Não apenas um bromânce

18 A tão frágil sanidade


Notas iniciais
PRIMEIRAMENTE: Quero agradecer imensamente e de todo o meu core a recomendação maravilhosa do meu chuchu Monkey D Emi!!!! AMEI CADA LETRINHA, MONAMUUUUUR!!!! Dedico esse capítulo a você!! (apesar de que ele não está tão bom assim, então talvez eu esteja te dedicando o próximo também!! Mas é de coração). Olá, Brasil, olá você ai de casa! Aqui a Bruna da Silva Sauro com mais um capítulo. Primeiramente 2, deixo aqui minhas mais sinceras desculpas pelo sumiço e demora para responder os comentários e postar o capítulo (de novo). Desculpe!! (Ver os filmes do Oscar, viciar em ouvir NerdCast e ter que voltar a acordar as seis horas da manhã complicou as coisas). Mas vamos ao capítulo. Ele está bem bad e vai mostrar um pouco de como o psicológico do Peter está sendo massacrado com tudo o que está acontecendo. No final terão algumas explicações e analises. Se quiserem podem ler o capítulo ouvindo a música Hero, da Regina Spektor. O baseei um pouco nela. Amo, amo, amo. Conheci ela por (500) Dias Com Ela, que é um bolinho de filme! Sem mais delongas, vamos lá...

Eu sou o herói da história

Não preciso ser salvo

Voltar a Oscorp se mostrou uma tarefa um pouco mais difícil do que eu imaginava, não que eu estivesse imaginando que seria um encontro entre amigos e um bate-papo, mas psicologicamente essa ida até o prédio estava bem complicada.

Eu e Wade estávamos com nossos uniformes, prontos para caso algo saísse do controle ou encontrássemos alguém por lá. Minha mochila também se mostrava presente, pendurada em minhas costas e carregando apenas minha câmera.

Quando chegamos na entrada do prédio abandonado, um frio subiu pela minha espinha. Da última vez que eu havia estado lá, as coisas não terminaram nada bem. Só a mera lembrança do quão mal eu fiquei por ver Harry e ainda respirar daquele gás, me fez reavaliar minha vinda até aqui. Todavia, eu não podia desistir, precisava ter minha vida de volta, ou o que sobrou dela...

E se Harry estiver lá?

Essa pergunta ressoava alto em minha cabeça e junto com ela vinha uma grande vontade de simplesmente chorar.

Harry era o meu melhor amigo...

Não havia palavras para descrever o quanto toda a situação onde eu me encontrava era tóxica. Não há nenhum jeito disso acabar bem. Eu já estava cansado de mortes, de vingança, de tudo.

— Eu estou aqui, Pete... – Wade diz baixo, mas alto o suficiente para que eu pudesse ouvir. – Se você precisar de mim...

Olho para Wade e tento ver através de sua máscara, tento ver o que aquelas palavras significam. Ouvi-las trouxeram uma segurança que eu não sabia que ainda poderia ter. Esse sentimento me fez questionar se eu realmente sabia o que Wade era para mim.

Era estranho pensar no quanto eu confiava em um homem que eu nunca havia visto o rosto.

O quando ele era importante...

Eu sei— sussurro em resposta.

Respiro fundo mais uma vez e dou os primeiros paços em direção ao prédio. Mesmo hesitante, tento passar a imagem de alguém calmo e com tudo sob controle. Dessa vez, não vejo luzes acessas e nem ouso barulho algum. Meu sentido aranha não havia demonstrado nenhum perigo iminente, apenas um leve incómodo constante desde o momento em que eu tive a ideia de vir até aqui.

Chego à porta da Oscorp e ao tentar abrir vejo que ela estava destrancada. Péssimo sinal. Ou havia alguém ali, ou alguém esperava que eu fosse ali... ou os dois.

Abro lentamente a porta e olho em volta, tudo estava vazio e silencioso. O aspecto de esquecido estava presente ainda. Entrei e caminhei ao redor da recepção, nada parecia fora de lugar. Olhei nos balcões e perto dos computadores que lá foram deixados, nenhuma informação importante ou suspeita se encontrava lá.

Olhei para Wade e ele estava ao lado de um pilar, dando pequenas batidas e o observando.

— Deadpool? – chamei, ele virou seu rosto para mim e ficou parado. – O que raios você está fazendo?

— Estou vendo se isso aqui está bom ou vai cair a qualquer segundo. Segurança de perímetro em primeiro lugar.

Balancei de leve minha cabeça para os lados, depois dei as costas a ele e fui em direção à escada. Havia um lugar onde eu tinha quase certeza que acharia algo.

— Vamos subir – exclamei alto para que Wade pudesse ouvir.

— De escada? – questionou com a voz meio incomodada. – É muito longe?

— De elevador é que não ia ser. São só alguns andares – expliquei já subindo e ouvindo Wade subir também.

Eu não havia contado tudo para Wade, não estava preparado. Só havia falado algumas coisas em meu apartamento e depois explicado brevemente o que ocorrerá da última vez em que eu havia estado ali. Ele aceitou as poucas palavras e eu agradeci internamente por isso.

Quando cheguei ao andar da sala onde estive da última vez, um incómodo se alastrou ainda mais pelo meu corpo. O desconforto por estar ali era forte. Meu corpo rejeitava a ideia de ver Dr. Drago e Harry de novo, e rejeitava ainda mais que eu fosse obrigado a entrar em contato com aquele gás novamente.

Se concentra, Peter, é só ir ali, pegar as pistas e ir embora... Isso pode dar um grande passo para terminar com tudo de uma vez.

Só entrar e sair. — sussurro para mim mesmo, mas tenho quase certeza de que Wade ouviu.

Caminho até o laboratório com passos meio receosos, mas rápidos. Ao chegar na porta e tocar a maçaneta fria, hesito por um segundo, mas logo abro a porta. Meu coração foi de milhões de batidas por segundo para uma. Porém não havia nada lá.

Respirei algumas vezes tentando fazer meus batimentos se normalizarem. Passei os olhos por todo o laboratório e ele parecia igual desde a última vez em que eu havia estado lá, todavia, não estava.

A luz do dia invadia as janelas e iluminava o lugar, foquei minha visão onde Harry uma vez havia estado. Só alguns desenhos e fotos continuavam lá. Um papel residia pendurado no vidro pelo lado de dentro, mas sua mensagem era clara, mesmo com as letras parecendo ter sido feitas as pressas.

Nos vemos em breve.

Desviei meu olhar do desenho e mordi o interior da minha bochecha, forçando-me a continuar estável e controlado.

Pistas, eu preciso de pistas.

Caminhei em direção a uma das compridas mesas que lá haviam, dispostas sobre elas se encontravam inúmeras folhas, mais do que eu me lembrava da última vez.

— Pete... Você está bem? – Wade perguntou me tirando a concentração. Levantei meu olhar, mas não o encarei, sabia que ele estava falando sobre aquela maldita folha no vidro.

— Uhum – me limito a responder, depois voltando minha atenção novamente para os papéis.

Tratamento sanguíneo, tratamento psicológico, tratamento físico, desenvolvimento do paciente, tabela de melhora... Todas essas folhas pertenciam à saúde de Harry. As palavras ali faziam meu estômago revirar, eu realmente não queria saber tudo o que Harry havia feito e como ele estava agora. Apesar de que as datas dos exames haviam parado há mais de um mês.

Guardei essas folhas em minha mochila, não estava disposto a lê-las agora, mas analisaria melhor a situação em casa.

Comecei a ver as outras folhas, várias remetiam a projetos de armas, mas os detalhes sobre elas não se encontravam naquelas páginas. Fui passando rapidamente meus olhos sobre as várias palavras, vendo se alguma chamava a atenção. Eu queria ir embora o mais rápido possível, mas também queria ter certeza de que se haviam pistas aqui, eu as teria.

Enquanto minhas mãos e meus olhos trabalhavam rápido, um nome me chamou a atenção. Parei meus movimentos e me deixei ler com cuidado o que ali havia.

Peter Benjamin Parker (Humano geneticamente modificado).

Poderes: Super força, resistência, reflexos, equilíbrio, agilidade, velocidade sobre-humana, seus pés e mãos possuem pequenos pelos que aderem a qualquer superfície, sentido de aranha precognitivo que avisa de perigos iminentes, hábil em combate corpo a corpo e possuidor de intelecto avançado.

Alter ego: Homem Aranha

Família:

Pai — Richard Parker (morto)

Mãe — Mary Parker (morta)

Tio – Benjamin Parker (morto)

Tia – May Parker (viva)

Saúde física: estável

Saúde psicológica: instável

Ocupação: ex-estudante, fotógrafo no Clarim Diário.

Situação Presente: ativo.

Fiz uma careta ao ver a palavra ativo riscada. Havia uma foto minha ao lado as informações. Ler tudo aquilo era horrível, eles sabiam tudo de mim e ainda mantinham anotado e solto aqui. Eu não tinha ideia de quem havia tido acesso a essas informações e isso era mais uma preocupação.

Coloquei essa folha de lado e comecei a ler a de baixo, que estava pior que a de cima. O que eu estava vendo era quase inacreditável, quase.

Todos os passos do plano armado contra mim estavam ali. Ajeitados com datas, nomes, detalhes, planejamento, informações e resultados. Desde o fato de colocarem minha cabeça a prêmio até eu vir aqui e achar todos esses papéis.

[...] Peter Parker irá vir até o prédio da Oscorp [já abandonado pelos envolvidos] e irá encontrar as informações referentes ao tratamento de Harry Osborn e o planejamento da missão – incluindo esta página. [Tirar papéis que prejudiquem o desenvolvimento da continuidade da missão].

Larguei aquela folha no mesmo instante em que li a última frase. Minha garganta parecia estar se fechando e meu estômago se revirando.

Eu estava fazendo exatamente o que eles queriam e planejaram! Eu não ia ficar um passo a frente de ninguém! Eu era apenas uma peça que eles mexiam a vontade, de um lado para o outro. E eu aceitava tudo isso, fazia os exatos movimentos que era preciso. Isso era frustrante...

Era frustrante, triste, irritante... Eu me sentia simplesmente incapaz. Incapaz de entender a magnitude de tudo, incapaz de ver uma solução, incapaz de continuar com esse joguinho de gato e rato doentio.

Ignorei essa folha e a joguei no chão, analisando a folha de baixo. Minha irritação não permitia que eu lesse com clareza, fazendo com que eu tivesse que reler várias frases que se tornavam desconexas em minha mente.

Quando foquei minha atenção, vi que se tratava de uma ficha de outra pessoa. Porém essa estava longe de ser detalhada, poucas informações se encontravam ali, mesmo assim li.

Quentin Beck (humano)

Poderes: Perito em efeitos especiais e truques de mágica, criação de ilusões (limitada), hábil hipnotizador e mestre em combate corpo a corpo.

Alter ego: Mystério

Família: ---------

Ocupação: ex dublê, ex especialista em efeitos especiais.

Saúde física: precária

Saúde psicológica: instável

Meus olhos se arregalaram e quase gritei ao ler aquilo. Mystério! Havia sido ele a forjar a morte de tia May!

Leio novamente suas informações e tento fazer com que tudo faça sentido em meu cérebro.

Ele era perito em efeitos especiais e truques de mágica! Por isso havia sido tão real tudo aquilo. Mas quem era ele realmente? Por que havia feito aquilo? Dizia que ele não trabalhava mais, será que entrara nisso apenas por dinheiro? E por que sua saúde é precária? A Oscorp o havia matado depois dele ter feito a sua parte no plano?

Perguntas e mais perguntas pipocavam em meu cérebro, nenhuma parecia ter uma resposta ao meu redor. Olhei os papéis que havia embaixo dele, mas não havia mais nada. Apenas números, contas e informações que eu não entendia, em códigos.

Voltei para folha de Mystério e a analisei melhor, procurando por pistas de seu paradeiro. Riscado de caneta, um endereço residia ao final da folha.

Manhattan, Upper East Side, Avenida Lexington, 2023. Quarto andar, lado esquerdo.

Olhei bem para aquelas palavras e só o que eu conseguia pensar é que aquilo era mais um passo do plano. Era óbvio que deixaram aquilo para que eu pudesse ver e ir exatamente onde queriam.

Suspirei frustrado com tudo aquilo. Eu não sabia o que fazer, mas precisava tomar uma decisão. E talvez o que eu fizesse agora não fosse a coisa mais inteligente que eu pudesse fazer, mas eu não podia aguentar, minha curiosidade se aflorava mais e mais dentro de mim. Eu precisava de respostas. Iria até Mystério.

— Peter? – Tomo um pequeno susto quando ouso a voz de Wade me chamar, por um momento havia esquecido que ele estava ali. – Peter?

— O que foi? – pergunto já colocando todas as folhas que havia ali dentro da minha mochila.

— Você está bem? – pergunta Wade com a voz preocupada.

— Estou sim, por que a pergunta? – Olho para o lado e vejo Wade com a folha que continha todo o plano da missão em suas mãos. Desvio meu olhar e saio caminhando pelo outro lado. – Vamos embora, já tenho o endereço de para onde vamos.

Saio daquela sala e caminho em direção à escada, mas estanco o passo quando uma coisa dentro de uma das salas me chama a atenção. Volto um pouco e olho da porta o interior do lugar. Ele estava sem ninguém, apenas com grandes recipientes de vidro sem nada dentro, todos encostados na parede. Tudo indicava que havia algo dentro deles que fora tirado. Talvez alguma das armas que se falavam nos papéis que agora estava na minha mochila.

Havia um papel jogado perto da porta. O peguei e nele havia apenas duas palavras que eu conseguia ler.

Sexteto Sinistro.

Eu não sabia exatamente o que significava, mas eu tinha certeza que não era uma coisa boa.

O resto da folha era preenchido por números e códigos. Puxei minha mochila e coloquei a folha lá, continuando meu percurso até a escada. Como o trajeto daqui até onde talvez estivesse Mystério era curto, fomos andando, em silêncio.

Deadpool não fez sequer uma pergunta, um comentário ou alguma piada. Talvez ele tivesse entendido realmente que as coisas não eram nada boas.

. . .

Tentei ao máximo focar meus pensamentos em modos de tornar essa “visita” a Mystério uma coisa que trouxesse algum benefício.

Não adiantaria nada eu querer bancar uma de amigo da vizinhança ali, prender ele não era o que mais me interessava. Eu precisava saber quem ele era e precisava de respostas para saber o meu futuro.

Nos esgueiramos por ruas poucos movimentadas e logo chegamos ao destino, um destino que eu descobri ser um prédio de aparência normal. Nem muito luxuoso e também nem muito decadente, ele possuía cinco andares. Fomos para os fundos e observamos. Não havia ninguém por ali, e poucas pessoas na avenida também.

Quarto andar, lado esquerdo.

Pensando nisso e no fato de estarmos em um local pouco movimentado, mas mesmo assim com pessoas ao redor, dou alguns passos em direção ao prédio, porém sou impedido de continuar por Deadpool, que segura meu braço, me forçando a olhar para ele.

— O que foi? – pergunto um pouco rude, querendo apenas entrar logo por aquela janela que estava aberta e tão macabramente convidativa.

— Não vai me dizer nada?

— Você quer que eu diga o quê?

— Ah, sei lá, tipo onde estamos, o que viemos fazer aqui e qual o assassino que vamos visitar dessa vez! – a voz irônica de Wade não tinha vestígios de humor, o que me fez estranhá-lo.

— Olha, aqui dentro pode ter mesmo um assassino, eu não sei, foi por isso que viemos investigar. Ele está no quarto andar, vamos entrar por aquela janela ali – falo e aponto com o meu braço livre para a janela aberta. – E é isso.

— Você não acha que isso pode ser uma armadilha?

— Eu acho sim, mas eu preciso de resposta e não vou encontrar elas pesquisando na internet.

— A pessoa que você acha encontrar aqui... você já viu ela? – dessa vez a voz de Wade vem com um tom de preocupação, mas mesmo assim não consigo evitar ficar mais irritado. Ele não soltava meu braço e eu podia estar a alguns centímetros de respostas que eu necessitava, droga!

— Não, mas ela já teve participação na missão ferrar Peter Parker, então, se me dá licença... – Puxo meu braço e recomeço a andar, mas sou impedido mais uma vez por Wade.

— Peter... Só... Eu vou estar aqui com você, okay? Quer dizer, se precisar de ajuda...

— Tá, tá, já entendi – corto Wade e puxo meu braço, voltando a andar. – Vamos logo com isso.

Não, eu não queria descontar em Wade, mas... Eu precisava saber! A cada segundo que eu me mantinha longe do interior daquele prédio, era mais um segundo com perguntas sem respostas. Mais um segundo com a minha vida na mão de Harry. Mais um segundo sem futuro.

Eu não sabia porque eu estava tão confiante em encontrar algo ali, eu sempre acabava exatamente onde queria, nunca um passo a frente. Mas eu tinha um pequeno pressentimento de que ali algo de diferente iria acontecer.

Meu sentido aranha estava mais agitado também, o que era um incómodo, ele me deixava alerta e paranoico. Eu precisava manter a calma. Respirei fundo e senti quando Wade colocou seus braços ao redor do meu pescoço e suas pernas ao redor da minha cintura.

Sem piadas ou comentários indecentes, apenas o silêncio.

Ignorei qualquer fato que não fosse meu objetivo. Comecei a escalar o prédio e em pouco tempo estava na janela do quarto andar. Olhei seu interior e parecia ser um pequeno escritório. Adentrei no lugar e assim que meus pés tocaram o chão, Wade saiu das minhas costas e tomou uma pequena distância de mim.

Olhei ao redor, havia duas mesas compridas ali com vários tecidos, potes, tintas, ferramentas e papéis. Havia também uma mesa com um notebook e um armário. Um tecido grande e vermelho, que se assemelhava a uma capa, tomava destaque em uma das mesas. O lugar estava completamente bagunçado, o chão com manchas do que parecia – e eu esperava – ser tinta vermelha. Havia uma porta do meu lado esquerdo, ela estava fechada, ao lado dela, na parede da frente, havia uma porta aberta.

Respirei fundo e fui me aproximando. Minha visão foi sendo tomada por o que parecia ser um quarto. Um balcão com uma televisão podia ser visto e resquícios de uma cama começavam a aparecer. O chão mantinha seu padrão com manchar vermelhas, e o resto do local com uma bagunça. Mais tecidos, mais potes...

Foi quando eu vi algo que parecia alguém na cama, estanquei o passo e senti Wade encostar seu corpo no meu.

— Não seja tímido, Peter, pode entrar. – Ouvi uma voz rouca e não muito alta falar. Engoli o seco e continuei. Logo o corpo foi tomando a forma de um homem que parecia ter seus quarenta anos, muito magro. Sua aparência assemelhava-se a de um doente. – Vejo que recebeu meu convite.

— Foi você... – comecei a falar, pensando no endereço escrito a caneta.

— Fui eu sim. Fico feliz por ter decido vir, não sei o que faria caso não aparecesse logo. – O homem então deu uma pequena risada.

Analisei bem seu rosto: era pálido, seus cabelos eram de um castanho quase escuro. Alguns fios de cabelo branco podiam ser vistos e também alguns machucados e arranhões terminavam de qualificar aquele homem como acabado.

— Para alguém que eu achei ter várias perguntas você está bem calado. – Volto do meu torpor e vejo como estou sendo idiota por estar perdendo tempo o analisando.

— Você é o Quentin Beck?

— Isso mesmo – responde com um pequeno sorriso, mas não um sorriso sádico, apenas um sorriso. O que começava a me intrigar ainda mais.

— Você é o Mystério?

— Sim, mas acho que essas são as perguntas mais óbvias, não quer tentar uma mais difícil?

Engulo o seco e olho para baixo. Todas as tantas perguntas que eu queria fazer agora se embolavam em minha mente, não me permitindo falar nada coerente. Respiro fundo.

Foco, Peter, foco!

Largo minha mochila e encaro o homem.

— Okay, quer uma mais difícil? Então ai vai, por quê? Porque você decidiu que queria ferrar com a minha vida e se misturar com Harry para fazer sei lá o que, que vocês estiveram tramando? Por quê?

— Porque eu quis – responde curto, mas logo continua — Sabe, hoje em dia as pessoas só querem saber de efeitos gráficos, feitos por um computador. E os efeitos práticos, que são infinitamente mais reais e dramáticos, foram jogados de lado, como se não tivessem valor nenhum. Mas eu sei, e você também, que o que eu faço engana a todos. Não é mesmo, Peter? – Dessa vez o sorriso dado fora mais sádico.

Lembro-me da cena da minha tia morta e mordo minha bochecha. Havia sido sim muito real... e ainda parecia na minha cabeça.

— E por que eu? – questiono coma voz um pouco mais fraca.

— Porque você é um super herói um tanto interessante, Peter Parker. Um adolescente que chamou a atenção de toda Nova York pelos seus feitos. Conseguiu até alguém que quer te ferrar e quer fazer isso muito bem feito. – Seu sorriso aumenta e ele continua – O meu trabalho é muito bom, mas se torna infinitamente melhor com a ajuda da mente humana. E a sua mente, Peter, é algo perfeito para o trabalho. Um passado conturbado, perseguido por mortes e fantasmas, e ainda tendo que lidar com o começo da vida adulta e a vida de super herói... Sabe o que eu poderia fazer com a sua mente, Peter? Entende as possibilidades que meus truques e efeitos tem de te chocarem e até te modificarem e moldarem? É encantador. Irresistível para alguém como eu.

Seu discurso me enjoa de uma forma que tenho que fazer um grande esforço para não sair correndo. O quão doentio poderia ser o ser humano?

— E sem ofensas, Peter, mas você não é tão forte quanto acha que é, e quer ser. Pessoas impressionáveis são as que melhor aproveitam o meu trabalho. Mas não fique chateado, você é muito novo. Não teve uma boa infância, já criança foi marcado por tragédias. Claro que depois de tantas mortes você estaria desestabilizado, não se sinta culpado. Mas acho que você já tem noção de que sua vida como herói tem seus dias contados. Você chegou a uma fase que mais precisa ser salvo do que realmente tentar salvar.

Eu não tinha forças para retrucar, cada palavra era um gatilho para mais e mais memórias. Eu tentava empurrar as lembranças traumáticas para o fundo do meu ser, mas era em vão, a cada vez que ele falava, mais e mais imagens voltavam.

Por um lado, ele tinha razão... Eu já sabia que meus dias de herói estavam contados, também sabia que eu não estava mais em condições de continuar... Mas... Eu não podia assumir que eu era fraco e que a droga de um vilão estava certo sobre mim! Isso significaria que a morte de todas as pessoas haviam sido em vão, que eu simplesmente não salvara ninguém de verdade, apenas piorava a situação.

Não, não e não!

Eu teria um futuro, eu ficaria bem e faria o bem! Eu era droga de um super herói, porra!

— Então você agora quer ser um vilão, só porque não consegue um emprego melhor?

O homem a minha frente dá uma grande gargalhada, que terminou em um pequeno e rápido acesso de tose. Quando voltou a falar, sua voz estava um pouco mais rouca.

— Fico extremamente honrado que me tenha como vilão, mas não... Meus dias chegaram ao fim, eu só queria poder fazer um último grande show. E vendo você aqui agora e como você ficou após achar que sua tia estava morta, posso dizer que obtive êxito. Apesar de que ainda tenho meu grand finale guardado na manga.

— Que papo de maluco... – Deadpool se pronuncia pela primeira vez. O homem olha para ele e dá um sorriso.

— Um maluco entende o outro, afinal.

— Você disse que seus dias chegaram ao fim – falo tomando a atenção de novo. – O que quer dizer com isso?

— Acho que fui bem claro. Meus dias nessa vida chegaram em seu fatídico final. Sei que leu meu perfil e sei que deve estar se perguntando, saúde precária? O que isso quer dizer? Bom, Peter, isso quer dizer que eu tenho câncer.

— Olha lá, eu também tive. – Deadpool se pronuncia uma segunda vez.

— Cala a boca! – repreendo já irritado. – Câncer de quê? Quanto tempo você tem?

— Nada disso importa, o que importa aqui é que eu, como logo cadáver que virarei, ainda prezo pela arte. E o show deve continuar. E o que seria de uma história sem sua reviravolta? Eu não quero saber de passo a passo marcado, não quero saber de um final fraco e sem luta. Eu quero ver o circo pegar fogo, Peter, e eu quero ser quem o atiçou. – O homem sorri mais uma vez e depois de respirar fundo fala – Sexteto Sinistro é o projeto que tem como ideia reunir mentes malignas e com ódio correndo em suas veias para simplesmente causar o caos. E causar a sua morte também, e a de todos os que se denominam heróis. Você acha que isso tudo está nas mãos de Harry, mas na verdade quem é o criador e controlador de tudo isso é Zoltan Drago. Ele sabe de tudo, ele planeja tudo e ele não teme a nada. Ele é tem o medo como arma e ninguém vence o medo. Isso tudo começou com um plano para deter você, mas depois se tornou um plano para dominar os heróis, dominar as pessoas, dominar o mundo... – Quentin dá uma risada, balança sua cabeça e lambe seus lábios. Respira fundo e continua, seus olhos grudados aos meus, mesmo sem poder vê-los realmente. – Eles estão escondidos, planejando minuto após minuto, analisando as fraquezas e as qualidades de cada herói. Mas as suas, Peter... Eles já sebem de cor. É só uma questão de tempo, quanto mais você vai perdendo a sua sanidade, mais forte eles ficam.

Absorvo suas palavras quieto, mas por dentro borbulhando. Eu queria socar a cara do homem na cama, eu queria gritar em plenos pulmões, queria poder chorar... Mas tudo isso só demonstrava o quanto eu era fraco e o quanto minha estabilidade emocional já havia me abandonado há tempos.

As respostas que eu tinha agora não me acalmaram, não me trouxeram nenhum pingo de paz como eu havia desejado que elas trouxessem. Elas só pioraram tudo. Mas eu queria ouvir mais, queria ouvir tudo, mesmo que não sobrasse mais nada em mim depois.

— É simples, é um jogo de pique-esconde, quem achar o outro primeiro vive. Quem ficar com medo e se distrair... Morre. – Quentin sorri e eu fico calado.

Um silêncio mortal toma posse do local onde estamos, ninguém se atreve a dizer nada, e eu não sei se isso é uma coisa boa ou ruim.

— Eu já fiz o meu trabalho por aqui, você já sabe o porquê de tudo, você já sabe o que tem que fazer... Mas será que vai conseguir? Não o culpo se falhar, manter a sanidade não é nada fácil, não é mesmo, Wade? – Quentin olha para Wade e ele fica calado. Estranho ele não retrucar nada, mas não tenho como me preocupar com isso nesse momento.

Eu estava com medo, me sentindo fraco e irritado. Um mal estar físico e mental que estava me levando ao extremo. Eu queria saber mais, mas não tinha mais o que perguntar. Fraco. Era isso que eu estava sendo, isso que todos acham que eu sou.

E talvez eles tenham razão.

— Acho que nossa conversa chegou ao fim, Peter. Fico muito feliz de poder concluir tudo, seu segundo ato está chegando ao fim – a cada palavra sua voz ia ficando mais baixa e rouca. A cada palavra eu ia me sentindo pior. – Você está pronto para o meu grand finale, Peter?

Suando frio e com medo, não respondo, apenas observo o homem a minha frente, tentando entender o que ele irá fazer.

The Prestige – Após essas palavras Quentin rapidamente pegou um revolver e colocou em sua boca. Dou um passo para frente e então o vejo puxar o gatilho. O barulho sai abafado e a visão não é processada totalmente pelo meu cérebro.

Havia sangue, muito sangue. Vermelho vivo agora escorria de sua boca sem parar e um buraco fora aberto em sua cabeça, por onde saia mais sangue. Seu rosto tombara para o lado e sua mão também. Havia junto a fumaça que sai da arma que ainda estava quente.

E havia sangue.

Em um segundo ele estava falando e no outro... Seu corpo simplesmente estava imóvel. Sem vida, sem movimento, sem nada.

Meu corpo fica totalmente paralisado, meu braço continuava no ar e minha boca entreaberta.

Ele se matou, ele está morto...

Pode ser um truque.

Mas e o barulho?

Ele se matou...

Sangue...

Volto a mim quando sinto meu cérebro e meus pulmões reclamarem por oxigênio.

Começo a puxar o máximo de ar que consigo, mas simplesmente não vem nada. Tiro minha máscara e caio de joelhos no chão tentando respirar.

Ele se matou, ele se matou, ele se matou...

Pode ser um truque...

Tia May pode estar morta...

Tem muito sangue...

O corpo do tio Bem estava assim, o corpo da Gwen estava... Estava...

Lágrimas começam a rolar do meu rosto e sinto todo o meu corpo tremer. Logo também sinto as mãos de alguém em meus ombros. Olho para frente e vejo Deadpool. Sua máscara ainda lá. Ele parece falar algo, mas não entendo, meus pensamentos acelerados impedem que eu processe o que ele diz.

Sinto seus braços me sacudindo. Fecho meus olhos e respiro fundo. Penso no céu, nas nuvens... Penso no nada. Respiro fundo e depois solto o ar. Repito isso inúmeras vezes. Sempre que qualquer imagem de morte aparece em minha mente, trato de expulsá-la para bem longe.

Depois de longos minutos, já com a minha respiração mais estabilizada e meus batimentos cardíacos próximos do normal, abro meus olhos. Minha visão ainda estava meio desfocada por conta das lágrimas, mas já podia ouvir o que Wade falava.

— Peter, você está bem? Quer ir a um médico? Fala alguma coisa, Peter! – o tom de urgência em sua voz é palpável, mesmo assim, respiro mais uma vez antes de responder.

— Eu estou bem.

— Está bem? Chama isso de bem? – questiona alarmado.

— Eu estou bem, Wade – falo firme e já com certeza das minhas palavras.

Eu estava bem. Eu ia ficar bem. Mortes acontecem, eu não posso fazer nada para mudar isso. Eu precisava ser forte. O que Quentin havia me dito estava claro, ou eu era forte e vivia, ou era fraco e morria.

Eu estava bem.

— Acho melhor eu levar você ao médico – Wade fala levantando e me puxando junto. Desvencilho-me de seus braços e me afasto.

— Eu já disse que estou bem! – digo alto.

— Mas eu estou vendo que você não está! – Deadpool devolve no mesmo tom, o que me irrita ainda mais. – A merda que estão fazendo com você está te deixando ferrado! E eu não quero que você acabe um ferrado mental como eu! Então não diga que você está bem quando eu posso ver que você não está, porra! – Wade quase gritava, o que me assustou um pouco. – Agora será que podemos ir e chamar a polícia ou sei lá?

— Eu vou voltar para casa e ler os arquivos que eu peguei, não vamos chamar a polícia, isso só vai chamar atenção desnecessária, eu não posso ser envolvido com isso, finalmente estou um passo a frente deles, sei que estou!

— Do que você está falando, Peter? Tem um cara morto aqui que se suicidou na nossa frente e depois de ficar em pânico no chão você que ir para casa ler?

— Cala a boca! Você não sabe de porra nenhuma que está em jogo aqui!

— COMO EU NÃO SEI? – Wade berra. – Por que você age como se não tivesse nada entre nós? Será que você não nota que eu me importo com você porra! Eu sei o que está acontecendo aqui e eu sei que eu não vou perder você, então chega dessa história, você vem comigo. – Wade aproxima-se de mim e pega meu braço, no mesmo instante sinto como se tivesse levado um choque.

— EU SOU O HERÓI DA HISTÓRIA! NÃO PRECISO QUE ME SALVEM! AINDA MAIS UM ASSASSINO! – berro o mais alto que posso e puxo meu braço com uma força desnecessária, fazendo com que ele quase bata na parede atrás de mim. – Eu estou bem! Eu vou... Eu vou fazer o que tem que ser feito e vou vencer! Eu não vou ser fraco como todo mundo insiste em achar, e se for para eu morrer, que eu morra levando o culpado disso tudo comigo!

Sem me importar com nada do que eu disse, pego minha máscara no chão, minha mochila e saio do quarto, entro no escritório e sem olhar para trás saio pela janela.

Está tudo bem

Está tudo bem

Está tudo bem

Está tudo bem

Ninguém tem tudo

(Hero – Regina Spektor)

Notas finais
“Ser ou não ser, eis a questão. Qual é a mais digna ação da alma; sofrer os dardos penetrantes da sorte injusta, ou opor-se a esta corrente de calamidades e dar-lhes fim com atrevida resistência? Morrer... dormir... nada mais... Morrer é dormir, sonhar talvez...” (Hamlet) Esse capítulo foi pesado sim, mas necessauro. Agora, se não estiverem muito cansados, vamos a algumas explicações: The Prestige: Foram as últimas palavras de Quentin, e o que significa? Na tradução seria “O Prestígio”, mas o significado não é só isso. Há um filme maravilhoso do Christopher Nolan chamado “The Prestige” ou na tradução em português “O Grande Truque” (recomendo). O filme tem como foco mágicos e truques, e nesses truques sempre há 3 atos: “Todo grande truque de mágica consiste em três atos. O primeiro ato é chamado “A Promessa”: O mágico mostra à plateia alguma coisa ordinária. Um maço de cartas, um pássaro ou um homem. Ele mostra um objeto, talvez peça para que o inspecionem e vejam que é de verdade, mas naturalmente não é. O segundo ato é chamado “A Virada”: O mágico transforma essa coisa ordinária em algo extraordinário. Agora, você está procurando pelo segredo, mas não encontrará. Porque não está realmente olhando. Vocês não querem realmente saber. Vocês querem ser enganados. Mas ainda não aplaudem, porque fazer algo desparecer não é o suficiente. É preciso trazê-la de volta. Por isso todo truque mágico tem um terceiro ato. A parte mais difícil. A parte que chamamos de “O Grande Truque”.” (ou no caso, The Prestige). — Trecho retirado do filme - As coisas que aconteceram ao longo da fic e o próprio personagem Mystério me fizeram lembrar muito do filme e do conceito. Como o Mystério é um vilão que se baseia em truques e efeitos especiais, e ainda trabalhou no cinema, cabe muito bem essa pequena referência que eu quis colocar. Espero que tenham entendido, se não, vida que segue. Ataque de Pânico: é um período de intenso medo ou desconforto, tipicamente abrupto. Sintomas: tonturas, falta de ar, aperto na garganta e no peito, falta de conexão com que se passa à sua volta, batimento cardíaco rápido, preocupações obsessivas e pensamentos indesejados, ansiedade e medo aterrorizante. Ataque de Pânico pode acontecer por vários fatores, situações de extrema ansiedade e o histórico da pessoa podem contribuir. Resumindo, isso é uma explicação para o que aconteceu com o Peter no momento em que Mystério se suicidou. Ele enfrentou um grande estresse e já tem um histórico de situações complicadas, isso acarretou em um momento de histeria. Eu não quero deixar vocês perdidos e se perguntando: que marmota é essa que está acontecendo aqui? E também não quero que vocês pensem quem o Peter (aqui na minha fanfic) só chola ou está distante de ser o Peter das HQs e dos filmes. Por isso me senti na obrigação de colocar o porquê da reação dele. Mas há mais o que se falar, a construção (ou desconstrução) que está ocorrendo aqui com o personagem é mais complexa do que parece e eu gostaria muito de escrever sobre isso. Por isso estou com a ideia de escrever um jornal (lá no spirit) explicando tudo o que está acontecendo psicologicamente (e até fisicamente) com o Peter. Mais no final da fanfic, é claro, para poder pegar toda a jornada de desenvolvimento. Mas só irei fazer se alguém se interessar a ler (bom, talvez eu escreva mesmo sem ninguém ler, só porque eu quero muito. Rá.). Então fica ai o questionamento: Vocês teriam interesse em ler todo o desenvolvimento psicológico do Peter da minha fanfic? Respondam ai, meus chuchus. Isso é tudo por hoje, pessoal! Já está um texto absurdo de grande. Quero agradecer muito aos comentários maravilhosos que estou recebendo e todos os favoritos. AMO MUITO VOCÊS!!! E lógico, quero saber, o que acharam do capítulo? Até o próximo capítulo nessas mesmas bat-bandas, muchachos!! Beeeeijos s2 P.S. Agora tenho a versão física da revistinha do Homem-Aranha & Deadpool Nº1. Rá! Namorando muito aqui com ela.