Não Te Esquecerei Jamais

22 Beijinhos Prazerosos


Capítulo 21

O grande problema de beijar alguém pela primeira vez era saber exatamente como agir no segundo seguinte. E o fato de ele ser o meu melhor amigo de infância com certeza piorava um pouco as coisas na minha cabeça . Talvez o bloqueio fosse exclusivamente comigo e eu apenas não estivesse sabendo lidar com a nova realidade, embora eu mesma tivesse sido a causadora de toda aquela situação. A grande questão era que agora, depois que os meus ânimos finalmente tinham se acalmado e a adrenalina tinha baixado, após eu matar a curiosidade avassaladora de como seria ser beijada pelo Guilherme, a parte mais racional do meu cérebro tinha decidido entrar em ação com força total .

Minha mente já tinha viajado direto para o futuro. Meus pensamentos já tentavam antecipar e imaginar como seriam as coisas no colégio na segunda-feira de manhã. Nós assumiríamos alguma coisa diante dos outros alunos? Muito provavelmente sim. Mas seria correto tomar essa atitude pública antes de conversar abertamente com os meus pais? O meu coração dizia que não.

Desde muito nova, quando comecei a entender o que era ter um namorado e a processar o conceito abstrato de um relacionamento amoroso, minha mãe tinha conversado seriamente comigo sobre a importância de nunca esconder absolutamente nada dela. Nós conversávamos sobre os mais diversos assuntos; ela fazia questão de me contar várias histórias de quando era uma adolescente e de como tinham sido os seus relacionamentos antes de conhecer o meu pai. Eram momentos de confidência um tanto instigantes para mim. Nós vivíamos em uma espécie de bolha social, em uma ilha isolada, então era muito mais fácil para a comunidade local manter certas tradições rígidas; por consequência, havia um nítido atraso cultural em relação à liberdade e ao corpo da mulher. Se em pleno ano de 2022 o fato de ter um namorado na nossa idade ainda causava um certo burburinho e fofoca entre os vizinhos, imagina só como devia ser na época da juventude da minha mãe, há mais de cinquenta anos .

Foi um verdadeiro espanto para mim descobrir que minha mãe já tinha namorado três rapazes diferentes antes de se casar com o meu pai. Nem consigo conceber a dimensão de como ela deve ter sido duramente criticada pelas pessoas na época, e ela própria nunca entra em detalhes sobre essa parte do passado. Sempre repete que as lembranças ruins não devem ser passadas para a frente, porque o verdadeiro papel da memória é eternizar as boas histórias da vida. Quando a questionei sobre o porquê de ela ter tido a coragem de terminar todos os relacionamentos anteriores, mesmo sabendo das fofocas, ela me respondeu com orgulho que tinha nascido muito à frente do seu tempo e que jamais aceitaria se casar com ninguém que não a tratasse como uma verdadeira princesa.

Meus pais se conheceram quando minha mãe já tinha passado dos trinta anos. Ela mesma admite que nem pensava mais em casamento naquela altura, por uma série de motivos particulares — um deles porque ainda não tinha encontrado ninguém que a fizesse se sentir totalmente segura, e não apenas porque achava que estava ficando velha demais para os padrões. Ela sempre me dizia, sem rodeios clichês, que o amor de verdade só veio depois, com a convivência; de início, o que tinha despertado o seu interesse real no meu pai foram outros fatores mais práticos, como o fato de ele ter um trabalho estável que trazia como consequência uma segurança financeira para o futuro.

— Mamãe, que horror! — protestei na época, chocada em resposta à informação de que o sentimento puro não tinha sido o motor principal que a fez se interessar pelo homem que viria a ser o meu pai.

Ela riu alto do meu drama adolescente, balançando a cabeça, e rebateu:

— Ariana, as pessoas sempre se interessam por alguma coisa prática primeiro. Não tem como amar perdidamente alguém assim, de cara, logo no primeiro olhar. Pelo menos é o que eu penso sobre a realidade da vida — ergueu as duas mãos no ar em sinal de defesa antes que eu a interrompesse. — Mas também é óbvio que não foi só pela segurança financeira que nós começamos a namorar sério. Até porque de que adiantaria ele ter uma vida financeira estável se me tratasse feito lixo dentro de casa? Nem valeria a pena o sacrifício.

A mulher se debruçou sobre a mesa da cozinha, deixando o rosto bem próximo do meu, e fixou os olhos nos meus para finalizar o conselho:

— Poucas pessoas no mundo têm a real sorte de começar um relacionamento duradouro por estarem puramente apaixonadas logo de cara. O amor é algo que se constrói no dia a dia.

Infelizmente, diferente da mentalidade pragmática da minha mãezinha, eu precisava admitir que era uma garota extremamente careta e romântica. Geralmente, as minhas colegas do Ensino Médio passavam um bom tempo na condição de "ficantes" com os meninos para, só depois de muitos testes, assumirem o posto oficial de namoradas perante a escola . Não que eu recriminasse a prática, de jeito nenhum, afinal assumir um compromisso com alguém é algo bem sério e nós devemos ter o mínimo de conhecimento prévio sobre a pessoa em questão.

Mas foi exatamente naquele momento, no final daquele raciocínio no ponto de ônibus, que uma chavinha virou na minha cabeça. As pessoas usavam o tempo como ficantes para se conhecerem melhor do zero e decidirem se queriam algo mais sério. Acontece que eu e o Guilherme já éramos velhos conhecidos de uma vida inteira. Nós já tínhamos bagagem e conhecimento mútuo mais do que suficiente para aplicar direto em um relacionamento de verdade. Não precisávamos passar por aquela fase de testes.

Senti uma lufada de respiração forte atravessar os fios ruivos do meu cabelo, arrastando-me subitamente daquele meu breve devaneio mental. Guilherme repousou o queixo no meu ombro com delicadeza, mas não pronunciou uma única palavra. Comecei a me questionar se ele teria notado a minha dispersão; embora eu estivesse de costas para o peito dele e o garoto não pudesse enxergar as minhas expressões faciais, ele me conhecia tão detalhadamente que devia saber que a minha cabeça estava rodando a mil. A única dúvida que restava no meu peito era se ele tinha alguma vaga ideia do rumo exato dos meus pensamentos.

— Em que tanto você está pensando aí em silêncio? — ele perguntou baixinho contra o meu pescoço. — Por acaso... você está arrependida do que aconteceu?

— Não é nada disso, pode tirar essa ideia da cabeça — respondi de pronto. — Eu só estou pensando em uma promessa antiga que fiz à minha mãe. — Tentei virar o meu tronco de lado para conseguir olhá-lo por algum ângulo, mas os braços dele ao redor da minha cintura estavam travados com muito mais firmeza do que eu imaginei, limitando os meus movimentos. No segundo seguinte, percebendo o meu esforço, ele afrouxou o aperto. — Uma vez, eu prometi para a minha mãe que nunca esconderia nada dela sobre a minha vida.

Uma coisa precisava ser admitida sobre mim: eu sabia perfeitamente como manipular uma situação conversada para conseguir arrancar as informações de que precisava. No caso atual, eu queria desesperadamente descobrir se ele tinha a intenção real de tornar o nosso envolvimento público para as famílias, mas sem precisar perguntar aquilo diretamente com todas as letras, o que feriria o meu orgulho. Às vezes minhas táticas davam super certo, outras vezes falhavam miseravelmente, mas eu tinha consciência de que meus métodos de investigação eram bons.

Mas o safado do Guilherme me conhecia bem demais e sacou as minhas segundas intenções no mesmo instante. Então, vi aquele seu clássico sorriso brincalhão, meio disfarçado de deboche, desenhar-se em seus lábios. O sorriso não diminuiu um único milímetro, mesmo quando ele precisou mover a boca para rebater:

— Mas você já não acabou de esconder e mentir para ela sobre o nosso passeio de hoje, Ariana?

Ele tinha um ponto extremamente importante e lógico na argumentação, o que me desmontou por completo na hora.

— Sim, eu menti — admiti, envergonhada. — Eu fiz isso, eu sei, mas não era um plano de omissão a longo prazo. Foi só para hoje.

As mãos dele, que até então repousavam espalmadas na região próxima ao meu quadril, subiram em questão de segundos direto para o meu rosto. Elas eram tão grandes que parte dos seus dedos alcançava a pele do meu pescoço, enquanto os polegares começaram a fazer um carinho suave e lento nas minhas bochechas.

— Você quer que eu converse com ela oficialmente hoje à noite, quando for te deixar em casa? — ele perguntou, direto.

Encarei o rosto dele bem de perto, buscando qualquer mínimo sinal de blefe ou provocação nas feições dele. No entanto, para a minha completa surpresa, não encontrei rastro nenhum de brincadeira; apenas deparei-me com uma sinceridade absoluta no olhar verde dele.

Tão rápido assim?, meu coração deu um salto. Ele teria a coragem de falar com os meus pais tão rápido assim, sem hesitar?

— Hoje não — respondi, recuando por prudência. — Eu prefiro preparar o terreno com a minha mãe primeiro, com calma.

— Para ser bem sincero, eu acho que esse terreno entre as nossas famílias já está mais do que preparado há muitos anos, Ariana, mas tudo bem, você manda — ele cedeu com um sorriso manso. Um beijo macio e acolhedor foi depositado direto na minha testa. — Até porque não vai ser uma surpresa tão bombástica assim para ninguém quando souberem.

A convicção dele de que o nosso envolvimento não seria um choque para absolutamente ninguém ao redor ainda me parecia uma realidade muito distante e irreal para digerir. Na minha cabeça, qualquer pessoa do colégio ou da família ficaria em completo estado de choque quando descobrisse sobre nós dois.

Eu nem conseguia lembrar quanto tempo de fato o próximo ônibus demorou. A única coisa de que me recordo com clareza é de ter aproveitado cada segundo daquele tempo precioso que passamos esperando.

Nós já não estávamos mais completamente sozinhos no ponto quando o veículo finalmente chegou, mas, felizmente, havia muitos lugares vagos disponíveis no corredor e nós conseguimos nos acomodar um ao lado do outro. Devidamente acomodados, passei o meu braço por baixo do dele e cruzei meus dedos com os dele no instante em que alcancei a sua mão aberta .

Enquanto o ônibus sacolejava no asfalto, minha mente acabou sendo arrastada de volta para um dia específico da nossa adolescência. Foi uma tarde de primavera, um dia atípicamente quente na ilha, faltando pouco mais de um mês para o início oficial do verão. Lembro-me perfeitamente de que tínhamos combinado de nos encontrar em frente à frutaria da esquina para, de lá, seguirmos juntos para o encontro marcado com a nossa turminha de amigos de sempre.

Aquela altura do ano, todos os jovens já tinham tirado do guarda-roupa as peças de roupas mais frescas e guardado os casacos pesados do inverno no fundo do armário. Portanto, naquele dia, o Guilherme vestia uma regata fina de algodão e uma bermuda jeans descontraída. Avistando a silhueta dele de longe , apertei o passo e corri para alcançá-lo antes que ele notasse a minha aproximação por trás; e, quando cheguei perto o suficiente, lancei meus braços ao redor do peito dele em um abraço surpresa, o que lhe causou um susto de leve no momento. Depois, sem dar muito tempo para ele se recuperar do sobressalto, uma das minhas mãos percorreu toda a extensão do braço nu dele até alcançar a sua mão, quando a agarrei com firmeza e o puxei para iniciar a breve caminhada.

Eu consegui disfarçar perfeitamente as minhas reações físicas na hora, é claro, mas a verdade oculta era que a sensação de sentir a pele nua dele sob a palma da minha mão tinha sido incrivelmente boa. Como o simples toque em um braço poderia causar um efeito tão devastador no meu peito? Era só pele, afinal. Uma pele lisinha, quente e macia de garoto. Aquela sensação tátil nunca mais tinha saído da minha cabeça e, vez ou outra ao longo dos meses, eu me aproveitava de situações corriqueiras da nossa rotina apenas para conseguir tocá-lo "sem querer".

Como eu fui burra esse tempo todo..., concluí mentalmente, encarando a janela do ônibus.

Lembrar de todas aquelas pistas e detalhes guardados, enquanto eu me acomodava no assento para descansar a minha cabeça confortavelmente no ombro dele, fez-me ter a certeza absoluta de que todos os sentimentos já estavam fincados ali dentro de mim há muito tempo.

Eu tinha sido uma completa covarde por não ter tido a coragem de admitir nenhum deles antes para mim mesma. O que também me fez recordar, com um aperto no peito, das palavras certeiras que ele tinha me dito na feira em relação à minha frieza defensiva sempre que o acontecimento, a situação ou os sentimentos estavam relacionados diretamente a mim.

O Guilherme sempre se mostrou muito desinteressado em relação às outras garotas do colégio. Nunca foi uma novidade para nenhum de nós dois que muitas meninas tinham um crush enorme nele. Só as pilhas de declarações e cartinhas que ele recebia anualmente nos Dias dos Namorados já diziam muita coisa. Mas a verdade é que ele nunca procurou nenhuma delas; sempre esteve firmemente do meu lado, sempre fazíamos absolutamente tudo juntos e tenho que admitir que isso funcionou como uma zona de conforto e tanto para o meu coração por anos.

A viagem de ônibus de volta para casa foi um tanto comum. Quer dizer, fizemos exatamente a mesma coisa de sempre: dividimos o fone de ouvido de fio e passamos o tempo assistindo a shorts no YouTube. Chegava a ser engraçado como as nossas timelines do aplicativo eram parecidas. Com exceção das recomendações de transmissões de streaming de uma variedade absurda de jogos eletrônicos que apareciam na dele, o resto com certeza seria algo que eu assistiria e que, inclusive, o próprio algoritmo do YouTube me recomendava diariamente.

— Eu nunca parei para pensar na quantidade de canais de streaming de jogos que são recomendados para você. Você joga todos esses jogos que aparecem aí? — perguntei, curiosa, apontando para a telinha.

O semblante divertido que ele exibia passou para um tom mais sério. Guilherme pareceu pensar por um segundo no que diria, o que ocasionou na mudança para uma expressão mais fechada.

— Não todos. Alguns eu nunca nem joguei na vida. São só recomendações automáticas por serem do nicho geral de games.

— Entendi. Eu nunca tive muito jeito para jogos. É meio estranho, porque teoricamente é para ser algo divertido, mas o pessoal nos canais solta muito xingamento e palavrão nas partidas.

Um risinho disfarçado, no formato de um sopro rápido, escapou da boca dele. Fez aquele som esquisito porque o ele tentou segurar o riso a todo custo, entretanto, a graça foi mais forte do que ele conseguia controlar.

— Por acaso você também não xinga quando bate o dedinho do pé com força em algum canto da casa? — ele rebateu, rindo de canto. — É só um xingamento para extravasar a raiva do momento, não é com a intenção de ofender ninguém de verdade.

— Eu não falo palavrões. Nunca! — decretei.

Ele topou com o meu sorriso antes que eu desviasse o olhar em direção à janela de vidro do ônibus. O Guilherme já tinha ouvido uns nomes de baixíssimo calão bastante duvidosos saírem da minha boca em algumas ocasiões. Geralmente isso acontecia quando acidentes bobos aconteciam e me causavam uma dor física imediata, mas houve uma vez específica em que xinguei uma pessoa completamente desconhecida no meio da rua. Eu não consegui ver quem estava ao volante daquele carro que passou em alta velocidade por cima de uma poça e espirrou lama preta inteira em mim; no entanto, tenho a mais absoluta certeza de que, se eu tivesse algum tipo de superpoder místico naquele dia, aquele motorista estaria hoje sem as duas mãos.

Por uma feliz coincidência do algoritmo, o short que passava na tela naquele exato momento era um trecho de algum vídeo promocional onde falavam sobre a estreia da terceira temporada de The Boys. Nós havíamos assistido às duas primeiras temporadas juntos na sala de casa. Maratonamos as duas de uma vez só em 2020, o ano exato em que a segunda temporada foi lançada pela plataforma. Alguns episódios nós assistimos à distância, mas a grande maioria deles foi dividindo o mesmo espaço, ao vivo e a cores.

— Nós precisamos assistir aos episódios semanais dessa nova temporada sem falta, Ariana. Eu não quero tomar spoiler na internet de jeito nenhum — Guilherme falou e, quando o encarei de lado, o rosto dele exibia uma expressão totalmente eufórica. — O João tem isso de dar spoilers como um verdadeiro hobby.

— Aquele safado! — brinquei, em um tom de puro deboche.

Guilherme mexeu o corpo no banco em resposta ao meu comentário. Gira o tronco na minha direção e passou a me encarar com uma expressão de pura incredulidade.

— Eu nunca vou conseguir entender essa sua total indiferença com spoilers de séries, sério.

Dei de ombros, sem me importar.

— Não faz muita diferença prática para mim. Às vezes, eu mesma vou direto na internet procurar saber o que acontece no final, porque a ansiedade de ficar assistindo sem saber se a história vai ter um desfecho bom ou ruim é mil vezes pior para os meus nervos.

Ainda sem tirar aquele olhar chocado dos olhos, a cabeça dele fez minúsculos movimentos negativos de um lado para o outro. Em um sinal de total desaprovação da minha atitude literária.

— Mas eu não gosto. Então, por favor, me dê um tiro no peito, mas não me dê um spoiler da série.

— Que drama sem tamanho, meu Deus. Você deveria ficar muito feliz por eu ser desapegada assim, porque dessa forma você pode me contar tudo sobre qualquer reviravolta de filme e nós nunca teremos problemas de briga.

— Não sei se isso é tão legal assim na prática, não. Acho que eu ainda prefiro mil vezes ver as suas reações genuínas de primeiro contato com a cena. Você acha que saber antes não interfere em nada, mas eu percebo perfeitamente a diferença de quando você assiste a algo já sabendo de todos os acontecimentos que vão rolar.

— Eu reclamo e sofro do mesmo jeito — protestei.

— Isso é verdade, você reclama mesmo. Mas eu não estou falando sobre o volume das reclamações. Estou falando que as suas reações físicas são diferentes.

— Explica melhor essa sua teoria, então — pedi, ao me acomodar em uma posição diferente. Minhas costas passaram a ficar coladas na lateral do veículo, de frente para ele.

— Eu nunca vi você pausar a reprodução em momentos de muita emoção ou tensão em filmes que você já tenha assistido antes sabendo o final. Geralmente, quando é a primeira vez e você não sabe de nada, você pausa o vídeo do nada e faz um comentário meio óbvio ou uma pergunta que a gente só saberia a resposta se continuasse assistindo ao filme.

— Você odeia quando eu pauso a tela do nada, né? — ri.

— É verdade, eu odiava no começo. Mas depois eu fico em casa pensando nos seus comentários meio aleatórios e nas suas reações engraçadas, e dou risada sozinho.

— Olha só... Isso é uma completa novidade para mim — comentei, surpresa.

— Pois é, para você ver como eu sou um cara bem mais observador do que você imagina.

[...]

Nós teríamos que fazer uma caminhada a pé até o portão da minha casa depois de descermos na parada final do ônibus do bairro. Guilherme guardou o celular e os fones de ouvido dentro do bolso enquanto andávamos pela calçada. Era uma caminhada lenta, feita de passos curtos e arrastados. Fizemos boa parte daquele percurso em um silêncio calmo. Nós já tínhamos conversado sobre tantas coisas aleatórias na feira que o silêncio não parecia estranho de forma alguma; e havia também aquela tensão gostosa de pré-despedida no ar. Mas fui pega totalmente desprevenida, de surpresa, quando alcançamos a calçada da barraca de frutas da esquina — aquele local frequentemente usado como ponto de encontro oficial entre mim e ele antes dos rolês. Guilherme simplesmente parou de andar ali.

Voltei atrás o passo que já havia dado à frente, virando o corpo um pouco preocupada, pensando que talvez tivesse acontecido alguma coisa. Estava escuro demais sob a noite para conseguir notar qualquer expressão aflita no rosto dele, entretanto, todas as minhas precipitações mentais foram invalidadas no exato segundo em que ele esticou os braços e me puxou com doçura para dentro do seu abraço.

— Eu ainda não estou pronto para dizer boa noite para você, Ariana — ele sussurrou contra o meu ouvido. — Nós ainda temos um tempinho de sobra até o horário de você entrar.

Não foi preciso que ele verbalizasse o seu desejo com todas as letras ou fizesse um discurso longo; meu coração entendeu perfeitamente o que ele queria dizer com aquilo. Contudo, assim que deixamos de nos abraçar e o contato se desfez, dei curtos passos em direção ao fraco foco de luz amarelada do poste de iluminação pública acima de nossas cabeças. Meus pés pararam de se mover no momento exato em que estávamos bem debaixo do feixe luminoso. Os pés dele, porém, ficaram imóveis por um breve segundo lá atrás, antes de voltarem a se mover decididos na minha direção, o que me obrigou a dar dois passos instintivos para trás na defensiva, até sentir o concreto frio da parede tocar as minhas costas.

Guilherme moveu o braço esquerdo com agilidade e fixou a palma da mão espalmada direto no concreto, bem ao lado da minha cabeça, me encurralando suavemente. Embora houvesse vários centímetros de distância física entre os nossos rostos — o equivalente ao comprimento do braço dele esticado —, a proximidade era mais do que o suficiente para despertar a mesmíssima emoção forte de mais cedo no parque.

— Você aceita sair comigo amanhã de novo? — o tom de voz incrivelmente rouco adotado por ele para pronunciar aquelas palavras fez um arrepio percorrer a minha espinha inteira. Talvez porque estivéssemos tão próximos que consegui sentir o ar quente da respiração dele soprar direto sobre o meu rosto no frio.

O maxilar dele travou visivelmente enquanto aguardava pela minha resposta. Senti o meu coração dar um aperto gostoso no peito ao notar o peso do olhar que ele tinha lançado sobre mim, e reconheci ali aquele mesmo brilho terno do dia em que o Guilherme correu atrás do ladrão e recuperou a minha mochila roubada. A sensação que se moveu no meu coração não tinha nada de ruim ou assustadora; ela nasceu puramente do momento em que percebi a dimensão real do afeto que transbordava no olhar dele. Um brilho tão lindo, intenso e totalmente direcionado para a minha pessoa.

Quando finalmente lembrei de que precisava responder à pergunta dele, minha cabeça se moveu em um aceno positivo antes mesmo de eu conseguir de fato pronunciar a palavra.

— Sim — respondi.

Minha voz saiu fraca, quase como um miado tímido de gato. Ainda que eu estivesse mente muito entusiasmada com o convite, a minha mente parecia letárgica e lenta. Era como se eu tivesse ingerido uma quantidade considerável de álcool a ponto de ver o mundo inteiro girando em câmera lenta; mas eu sabia muito bem que não havia uma única gota de bebida no meu sangue. Aquilo eram apenas os primeiros e avassaladores sinais de uma paixão real correspondida.

Ali mesmo, protegidos pela penumbra e debaixo do feixe de luz amarelada da iluminação pública da rua deserta, nos beijamos outra vez. E foi uma agradável surpresa descobrir, na prática, a longa e deliciosa duração daqueles prazerosos momentos.