Não vou lutar contra o que eu sinto...
8 Capítulo 8 - Afastamento e baile
Notas iniciais
Enquanto andava Kitty pensava em tudo que acontecera desde que olhou pela primeira vez para Marley. A garota sentada sozinha numa mesa afastada no refeitório, com feições delicadas, olhos azuis, cabelos cor de chocolate. A loira não sabia se tinha uma opinião formada sobre destino, mas ao olhar aquela figura que parecia tão frágil parecia que se formava um magnetismo entre as duas, e ela não conseguia quebrá-lo. Lembrou o quanto isso lhe pareceu errado, completamente fora das bases em que fora criada. Lembrou cada pequena maldade feita, cada palavra proferida para a morena. Lembrou-se da voz perfeita, forte, contrastando com seu jeito delicado. A loira pensou até em Jake, quem vira como uma forma de afetar a garota, sem nem saber o porquê de querer tanto afetá-la. A autoestima da morena levou sérios baques com ela. Insultos, insinuações. E então olhares, vontade, desejo, ciúme. Ela se recusava a acreditar. Marley dançando. Quem daria alguma coisa pela morena? Mas quando ela dançava, sabia o que estava fazendo, e era linda. Dor. Ela fizera a garota desmaiar nas Sectionals. Quem liga pras Sectionals? Ela só queria saber se Marley estava bem. E se martirizava ao pensar que era responsável por aquilo. E responsável por uma série de lembranças ruins que rondavam na cabeça da morena. Talvez aquilo fosse errado mesmo. Como ela podia ter o direito de querer alguém que só soube machucar? Parecia um capricho dela. Uma forma de quebrar a morena por completo. Talvez... Ela não a merecesse. E Marley se deu conta disso. De que adiantava agora, dizer que gosta dela, cuidar de seu bem estar, beijá-la, dizer coisas doces em seu ouvido? De que valeria uma única semana com Kitty apaixonada compensando sentimentos tão pesados que a fizera ter? Não parecia muita coisa olhando por esse lado. Era tudo muito novo, tudo muito frágil. Como que ela queria que a morena se sentisse segura?
Kitty percebeu que voltara ao auditório. Sentou-se e fechou os olhos pensando. Uma lágrima solitária caiu. É incrível como lembrar-se do beijo que acabara de presenciar mexia com ela, embrulhava seu estômago. É claro que ela voltaria para Jake. Isso parecia lógico em sua cabeça agora. Sentia uma raiva culpada, como se não tivesse o direito de sentir. Mais lágrimas silenciosas desceram. Não era do feitio da morena dizer aquelas coisas, gritar daquele jeito. Ela não era agressiva. “Você mesma causou isso”, pensou. A loira não aguentou mais ficar ali. Levantou-se e foi embora para casa, os pensamentos que não compartilhava com ninguém sobrecarregando sua cabeça.
Sentiu os lábios do garoto colados aos seus, e suas mãos segurando-a firmemente. Não retribuiu, tentava mostrar a ele que não queria aquilo. Foi quando Jake se tocou e se afastou, olhando aqueles olhos vermelhos de chorar e assustados.
M: Jake! O que você tem na cabeça? [disse afastando o rapaz de vez e levantando com raiva]
J: Me desculpe! Eu pensei que talvez...
M: Que talvez eu largada no chão chorando quisesse exatamente nesse momento ser beijada a força?
J: Não! Não foi isso, é que eu te vi assim e não me segurei. Pensei que talvez se eu te beijasse você me corresponderia. [abaixou a cabeça] Me desculpa, de verdade! Eu estou preocupado com você.
M: Ok. [disse enxugando as lágrimas] Eu estou bem.
J: Não está. O que aconteceu? A Kitty te fez alguma coisa? Eu sabia, desde o momento em que vi ela fingindo ser sua amiga...
M: Ela não estava fingindo nada! [cortou]
J: Qual é Marley, quais são as chances dela estar sendo sincera? A Kitty é falsa, e maldosa!
M: Não fala assim dela!
J: É por causa dela que você está assim? [Marley ficou quieta] Eu sei que é.
A morena deu um suspiro cansado, passando as mãos pelos cabelos. Depois virou as costas e saiu andando.
J: Você não me respondeu aquele dia.
A morena parou, de costas, para escutá-lo.
J: Tem outro cara?
M: Não. Não tem outro cara. [e saiu andando]
Marley não sabia o que tinha acontecido com ela. Ela se incomodou tanto com Kitty no auditório que foi extremamente agressiva. Ela não era assim, mas se sentiu ameaçada, envergonhada. Uma coisa que tinha incomodado-a por dias foi o seu figurino em Grease. Lembrava-se de ter ficado cada dia mais depressiva por não conseguir entrar em suas roupas. E Kitty estava lá, do lado dela, o tempo todo, afetando-a. por um momento tudo o que a loira se tornara nos últimos dias parecida uma tremenda piada de mau gosto. A cheerio a tinha em suas mãos. Fora capaz de fazê-la se sentir depressiva e feliz. Foi responsável pelo seu pior e seu melhor momento. Ela podia fazer o que quisesse. Marley sabia que podia, sabia que estava vulnerável para a loira como nunca esteve com ninguém e isso podia acabar com ela. Kitty sempre tinha chamado tanto a sua atenção... Marley às vezes sentia seu olhar sobre ela e ficava extremamente sem graça. Quando aquilo tinha começado? Quando tudo o que a loira fazia passou a ter tanta importância para ela? Qual foi a primeira vez em que ela se pegou pensando em Kitty?
Quando a morena se deu conta tinha chegado em casa. Um pensamento perpassou sua cabeça. Puck a tinha convidado para o baile? Como? Quando? Não eram as meninas que tinham que convidar? Balançou a cabeça. Era incrível a facilidade com que pensamentos ruins podiam tomar o controle de você nas piores horas. O baile era amanhã, pensou suspirando. Foi direto para o quarto, deitou em sua cama e dormiu com a roupa que estava.
O dia se passou e nenhuma das duas fizera contato uma com a outra. Marley estava magoada, era Kitty quem tinha que procurá-la, não? Kitty também estava magoada com o beijo que vira. Queria dar espaço à morena. De que adiantava lutar por ela agora? Ela sentia que já tinha começado perdendo. Uma dúvida estava no pensamento das duas. E o baile? Elas tinham combinado de se encontrarem e saírem depois. Marley tinha que ir, já estava ensaiando a coreografia da música que iria cantar com as outras meninas. As duas dormiram pensando uma na outra. Nenhuma das duas conseguia ligar.
De manhã o celular de Kitty tocou, era um número desconhecido. Resolveu atender.
K: Alô?
P: Kitty?
K: Puckerman? Como você tem o meu número?
P: O Jake me passou... Eu liguei pra saber se você vai no baile comigo mesmo...
K: Eu... Eu não sei...
P: Vamos Kitty! Vai ser divertido, eu estou com saudades dos bailes do McKinley.
K: Eu não estou muito a fim de ir.
P: Eu prometo que vai se divertir. Eu busco você em casa, eu não vou tentar nada, a gente vai como amigo.
K: Puck, eu te conheço...
P: Você não me conhece.
K: Conheço o suficiente.
P: Vamos Kitty!
K: Você não vai me deixar em paz, não é?
P: Não!
K: Ok, eu vou.
P: Eu te busco às 21h, beijo.
K: Beijo.
Kitty não sabia se estava fazendo o certo. Queria estar perto de Marley e sabia que ela iria ao baile. Mas aparecer lá com Puckerman? O que ela iria achar? A cena do beijo passou pela sua cabeça novamente e ela sentiu ódio e um aperto imenso no coração. Ela disse que não gostava de Jake, apesar de tudo. Bastou um desentendimento e aquilo acontecia. A loira não quis nem saber mais, ia com Puck e estava resolvido. Pegou seu celular com um pouco de esperança de que houvesse uma ligação ou apenas uma mensagem. Nada. Sentiu-se uma covarde. Por que ela mesma não ligava? Marley saiu correndo chorando por causa dela, ela devia procurá-la. Mas então o beijo voltava à sua mente, torturando-a. Não era por uma ligação que queria resolver aquilo, ia acabar se estressando mais. Sabia que tinha um gênio difícil, então preferiu encontrar a morena no baile. Não pôde deixar de se preocupar, e se ela não comesse direito hoje por sua causa? Suspirou. Levantou e foi tomar banho.
Marley estava deitada em sua cama há mais de uma hora encarando o seu celular. Por mais que estivesse com raiva como podia evitar sentir saudades da loira ou querer que ela ligasse? Por que ela não tinha ligado? Estava angustiada. Levantou para tomar banho também.
O dia se passou nesse silêncio. As duas se arrumaram. Kitty pensando em como estava Marley e Marley pensando onde estava Kitty. Como combinado, Puck buscou Kitty em casa às 21h enquanto Marley ia sozinha. A festa estava agitada, várias pessoas já haviam chegado. Ryder assim que olhou pra Marley foi direto até ela.
R: Você está linda! [sorriu para a garota]
M: Obrigada [disse envergonhada]
R: Veio sozinha?
M: É... Não convidei ninguém [disse triste]
R: Você sabe que se tivesse me convidado eu ia com você, não?
Marley ficou encarando Ryder, sem resposta, quando Unique apareceu.
U: Marley, você está a-rra-san-do! [exclamou, pegando uma mão da garota e fazendo dar um giro no mesmo lugar].
M: Você também está! [disse rindo] Gente... Vocês viram a Kitty?
Os dois negaram.
R: Essa amizade repentina de vocês é muito estranha.
M: Por quê?
R: Eu não sei, eu não paro de pensar que ela está tramando alguma pra cima de você.
M: É... [disse olhando para o chão]
A garota que tinha convidado Ryder chegou e ficou conversando com eles. Até que as outras meninas do gleeclub chegaram também e puxaram Marley e Wade para trás do palco, elas já iam cantar.
Kitty chegou com Puck e ficou conversando com ele até que as garotas subiram no palco. Seu coração perdeu um compasso. Viu Marley assumindo seu lugar em frente ao microfone e não conseguiu parar de olhar. Linda? Não, ela estava deslumbrante! Usava um lindo vestido verde e curto. E a música que cantava era extremamente provocante. De repente só existia a morena ali, mais ninguém a sua volta.
Marley estava cantando quando avistou Kitty, paralisou por um momento, seus olharem se encontraram e, naturalmente, se conectaram. Mas ela logo se recompôs, um arrepio percorrendo sua espinha, aquela euforia por vê-la muito bem escondidos. Sua mente estava com a loira agora. Um dia inteiro sem conversarem e ela estava ali ao lado de... Puck? A raiva começou a dominar Marley. Ela tinha sumido por horas e aparecia no baile com Puck? Teve certeza de que a loira estava brincando com ela. Quando acabou a música ela saiu praticamente correndo do palco e empurrou uma porta qualquer, parando em um corredor vazio. Kitty a seguiu rápido, deixando Puck sem nem saber aonde ela tinha ido. Quando abriu a porta, Marley já estava chorando. Olharam-se.
M: Eu devia saber... [soluçava] Que você ia me machucar.
K: Eu te machuquei? Eu apenas vim ao baile com o Puck. [disse fria]
M: Você apenas veio ao baile com o Puck? [repetiu com raiva] Você sumiu por horas e é assim que você me aparece? [gritou, mas logo se obrigou a acalmar] Você está com ele agora? [disse sarcástica]
K: E você?
M: Quê?
K: Está com o Puck?
M: Do que você está falando? [disse confusa]
K: Do Jake é claro. A sua paixãozinha... [soltou a frase com desdém]
M: Eu não estou com o Jake! Da onde você tirou isso?
K: Do beijo de vocês, talvez?
A compreensão preencheu o rosto da morena. Ela tinha visto o beijo. Por isso não ligara, por isso estava tão fria.
M: Kitty...
K: Eu que devia saber, que você sempre correria pra ele. [cortou]
M: Não é nada disso!
K: Eu não quero te ouvir explicar nada. Eu não vou ficar aqui escutando você falar dele.
Kitty se virou, um nó formado em sua garganta, mas ela segurou, não ia chorar agora. Foi quando sentiu um puxão no braço, Marley a tinha segurado.
M: Me escuta, por favor.
K: Por que eu deveria? Você mentiu pra mim! Você ainda gosta dele! [acusou, os olhos marejados].
M: Eu não gosto dele! Eu gosto de você! Só de você! Por mais que eu estivesse magoada eu esperei por você, eu continuei sentindo a mesma coisa! E se a gente tem algo pra resolver não é indo embora que a gente vai conseguir [disse angustiada]. Eu não beijei o Jake, me escuta [puxou a loira de volta vendo que ela se afastava], ele me beijou. Ele me viu chorando e me beijou do nada, eu não retribuí!
K: Você não beijou de volta?
M: Não!
A loira fechou os olhos e respirou fundo, as lágrimas contidas escorrendo.
K: Me desculpa! [disse chorando]
Marley a abraçou forte, e Kitty se segurou naquele abraço como se a morena fosse se desfazer a qualquer momento. Precisava daquilo, precisava daquela segurança, daquela confirmação de que ela era sua.
K: Me desculpa por tudo o que eu te fiz! Por favor! [chorava com a cabeça encaixada no ombro de Marley]
M: Tá tudo bem...
K: N... Não está!
M: Shhh... Está. Eu estou aqui com você, não estou?
K: Eu não queria magoar você, eu juro!
M: Foi meio difícil pra mim te ver sumir e de repente você aparecer com ele... E eu realmente fiquei magoada com você no auditório. Eu fiquei apavorada também... Fiquei com medo de você.
K: Medo de mim? [afastou-se para olhá-la]
M: Fiquei. Eu tenho medo de não dar certo, de você me machucar. [fechou os olhos]
K: Eu não vou machucar você! [segurou o rosto da morena] Eu vou tentar provar dia após dia o quanto eu quero você comigo e o quanto eu me arrependo do que eu fiz! Eu preciso de você... Preciso de você comigo.
Kitty a beijou. Sugava cada lábio de Marley com delicadeza. Puxou seu rosto mais pra perto e pediu passagem com a língua. O beijo era calmo, suas línguas desfrutavam uma da outra. O beijo da morena era o melhor sabor que Kitty já tinha provado, além de sua pele. O deslizar começou a ficar mais intenso conforme o coração das duas batia mais rápido. Logo o ar ficou escasso. Aquilo era muito mais que um beijo. Buscavam a boca uma da outra como se assim pudessem alcançar suas almas. Era eletrizante. Uma conexão que chegava a cada nervo, que eriçava cada pelo, que arrepiava cada centímetro de pele. A atenção se voltou para os lábios, a loira os mordia levemente, Marley soltou um gemido abafado e não se sentiu envergonhada por isso. As mãos da loira apertava sua cintura com vontade, enquanto as da morena passeavam por suas costas. O gemido foi mais alto quando Kitty desceu os lábios para seu pescoço e deu um forte chupão ali.
M: Kitty! Você é louca? [disse arfando]
K: Ficou marcado! [começou a rir]
M: Como você consegue rir numa hora dessas? Como eu vou esconder isso aqui?
K: Se a gente sair rápido ninguém vai ver [arqueou uma sobrancelha]
Marley sorriu. A loira segurou em sua mão e a puxou de volta para a confusão que era o baile. Passaram rápido entre as pessoas e saíram. Kitty abriu a porta de seu carro para a morena e entrou.
M: E agora? [olhou-a em tom de brincadeira]
K: Eu não sei! [olhou-a séria]
As duas se encararam por alguns segundos e então caíram na risada. Riram até cansar, até ficarem com lágrimas nos olhos, e depois de respirarem fundo se olharam de novo e se beijaram carinhosamente.
K: A gente podia deixar acontecer... [falou sobre seus lábios]
M: Ótima ideia [sorriu]
K: Antes eu preciso passar em casa [disse ligando o carro]
M: Por quê?
K: Tenho uma coisa pra pegar lá
M: Ok.
As duas deram as mãos e entrelaçaram os dedos. Naquele momento, apesar da briga, confiavam uma na outra. Mais do que antes. Era ainda o começo de sua história. E o começo de sua noite juntas também.
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