Não Te Esquecerei Jamais
21 O dedal não é o de costura
Capítulo 20
Sentada no banco do ponto de ônibus havia quase dez minutos, vi o mesmo carro prata passar por mim pela terceira vez. A feira era um lugar de muito movimento em dias normais da semana; no final de semana, contudo, esse fluxo triplicou. Era praticamente impossível achar uma vaga para estacionar nas redondezas depois do meio-dia.
Cheguei bem mais cedo do que o previsto. Com uma hora inteira de antecedência, não tive coragem de fazer o percurso de mais ou menos seis minutos a pé até a entrada principal do evento. A pessoa que havia marcado de me encontrar ali sabia exatamente quem eu era. Eu, por outro lado, embora alimentasse minhas fortes suspeitas, não tinha cem por cento de certeza da identidade do autor do desenho.
A feira ficava localizada bem no centro da cidade, onde várias linhas de ônibus se cruzavam, e ainda assim era preciso esperar alguns longos minutos para ver algum passageiro de fato desembarcando de alguma delas. Decidi puxar o celular e tirar uma fotografia do painel com os horários da linha que passava perto da minha casa. Eu precisava fazer o mínimo de planejamento logístico, se não quisesse mofar no ponto por uma hora inteira na volta.
Olhei mais uma vez para o visor do relógio, tomando ciência de que havia se passado treze minutos desde a última vez que chequei o tempo. Talvez eu tenha exagerado um pouco ao me programar para chegar tão cedo. Cheguei cedo demais, sem nem ao menos ter um lugar divertido por perto para matar a hora. Suspirei profundamente e me coloquei de pé, decidida. Meu plano agora era andar até o supermercado que fica do outro lado da pista e dar uma olhadinha nas prateleiras para distrair a mente.
Eu costumava matar o tempo no supermercado sempre acompanhada da Cristina. A gente conseguia encontrar uma variedade imensa de bobagens dentro daquele estabelecimento, principalmente se a loja pertencesse a uma das grandes redes. Gostava de passear descompromissada pelo corredor dos brinquedos infantis; era estranhamente satisfatório apertar os botões das bonecas falantes e contar quantas frases diferentes elas reproduziam, embora a informação já viesse impressa na caixa. Os carrinhos de controle remoto eram os que mais me atraíam na seção dos meninos. Era bem legal vê-los correndo “sozinhos” pelo piso polido. Mas o que me deixava babando de verdade eram aqueles minicarros elétricos nos quais a própria criança podia sentar e dirigir. Havia de várias cores e estilos expostos, mas todos custavam os olhos da cara.
Saindo da ala dos brinquedos, fui em direção à seção de bichos de pelúcia. Era bem menor que a anterior, entretanto ainda exibia uma variedade boa de ursos e almofadas. Fiquei perambulando pelos corredores durante um bom tempo, detendo-me mais nas prateleiras que de fato me despertaram algum interesse. Entre as minhas favoritas estavam: a de brinquedos, a de pelúcia e a de eletrodomésticos na sua versão mais tecnológica, isto é, televisores de última geração, caixas de som potentes, notebooks e consoles de videogame. E claro, não podia deixar de visitar o corredor dos chocolates e salgadinhos.
Quando voltei a consultar o relógio, vi que faltavam dezessete minutos para as catorze horas. Decidi, então, que era o momento exato de caminhar em direção à feira . Se começasse o trajeto agora, chegaria ao ponto de encontro ainda com uma boa margem de tempo para assimilar tudo o que estaria acontecendo ao meu redor. Com certeza o local estaria lotado de pessoas àquela hora, parecendo um verdadeiro formigueiro humano. Eu precisaria de um momento de calmaria para procurar quem precisava encontrar no meio da multidão.
Caminhei em um ritmo perfeitamente normal e, ainda assim, meu coração acelerou de forma violenta. Era óbvio que os passos desacelerados dos meus pés nada tinham a ver com a palpitação pesada sob o meu peito. A sensação de ansiedade foi ficando mais forte à medida que eu me aproximava dos portões de entrada e, em um determinado momento, aquele incômodo nó na garganta começou a se formar. E ele dificultava ativamente a minha respiração. Apertava, apertava e apertava a minha laringe de um jeito que, se eu precisasse dar um gole de água naquele instante, o líquido simplesmente não passaria pelo espaço estreitado pelo nervosismo.
Embora fosse um dia fresco de inverno, as palmas das minhas mãos suavam frio. Secá-las no tecido da calça jeans não surtia efeito nenhum, porque o problema estava na raiz do meu estresse. Era aquele tipo de suor característico de nervoso que parece nunca secar. Caminhei lidando com mil pensamentos caóticos que surgiam ao mesmo tempo na mente. Eram tantos que alguns deles chegavam e sumiam sem que eu ao menos tivesse tempo de entender do que se tratava. Contudo, houve um questionamento que surgiu e fincou raízes, porque era um pensamento muito pertinente para o momento:
E se a pessoa com quem eu me encontrar não for o Guilherme, o que eu vou fazer?
Havia pouco tempo que eu tinha começado a entender a real importância de saber lidar com as expectativas humanas, sejam de que tipo fossem . No entanto, compreender o conceito na teoria era bem diferente de saber como tratar a influência delas sobre o meu psicológico na prática. Era difícil controlar o efeito devastador sobre os meus pensamentos e sentimentos. Como fazer o meu próprio coração entender que estava tudo bem se o dono do desenho não fosse ele?
Meus pés não pararam de se mover um instante sequer, mas vacilaram levemente no ritmo constante que mantinham por causa daquele raciocínio. Antes mesmo de eu cruzar a entrada oficial da feira, a multidão que chegava ao mesmo tempo que eu me abraçou por completo. Caminhei sendo arrastada pelo fluxo humano, mas sem deixar de notar que o sentido contrário, ou seja, o fluxo de saída, estava quase sem ninguém. Foi um alívio genuíno quando o espaço físico foi ficando maior e as pessoas começaram a se dispersar para diferentes barracas do complexo.
Sem parar de andar, respirei fundo o ar frio e segui em direção à ala dos brinquedos e atrações. Para chegar até lá, precisei cruzar a praça de alimentação, onde havia várias barracas exalando o cheiro de comida regional.
Soube que estava bem próxima do meu destino final assim que avistei as primeiras mesas de air hockey do parque. Elas ficavam posicionadas bem do lado da pista dos carrinhos bate-bate. Logo depois, começaram a surgir as inúmeras máquinas de medir a força com o martelo. Estava muito perto; eu já conseguia ouvir os gritos animados das pessoas que estavam se aventurando nos brinquedos de maior adrenalina.
Aumentei o ritmo dos meus passos. A sensação avassaladora de que eu deveria terminar logo com aquele momento de suspense sem fim tomou conta de mim por completo. Era exaustivo demais ter que tentar controlar todas as sensações extremas do corpo. Parecia aquela agonia de ter que arrancar tiras de cera depilatória da pele: arrancá-las de uma vez só causava uma dor intensa e aguda, mas era mil vezes menos dolorido do que puxar aos pouquinhos, saboreando o sofrimento.
Em algum momento eu cruzaria a linha de chegada e de fato isso aconteceu. No entanto, eu não estava psicologicamente preparada para dar de cara, imediatamente, com a estampa exata da jaqueta de couro do meu desenho. Foi tão ridiculamente fácil achá-lo que senti toda a expectativa de ter que procurar vagarosamente por ele se quebrar de maneira abrupta no peito. Nesse exato segundo, meus pés vacilaram e pararam no asfalto.
Apertei com força a alça de couro da minha bolsa e respirei fundo. Então, independente da sensação incômoda que me fazia acreditar que eu caminhava de maneira totalmente desengonçada — como se as minhas pernas tremessem cada vez que a sola do meu tênis tocava o chão —, desloquei-me com determinação em direção à silhueta do rapaz parado de costas.
Eu não conseguia ver a cabeça dele de onde estava, o que me causou uma pontada instantânea de frustração. O capuz do moletom branco que ele vestia por baixo da jaqueta cobria toda a região do pescoço e do cabelo. Me perguntei se ele tinha tido medo de que eu o reconhecesse de longe e desistisse de andar antes mesmo de alcançá-lo. Sendo sincera, era exatamente o tipo de fuga estratégica que eu faria se estivesse no lugar dele.
Meus pés se alinharam um ao lado do outro assim que cheguei ao fim da linha, parando logo atrás dele. Minhas mãos continuavam firmemente agarradas à alça da bolsa e pisquei os olhos mais rápido por um breve momento, como se meu cérebro estivesse buscando um estoque extra de coragem para falar. Uma música qualquer ecoava nos alto-falantes da feira, mas eu não fazia a menor ideia de qual melodia se tratava. Primeiro porque era uma canção que eu nunca tinha ouvido na vida; segundo porque o meu próprio coração batia tão alto nos meus ouvidos que bloqueava a grande maioria dos sons ao redor.
Pigarreei uma primeira vez, tentando chamar sua atenção. Ele não se moveu, indicando que não tinha ouvido. Sua cabeça continuava levemente erguida para o alto, o que me fez deduzir que talvez ele estivesse apenas observando o movimento da grande roda-gigante que dava voltas lentas diante de nós. Dei mais dois passos para a frente, diminuindo a distância, e reproduzi o som na minha garganta novamente, dessa vez de forma consideravelmente mais alta. A cabeça dele se moveu de leve com o ruído, mas ele ainda não tinha virado o corpo para mim.
— Boa tarde, Guilherme — falei de uma vez, quando percebi que ele não olharia na minha direção sem ouvir o som da minha voz preencher o espaço.
O rapaz moveu os pés no chão ao mesmo tempo em que levava as mãos até o capuz, puxando o tecido escuro para trás e revelando o rosto. Foi uma sensação extremamente esquisita porque, embora o movimento físico tenha durado meros segundos na realidade, a forma como o meu corpo reagiu ao choque fez parecer que tudo aconteceu em câmera lenta, demorando bem mais tempo.
— Olá, Ariana — ele respondeu, a voz mansa. Ele fez uma pausa curta enquanto o seu cenho se enrugava de leve. Ele parecia intrigado com a minha postura. — Você não parece nem um pouco surpresa em me ver aqui.
No céu, bem lá no alto, uma nuvem cinzenta se moveu devagar e um feixe de sol oportuno nos atingiu direto no rosto. Foi uma feliz e terna coincidência. Era quase como se o próprio universo estivesse testemunhando a cena e dissesse: até que enfim! Aleluia!
— Eu não estou nem um pouco surpresa — respondi, abrindo um sorriso aberto ao mesmo tempo em que estalava os dedos da mão livre. — Eu descobri rapidinho que o autor misterioso do desenho era você.
Quando as sobrancelhas dele se ergueram de imediato, a sua clássica expressão questionadora ficou completa.
— O número de garotos que fazem parte do meu ciclo social é bem pequeno, Guilherme. Eu só precisei parar para pensar um pouquinho — observei atentamente enquanto um sorriso genuíno desabrochava nos lábios dele. — Além do mais, você estava agindo de uma maneira bem estranha e suspeita ultimamente.
— Hum... Entendi o seu raciocínio. Mas por que você não me falou nada antes? — ele usou uma das mãos para bagunçar os fios de cabelo da nuca, um tique claro de timidez. — Nós já poderíamos ter resolvido a nossa situação bem mais cedo.
— Porque eu simplesmente amei a ideia de ter um encontro às cegas planejado. Achei o gesto super fofo da sua parte.
— Você gostou de verdade? — ele perguntou, o sorriso se alargando.
— Sim, eu gostei muito — respondi, sorrindo de volta e balançando a cabeça em uma afirmação convicta.
Uma de suas mãos, que até então repousava firme ao lado do corpo, percorreu o pequeno espaço vazio entre nós até encontrar a minha mão esquerda. Os dedos longos dele deslizaram suavemente sobre a minha palma até que nossas mãos se encaixassem num aperto firme e confortável. Em seguida, ele deu um passo curto para a frente, diminuindo a distância, e me perguntou:
— Vamos deixar a roda-gigante como o nosso ato final, então. Qual é o outro brinquedo do parque em que você quer ir primeiro?
Levei o dedo indicador da minha mão livre até o queixo e forcei uma expressão excessivamente pensativa. Quer dizer, no fundo eu estava decidindo em qual atração queria estrear a tarde, mas o teatro da encenação foi propositalmente exagerado.
— As mesas de air hockey — decretei.
Ele respondeu com um breve meneio de cabeça, concordando com a escolha. Começamos a caminhar lado a lado, ainda de mãos dadas por entre a multidão, quando, de repente, Guilherme quebrou o silêncio para me perguntar:
— Quer dizer então que, lá no dia do assalto da mochila, você já tinha certeza de que era eu o pretendente?
— Eu tinha uma forte intuição de que era, sim.
Guilherme fez um breve momento de silêncio, processando a informação.
— Nossa... Você fingiu muito bem na hora. Eu nunca imaginei que você já estivesse desconfiando de mim.
— É que eu não tinha como ter cem por cento de certeza absoluta, né? Sempre existiu aquela margem de erro, a chance de que não fosse você o autor do desenho. Já imaginou se eu invento de falar a respeito com você e quebro a cara descobrindo que o desenho era de outro? O que eu faria depois com a vergonha? Achei que era infinitamente melhor pagar para ver com os meus próprios olhos.
— Eu sempre conheci esse traço analítico da sua personalidade, Ariana, mas confesso que não esperava sofrer os efeitos dele na pele de novo.
— Do que você está falando exatamente? — perguntei, confusa.
Guilherme me encarou fixamente enquanto caminhávamos; ele até diminuiu a amplitude dos seus passos longos para conseguir me olhar bem no fundo dos olhos.
— Ariana, você é uma pessoa incrivelmente sensível e empática com o resto do mundo, e eu sempre comento isso quando vejo você chorar de soluçar assistindo a qualquer história triste na televisão .
— Mas...? — instiguei-o a continuar, sentindo o peso do tom dele.
— Mas você sabe ser extremamente fria e calculista quando a situação envolve diretamente os seus próprios sentimentos. A primeira vez que eu notei essa sua armadura de verdade foi naquela época das férias, quando voltamos a nos falar após o divórcio dos meus pais. Você foi super resistente. Sabia perfeitamente que o fato de eu estar frequentando os encontros da sua turma de bicicleta te incomodava por dentro, mas agia como se não fosse nada demais. Parecia simplesmente não se importar com a minha presença.
— Mas eu te tratava super mal no começo! — protestei em minha defesa.
— Quando nós estávamos no meio do grupo, só parecia o seu mau humor matinal de sempre — ele soltou um suspiro lento e, num gesto carinhoso, ergueu a mão para acariciar a minha bochecha. Havíamos parado totalmente de andar no meio do pátio da feira, porque eu estava estarrecida de surpresa com a clareza daquela análise dele. — Se você aceitou o convite e está aqui comigo hoje, certamente é porque sente algo romântico por mim, Ariana. Eu não estou dizendo que você agiu com frieza porque sabia dos meus sentimentos e fingiu ignorar, mas sim porque tinha plena ciência dos seus próprios sentimentos e preferiu passar por cima deles para se proteger.
— Bem... Na minha cabeça, fazer a grande "descoberta" aqui na feira seria bem mais legal, misterioso e marcante — justifiquei, fazendo o sinal de aspas com os dedos no ar para disfarçar o impacto das palavras dele. — Tipo: oh meu Deus, era o Guilherme o tempo todo! Que incrível! Parecia muito um roteiro perfeito de comédia romântica de cinema. Eu achei que podia muito bem esperar mais alguns dias pelo clímax.
Falei com o máximo de convicção que consegui reunir no peito. E sim, viver aquele momento estilo fanfic romântica da internet era algo extremamente realizador para a minha mente adolescente. Era um acontecimento super fofo, apesar de que eu precisava admitir para mim mesma que teria sido mil vezes melhor se eu não tivesse suspeitado de absolutamente nada antes. O que me levou a refletir, em silêncio, que as palavras do Guilherme carregavam um fundo de verdade inegável. Para o meu coração, parecia ser muito mais fácil e seguro deixar as coisas correrem exatamente como ele tinha planejado.
Encarei de relance o perfil do rosto dele assim que voltamos a caminhar em direção às atrações. Eu queria analisar qualquer mínima expressão que as feições dele esboçassem. Mas não consegui decifrar muita coisa. Será que ele tinha ficado chateado com a minha falta de surpresa? Ele queria ter resolvido o impasse mais cedo... O que exatamente ele pretendia sinalizar com aquela pressa toda?
Mudei a direção do meu olhar assim que meu cérebro encontrou uma justificativa reconfortante para a situação, no entanto, sentia que era um pouco errado alimentar aquela opinião pretensiosa. Talvez o Guilherme estivesse apenas terrivelmente ansioso para dar o primeiro passo oficial entre nós; talvez ele gostasse tanto de mim que não aguentava mais a agonia de esperar por tanto tempo em silêncio. Mas, uma vez iniciado o plano do admirador secreto, ele não conseguia mais mudar o curso das coisas, e a única maneira de adiantar o início de algo romântico seria se eu mesma tivesse tomado a iniciativa de falar.
Chegamos finalmente às máquinas de air hockey e a primeira coisa que avistei colada no metal foi a placa indicando os preços da jogada. Uma moeda de 1 euro nos daria o direito de disputar três partidas seguidas. Já uma de 2 euros nos daria o benefício de jogar oito rodadas. Optar pelas oito partidas era a escolha óbvia e mais econômica.
— Sai muito mais barato e vantajoso colocar direto uma moeda de 2 euros — Guilherme comentou, já tateando o bolso do casaco. — Ainda bem que nós viemos passear aqui no ano passado e eu vim devidamente preparado de casa este ano — entre os dedos dele, a moeda brilhante, com o centro dourado e as bordas prateadas, reluziu sob a luz nublada.
— Esperto e precavido como sempre!
No exato milésimo de segundo em que o metal caiu pelo vão do comprador da máquina, o motor elétrico roncou e o jato de ar começou a brotar pelos pequenos furos da superfície lisa. O disco de plástico ficou disponível e o Guilherme o posicionou no meio da mesa. Ele tentou a primeira investida rápida, mas eu logo provei ser uma excelente goleira, embora fosse uma péssima atacante. Era genuinamente difícil para mim mirar e acertar o gol dele do outro lado e, às vezes, o disco perdia toda a velocidade antes mesmo de cruzar a linha do meio-campo.
— Tenho que admitir que você defende muito bem, é uma ótima goleira — o garoto comentou, concentrado, sem desviar os olhos da trajetória do plástico.
— Obrigada pelo elogio — respondi, orgulhosa. Mas bastou eu desviar o meu olhar da partida por um único segundo de distração para escutar o barulho do disco entrando no meu gol. — Droga! Nada de conversinhas paralelas para me distrair, Guilherme!
Ele riu com tom de deboche como se disesse que não precisava daquelas artimanhas para ganhar e, em seguida, o disco foi recolocado em campo para a próxima rodada.
[...]
— Absolutamente, não! Não entro nesse brinquedo nem que me paguem uma fortuna. É adrenalina pesada demais para os meus pobres nervos — declarei de forma veemente, fincando os pés no chão em resposta à sugestão do Guilherme de entrarmos em uma daquelas atrações altas que arrancavam gritos horrendos dos passageiros no ar. — O meu coração não tem estrutura para aguentar esse tranco.
— Você quer ir na pista dos carrinhos bate-bate então? — embora estivesse visivelmente tentando não rir do meu drama, ele não conseguiu camuflar o esboço de um sorriso de canto. Os dentes não apareceram, mas os cantos da boca dele se retorceram de diversão.
— Com certeza. Esse parece ser um evento mil vezes mais interessante e seguro para a minha integridade física.
— Então vamos lá na bilheteria comprar as fichas — ele balançou a cabeça, indicando o caminho correto da cabine.
Aquela foi uma tarde recheada dos mais diversos tipos de momentos. A maior parte deles foi agitada, visto que no air hockey estávamos imersos em uma competição acirrada. Na pista dos carrinhos bate-bate, nós pegamos o mesmo veículo para dividir a rodada, mas eu fiz questão de assumir o comando do volante. Dirigir aquilo no circuito foi bem mais simples e intuitivo do que imaginei. Eu apenas precisava pisar fundo no pedal do acelerador, dar giros rápidos no volante e soltar o pé quando queria reduzir o impacto de algum golpe.
Claramente, algumas pessoas ali tinham como único objetivo de vida bater com força na traseira dos outros carrinhos, o que me fez questionar mente se os adultos da pista não estavam expressando ali todas as frustrações reprimidas que tinham vontade de descontar no trânsito real do dia a dia, já que a grande maioria exibia idade suficiente para ter uma carteira de motorista de verdade. O meu objetivo na direção, no entanto, foi exatamente o oposto. Eu tentava de várias maneiras desviar e evitar qualquer colisão. Era uma brincadeira divertida, mas alguns sem-noção ali exageravam na força do impacto.
Depois que as nossas fichas acabaram, saímos da pista e voltamos a caminhar em meio à multidão do complexo. Parecia impossível, mas a verdade era que ainda mais pessoas tinham chegado para aproveitar o final de semana. Olhei o relógio no meu pulso, ficando completamente surpresa com o fato de que já tinham se passado quase três horas desde que nos encontramos em frente à roda-gigante. O ar frio do inverno lentamente começava a se espalhar com mais intensidade pelo ambiente, porque, para além do dia estar totalmente nublado, o sol costumava se pôr antes das dezenove horas por estarmos a caminho da primavera.
Passeando entre as diversas barracas de desafios de tiro e argolas, paramos por alguns minutos para assistir a uma jovem tentar acertar os alvos de uma das bancadas. Parecia muito uma cena clássica de filme de ação: a arma de brinquedo estava perfeitamente alinhada ao rosto dela, e ela mantinha um dos olhos fechados para calibrar a mira. A missão consistia em derrubar todas as latinhas de alumínio que estavam posicionadas a uma distância considerável do balcão. A garota tinha pago por duas rodadas de tiros, mas o número de projéteis na arma era limitado. Restavam apenas um ou dois disparos sobrando no tambor, portanto ela simplesmente não podia se dar ao luxo de errar um único tiro se quisesse o prêmio. Na segunda rodada, quando ficou restando apenas uma última latinha de pé e não havia mais munição na arma, ela soltou o equipamento na bancada e decretou:
— Chega! Eu não posso mais gastar o meu dinheiro com isso aqui.
Eu não soube decifrar se ela estava frustrada por dentro. Afinal, ela tinha perdido o grande bicho de pelúcia por muito pouco, mas ainda assim, exibia um largo sorriso no rosto.
— Acho que eles deveriam dar pelo menos um brinde de consolação para quem deixa só uma latinha de pé. Ela foi muito bem — comentei, ainda impressionada com o que tinha acabado de presenciar. Eu nunca tinha visto alguém com uma pontaria tão cirúrgica na vida.
Fiquei me perguntando se ela era uma policial disfarçada ou simplesmente uma daquelas frequentadoras assíduas de estandes de tiro ao alvo.
— Eu quero tentar ganhar alguma pelúcia para você — Guilherme anunciou de repente, os olhos brilhando, completamente motivado pelo desafio.
— Você vai atirar? — perguntei, incrédula. Dava para perceber pelo meu tom de voz a total descrença de que ele pudesse ganhar alguma coisa naquele tipo de jogo.
— Não. Vou jogar argolas — ele apontou com o polegar para a barraca localizada a alguns passos de nós.
— Ah, tá bem. Boa sorte.
Precisamos esperar alguns minutos até surgir uma vaga para ele no balcão. Bem no centro do tablado, a alguns metros de distância, havia uma pirâmide montada com vários alvos. Esses objetos iam desde garrafas de vinho a latinhas decoradas que representavam algum prêmio específico — um bicho de pelúcia gigante, por exemplo.
Guilherme recebeu dez argolas de plástico nas mãos; dez chances de ganhar alguma coisa. Quando ele lançou a primeira e errou por muito, achou que tinha sido apenas má sorte, mas quando falhou pela terceira vez consecutiva, percebeu que acertar o gargalo de qualquer estrutura era infinitamente mais difícil do que imaginava. No fim das contas, nós não saímos dali de mãos completamente vazias, mas com certeza o objeto que estava preso entre os dedos dele não era o que o Guilherme gostaria de ter ganho para me impressionar.
— Você não bebe vinho, não é? — ele perguntou, analisando o prêmio. Uma garrafa pequena de 250 ml de Mateus.
— Não. Experimentei um gole uma vez e o gosto não me agradou muito. Você pode dar a garrafa para a sua mãe.
— Hum… Não. Tenho uma ideia muito melhor — ele disse, abrindo um sorriso travesso. — Que tal você levar isso aqui direto para os meus sogrinhos? — terminou a frase estendendo a garrafa na minha direção. — Aí você entrega e diz que foi um presente especial do novo genro deles.
Eu simplesmente não soube que tipo de resposta deveria dar para aquela audácia. Senti o meu rosto queimar em brasa ao mesmo tempo em que o meu coração acelerou numa batida violenta. Minhas axilas começaram a suar frio e, num gesto rápido para disfarçar o pânico, movi minhas mãos até a garrafa de vidro cheia de vinho rosé, agarrando o gargalo.
— Eu entrego o presente — respondi, tentando manter a voz firme. Fiz silêncio por um breve momento antes de tomar coragem para perguntar: — Mas vem cá... você acha que as pessoas vão ficar surpresas com a novidade?
— Sinceramente? Acho que não — o garoto deu um passo à frente, segurou a minha mão livre com delicadeza e a levou direto até os seus lábios, depositando um beijo demorado na minha pele. — A maioria dos nossos amigos já está esperando por isso há um bom tempo.
É difícil explicar em palavras exatas como foi sentir aquela sensação completamente desconhecida se movendo pelo meu corpo em questão de poucos segundos. Foi um estalo tão rápido, intenso e bom que me fez querer sentir tudo de novo quase no mesmo milésimo de segundo em que o toque acabou. Eu não sabia nomear o que era aquilo, mas tinha a certeza de que a eletricidade tinha sido causada puramente pelo toque dos lábios dele na minha pele nua. Aquilo me fez questionar, num choque de curiosidade, qual seria a reação do meu corpo quando fosse um beijo de verdade, na boca.
— Vamos dar uma volta na roda-gigante? — ele sugeriu, apontando para a atração. — Antes que fique mais tarde.
Nós dois sabíamos perfeitamente que tínhamos um horário limite de segurança, já que pegaríamos o mesmo ônibus de volta para o bairro e a linha só rodava até certa hora da noite.
— Ah, sim. Vamos antes que o movimento piore — respondi, guardando a garrafa na bolsa.
Coincidência ou não, o último filme que havíamos assistido juntos pelo celular tinha sido Diário de uma Paixão, onde há uma cena romântica icônica justamente em uma roda-gigante. Uma atitude meio estúpida e completamente imprudente da parte do Noah? Sim, com certeza uma loucura sem tamanho. Eu diria que foi até meio questionável, se levarmos em consideração o fato de que ele coloca a própria vida em risco pendurado em uma barra de ferro só para que a Allie aceite o seu convite para sair.
No mundo real, dar voltas em uma roda-gigante não tem nada de muito especial ou interessante na mecânica do brinquedo. Trata-se muito mais sobre a companhia que você tem sentada ao seu lado e de como você escolhe passar o tempo dando aquelas voltas lentas e altas. É a oportunidade perfeita na rotina para ter conversas de cunho mais romântico ou até mesmo para partir para ações mais ousadas, como um beijo.
Aparentemente, subir naquele brinquedo era o programa oficial de sábado entre os casais. Embora houvesse algumas crianças pequenas acompanhadas por um dos pais na fila, a esmagadora maioria das pessoas que se amontoava na entrada da atração era composta por namorados.
Guilherme subiu o degrau de metal da cabine primeiro e, quando girou o corpo para me estender a mão e ajudar na subida, eu já tinha pego impulso e estava ao seu lado. O arrependimento de ter sido tão precipitada e independente tomou conta de mim imediatamente. Teria sido uma cena de cavalheirismo bem fofa se eu tivesse esperado o toque dele.
Naquele momento inicial de silêncio e calmaria lá no alto, minha consciência começou a se manifestar. Tomei nota do calor do braço dele tocando o meu e fiquei minimamente surpresa comigo mesma quando meu único desejo interno foi que estivéssemos vivendo aquele calor de rachar do verão, só para que a pele dos nossos braços estivesse completamente exposta e colada. Esse tipo de pensamento ousado podia ter surgido algumas raras vezes na minha mente antes, mas nunca tinha sido tão frequente ou nítido. Era a segunda vez em poucos minutos em que eu desejava desesperadamente ser tocada por ele.
Com o avançar do relógio, a noite começou a cair de vez sobre a feira. O céu adotou um tom degradê de laranja escuro e a brisa gelada começou a soprar. Eu deveria estar morrendo de frio devido ao casaco leve, mas a verdade era que eu não sentia nada de gelado. Meu coração batia tão fortemente contra as minhas costelas que parecia aquecer todo o meu corpo por dentro.
Movi meu corpo sobre o banco de plástico e, vencendo o medo, me aconcheguei direto ao corpo do Guilherme. Passei o meu braço por baixo do dele, alcançando a sua mão aberta para entrelaçar os nossos dedos com firmeza. Minha cabeça pendeu de lado e foi aparada perfeitamente pela ponta do ombro dele.
— Eu me diverti bastante hoje, Guilherme. Amei de verdade a maneira como você armou todo esse mistério com o desenho — confessei, olhando a feira lá embaixo.
A cabeça dele se moveu e descansou sobre a minha.
— É muito bom saber disso, Cenourinha. — A outra mão dele se moveu e cobriu a minha que no encaixe, estava por cima — E é ainda melhor perceber que você só precisava de um empurrãozinho meu para finalmente revelar os seus sentimentos.
Movi minha cabeça até meu rosto se esconder, então, eu ri baixinho contra o tecido do casaco dele, ignorando de propósito o nó de aviso que se moveu dentro do meu coração. Aquele era o medo real e o verdadeiro motivo de eu nunca ter admitido meus sentimentos românticos mais cedo para ninguém. Eu sabia que seria extremamente fácil enterrar qualquer preocupação ou futuro doloroso enquanto estivesse distraída vivendo aquele momento incrível e perfeito ao lado dele; no entanto, eu também tinha a nítida certeza de que, em algum momento, o passeio acabaria, eu estaria sozinha no quarto e então toda a dura realidade viria à tona de uma vez. Disso eu não tinha dúvidas.
— Você deve saber perfeitamente o motivo de eu nunca ter dado bola para esse sentimento antes — respondi, a voz caindo de tom.
— Eu tenho um forte palpite na mente, Ariana. Apesar de não conseguir entender ou aceitar a sua lógica.
— Eu só acho que um webnamoro não funciona na vida real. E nós dois ainda temos um agravante bem pesado nessa história.
— Qual seria?
— Nós somos apenas dois adolescentes pobres, Guilherme — ergui a cabeça do ombro dele para conseguir encará-lo de frente na cabine. — Como duas pessoas totalmente dependentes do dinheiro dos pais podem sustentar um relacionamento à distância cruzando o oceano? Em qual momento da rotina a gente conseguiria se encontrar de verdade?
Ele ergueu a cabeça e encarou a imensidão do céu escuro acima de nós. Eu sabia que ele estava tentando formular algum argumento bom para dizer em tréplica, uma resposta madura que salvasse a situação. Mas ela simplesmente não existia ali, porque o que eu tinha acabado de despejar era a mais pura e cruel verdade.
— Sabe de uma coisa? — eu disse segundos depois, e ele voltou os olhos verdes para os meus. — Eu não quero falar sobre isso agora. Com certeza é um assunto sério que precisa ser resolvido entre nós, mas eu me recuso a terminar o nosso encontro com essa discussão.
Ele concordou com a cabeça a contragosto. Era óbvio que o Guilherme queria deixar tudo perfeitamente resolvido o mais rápido possível, colocando todos os pingos nos "is" para garantir o nosso futuro, entretanto, eu não sentia que aquele era o momento adequado. Eu não estava psicologicamente preparada para falar sobre despedidas e aeroportos ainda.
— Eu não sabia que você gostava daquela série de motoqueiros. — Voltei a falar quando voltei a descasar minha cabeça em seu ombro — Se eu soubesse disso antes, teria descoberto o dono do desenho bem mais rápido no armário.
Ele riu alto, apertando ainda mais os nossos dedos entrelaçados.
— Eu nunca mencionei o assunto porque sei que não faz nem um pouco o estilo de enredo de que você gosta.
— Mas eu vivo falando com você sobre um monte de assuntos de que você não gosta! — brinquei e ergui a cabeça para encará-lo.
— Fazer o quê? Eu simplesmente amo escutar a sua voz, Ariana. Por mim, você pode falar sobre qualquer assunto do universo que eu vou continuar prestando atenção.
Abri um sorriso largo, sentindo o peito aquecer.
— Tenho que admitir... você realmente sabe exatamente o que dizer para me desarmar. Eu não conhecia esse seu lado galanteador.
Guilherme não me respondeu com palavras provocativas dessa vez; ele apenas inclinou a cabeça com ternura e deixou um beijo suave e demorado na minha testa. Bem naquele instante, a nossa cabine atingiu o ponto mais alto do topo da roda-gigante, tornando possível visualizar boa parte da extensão da cidadezinha iluminada lá embaixo. Lá no fundo do horizonte, a quilômetros de distância, consegui vislumbrar a linha escura do mar. O oceano parecia tão pequenininho dali do alto que meus olhos não conseguiam captar a real e esmagadora dimensão dele.
A brisa lá no pico da atração era consideravelmente mais forte e, mesmo sentindo a minha pele arrepiar por inteiro com o frio da noite, eu sabia, no fundo da minha alma, que aquela sensação exata ficaria cravada na minha memória para sempre como algo maravilhoso. Embora praticamente toda a minha pele estivesse coberta por pelos em pé devido ao vento — trazendo aquela sensação esquisita de que a pele do corpo tinha encurtado de tamanho —, naquele momento exato também se desenrolava um dos acontecimentos mais marcantes de toda a minha vida. Não apenas porque eu estava vivenciando o meu primeiro encontro amoroso oficial, mas também porque ele estava acontecendo com a pessoa mais especial do meu mundo, por quem eu nutria os sentimentos mais profundos.
Como uma situação perfeita dessas poderia não ser marcante na vida de uma adolescente de dezessete anos? Talvez, quando eu tiver uns cinquenta anos e já tiver vivido boa parte da minha trajetória na Terra — ou seja, quando outros grandes e importantes acontecimentos já tiverem ocorrido —, o meu primeiro encontro tenha perdido um pouco daquela importância colossal e eu só me lembre dele com um sentimento de pura nostalgia de colégio. Mas, até que outro grande evento daquela magnitude aconteça, aquele sábado seria o dia que eu guardaria na mente para sempre.
[...]
Nós simplesmente não nos demos conta de como o tempo passou voando. Saí da cabine da roda-gigante ainda inebriada pela sensação deliciosa de que o tempo era infinito, esquecendo por completo de monitorar os ponteiros do relógio de pulso. Guilherme, tão deslumbrado com o momento quanto eu, tampouco se lembrou de checar as horas. Só nos demos conta da realidade por um verdadeiro milagre, quando prestamos atenção no fundo musical que ecoava nos alto-falantes espalhados pelo parque e percebemos que o tradicional programa de rádio do final da tarde estava prestes a se encerrar. Enfim consultamos o visor do celular e, tomados pelo desespero e pela afobação, pegamos nossas coisas e corremos em direção ao ponto de ônibus; nossa única esperança era que o veículo atrasasse um pouco e a gente conseguisse pegá-lo à risca.
Mas as coisas na vida real quase nunca acontecem exatamente como a gente deseja, não é mesmo? Eu nunca conseguiria mudar o curso de acontecimento nenhum do destino. Não teve outra saída: quando finalmente alcançamos o fim da rua principal, ainda muito distantes da calçada do ponto de parada, avistamos de longe o topo do ônibus arrancar e sumir na avenida. Não tínhamos nem a chance física de correr para tentar alcançá-lo, porque o motorista já tinha dado a partida.
— Oh, meu Deus... Eu não estou acreditando que nós perdemos o ônibus e agora seremos obrigados a mofar aqui esperando por uma hora inteira pelo próximo! — decretei, parando abruptamente no meio do asfalto.
Agora, não havia mais a menor necessidade de me apressar ou correr. Literalmente, nós tínhamos muito tempo de sobra até o próximo transporte despontar na avenida.
— Tá tudo bem, não precisa entrar em pânico — Guilherme disse, aproximando-se a passos calmos.
Eu ainda tinha tentado dar uma última corrida desesperada , enquanto ele tinha ficado para trás por puro bom senso, já que ele não era besta de correr atrás de um ônibus em movimento.
— Eu confesso que estaria bem chateado e reclamando da vida se estivesse passando por esse perrengue completamente sozinho aqui no frio, mas eu tenho a melhor companhia do mundo ao meu lado hoje, então não vejo problema nenhum em ter que esperar o relógio girar — ele parou bem do meu lado e eu desviei meus olhos da pista vazia para conseguir encará-lo de frente. — Só espero do fundo do coração que você também esteja feliz com a minha companhia.
— Sim... Eu estou muito bem acompanhada, Guilherme — respondi sincera, sentindo o peito aquecer de novo.
Voltamos a caminhar sem pressa, alcançando a cobertura do ponto em poucos minutos. Estávamos bem no centro da cidade e acredito que aquele tipo de ambiente urbano seja meio parecido em qualquer lugar do mundo, ou pelo menos exiba uma estrutura muito semelhante. Bem em frente à nossa parada havia um calçadão de pedestres muito largo e iluminado; o cenário perfeito para artistas de rua fazerem as suas apresentações acústicas para o público. Naquele sábado específico, um garoto jovem, segurando um violão nas mãos, terminava de dedilhar os acordes de uma canção. Ele utilizava um microfone pedestal e uma caixa de som compacta de onde saíam as notas dedilhadas por seus dedos ágeis.
Observei em silêncio enquanto algumas pessoas da calçada se aproximavam dele para depositar moedas em uma caixinha de papelão no chão, e alguns espectadores mais animados batiam palmas, pedindo por "mais uma" música para encerrar a noite. Eu e o Guilherme nos encostamos no muro baixinho de concreto de uma das casas. Ele pegou impulso com os braços e sentou-se sobre a superfície de cimento lisa, mas eu decidi continuar de pé ali , apenas apoiando o peso do bumbum na estrutura. Encostei-me de leve entre as pernas dele bem no instante em que o jovem músico limpou a voz e iniciou os primeiros acordes de uma nova melodia no violão.
Inicialmente, meu cérebro não foi capaz de identificar o título da canção de cara, porque o artista estava executando uma versão puramente acústica e intimista no instrumento, enquanto a música original gravada tinha todo um arranjo complexo marcado por bateria e solos de guitarra. Por pura coincidência do destino, um vídeo de reels contendo a tradução de um trecho daquela mesma canção tinha aparecido no meu feed dias atrás, e a poesia da letra era tão incrivelmente linda e romântica que fui correndo buscar a versão completa na internet; desde esse dia, Always In My Head, da banda Coldplay, simplesmente não saía da minha lista de reprodução diária .
Eu podia não entender absolutamente nada de pronúncia de inglês, no entanto, eu já tinha ouvido aquela faixa tantas vezes acompanhada das legendas em português que sabia perfeitamente o significado real de cada palavra que eu não sabia vocalizar. E aquilo — entender a profundidade do que estava sendo cantado ali no calçadão — fez meu coração dar um aperto doloroso de emoção no peito, e meus olhos começaram a arder com as lágrimas que ameaçavam brotar.
— Essa é, sem dúvida, a música mais perfeita de todos os tempos — comentei em um sussurro, olhando para o músico.
— Você conhece e curte as músicas do Coldplay, Ariana? — Guilherme me perguntou, uma surpresa genuína colorindo o tom de voz dele.
Eu não me atrevi a erguer o olhar na direção dele para responder, porque meus olhos já estavam completamente marejados de emoção e eu não queria que ele me visse frágil daquele jeito na rua.
— Mas é claro que sim! Que tipo de pergunta é essa?
“Meu corpo se move
Vai para onde eu quiser
Mas, embora eu tente, meu coração continua parado”
— Eu realmente não fazia ideia desse seu gosto musical oculto — ele comentou, balançando os pés no muro.
— Bem... Eu confesso que foi uma descoberta super recente na internet. Você sabe melhor do que ninguém que eu nunca fui muito fã de consumir músicas em inglês no dia a dia. Mas essa faixa específica me pegou de jeito por causa da poesia da letra.
— Sim... É uma bela composição musical — ele concordou em um tom manso.
Ficamos os dois em um silêncio confortável, apenas apreciando de longe o cover do calçadão. A interpretação do rapaz estava impecável, o cantor exibia uma voz incrível e soube se virar muito bem com as adaptações dos arranjos no violão.
“E você está sempre na minha cabeça
Você está sempre na minha cabeça
Você está sempre na minha cabeça
Sempre na minha cabeça”
Totalmente movida pela onda de emoção que queimava forte dentro do meu coração, movi o meu corpo, girando nos calcanhares. Meu peito batia em um ritmo frenético pela decisão ousada que eu tinha acabado de tomar. Antes de parar totalmente de frente para o corpo do Guilherme sentado no muro, arregalei bem os olhos na esperança de que o vento gelado secasse minhas pálpebras úmidas antes que ele notasse o choro. De frente para ele, abri a boca, desejando do fundo do meu coração que a minha voz não me traísse e eu não começasse a gaguejar de nervoso na hora H.
— Eu tenho um presente especial para te entregar hoje, Guilherme. Mas você vai precisar fechar os olhos bem forte e só tem permissão para abrir quando eu disser a palavra "surpresa" — anunciei, mantendo minhas duas mãos firmemente escondidas atrás das minhas costas.
Ali, com ele sentado naquele muro de concreto baixinho, eu não precisava fazer esforço nenhum de altura para conseguir alcançá-lo de frente. Nossas cabeças estavam praticamente alinhadas na mesma linha horizontal, e ele só ficou um pouco mais alto que eu por causa do susto do pedido, que o fez endireitar a postura e desenrolar a coluna de imediato.
— Eu quero pelo menos uma pista honesta do que se trata esse mistério — ele pediu, sorrindo de canto.
— É um dedal — respondi, exibindo um sorriso nervoso e trêmulo no rosto.
Vi a testa do Guilherme se enrugar de imediato em pura confusão.
— Mas... um dedal não é uma daquelas pecinhas de metal que as avós usam para costurar roupas e não furar o dedo com a agulha?
— Não. O dedal que eu vou te dar de presente hoje não tem absolutamente nada a ver com costura, Guilherme. É um dedal com o mesmo significado do que a Wendy dá de presente para o Peter Pan no clássico filme de 2003.
Eu tinha acabado de entregar a dica mais preciosa do universo para ele. Se o Guilherme tivesse assistido àquela versão da história, saberia perfeitamente o significado oculto por trás daquela metáfora romântica.
— Ah, entendi... Bem, eu infelizmente nunca assisti a essa versão do filme — ele confessou, sincero.
Ele apertou os lábios de leve, respirou fundo e fechou as pálpebras, entregando-se ao jogo. Ele relaxou os ombros e o corpo, fazendo com que sua coluna se curvasse levemente de novo na minha direção.
— Bem... acho que vou ter uma surpresa muito boa então — ele sussurrou de olhos fechados.
Depois disso, foi a minha vez de tentar controlar a respiração, que parecia sair cada vez mais do meu domínio. Eu precisava urgentemente manter os meus sentidos fixos no lugar, se quisesse que o que eu estava prestes a executar não se transformasse em um completo desastre de coordenação motora.
Aproximei-me lentamente dele , tomando um cuidado milimétrico com cada movimento dos meus pés para que o som dos meus passos não denunciasse minhas intenções antes da hora. Todo cuidado do mundo era pouco nos segundos cruciais que antecediam o toque das minhas mãos na pele dele. O fato de os garotos sempre sentarem com as pernas levemente afastadas facilitou muito as coisas para a minha investida; ao mesmo tempo em que dei um passo à frente e me encaixei perfeitamente no espaço deixado entre os joelhos dele, inclinei a minha cabeça de lado e alcancei a orelha direita dele para sussurrar bem perto:
— Isto aqui é para você, Guilherme. Para todo o sempre.
Distanciando o meu rosto em questão de segundos, levei as minhas duas mãos abertas até as bochechas do garoto — que continuava imóvel e de olhos fechados —, segurando o seu rosto com firmeza, e me aproximei de vez.
— Surpresa... — sussurrei a escassos centímetros da boca dele.
Puxei o rosto dele na minha direção, inclinei a cabeça e finalmente selei os meus lábios nos dele, entregando o beijo.
Havia dois grandes e gritantes motivos que tinham me levado a tomar aquela iniciativa tão ousada e repentina. Primeiro, eu não tinha a menor certeza real se o Guilherme teria a coragem necessária de tomar a frente e me beijar por conta própria naquele dia; até aquele exato momento, ele não tinha dado nenhum sinal físico claro de que partiria para a ação, embora todos os seus sentimentos românticos por mim estivessem claros como a água no olhar .
Segundo, já fazia um bom tempo que uma curiosidade absurda queimava no meu peito, me fazendo querer provar qual seria a real sensação de ter os lábios dele colados aos meus, em um beijo de verdade . A faísca daquele desejo íntimo tinha surgido no exato instante em que ele passou a figurar como o meu principal suspeito de ser o admirador secreto do armário, e desabrochou por completo nos momentos recentes em que ele começou a agir de maneira esquisita, mas intensamente romântica comigo, fazendo com que minha mente passasse noites em claro imaginando como seria estar, de fato, naquele papel .
O choque inicial partiu logo do primeiro toque, ainda quando as palmas das minhas mãos encostavam na pele quente do rosto dele. A eletricidade percorreu as minhas juntas, estremeceu cada um dos meus ossos e fez cócegas diretas no meu coração. Não era aquele tipo de cócega ruim e incômoda, igual às que fazem na sua barriga e tiram o seu fôlego por maldade — embora a minha respiração estivesse completamente irregular, eu sabia que aquilo era por causa de outras questões biológicas. Era do tipo boa, parecida com aquela sensação de quando alguém percorre as suas costas de leve com a ponta dos dedos. Pensando bem, parecia mais um carinho profundo da alma.
O segundo choque veio ainda mais forte e arrebentou todas as minhas expectativas prévias. Desta vez, experimentei uma sensação totalmente nova, quando as minhas mãos e os meus pés começaram a formigar para, logo em seguida, queimarem de calor, enquanto meu coração subia o ritmo das batidas para um nível estratosférico. Afastei-me devagar quando julguei que o beijo já estava se prolongando demais. Eu descobriria, em muito pouco tempo, que um beijo de verdade pode ser muito mais longo do que as comédias românticas mostram.
Abri meus olhos devagar, mas, sem ter a coragem necessária para encarar o rosto do Guilherme de perto, distanciei o meu corpo alguns centímetros. Eu tinha acabado de afirmar com ações concretas exatamente o que eu queria. Um beijo selado daquele jeito deixava toda aquela velha história de "apenas melhores amigos" para trás, porque nós tínhamos, finalmente, dado um passo definitivo para a frente .
Eu só não esperava pelo aperto firme e repentino das mãos dele sobre a minha cintura. Num movimento ágil, Guilherme me puxou de volta para perto do seu corpo e tive os meus lábios tomados pelos dele outra vez, sem tempo de protestar.
Da segunda vez, ele estava totalmente no controle da situação e tudo aconteceu de uma maneira mais selvagem e intensa. Foi até difícil conseguir respirar direito, porque eu estava completamente concentrada em registrar cada detalhe do que estava acontecendo, catalogando todas as novas sensações na memória. E, enquanto eu lidava com aquele turbilhão físico do beijo, a minúscula parte que ainda restava consciente no meu cérebro brilhava intensamente com um único e claro pensamento: aquele momento jamais teria sido tão perfeito se estivesse acontecendo com qualquer outra pessoa do mundo.
“Isso
Eu acho
É pra te dizer que te escolhi
De todo o resto”
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