Não apenas um bromânce
10 Ânsia lasciva
Notas iniciais
Neste mundo, há apenas duas tragédias: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, e a outra a de os satisfazermos.
(Oscar Wilde)
Peter Parker
O som dos sapatos batendo no chão era ensurdecedor e dissonante, cada pessoa ali presente perambulava para lados divergentes, muitas vezes, se colidindo na pressa para percorrer seu caminho.
Todos os sons dos dedos digitando, dos lápis batendo, dos sapatos colidindo no piso, das canetas escrevendo, das pessoas falando penetrava cada vez mais em minha cabeça, começando a ocasionar um latejar em minha cabeça.
Além da dor, havia um crescente nervosismo. Como o dia de ontem havia sido um completo fracasso irritante, as fotos que eu deveria passar acabaram ficando de lado, o que acarretou em uma mensagem estressada de Jonah em meu email e também uma enxurrada de chamadas em meu celular.
Resultado: agora eu estava sentando em uma cadeira ao lado da porta de entrada para a sala de Jonah, com as fotos do acidente e algumas poucas do Homem-Aranha em minhas mãos.
É claro que J.J.J não iria permitir que a minha vida tivesse nem um seguimento bom, eu não deveria estar tão surpreso afinal, eu tinha feito algo errado, e se ele já me cobra quando faço tudo certo, isso era o mínimo que eu deveria esperar – e até agradecer à Odin por não ter sido pior.
Todavia, eu tinha certeza de que o motivo de ele ter me chamado aqui era para me dar um sermão, já estava implícito no tom de voz e nas palavras que ele usara ao telefone. Acho que talvez eu merecesse, mas não estava com nenhum resquício de paciência para ouvir sua voz jogar uma torrente de xingamentos a mim.
Talvez o motivo para a dor de cabeça, o cansaço e até as olheiras abaixo dos meus olhos fosse ele, mesmo que eu não fosse admitir plenamente, eu havia ficado ponderando um pouco sobre os acontecimentos de ontem.
Eu já havia conseguido superar o fato todo do grande susto com a tia May, apenas um pouco de – muita – raiva permanecia. Entretanto, não poderia dizer o mesmo sobre Wade.
É. Eu me sentia um fracasso, mas a verdade era que eu ainda permanecia com um grande desejo referente à pessoa dele. O que era totalmente injusto comigo. Já me bastava essa vida ruim que eu estava tendo agora, um pouco de sorte seria bem aceita por aqui.
Talvez a solução fosse extremamente simples, talvez eu apenas devesse beijar Wade. Porém, não, eu não iria dar o meu braço a torcer. Ele era um mercenário imundo e idiota, não merecedor de afeto e carinho. E eu nem sequer conhecia o rosto e a pessoa por trás daquela máscara.
Acho que eu estou sendo um pouco discriminador e injusto com Wade, ele havia ficado comigo em momentos difíceis, tinha sido um belo amigo quando eu precisei e até havia me feito sorrir em horas que eu queria simplesmente desaparecer.
No entanto, não era meramente por isso que eu iria chegar lá e beijá-lo. Mesmo que o meu íntimo estivesse queixando-se e protestando para que eu o fizesse.
— Peter? – ouvi a voz feminina de Betty e acordei do meu torpor, levantando rapidamente, um pouco atrapalhado. – O Jonah pode receber você agora. – disse dando um pequeno sorriso.
— Obrigado, Betty. – agradeci com um pequeno sorriso e fui em direção à porta, mas virei para trás antes de abri-la. – Ah, Betty?
— Sim?
— Como ele está? – questionei baixo. Betty respirou fundo e fez uma pequena careta.
— Tão delicado quanto um tiro de canhão. – disse e voltou ao seu sorriso de antes, me dando as costas e voltando para a sua mesa.
Ótimo, maravilhoso, tudo o que eu sonhei.
Voltei meu rosto e visualizei com cuidado a porta, dando uma grande atenção às letras lá postas: J. Jonah Jameson. Acho que ficaria melhor: o demônio enviado para fazer Peter Parker sofrer. Respirei fundo e girei a maçaneta, adentrando na sala logo em seguida.
Não levantei meu olhar até ter fechado, com cuidado, toda a porta novamente.
— Lembrou que tem um emprego, não é Parker? – começou com a voz grave e um tom irônico, dando, posteriormente, uma grande tragada em seu charuto. – Talvez não precise mais se preocupar com isso amanhã.
Inspiro profundamente, sem querer, inalando um pouco da fumaça. Engulo o acesso de tosse que estava por vir e chego mais próximo a grande mesa.
— Desculpe Jonah, eu tive alguns problemas...
— Você julga, com todo o seu grande intelecto, que eu tenho tempo para ouvir os seus pretextos esfarrapados? – sua voz manteve o tom grave, encarando-me profundamente nos olhos, quase parecendo que a qualquer momento poderia fazer com o que eu explodisse, apenas com o poder da mente.
— Desculpe mesmo senhor, não vai acontecer de novo. – desculpei-me com a voz mais firme que consegui.
Jameson continuou a me encarar por alguns segundos, fuzilando, com certeza, até a minha alma. Com todos os anos que nós já nos aguentávamos, eu já deveria estar acostumado ao seu olhar e sua voz, mas ainda havia um embrulho no estômago e mãos suadas e tremendo.
— Dessa vez passa, na próxima, está na rua, Parker! – deu um grito final e uma última tragada em seu charuto, deixando o em cima do cinzeiro. – Agora me dá logo essas fotos e vá embora, antes que eu mesmo o chute para fora daqui!
Pisquei uma vez e logo tratei de posicionar as fotos em cima de sua grande mesa. Murmurando mais um desculpe e um obrigado, sai da sala. Logo que cruzei a porta e a fechei, dei de cara com uma Betty preocupada.
— Ainda tem o emprego? – perguntou encarando-me.
— Claro que sim, ele me ama. – respondi dando um sorriso e recebendo outro de Betty.
— Que bom, assim não preciso procurar gente chata e aturar novatos. – falou com um olhar superior, voltando depois para a sua mesa.
Eu sabia que Betty gostava de mim, mas também sabia que ela não era de demostrar afeto e empatia por ninguém, o que levava a situações engraçadas como essa.
Segurando firme uma das alças da mochila em minhas costas, começo meu percurso até o elevador.
Um dos problemas já havia sido solucionado, fotos com Jameson e salário ao fim do mês. Próximo tópico: assassinos. Além do mercenário tagarela, existiam os outros assassinos que, estranhamente, pareciam ter sumido.
No caminho para o Clarim, nem sequer uma vez meu sentido aranha havia apitado, como estava de costume ultimamente. Eu deveria agradecer, mas isso não me acalmava nem um pouco.
Enquanto estava no elevador, deixei de lado a parte mais fudida da minha vida, e concentrei-me mais na outra questão, Deadpool.
Não que eu realmente quisesse estar concentrando meus pensamentos nele, mas eu não tinha escolha, ele estava impregnado em meu cérebro. E eu seria eternamente ingrato a ele por isso.
Eu não desejava estar com a imagem mental dele com a sua máscara um pouco erguida, deixando a mostra seus lábios que sempre carregavam o mesmo sorriso irônico. Não, eu não queria essa imagem estampada em minha cabeça.
Mas ela estava, estava lá, tentando-me cada vez mais, instituindo os desejos mais primitivos que eu tentava manter, a qualquer custo, bem guardados em meu âmago. Era lascivo ao extremo.
Fecho meus olhos e esmordaço meu lábio inferior, que já continha uma ferida. Tento, com a dor causada pelas mordidas, vetar os pensamentos que estava tendo. Mas a distração foi em vão, mesmo que eu impedisse meus pensamentos de rondarem memórias indesejadas, o meu corpo agora estava bem acordado e protestando veemente para ter o que queria.
E o que o meu corpo queria era evidente. Wade.
Deadpool.
Meu cérebro corrige quase como se eu houvesse falado algo errado. E, de certa forma, eu havia falado algo errado mesmo. Bem, errado às vistas do meu pudor.
Eu agora havia pegado a desgraçada mania de somente chamá-lo de Wade. Eu não possuía tanta proximidade e empatia com o indivíduo em questão para estar tão íntimo dele.
Para o seu bem, é melhor chamá-lo de Deadpool.
Eu concordava completamente com o meu eu interior. Ou talvez fosse meu cérebro ou minha castidade. Não importa, a mensagem era clara, independente da onde tivesse se originado. Não criar intimidade com Deadpool.
Desperto de minhas ponderações quando as portas do elevador se abrem, mas não mostraram a visão do primeiro andar, e sim do segundo, onde estava parado um jovem de cabelos loiros, quase castanhos. Ele trajava uma roupa simples e carregava uma mochila. Depois de notar que estava o encarando, desvio o olhar para o chão. Ele entra e se posiciona ao meu lado.
— Oi, eu sou Edward Brock, sou um dos novos estagiários aqui. – apresentou-se animado e com a voz carregada de orgulho.
— Oi, Peter Parker, sou o fotógrafo. – digo apenas, tentando ao máximo não prolongar o assunto, mas é claro que não podia dar certo.
— Parker! Sim, já vi seu nome no jornal. Você tirou umas fotos bem legais daquele tal Aranha, não, é?!
— É, obrigado... – agradeço e vejo as portas do elevador abrirem. – Legal conhecer você, Edward. Até mais.
— Até mais, e Peter? – viro e o encaro. — Pode me chamar de Eddie.
Vejo as portas do elevador se fecharem e o sorriso de “Eddie” aumentar. Nenhum sentimento bom ou ruim veio dele, mas sim uma sensação estranha. Quase podia prever que o veria novamente. Dando de ombros, decido ignorar e continuar meu trajeto para fora.
Eu não trajava muitas roupas, ou ao menos, uma touca. Estava usando roupas simples, e com meu rosto bem a mostra. Não que eu quisesse ser mesmo morto ou estivesse testando o destino, apenas aquele sentimento desagradável e incessante que eu sentia anteriormente havia se dissipado quase por completo.
Enquanto perambulava pelo meio das incontáveis pessoas na calçada, eu já não mais desviava meu olhar assustado e com temor, insolitamente, eu sentia-a me leve, aprazível.
Todavia, esse sentimento todo me trazia grande irritação, não pelo sentimento em si, mas sim pela justificativa desse bem-estar todo. Eu poderia contestar o quanto quisesse, porém, não iria mudar o fato de que era por causa dele que eu me sentia desse jeito.
A confusão toda de ontem à noite havia deixado eu e minhas ideias desordenadas. Aquilo remetia a eu ordenar todos os meus pensamentos com cuidado, desviando toda a minha atenção para isso, impedindo que eu deixasse martelar incansavelmente todos os horrores que eu passava atualmente.
Porém havia outra parte de mim que carregava de forma ávida um sentimento desesperado, esse sentimento era o mais primitivo e rudimentar desejo. Luxúria por si só, impregnada em cada célula do meu corpo, borbulhando e gritando, protestando e reivindicando ser aparada.
Caminho até em casa, sem nenhum tilintar do meu sentido aranha. Entro em meu apartamento e deixo minha mochila de lado, sentando em meu sofá e puxando minhas pernas para perto, contornando-as com meus braços.
Minha mente estava um pandemônio, desorganizada até o último fragmento de espaço. Eu não sabia se pensava e ponderava sobre o que havia acontecido ontem na casa de tia May, ou o meu futuro, ou o fato da tranquilidade ter se instalado por agora, ou o fato de eu estar desejando tão avidamente um mercenário inescrupuloso e tarado.
Talvez eu devesse pensar no fato de estar com fome.
Sinto um incómodo no estômago seguido de um barulho, era claramente meu senso primitivo avisando-me de que precisava comer.
Assim como o desejo é o seu senso primitivo avisando que você quer copular com alguém.
— Agora por acaso eu fiquei louco como o Deadpool? — questiono em voz alta olhando ao redor.
Só o que me faltava agora era eu estar com vozes na cabeça como ele.
Suspiro frustrado e me levanto, indo em direção à geladeira. Abro-a e sinto um vento frio atingir o meu corpo, mas nem sequer um resquício de comida se apresentava aos meus olhos.
— Casa própria, responsabilidades feitas, maior idade...
Fecho a geladeira e volto para perto da minha mochila, pegando-a novamente e a colocando em meu ombro esquerdo. Saio do apartamento, novamente, e rumo para o restaurante mais próximo, que, na verdade, era uma pequena lanchonete.
Entro nela e sento-me em uma mesa perto da parede, colocando minha mochila na cadeira ao lado. Enquanto esperava ser atendido pelo que parecia ser a única garçonete ali, permiti que meus olhos varressem o local.
Poucas mesas se instalavam ali, e também poucas pessoas. Nunca havia pisado naquele lugar, mas pelo cheiro a comida parecia ser deliciosa. Depois de alguns minutos, a garçonete ruiva vem à minha mesa, pega meu pedido, um hambúrguer e uma Fanta de laranja, e retira-se para o que penso ser a cozinha.
Tento focar meus pensamentos em outras coisas e nada.
Eu quero beijar Wade. Eu quero Beijar Wade. Eu quero beijar Wade.
Isso martelava tanto em meu cérebro que a ideia já começava a se tornar muito menos questionável, digamos até, aceitável. Agradável, louvável, apreciável...
— Aqui. – disse a garçonete enquanto colocava meu pedido na mesa. Agradeci com um sorriso e ela logo se foi.
Comecei a comer logo, não dando espaço para quaisquer outras ponderações sobre o assunto. O que foi uma tarefa deveras impossível.
A comida, como eu achava, era realmente boa. Depois de comer, o mais lentamente que era possível para o meu ser, paguei e sai do estabelecimento, com minha mochila no ombro.
Olhei para os dois lados da rua e observei. Observei as pessoas, o céu, os detalhes de todo o cenário à minha frente. Mas ainda continuava desorientado, sem rumo ou ideia do que pudesse fazer.
Não que eu não tivesse o que fazer, pois a lista disso é grande, entretanto, mesmo depois de pensar o mais fundo que eu conseguia e por tanto tempo, ainda sim não sabia o que fazer ao certo.
Era claro que eu estava mantendo meus desejos primitivos presos no fundo do meu âmago, mas eu não tinha outra opção saudável.
Comecei a caminhar de volta para o apartamento, aproveitando os sons da rua para me distrair. Poucos passos depois eu já me encontrava entrando no prédio e subindo as escadas. Logo, eu já estava dentro do meu apartamento, atirado na cama.
O teto agora aparecia um tanto quanto interessante. Talvez eu começasse a contar as pequenas rachaduras ou a quantidade de manchas que o marcava. Tudo para tirar a ideia idiota da minha mente.
Mas por que é tão idiota?
Sentei na cama e suspirei.
— Eu não posso simplesmente chegar e beijar o Wade, posso? – perguntei em voz alta.
Talvez.
— Mas... Ele... – balbuciei algumas palavras, mas não conseguia pensar em nada coerente que se encaixasse na situação.
Levantei e comecei a perambular pela casa.
— Ele é um mercenário, você sabe o que é isso Peter? Ele mata por dinheiro!
A imagem de Wade matando alguém era abominável e causava certa agonia e repulsa. Mas essa imagem logo se dissipava da minha mente, dando lugar ao sorriso pervertido que o mesmo adorava dar.
— E ele... Ele é meio... – lindo? Desejável? Beijável? — Idiota...
Parei no meio da sala e fechei os olhos.
Pensei e repensei, explorei, averiguei e verifiquei todos os contras. A lista parecia interminável, tão extensa quanto os relatórios da S.H.I.E.L.D. Há contraposto, a lista de prós era tão curta quanto a decência do Wade.
Mas, a lista de contras não saciava meu desejo, então...
— Ah foda-se. – profiro em bom tom e vou para o quarto.
Com uma velocidade quase sobre-humana, tiro minha roupa e coloco o uniforme de Homem-Aranha. Tão rápido quanto me visto, saio do apartamento.
O vento que penetrava no uniforme e atingia a minha pele era refrescante, só então pude perceber que eu estava quente. A quentura que emanava do meu corpo era claramente um aviso da minha necessidade de abater meu desejo. E talvez – com certeza – uma consequência da vergonha que eu já estava sentindo por estar mesmo prestes a fazer algo desse tipo.
Enquanto procurava pelo uniforme vermelho de Deadpool pela cidade, acabei esbarrando em pessoas que necessitavam do meu auxílio. Ajudei uma mulher com um assaltante, alguns garotos com problemas e um comerciante. E, é claro, não podia me esquecer da velinha que havia me feito pegar seu gato de uma árvore.
Quando eu finalmente avistei aquela roupa vermelha e preta caminhando por uma calçada, o sol já estava quase se pondo. Deixei que meu uniforme transparece-se bem em sua visão, atraindo seu enfoque para mim.
Pousei em um prédio e tive certeza que tinha conseguido o que queria. Ergui alguns centímetros a minha máscara, libertando assim meus lábios.
Só quando escutei Deadpool subindo o prédio e se aproximando foi que eu coloquei mais um número para a equação.
Será que agora seria a hora certa de eu contar que meio sou o Peter Parker?
Permaneci olhando a cidade, de costas para onde Deadpool estava vindo. Meu coração começou a acelerar com o simples som da voz de Wade.
— Seria o paraíso que estou vendo em minha frente? – comenta aproximando-se mais ainda de mim.
Eu senti minhas bochechas queimarem, meu coração saltar e minhas mãos suarem. Até quase pude visualizar minha garganta se fechando aos poucos.
Eu ainda queira beijá-lo, eu ainda faria, mas ali a situação era mais complicada, ainda mais quando há meio segundo eu me lembrei de que Wade nem sabia quem eu era de verdade.
— Você está na bad de novo ou algo assim? Se tiver, saiba que tem mais abraços de onde aquele veio... – respirei fundo e dei mais um foda-se para tudo.
Viro-me para Wade e movo-me em sua direção, com movimentos rápidos e precisos.
Pressiono seu corpo na parede, não medindo, e nem me importando em medir, a força com que fiz isso. Pude ouvir o som do seu corpo batendo no concreto e o baixo gemido que escapou dos seus lábios.
E não dava para esconder que aquilo havia sido excitante.
Não posso ver nem uma fração de seu rosto, ele ainda aparece integralmente oculto pela máscara vermelha e preta.
Todavia, eu não usufruía ainda de uma decisão completa, uma parte irritante, devo ressaltar, do meu ser não havia sido completamente arrebatada pelo desejo. Minha parte puritana ou minha parte que me impedia de fazer merdas, eu não tinha certeza.
Com a minha boca entreaberta e minha respiração descompassada, eu me aproximo um pouco mais de Wade, tendo em mente que meu rosto deveria estar mais corado do que seria possível.
Estanco, porém, no meio do caminho, quando resta poucos centímetros de distância entre nós. Vejo que a respiração de Wade também está alterada, e isso apenas faz com que meu coração acelere mais.
Sinto quando Wade começa a levantar seu braço, talvez para tocar em mim, me afastar ou, provavelmente, levantar sua máscara. Uma – grande – parte de mim queria permitir que ele tivesse êxito nesse ato, mas outra ainda meio insegura fez minha mão ir de encontro ao pulso dele e o parar.
Pare de ser frouxo, Peter! Você quer, parece que ler quer, beija logo, PORRA!
Engoli em seco e fitei os olhos da máscara de Deadpool. Não era reconfortante, era apenas... branco. Puxando um pouco de ar, deixo que as palavras escapem, lentamente, da minha garganta.
— Se eu te beijar... – a palavra “se” parecia não se encaixar nesse cenário, entretanto, era um preparo de terreno aceitável para alguém, que como eu, está tão confuso e hesitante. – O que você vai fazer?
Ouso uma leve risada vinda de Wade, eu conseguia até visualizar bem seu sorrisinho malicioso por debaixo da máscara.
— Essa pergunta tem uma resposta tão estupidamente óbvia que eu estou surpreso de você fazê-la. – respondeu de maneira sacana e com a voz um pouco mais rouca e baixa do que o normal.
Essa réplica para minha pergunta havia feito meu desejo crescer mais ainda. Eu podia sentir a ânsia e sôfrego de todo o meu corpo. Eu todo estava ansioso e nervoso ao mesmo tempo, a sensação era ao mesmo tempo exitante e torturante.
Levei minhas mãos calmamente até a máscara de Deadpool, fui até um pouco abaixo de seu queixo, quase no fim de seu pescoço. Enfiei meus dedos por debaixo do tecido e pela primeira vez, mesmo que fosse com as minhas luvas atrapalhando, pude sentir a textura da sua pele. Era macia, mas não perfeitamente homogênea, possuía algumas elevações e falhas.
Comecei a puxar o tecido, observando atentamente cada traço do que eu via. Eu já havia o visto com a máscara erguida, mas era diferente agora. Nós estávamos mais perto do que o comum, eu estava prestes a fazer algo que antes eu não imaginava fazer.
Blasfémia, Peter! Você já se imaginou o beijando antes.
Realmente já havia imaginado mesmo, mas isso não vinha ao caso.
Depois de alguns segundo, decido por levantar logo o resto da máscara, pelo menos até um pouco acima do nariz. As cicatrizes ali presentes não me assustavam, ou causavam nojo, também não me excitavam e maravilhavam, elas simplesmente estavam ali.
Mas, em contraposto, seus lábios – obviamente repuxados no mesmo sorriso sacana que tanto impregnava a minha mente – instigavam-me ainda mais. Não eram perfeitos, e muito menos comuns ou sem graça, eles eram incrivelmente beijáveis.
As nossas máscaras estavam erguidas, nossos rosto próximos, nossas respirações falhadas... Mas eu ainda não tinha certeza.
— Essa resposta... Quer dizer sim? – perguntei, ainda indeciso sobre meu ato. Não que eu fosse invadir sua privacidade e o deixar mal, eu estava me protegendo de consequências futuras.
— Não... – disse e diligente pegou meus braços e nos trocou de posição, dessa vez me prensando na parede. – Quer dizer que se você me beijar, eu com certeza vou querer mais ainda foder você.
Wade repuxou mais ainda seu sorriso, e nos segundos que se seguiram antes dele se aproximar, eu podia visualizar muito nem a nossa relação. Primeiro encontro idiota, irritações constantes, convite inusitado, ombro amigo... E agora, alguém para, além de afogar as mágoas, afogar os desejos.
Essas imagens foram rapidamente apagadas quando Wade finalmente me beijou. Nem esperou que eu me recuperasse da surpresa e já forçou minha boca para que sua língua pudesse adentrar.
Eu sei que vim até aqui exatamente para isso, mas ainda sim, foi algo repentino. Eu não estava mais no controle – se alguma vez eu tinha estado.
Não vetei seu ato, pelo contrário, abri meus lábios e pude sentir sua língua entrando e explorando com urgência cada parte da minha boca. Wade parecia mais necessitado do que eu, suas mãos agarraram meu rosto fortemente, apertando-me com desejo.
Deixei meus braços parados, não porque queria, e sim porque estava completamente perdido. Tudo o que passava pela minha cabeça e tudo o que o meu corpo poderia processar era o beijo.
Era melhor do que eu imaginava, mesmo que nos encontrássemos tão colados que conseguiríamos nos fundir, eu ainda necessitava que ele se aproximasse mais e mais.
Meu corpo ainda estava quente, e só aumentava mais ainda sua temperatura. Wade não era a água que me apagaria e me acalmaria, Wade era o álcool que espalhava mais o fogo pelo meu corpo.
Eu senti quando Wade pressionou mais minha máscara contra o meu rosto, ao mesmo tempo em que a puxava para cima. Ele esfregava aquele tecido em mim, era uma dor que passava despercebida, isso pelo simples fato de que eu só queria e me importava com a sensação que era ter os lábios de Wade colados aos meus.
É claro que eu senti quando a máscara libertou por completo meu rosto, é claro que eu podia ter impedido, é claro que o meu sensor tilintava como um louco quando isso aconteceu, entretanto, eu não tinha mais nenhum pensamento coerente pairando em minha mente, ou quem sabe, um resquício daquele santo pudor que me impediu de tornar esse ato real mais cedo.
Eu apenas tive um vislumbre de consciência quando meus pulmões doeram lascivamente. Eles queriam ar, nem que fosse um resquício. Puxei minha cabeça um pouco para trás, quase a esfregando no concreto. Wade parecia ter entendido o recado, pois separou seus lábios dos meus, mas não o seu corpo, esse permanecia ainda colado junto a mim.
Pelo menos agora eu não tinha que decidir se contava a verdade ou não.
Agora, longe daquele beijo tóxico, eu podia sentir o vento frio batendo em meu rosto, e era dolorido. Dolorido pelo fato de minha pele estar quente, e em contraste com aquele gelo, se fazia presente um ardência. E também dolorido pelo fato de eu sentir o peso de ter deixado que minha máscara fosse retirada.
E mesmo com tudo isso, eu ainda continuava com um desejo correndo pelas minhas veias.
Eu estava ofegante, e a cada inspirada, eu sentia meus pulmões doerem por causa do contato com o ar gelado. Eu queria por minha máscara novamente, já sentia minhas bochechas ficarem mais coradas e quentes do que estavam antes, tanto pelo beijo quanto por toda a situação. Todavia, eu não conseguia – e nem queria – abrir meus olhos, ou quem sabe mover minha mão até o tecido que agora estava na mão do mercenário. O jeito sutil que ele se afastou de mim não foi processado na hora pelo meu cérebro, só depois de alguns segundos.
Eu poderia ter ficado por muito tempo ponderando sobre a situação, mas – graças a Odin – meu sentido aranha estava funcionando, e eu pude sentir, até o ouvir, o leve ruído do metal rasgando o ar. Afastei-me o mais rápido que pude para o lado, rolando pelo chão e parando de pé um pouco afastado da onde eu estava.
Olhei em choque para frente, Deadpool, ainda com a máscara levantada, mas sem o seu sorriso, havia empunhado sua Katana, que agora estava com o cabo bem preso a sua mão e a lâmina com a ponta cravada na parede onde eu estava antes.
— Mas que Po... – não terminei minha frase, a mera pronuncia daquelas palavras havia feito uma ardência horrível em meu pescoço. Levei minha mão até o lugar dolorido, e mal o tecido da minha roupa entrou em contato com o lado direito do meu pescoço e já senti uma dor lancinante, afastei minha mão rapidamente e a trouxe até o meu campo de visão, e mesmo meu uniforme sendo vermelho, eu pude ver um pouco de sangue.
Fale com o autor