Limpeza e Beliscões
















— Muito esperta, Dona Susie! Se machucar de propósito só para não ajudar na limpeza. Você sabe que quem está perdendo é vocês duas... Ficando sem pontos.

— Não foi nada disso, foi realmente um acidente. — Olho a zeladora.

— Aham que vou acreditar, falem menos e trabalhem mais.

Ela aponta para as vassouras e baldes no quartinho de limpeza.

— O que exatamente é para fazermos? Madame Elvira?

— Podem limpar todo o corredor, escadas e vitrine. Se possível até o teto.

Olho o imenso corredor.

— Isso vai levar o dia todo! — Não evito reclamar.

— Então é melhor se apressarem antes das aulas da tarde. — Ela desaparece entrando no salão principal.

— Rápido Susie, não podemos demorar muito. — Ela começa a mexer nas vassouras.

— Argh...!

Pego a vassoura e vou para o início do corredor onde fica de frente para o pátio. Começo a varrer. Alguns alunos passam por mim, inclusive Max e dão risada.

— Você está se saindo bem, Susie, acho que em vez de voar devia limpar. — Ele debocha.

Aperto a vassoura me preparando para acertar sua cabeça quando a zeladora sai do salão e me olha parada.

— Varrendo, varrendo.

Eu resmungo.

Lúcia e eu fizemos um belo trabalho, varremos, tiramos as teias de aranha do canto das paredes com o feitiço de levitação. Ela limpou o teto enquanto voava. E eu esfreguei várias manchas que haviam na janela. Tudo ficou limpinho.

— Estou morta... — Resmungo sentada no chão, toda suada.

Lúcia ao meu lado me belisca.

— Ai!

— Se você está morta, como sente dor? — Ela debocha rindo.

Eu a belisco de volta.

— Ei eu não fiz isso tão forte! — Ela dá o troco e eu revido outra vez.

— Ai!

— Aiê!

— Ui!

— Ei!

Paramos de rolar no corredor e olho o pé do diretor.

— Ah! — Me levanto rápido, com Lúcia.

— Vocês fizeram um belo trabalho meninas... — Ele me olha enquanto esfrego meu braço dolorido.

— Obrigada Diretor Joseph, pode devolver nossos pontos agora?

— Sim, é claro.

Olho Lúcia animada.

— Mais três pontos para a Lufa-Lufa!

— Quê?! Três pontos?! Só isso??

Olho ele indo embora enquanto me debato tentando atacá-lo.

— Trabalhei a manhã toda! Tenho os meus direitos! Volta aqui!

Ele vira o corredor rindo.

— Susie! Para!

— Vou pegar a barba desse velhote e vou!-

— Vai o quê?

Meu corpo arrepia e olho a zeladora parada atrás de Lúcia com um olhar de matar.

— Vou pentear! É isso que vou fazer...

— Hum, bom...

Ela vira as costas.

— Devolvam tudo para o armário de limpeza, amanhã de tarde tem mais.

Eu mostro a língua para a pescoçuda e puxo Lúcia.

doc

— Hoje vocês vão aprender a fazer a poção do sono...

— Isso é fácil, o ingrediente principal é prestar atenção na aula. — digo a Lúcia e ela ri.

— O que é tão engraçado, senhorita Lúcia?

— Nada! Nada professor...

— Abram seus livros na página trezentos e vinte. E pegue seu caldeirão. — Ele fala entredentes enquanto me encara ferozmente.

— Claro...

Abri o livro, peguei meu caldeirão e coloquei na mesa, logo comecei a preparar a minha poção.

— Hum, agora mexer quinze vezes no sentido horário... — Eu leio o livro.

Após feito, entrego para o professor em um pequeno frasco.

— Espero no mínimo que tenha feito um bom trabalho desta vez senhorita Susie.

— Dei o meu melhor...

— Hum...

Ele pega uma cobra em um frasco grande e pinga uma gota do líquido na sua boca. A cobra se debate um pouco, mas logo adormece.

Eu olho o professor esperando um sorrisinho, mas ele não expressa nenhuma emoção.

— Muito bem... Um ponto para a Lufa-Lufa.

Olho Lúcia animada enquanto vejo ela entregar o seu frasco de poção. O professor acorda a cobra e testa nela outra vez.

— Muito bom... Dois pontos para a Lufa-Lufa.

Ela dá pulinhos de alegria e nos abraçamos.

— Menos dois pontos por essa comemoração espalhafatosa ridícula.

Os alunos da Sonserina e Corvinal riem.

— Estou te falando, ele nos odeia!

Saímos da sala de poções e subimos as escadas de volta para o primeiro andar.

— Ele detesta todo mundo, mas pelo menos podemos comemorar por ter conseguido três pontos na poção de antídoto para venenos.

— Sim. Espero que perto do natal ele pelo menos já comece a gostar mais da gente.

Em uma das minhas aulas extras com a professora Milore, Lúcia me assiste de longe sentada na última cadeira da sala.

— Certo, Susie vamos tentar com um feitiço básico.

— Mais básico do que Wingardium? Eu duvido que haja.

— E há, podemos tentar fazer vapor. O que acha?

— Hum, tudo bem, o que poderia dar errado?

Tudo deu errado. Acabei destruindo os livros da professora, ficaram todos úmidos.

— Sinto muito professora...

— Está tudo bem, eu precisava trocar de livros mesmo... Vamos tentar outra vez.

— Tem alguma ideia?

— Poderíamos tentar pedir permissão a varinha talvez.

— Permissão?

— Você disse que essa é uma varinha antiga não é? E que passou pelas mãos de muitos bruxos...

— Sim, mas como pedir permissão vai ajudar?

— Para muitos a magia vem de dentro do bruxo, e em parte isso está certo... Mas se tratando de uma varinha que surgiu de um desejo... De uma varinha que vem de uma magia muito antiga... É natural que precise de um comando.

Lúcia se levanta da cadeira.

— É claro! Assim como precisamos dizer o feitiço antes de fazê-lo.

— Exatamente.

Eu olho as duas e depois a varinha da minha mão.

— Acho que tudo bem tentar...

Me preparo, fico diante do livro da professora Milore e aponto a minha Varinha.

— Oh, varinha da raposa... Me empreste seu poder! Wingardium leviosa!

Nada acontece. Eu olho a professora e Lúcia rindo bastante.

— Por que estão rindo?! Vocês quem me deram a ideia! — digo envergonhada.

— Desculpe... Mas acho que não deve ser uma frase tão simples como essa. — Lúcia diz.

— Então o que faremos?

— A varinha deve ter um nome não é? Podíamos investigar.

— Mas isso pode levar semanas! As provas do primeiro bimestre vão chegar logo.

— O Olivaras! Ele deve saber.

— Quem?

— É o nome da loja de varinhas, sua tonta.

— Ah certo, podemos procurar ele.

— Meninas espere! V-vocês não podem sair do castelo.

— Mas é para uma emergência, professora.

— É! E você pode nos encobrir enquanto fazemos isso.

— Não sei não...

— Voltamos rápido, antes que a senhora ou qualquer outra pessoa dê a nossa falta.

Eu e Lúcia insistimos até a jovem professora ficar sem saída.

— Está bem! Mas não podem demorar, e ninguém pode ficar sabendo.

— Não vai! Eu prometo.

Ela suspira concordando. Eu olho Lúcia esperançosa.

doc

De tardezinha prestes a escurecer....

— Você tem certeza que ninguém vai nos ver se sairmos por aqui? — Olho o salgueiro lutador um pouco longe matando um passarinho com um de seus galhos.

— Vai dar certo, confia em mim.

Eu olho Lúcia montar em sua vassoura. Coloco o meu capuz e subo na vassoura com ela.

— Espero que a gente não se meta em problemas.

— A professora Milore vai dar conta. — Ela ri.

Lúcia levanta voo, nossos pés saem do chão. Me seguro firme em seus ombros e fecho os olhos quando passamos próximos ao salgueiro.

Ele tenta nos golpear com um galho, mas a vassoura é mais rápida.

— Segura firme!

Saímos de perto do castelo em direção a Hogsmead.

— Cuidado! — Lúcia grita tentando amenizar a velocidade da vassoura.

Entramos em um beco, nossos pés raspam no chão enquanto a vassoura começa a parar. Um pouco mais devagar começamos a quicar no chão até às cerdas da vassoura sair.

— Argh... A vassoura quase quebrou com esse peso todo. — Ela se levanta limpando a sujeira de suas vestes.

— Como você pretende ir ao beco diagonal por aqui? — me levanto.

— Tem uma chave de portal que os veteranos usam para sair escondido.

— E como você sabe disso?

— Max me disse uma vez. É por aqui, vem.

Ela me puxa para outro beco. Entramos em uma casa parecida com um hotel, ao entrar eu começo a observar os arredores, curiosa.

— Olá, senhor Matui, pode nos ajudar a ir para o beco diagonal? É importante... — Lúcia vai até o balcão e conversa com um velhinho.

— Oh Olá, você deve ser a Lúcia não é? Max falou de você.

— Sim, pode nos ajudar? Estamos com um pouco de pressa...

Ele assente e pega um balde velho debaixo do balcão e entrega a Lúcia.

— O que é isso? Como vamos chegar ao beco diagonal com isso?

O velho sai de trás do balcão com um relógio de mão. Lúcia sorri e coloca o balde no meio.

— Você nunca viajou assim antes?

— Eh?

— Agora é hora. — O velho diz.

— Rápido Susie me dê a sua mão.

Eu seguro a mão de Lúcia, o balde começar a se mexer sozinho como se algo quisesse sair. Lúcia coloca seu pé dentro dele.

Tudo acontece muito rápido. Meu corpo fica pequeno. Grande. Gordo. Fino. Alto. Baixo e de repente estamos no beco diagonal.

Lúcia respira fundo animada. Eu viro o rosto vomitando. Ela dá tapinhas nas minhas costas.

— Aparatar é uma droga na primeira vez, mas você vai ficar bem.

— Uh... — Eu limpo a minha boca e vejo a rua quase vazia. Iluminada pelas luzes dos postes com uma cor amarelada.

— O Olivaras é na rua de cima, vamos rápido.

— E o balde?

— Deixe aí, ficaremos bem.

Eu sigo o conselho de Lúcia, olho para trás enquanto sigo ela e vejo o balde desaparecer diante dos meus olhos.

— Magia me assusta às vezes.

Entramos no Olivaras.

— A loja já está fechada. — Sentado no sofá, o senhorzinho me olha.

— Eu sei, preciso da sua ajuda. É sobre a varinha que me vendeu.

— Você quer devolvê-la? Trocá-la?

— Não, eu quero saber o nome dela.

— Hum, o nome da varinha?

— Isso, sem enrolação. Estamos sem tempo.

— A varinha não tem um nome, senhorita Landerwood.

— Mas como não? A varinha foi feita com magia, não foi?

— Como sabe disso?

— Apenas me responda! Eu preciso saber o nome da varinha... Está me causando muitos problemas.

Ele ri e fecha seu livro.

— Eu disse a você que os caminhos dos bruxos que a possuiu foi repleta de confusão.

— Se esta varinha não serve para feitiços, então, porque diabos o senhor me vendeu?!

— Calma Susie... — Lúcia tenta me acalmar.

— Porque eu sei que você vai conseguir usá-la.

— Mas como?!

— A varinha escolhe o bruxo Senhorita Landerwood... Não costumo dizer isso aos meus fregueses... Nunca acreditei nisso até então...

— Mas como vou saber se ela me escolheu? Nada de bom tem acontecido até agora...

— Você vai saber no momento certo... A varinha precisa de um nome, você é a dona dela agora. Dê você mesma.

— Mas eu não...

— Susie está escuro, temos que voltar antes do banquete!

— Senhor... A varinha realmente surgiu de um desejo? Um desejo vindo do coração...?

Ele sorri.

— Acho que você já sabe a resposta para isso...

— Susie!

— Boa sorte, senhorita Landerwood.

Eu saio apressada com Lúcia. Ela aponta para o meio da rua onde o balde aparece.

— O balde! Rápido!

Nós corremos, falta pouco para alcançar.

— Você não disse que a gente não precisava se preocupar?!

— Eu menti!

— Lúciaaa!

Seguro a mão de Lúcia. Faltando cinco passos para alcançar o balde.

— Rápido!

Falta quatro passos.

— Agora!

Faltam dois passos.

— Vai dar!

— Certo!

O balde some.

— Senhorita Milore onde está a senhorita Susie e Lúcia?

— Ah! É... Estão na sala de aula praticando...!

— Mas a essa hora? É obrigatório estar na sala de banquete.

— Ah, é?! Eu não sabia disso...

— Poxa... Você já trabalha aqui a um ano. Deveria estar ciente disso. Vou ir chamá-las.

— Não!

— Não?...

— É que... Elas estão tão empenhadas em estudar para as provas que virão, que não devem perder o foco... — Ela força um sorriso para Margott.

— Você deve ter razão... Devem estar estudando muito mesmo.

— Se segura Susie! — Lúcia grita.

A vassoura balança bastante enquanto passamos por cima da floresta. O meio da vassoura começa a entortar.

— Eu sabia que devíamos ter pegado uma vassoura de voo! Essa não serve para voar!

— Então por que você não foi pegar?!

— A professora Eloise perceberia!

Em cima da floresta proibida a vassoura quebra e nós duas caímos.

— Aaaaaaaaaaaaaaah!!!

— Não! Não! Droga Luciáaaaa!

Lúcia tenta pegar a sua varinha enquanto caímos de uma altura de trezentos metros. Mas sua varinha escápula de sua mão.

— Vamos morrer!!

— Sua varinha Susie! Usa a sua varinha!!

Sem pensar muito eu pego a minha Varinha com força, estamos de ponta cabeça faltando duzentos metros para atingir o chão.

— Eu não tenho muito tempo, talvez seja a última coisa que eu faça antes de morrer...

— O que você disse?! — Ela grita.

— Estou falando com a varinha! Me dá licença? Eu quero filosofar antes morrer!

— Tá! Tá! Vai rápido! Porque se demorar!-

— Cala a boca, Lúcia!

— Não me manda calar a boca!

— Eu espero contar com você para me ajudar a criar o meu futuro... Então eu te nomeio agora como minha varinha, seu nome vai ser Et futurae!... Conto com você!

Aponto a varinha para baixo onde falta pouco para atingir o chão.

— Et futurae, Aresto Momentum!

Nada acontece e continuamos caindo.

— Parabéns Susie! Vamos morrer por sua culpa!

Falta cinquenta metros.

— Sinto muito! Eu pensei que... Pensei que dessa vez fosse dar certo... eu tenho sido uma idiota desde que cheguei aqui, você foi a minha única amiga, e lamento tanto... De verdade. Obrigada por tudo!

— Você... Me chamou de amiga?!

Eu olho Lúcia assentindo e tento segurar sua mão. Ela estica seu braço e consigo segurar.

— Adeus!

— Adeus!

Fechamos os olhos, abraçamos uma à outra e esperamos a queda.

Abro os olhos, olho para cima e vejo meu nariz a cinco centímetros do chão.

— Lúcia! Lúcia!

— Acabou? Foi rápido?

— Veja! Eu consegui! Eu consegui!

Ela abre os olhos e olha para baixo, vê o céu estrelado debaixo de seus pés.

Ainda paradas no ar, de ponta cabeça, eu solto Lúcia e vejo a varinha brilhando.

— Et pode nos soltar agora.

Ainda ficamos paradas.

— Acho que o correto seria Finite incantatem não é? — Lúcia me corrige.

— Ah! Você está certa... Finite incantatem!

A ponta da varinha brilha outra vez e somos liberadas caindo feio no chão.

— Ai!

— Você está em cima de mim, Susie!

Eu levanto rápido e olho ao redor. Vejo muitas árvores com o tronco escuro, as folhas, que estão a metros da nossa cabeça, brilham prateadas com o brilho da luz da lua.

— Em que lugar nós estamos?

Lúcia limpa suas vestes e olha para a floresta.

— A-acho que no meio da floresta proibida!

— O quê?!

— Susie temos que sair daqui, agora!