Não vou lutar contra o que eu sinto...
7 Capítulo 7 - Conselhos e desentendimentos
Notas iniciais
No dia seguinte, Kitty andava distraidamente pelos corredores do colégio quando foi abordada por Santana.
S: Quem diria! [disse com um sorriso presunçoso]
K: O que?
S: A imitação mal feita de Quinn Fabray apaixonada pela pessoa que tentou fazer ter uma doença séria como a bulimia.
K: Desculpe? [perguntou atordoada]
S: Marley, estou falando dela.
K: Como você...
S: Eu vi vocês ontem, e acho muito bom você não estar brincando com ela.
K: Não estou.
S: Pra falar a verdade eu pouco me importo, só queria tirar uma com a sua cara antes de voltar pra Nova York, então... [já ia se afastando quando alguém falou, aparecendo de repente].
B: Quanta mentira Santana! Você estava toda animada quando descobriu das duas e depois ficou preocupada de verdade. [disse sorrindo para a namorada]
S: Obrigada Britt, eu amo quando você faz isso. [disse enquanto a beijava]
B: Como está o namoro?
K: A gente não está namorando ainda... Estamos juntas
B: A gente está preocupada com vocês [Santana fez um barulho de protesto, mas não disse nada]. Vocês estão no segundo ano ainda, pode ser complicado.
K: A gente não podia conversar sobre isso em outro lugar? [disse preocupada com a quantidade de pessoas no corredor]
B: Vamos para o auditório! Há essa hora deve estar vazio, vem San [puxou a latina vendo que ela fazia corpo mole].
S: Britt, sério? Eu tinha esperanças de ainda fazer alguma coisa com você antes de viajar!
B: Tem coisa melhor do que ajudar quem está precisando?
S: Eu poderia fazer uma lista para você!
B: San, por favor...
Santana já sabia, por aqueles lindos olhos azuis, que tinha perdido a discussão antes de responder. Ao chegarem lá sentaram-se no palco, Kitty um pouco nervosa. Brittany quebrou o silêncio:
B: Você se sente preparada?
K: Para o que?
B: Para um relacionamento como esse... Algumas pessoas no McKinley não são muito receptivas quanto a isso... Você pretende se assumir?
K: Eu não sou gay.
S: Caramba, da última vez que eu vi a Marley poderia jurar que ela era mulher! [disse fingindo surpresa]
K: Eu sei que ela é uma mulher [olhou cortante para a latina]. É só que isso é muito complicado pra ser definido assim... Eu não sou lésbica, eu não olho para mulheres. Eu gosto dela, só dela... E de uma maneira que nunca gostei de garoto nenhum.
B: Mas você sabe que corre o risco das pessoas descobrirem, ou de você mesma se cansar de esconder isso, não sabe?
K: Não vão descobrir, não podem. Meus pais não aceitariam isso nunca! [elevou um pouco a voz]
B: Pode ser muito complicado... Como ela se comporta em relação a isso? Ela se sente incomodada por esconder?
K: Não, ela nunca reclamou. Pelo menos até agora, tem tão pouco tempo...
B: Como é quando vocês estão sozinhas? [perguntou de repente]
K: Como assim?
S: Sexo. [disse entediada]
K: Ela é virgem... [disse tímida]
B: Vocês já conversaram sobre isso?
K: Eu disse que íamos com calma... Mas... [Brittany a encorajou a continuar falando com um aceno de cabeça] Eu realmente não sei o que fazer...
B: Você precisa ter cuidado com ela.
K: Eu vou ter! Eu só não sei... Como...
S: Sexo é sexo, na hora você vai saber como fazer. [disse firme] Agora que fizemos a boa ação do dia será que eu posso ter um tempo com a minha Britt-Britt?
B: Até parece que você não esteve do meu lado desde que chegou Santana [disse revirando os olhos]. Então Kitty, qualquer coisa é só me procurar, eu vou indo, antes que a San tenha um ataque.
Kitty assentiu e olhou-as sair do auditório. Antes, Santana se virou e indicou seus próprios olhos para depois apontar para a loira, dizendo que estava de olho nela. Levantou-se, ainda pensando na conversa e foi em direção ao campo, tinha treino dali a meia hora. Estava andando distraída quando alguém delicadamente segurou seu braço.
M: Onde esteve o dia todo? [perguntou com a sobrancelha levantada]
K: Aula. [abriu um sorriso ao ver quem era]
M: Não te vi no almoço [fez uma cara triste]
K: Eu estava conversando com Brittany na verdade... E com Santana. [disse temerosa]
M: Sobre o que? [perguntou confusa]
K: Elas sabem, sobre a gente.
M: Você contou?
K: Sim e não...
M: Como assim?
K: Eu explico outra hora, agora eu tenho treino.
M: Ah, ok. [disse desanimada]
K: O que foi?
M: Nada... Saudade. Eu sei que pareço ridícula porque eu te vejo toda hora e...
A morena parou de falar. Kitty arriscou um beijo, vendo que não havia ninguém no corredor, mas logo se afastou ao ouvir passos.
K: Você não parece ridícula. Eu também sinto [apertou sua mão e saiu andando, deixando-a com um sorriso bobo no rosto].
No treino, Jessica se aproximou de Kitty, falando:
J: Você sumiu ontem depois do treino, nem estava com a gente quando pegamos a filha da mulher da cantina sozinha no corredor.
K: Foram vocês? [o sangue de Kitty ferveu e ela olhou com raiva para a garota]
J: O que foi?
K: O nome dela é Marley, e eu não quero saber de nenhuma de vocês pegando no pé dela de novo. [a frase saiu calma, mas firme, o ódio pontuado em cada palavra, A loira se segurava para não avançar nela].
J: Quê? Você ficou maluca? [olhou-a incrédula]
K: Eu estou te avisando. Se vocês encostarem nela de novo...
Sue Silvester: O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI? POR QUE VOCÊS AINDA ESTÃO PARADAS? PREGUIÇOSAS! ACHAM QUE A ROTINA DE VOCÊS É DIFÍCIL? TENTEM VER UMA APRESENTAÇÃO DO GLEECLUB ATÉ O FINAL! ISSO É QUE É DIFÍCIL! [gritou no megafone]
Kitty ainda deu uma última olhada na garota, que sustentou seu olhar. Quando o treino acabou foi a primeira a sair para tomar banho. Fez isso em um vestiário afastado, não queria discutir outra vez. Pegou o celular e digitou uma mensagem para Marley:
K: Posso te levar até em casa? Me encontra na porta do colégio.
M: Claro que pode, já estou indo pra lá.
Caminhavam em silêncio. A morena estava com uma aparência abatida. Quando já estavam afastadas do colégio Kitty segurou sua mão, entrelaçando os dedos. A maior parte da tensão que a acompanhou desde o treino se foi com aquele gesto. Ela beijou o ombro de Marley.
K: Você está bem?
Marley assentiu com um aceno de cabeça.
K: Por que você não me contou que tinham sido as cheerios?
Viu a confusão no rosto da morena, então acrescentou:
K: Que fizeram aquilo com você ontem?
M: Eu... Eu não sei. Fiquei com medo.
K: Medo de que?
M: Elas são suas amigas Kitty...
K: Elas não são minhas amigas. E mesmo que fossem, você é a minha garota, e eu não vou permitir mais esse tipo de atitude!
Marley sorriu e beijou o rosto da loira. Andaram um pouco e Marley cambaleou, parou e fechou os olhos.
K: Você comeu hoje? [disse preocupada]
M: Eu almocei.
K: Eu vou ter que arrombar seu armário todo dia pra você tomar o café da manhã?
M: Não... [sorriu fraco para ela] Eu... Estou tentando...
A última palavra morreu na boca da morena. Ela caiu para frente, fraca. Kitty a segurou na mesma hora.
K: Marley! Ei, acorda [disse preocupada colocando uma mão do rosto dela]. Você almoçou mesmo?
Ela não respondia. Kitty a carregou no colo até sua casa. Sentou a morena com cuidado para tirar sua mochila e procurar a chave. Abriu a porta, colocou a mochila do lado e carregou-a de novo, deitando-a no sofá. Chamou-a algumas vezes, com as duas mãos em seu rosto, que suava. A morena abriu os olhos, atordoada.
M: Eu to passando mal... [disse baixinho]
K: Estou vendo. Você não almoçou não é?
M: Almocei.
K: E ficou com a comida no estômago? Ou vomitou? [perguntou séria]
Marley desviou o olhar. A loira suspirou.
K: Você vai comer agora.
Era uma ordem. Kitty levantou a encaminhou-se até a cozinha. Minutos depois voltou com um prato na mão.
K: Achei macarronada na geladeira e esquentei pra você.
Colocou o prato na mesa e ajudou Marley a se sentar. Pegou o prato de novo e se sentou também, dando comida na boca da morena, que comia sem dizer nada.
K: Você tem que procurar um médico.
M: Minha mãe já está pagando um desde as Sectionals... Eu quero ir pro meu quarto.
Kitty segurou em sua cintura e levou-a até o segundo andar. Ajeitou os travesseiros da morena na cabeceira da cama para que ela pudesse ficar sentada e deitou em seu colo, fazendo carinho em sua perna. Naquele mesmo instante elas escutaram uma porta se abrir no andar de baixo. As duas ficaram tensas na hora.
K: É a sua mãe?
M: Eu acho que é.
K: O que eu faço?
M: Pula a janela.
K: Muito engraçado.
M: Eu vou lá em baixo, espera aqui. [disse se levantando]
Cinco minutos depois Marley voltou agitada como se tivesse tido uma ideia genial. Kitty segurou o riso.
M: Você pode sair pela cozinha já que o quarto da minha mãe fica de frente pra sala. Ela foi tomar banho.
K: Eu não queria deixar você sozinha. Eu deixei de ver você durante uma parte da manhã e olha o que aconteceu...
M: Eu não vou fazer nada [interrompeu]. Eu prometo.
K: Você está melhor?
Marley assentiu e a puxou até a cozinha, abrindo a porta devagar e dando um beijo rápido na loira. Assim que tentou fechar a porta Kitty forçou-a de volta e beijou a morena de novo, mais demorado dessa vez.
M: Vai! [disse sorrindo, tentando empurrá-la].
K: Olha que eu posso não voltar [disse sobre seus lábios]
M: Eu sei que vai voltar.
E com um último selinho, Kitty foi embora. Marley sentou-se na mesa da cozinha, pensando. A mudança da loira tinha sido rápida e gritante. Ela a fazia feliz agora. Como isso era possível para uma pessoa que até pouco tempo atrás só sabia machucá-la?
Sua mãe entrou na cozinha, estranhando a expressão da filha.
Mi: O que aconteceu, meu amor?
M: Mãe... A senhora acha que é possível uma pessoa mudar?
Mi: Claro que é...
M: Digo, mudar muito, totalmente.
Mi: Eu não acho possível uma pessoa mudar sua essência, o que ela é... A não ser em uma situação extrema. Mas ela pode mudar seus hábitos, seus vícios.
M: Por amor?
Mi: Principalmente por amor. Por que você está me perguntando isso?
M: Eu não sei [mentiu]. Eu vou para o meu quarto.
O resto da semana se passou tranquilamente. A não ser o fato dos integrantes do grupo do coral estranharem a súbita amizade entre Marley e Kitty. Apenas Brittany sabia. Kitty conversou com a morena sobre isso, dizendo que tinha conversado com ela e Santana, mas omitiu certas partes da conversa. De todo mundo, os mais incomodados com isso eram Unique, que sempre as olhavam com uma expressão curiosa, Jake e Ryder, que ainda não havia desistido da morena. Todos os dias a loira levava um lanche para Marley e ficava de olho nela para ver se ela estava comendo mesmo. Na sexta feira, quando Marley abriu seu armário havia apenas uma única rosa azul lá dentro. Ela abriu um sorriso de felicidade, não conseguia esperar pelo final da aula, estava doida para beijar a loira. Mandou uma mensagem para ela dizendo para se encontrarem no auditório. Estavam na última fileira abraçadas conversando quando Marley disse:
M: Sabe, eu estava pensando sobre o baile... [começou cautelosa]
K: Sim?
M: Sr. Schue quer que eu cante uma música e eu realmente queria ir... Estava pensando se a gente podia sair depois disso.
K: Pode ir. Eu encontro você depois. [disse fria]
M: Não é isso, eu queria que você fosse comigo. [encarou a loira]
K: Marley...
M: A gente não precisa ir junta, eu não vou ninguém e você não vai com ninguém e depois a gente simplesmente sai de lá.
K: Puck me convidou.
M: Jake? [se assustou]
K: Não, o irmão dele.
M: Sério?
K: Sim.
M: E você quer ir com ele?
K: Isso é uma pergunta válida Marley?
M: Eu pensei que seria engraçado... Eu e o Jake, você e o Puck. [disse rindo, a loira olhou-a com uma falsa expressão indignada].
K: Ah, você acha que seria engraçado? [disse cravando as unhas na barriga da morena, começando a fazer cócegas nela].
M: A... Acho! [disse rindo]
E as duas começaram a travar uma guerra naquele instante. Marley se contorcia de tanto rir e Kitty gargalhava.
M: Ki... Kitty, para! Por favor! [disse com lágrimas nos olhos de tanto rir]
K: Não paro! [disse caindo sobre ela]
O movimento fez a bolsa de Marley cair, com tudo o que estava dentro dela. Kitty na mesma hora parou de fazer cócegas, deixando a morena respirar. Começou a pegar as coisas que tinham caído, mas quando olhou embaixo do banco para ver se tinha alguma coisa viu uma caixa de remédio. Pegou para olhar e viu que eram laxantes.
K: Marley, me diz que você não tá usando isso aqui [disse levantando a caixinha]
A garota que ainda ria ficou com uma expressão séria.
M: N... Não... Não estou! [olhou para o lado, nervosa].
K: Não mente pra mim.
M: É da semana passada.
K: Eu não nasci ontem.
M: Eu não estou mentindo pra você! [gritou, assustando a loira].
K: Eu vou jogar isso fora. E não quero saber de você usando isso de novo.
M: O problema é meu.
K: O quê? [olhou-a incrédula]
M: Se eu uso ou não o problema é meu. [manteve o tom]
K: Não, o problema não é seu. Eu vou fingir que você não disse isso e vou jogar isso fora agora.
Marley se levantou e tirou a caixa da mão de Kitty, que pegou de volta.
K: O que você está fazendo?
M: Eu estou cansada disso, o que eu faço é problema meu e eu não quero ninguém me julgando!
K: Eu não estou te julgando! Eu nunca disse nada pra você!
M: Disse! [gritou de novo] Desde que você me conheceu você fala o quanto estou gorda, o quanto o meu corpo não é tão perfeito quanto o seu, o quanto eu devia me esforçar pra isso!
K: A sua mãe está pagando um médico pra você tratar disso e eu já falei que nada do que eu disse era verdade! [aumentou o tom, envergonhada].
M: Como não era verdade? [mantinha o tom] Eu quase não entrei no meu figurino quando a gente reprisou Grease! Como o que você dizia podia ser mentira?
Kitty respirou fundo e encarou o chão quando disse baixinho:
K: Eu diminuí suas roupas...
M: O quê?
K: Todo dia, quando eu ficava sozinha no auditório eu costurava suas roupas, pra elas ficarem cada vez menores. [dizia ainda encarando o chão]
Marley a olhou incrédula. Pegou a caixinha de sua mão e tampou longe no auditório. E saiu pisando firme, deixando a loira sozinha. Kitty largou-se em uma das poltronas e respirou fundo várias vezes. Idiota, pensou. Levantou-se e foi correndo atrás dela.
Enquanto isso Marley corria por um corredor e se largava do lado de um armário, chorando. Jake apareceu, ao ver a cena aproximou-se com cautela e se agachou, limpando as lágrimas da morena.
J: Hey... O que aconteceu com você?
M: Nada, é que... [soluçava] Eu...
Jake puxou o rosto de Marley para o seu, beijando-a. A garota não percebeu o movimento, assustando-se quando se deu conta. Tentou afastá-lo com cuidado, mas não conseguiu, ele a mantinha firme. Foi o suficiente para uma loira parada do outro lado do corredor refazer seu caminho de volta, saindo dali.
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