Não apenas um bromânce
2 Improbabilidade possível
Notas iniciais
Esse é o mundo das possibilidades e as coisas só são impossíveis até o momento em que deixam de ser. Estamos sempre repetindo: não é possível! Não é possível. Mas é! É possível!
(Miguel Falabella)
Peter Parker
Quando o homem com uniforme vermelho e preto começou a caminhar na minha direção, já pude sentir uma pequena irritação, soltei o ar dos pulmões e já me preparei psicologicamente para o que estava por vir.
— E ai, Baby Boy! – saudou com a sua voz alegre, como sempre, mas dessa vez, ele conseguia parecer mais alegre ainda.
— Quantas vezes eu vou ter que pedir para você não me chamar assim, para você ouvir uma? – perguntei ignorando sua presença e continuando com meu olhar, e concentração, na cidade.
— Deixa eu pensar... Provavelmente um bilhão de vezes, mas quem sabe, né, nunca fui bom com números... – respondeu brincalhão, me fazendo bufar.
— Se era isso o que você veio fazer, já pode ir embora.
— Nossa, o que aconteceu? Você está mais irritado do que de costume. – comentou encostando suas costas no parapeito do prédio, onde eu estava em cima.
Se o Deadpool fosse meu amigo, de verdade, eu provavelmente contaria que o meu dia tinha sido uma merda.
Faculdade estressante, dia de trabalho estressante e dia em casa estressante. Tia May ainda insiste em me tratar como criança, perguntando onde eu estou, se já comi, se quero que ela faça alguma coisa. E é simplesmente horrível ter que guardar o segredo que sou o Homem-Aranha dela, e ela ficando em cima de mim torna o serviço um milhão de vezes pior.
Já havia pensado em me mudar, mas seria muitas despesas e uma tia May sozinha. Eu não podia abandona-la, não depois do que eu fiz ao tio Ben. As fotos que existiam dentro de casa só faziam a dor e a culpa piorar.
Resumindo, eu não estava nada feliz.
— Hoje foi um dia realmente estressante, e eu não estou com nenhum pingo de paciência para aturar você e as suas brincadeiras idiotas. – digo seco sem encará-lo.
Houve um breve silêncio, senti uma pontada de arrependimento pelo que eu disse, mas realmente não estava com paciência.
— Uau, então aconteceu algo mesmo... – falou com um ar pensativo. – Não se preocupe, querido, eu vou fazer você ser feliz novamente.
Levantei minha sobrancelha e olhei para o lado, a frase havia soado de um jeito estranho e ridículo. Dei uma pequena risada.
— Vai me fazer ser feliz novamente?
— É isso que eu venho fazendo, docinho. – falou com uma voz meio fina.
Mesmo que eu me odiasse por pensar isso, eu tinha que admitir, ele fazia exatamente isso por mim, me deixava feliz. Não que eu fosse dizer isso a ele, não, com certeza não. Se o ego dele já é grande agora, e ele já me persegue bastante, o que será de mim se eu disser que ele me deixa feliz?
Isso é coisa para falar para o diário, se eu tivesse um.
— Sabe uma coisa muito legal? – pergunta me encarando.
— Não.
— Hoje nós completamos um mês! – exclama animado. Franzo meu cenho por debaixo da máscara.
— Você entende que o que você fala soa bastante mal, não é?!
— Que isso, faz um mês, exatamente, que eu vi você pela primeira vez, de perto, é claro. – continuou falando animadamente, o que me fez ficar um pouco melhor do que eu estava antes.
Por um momento fugi os meus pensamentos de tudo o que estava acontecendo, e fui relembrando o dia que nos... “conhecemos”.
Era um dia normal, eu estava um pouco estressado, mas nos últimos tempos eu ando muito assim.
Lembro-me de ver Deadpool, e mesmo tendo zoado ele e o uniforme que o mesmo usava, eu havia gostado da roupa. Já tinha visto algumas vezes, mas, qual é, nem eu posso contrariar que o uniforme dele era foda.
Não que eu fosse admitir isso a ele. Eu nunca admitiria nada desse tipo para ele, essa era a regra principal para manter-se são.
Depois desse nosso encontro que acabou comigo mandando ele se ferrar, ele começou, não sei raios o porquê, a me seguir.
Quando eu estava lutando contra algum criminoso ou vilão, lá estava ele. Quando eu parava em algum prédio, lá estava ele. Até quando eu estava perambulando de uniforme por ai, ele aparecia.
E então começava a conversar, fazer piadas, comentários indecentes e até, muitas vezes, me jogar cantadas constrangedoras. Ou elogios indecentemente constrangedores.
Mesmo assim, eu começava a me acostumar, e até gostar um pouco da sua presença. O primeiro sinal de que eu estava gostando, foi eu estranhar ele não aparecer em um dia, e ficar meio chateado.
Isso foi bem gay.
Entretanto, ele me seguir tinha seus enormes problemas. Sempre tinha que jogar uma desculpa, implorar para ele ir para a casa ou despistar ele depois de um tempo. Tinha sempre que andar olhando para os lados e para trás para me certificar que ele não havia me seguido. Se ele descobrisse onde eu moro e quem sou eu, seria meu fim.
Sinceramente, eu não confiava nem um pouco em Deadpool.
Ele era um mercenário louco, uma pessoa assim não é nada confiável. Mesmo que ele tivesse dito seu nome, Wade. Se esse era mesmo o nome dele.
— Hey, Aranha, Baby Boy... – acordei de meus devaneios e voltei a encarar a cidade.
— Não me chame assim.
— Você não estava me respondendo! – falou e logo depois continuou. – Bom, isso não importa, em comemoração ao nosso aniversário de um mês como amigos...
— Nós não somos amigos.
— Eu vim trazer uma ótima proposta para você. – Deadpool me ignorou e pegou um papel que estava guardado em seu cinto, começou a desamassar e continuou falando. – Como nós já somos amigos há um mês, eu acho que já está na hora de nós dois oficializarmos tudo e montarmos uma equipe!
— Equipe? – levanto uma de minhas sobrancelhas e volto a encarar o homem de vermelho e preto ao meu lado.
— Isso mesmo, e como nossa primeira missão, você vai ficar feliz em saber que, vamos caçar Peter Parker! – diz animado e me mostra o papel, que nada mais era do que uma foto de Peter Parker com uma câmera. Ou seja, eu com uma câmera.
Dei graças a Odin por estar de máscara, minha cara de confusão e incredulidade ficou tapada. Fiquei alguns segundos tentando processar isso em meu cérebro para tentar formular uma resposta.
Deadpool apenas segurava a foto na minha frente, ele exalava animação, tinha certeza que estava sorrindo por debaixo da máscara.
O que fazer em uma situação dessas?
E qual a probabilidade estatística de isso estar mesmo acontecendo?
A porcentagem é tão baixa, que essa cena toda seria considerada impossível.
Mas estava acontecendo bem nitidamente em minha frente.
— E então, o que acha? Eu sei que você odeia esse cara também, ele é um baita de um coxinha, fica te seguindo por ai, parece que não tem coisa melhor para fazer. – fala com certa irritação na voz.
— Ah, hm... V-você fica me seguindo por ai também. – eu queria soar normal, eu queria levar na brincadeira, mas a ideia de que o louco mercenário Deadpool, que era fissurado no Homem-Aranha, iria agora caçar minha versão adolescente comum, me metia medo. E como meu cérebro havia travado, eu ainda não tinha alguma coisa certa para falar.
— É totalmente diferente, não dá nem para comparar.
— Tá, okay. – saio do parapeito do prédio e pego a minha foto da mão de Wade. – Por que ele?
— Ele é um chato, fica tirando fotos suas e colocando aquelas manchetes sensacionalistas como se você fosse um vilão, sendo que fica tirando o lixo dessa cidade como um escravo.
— Não é ele que escreve aquilo. – deixo escapar e logo entro em pânico – Bom, ah, o n-nome de q-quem escreve as notícias, n-não é... dele.
— Não importa, ele tira as fotos, e a cabeça dele está a prémio agora.
— Quê? – levanto meu rosto alarmado.
— Sabe que eu sou um mercenário, né?! Então, em uma das minhas buscas por trabalho, me deparei com esse coxinha na lista negra. Um milhão para levar ele para um cara lá, acredita?! Um milhão... A grana mais fácil que vamos conseguir, sabe... – parei de escutar as tagarelices de Wade, meus pensamentos estavam a mil.
Meu olhar se prendeu a minha foto. Eu estava de óculos e segurando uma câmera, parecia distraído.
Eu não entendia o que eu poderia ter feito para alguém me querer. Um milhão! Eu com certeza havia conseguido irritar alguém, mas quem? E por quê?
Uma sensação horrível passou por todo o meu corpo.
E se tiverem descoberto que eu sou o Homem-Aranha?
Não, não, não podiam.
Se tivessem descoberto, já iriam ter divulgado nas mídias, ou me procurado e chantageado.
Minha cabeça dá uma pontada de dor, nada daquilo fazia sentido, eu não sabia nem por onde começar a pensar ou me preocupar.
Eu tinha amigos, família, escola, trabalho, tinha uma vida! E uma vida dupla ainda. Como se já não estivesse com problemas suficientes, agora seria seguido por um bando de malucos.
— Hey, está me ouvindo? Você anda fazendo isso demais sabe, viajar na maionese...
— Olha, eu não sei o que você pensou, mas eu não vou me juntar a você em uma equipe para caçar um adolescente que não fez nada de mau a ninguém.
— Como você pode saber? Se ele está na lista, com certeza fez algo... Pode até ter matado crianças, roubado muito dinheiro de pobres...
— Não! – quase grito, fazendo Deadpool tomar um pequeno susto. – Nem todo mundo é como você, agora esquece essa história. – falo e amasso a folha com a minha foto.
Eu não tinha certeza se reagir dessa maneira era o correto, mas raiva e frustração não me deram outra escolha.
— Vocês estão tendo um caso ou algo do tipo? – pergunta de forma rude.
— Quê? Não, da onde você tirou isso?
— Você deixa ele seguir você, tirar fotos suas e agora fica defendendo ele como uma garotinha, tá na cara que vocês devem estar se comendo por ai. – seu tom de voz era irritado e acusatório, o que me deixou mais irritado.
— O que eu faço ou deixo de fazer não é da sua conta! – grito. Sei que essa discussão era o cúmulo da idiotice. Como eu poderia ter um caso comigo mesmo? Mas eu não podia deixar que ele descobrisse nada sobre minha identidade secreta. E ele estava sendo um idiota.
Era melhor ele pensar que eu estava tendo um caso com Peter, do que saber que eu sou o Peter.
— Pois é, foi erro meu tentar ser legal com você. – comenta seco e vira as costas começando a andar para longe.
— Muito legal você me oferecendo um trabalho de mercenário. – falo e não espero pela resposta, apenas pulo do prédio e vou me pendurando com minhas teias nos prédios até em casa.
Fui por um caminho diferente, e mesmo depois de tudo, ainda dando uma espiada atrás para ver se ninguém me seguia.
Sempre soube que Deadpool era louco, entretanto, sua mudança de humor havia me assustado. Eu sei que não havia sido ciúmes, ele simplesmente havia virado uma pessoa completamente diferente.
Talvez sejam as vozes, pensei.
Não sabia se era verdade, mas havia um rumor de que Deadpool era esquizofrênico, e dividia seu cérebro com vozes estranhas.
Isso só torna as coisas muito piores.
Cheguei em casa e entrei pela janela, como de costume. No momento em que pus meus pés em meu quarto, já tratei de trancar a janela e fechar a cortina. Com um suspiro, tiro minha máscara, a jogando em qualquer canto, e pego o papel amassado com a minha foto.
— Que inferno! – grito irritado, fazendo uma bolinha de papel com a foto e a jogando forte contra a parede.
A faculdade estava um estorvo, ser herói estava irritante, e agora eu seria caçado por ai sem nem estar de uniforme?
Só de pensar em minha tia meu coração se aperta. Eu imaginei que por ser o Homem-Aranha, ela estaria em perigo, mas agora, apenas sendo eu mesmo, estava pondo a vida dela em risco.
A imagem de mercenários entrando pela porta e matando tia May, só para me pegar, se repetia na minha cabeça.
E eu nem sequer queria imaginar se um desses mercenários fosse Deadpool.
Eu havia criado uma mínima empatia por ele, mas essa oferta maluca dele havia me revirado o estômago.
Sentado na minha cama, encarando o chão, uma ideia surgiu em minha mente.
Eu poderia dizer que aceito ser parte dessa equipe e passar muito do meu tempo com Deadpool, despistando ele de mim!
Ótimo, Peter, parabéns, que ideia genial cheia de furos!
Qual é?! Eu era um adolescente que acabara de terminar a escola e entrara em uma faculdade, já era pressão demais ser um herói junto de tudo isso.
E ainda tinha minhas cicatrizes que sempre iria carregar comigo.
Tio Ben.
Gwen.
Balanço a cabeça tentando afastar esses pensamentos, se as memórias viessem à tona novamente, eu iria chorar, como sempre fazia.
Bufo frustrado e vou em direção ao banheiro, onde tiro meu uniforme e entro embaixo do chuveiro. Com a água morna caindo em meu corpo, começo a pensar melhor no que deveria fazer.
Mesmo que isso me causasse um pouco de dor de cabeça, eu tinha que, muito rápido, pensar no que fazer a respeito de tudo. Eu poderia fazer o meu plano ser posto em prática, e despistar Deadpool, mas fora isso, eu teria que me afastar da faculdade, dos meus amigos e da minha tia. Não poderia permitir que eles corressem risco de vida.
Saio do banho e visto uma calça de pijama, indo direto para cama depois. Não estava com vontade de jantar ou fazer qualquer coisa.
Depois de horas me revirando na cama, tomo minha decisão.
Eu iria, no dia seguinte, procurar um apartamento barato, poderia ser pequeno e velho, não importava, eu apenas precisava me afastar da minha tia. E então depois teria que, infelizmente, desistir da minha vaga na Empire State University, não importava o quanto isso doesse, desistir da minha bolsa de estudos por quem tanto batalhei, eu precisava. Não podia colocar a vida dos meus colegas, e de quem quer que fosse, em risco, assim como eu teria que começar a ser cauteloso em tudo, não sabia quem havia me posto na lista negra e o porquê, ainda tinha grandes chances de ser por causa da minha vida dupla, mas eu não poderia ter certeza, ainda. Iria investigar a fundo tudo isso.
E já afastado de tudo, com uma investigação nas mãos, eu teria que fazer a coisa mais estranha e insana da minha vida.
Eu teria que montar uma equipe com Deadpool.
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