em alguém que não conhecíamos. Viramos ameaças sem saber o porquê, mas essa vida não é de toda ruim. Não devo satisfações a ninguém, não consegui confiar em ninguém depois que a minha irmã se foi, ela era única em quem eu podia confiar. Agora, só quero encontrá-la e pra isso estou indo conversar com um cara que eu odeio por tudo o que já me foi sagrado. Eu o odeio, mas quero descobrir quem me colocou nesse pesadelo, assim como você, eu também acho que a minha vida nunca fez muito sentido e vou ver se finalmente algumas peças se encaixam. Prontos pra descobrirem como é um dia normal para mim? Vamos lá, não vão se arrepender, porque é bem divertido.”

Após dar uma freada brusca, Gus estaciona desleixadamente em frente a uma casa rústica ao estilo norte-americano, na cor marrom e branca. Pega sua câmera ainda ligada, sua bolsa, e uma espada, e se dirige à porta da casa sem desligar o motor, ou de verificar se não estava sendo seguido. Aperta a campainha da casa e grita com uma voz bem fina:

— Antônio, seu amor chegou, querido!

— Quem foi o engraçadinho que falou isso? –fala abrindo a porta furioso pela piada de mau gosto relacionada à sua mulher que morreu à poucos dias.

— Fui eu, seu desgraçado. – August coloca a espada no pescoço do sujeito pressionando-a contra a traqueia, forçando-o a entrar na casa – Tem alguém em casa, amorzinho? –continua enquanto o joga numa cadeira e tira uma corda que estava amarrada na lateral de sua mochila.

— N-Não, o que você quer comigo?

— Nossa, Antônio, não se lembra de mim?

— Na verdade, não.

— Sou o amiguinho daqueles pobres garotos que você matou no galpão há alguns anos, não se lembra mesmo?

— Então veio me matar? É isso? Vá em frente, seja igual a mim – diz friamente, pois já está acostumado a ser ameaçado diariamente devido ao seu trabalho.

— Tenha calma, apressadinho, tudo no seu tempo. Vamos brincar um pouco, primeiro — termino de amarrá-lo na cadeira.

— O que vai fazer? — responde assustado

— Nada demais, só talvez te causar muita dor, mas vamos ver o quanto você coopera.

— Ah – responde desconfortável –, e o que é isso?

— Isso aqui é um TeanZu, um brinquedinho chinês que eu ganhei. Funciona assim: primeiro prendo seus dedos – ele executa as ações enquanto explica –, e vou girando esta pequena manivela aqui em cima, esmagando até quebrá-los totalmente. O mais divertido? Posso fazer isso muitas vezes que a piada não perde a graça! Vamos começar – aperta firmemente até ajustar perfeitamente o dispositivo nos dedos de Antônio, a ponto de já lhe causar dor. – Porém, o mais importante: onde está a minha irmã?

— Não sei onde ela está, e mesmo que soubesse não diria para um lixo como você — cospe no rosto de Gus.

— Vai mesmo fazer deste modo? Prefere assim? Tudo bem, então... – gira a manivela uma vez, e as pequenas pontas já começam a perfurar sua pele, fazendo-o sangrar. – Vamos tentar novamente: onde está a minha irmã?

— Merda, já lhe disse que não sei onde ela está!

— Por mais que eu não acredite em você, vamos continuar, não tenho o dia todo. Segunda pergunta: por que matou meus amigos?

— Porque mandaram e eu tive que obedecer.

— Nossa, que funcionário prestativo, não? –Gus dá-lhe um tapa no rosto com as costas de sua mão lhe deixando marcado e gira novamente a manivela – Quem foi o mandante?

— Meu chefe – responde já com lágrimas nos olhos pela dor que as pequenas superfícies pontiagudas provocavam.

— E quem é seu chefe? – gira mais uma vez e ouve os estalos de alguns ossos quebrando. – Olha, se eu fosse você, Antônio, não demoraria tanto pra responder, não estou com bom humor. Espere. O que é isso? São lagrimas? Ah, coitadinho, ele está chorando! — outro tapa, agora com mais força, sua fúria estava aumentando. – Se prefere morrer, guarde o pouco de decência que ainda lhe resta!

— Se vai me matar, faça logo, não precisa desta encenação toda! Quer mais alguma coisa?

— Ainda não respondeu: quem é o seu chefe?

— Eu não sei quem ele é. Ele me liga quando precisa de algo. Ligou ontem, inclusive, me pedindo pra encontrar com alguns rapazes no mesmo galpão em que matamos os seus amigos. Se quiser posso levá-lo lá amanhã, apenas tire essas coisas da minha mão.

— Ok, ok, mas antes, dê-me seu celular.

— Está em cima daquela mesa.

August pega o telefone celular e faz uma ligação pra um numero um tanto quanto inusitado (746-7424), e pelo o que Antônio pôde ouvir, o nome da pessoa do outro lado era Rich. Gus pediu que Rich salvasse o numero do telefone com o qual havia ligado pra ele e que o rastreasse, em seguida, volta e retira o dispositivo dos dedos de Antônio pedindo que não sumisse e nem trocasse de número nos próximos dias, até mesmo depois da reunião. Se o fizesse, eles o achariam e terminariam o serviço que haviam começado.

Após ser liberto, o dono da casa vai até a mesa onde havia uma fruteira e procura algo, disfarçadamente, enquanto Gus sai da casa. Gus vira com um sorriso no rosto, mostrando a desert eagle que ele estava procurando na fruteira, o que o fez xingá-lo de todos nomes que lhe vieram à mente.

Quando entra no carro, Gus liga a câmera novamente e relata o ocorrido nos mínimos detalhes e desliga. Chegando ao estacionamento do prédio, esconde o carro em um local especialmente projetado para que não percebessem o veículo.

Entrou no apartamento extremamente exausto, tirou seu coturno, o que é algo raro, já que dormia com ele para o caso de fuga rápida. Alguns minutos depois acorda com um tapa, e com a visão um pouco turva por estar dormindo há pouco tempo, consegue identificar uma garota, um pouco afastada da sua cama, espaço o suficiente para ele pular e a agarrar pela cintura para imobilizá-la e começar seu interrogatório normal para intrusos ou pessoas que interrompem seu tão amado sono, mas era tarde demais. Colocaram um saco na sua cabeça e o arrastaram para fora do prédio. Chutes, socos, tapas, puxões de cabelo sem parar e a última coisa que se lembra foi de levar uma pancada na cabeça, com o que parecia uma madeira ou um pedaço de ferro, e desmaiar.

CONTINUA...