Cheguei no 301 e nem me preocupei em bater, me arrependendo logo depois, ao pensar que Hinata ainda poderia estar lá. Felizmente, quando entrei, todos estavam vestidos e decentes.

— Cherry! – Hinata exclamou em surpresa ao me ver.

Sorri ao vê-la bem e abracei-a, tomando cuidado para não esmagar o gesso de seu braço.

— Que susto que você me deu. – sussurrei em seu ouvido enquanto estávamos abraçadas.

Nunca fui de demonstrar meu afeto para as pessoas, mas algo em Hinata simplesmente me fazia querer falar que eu a queria bem o tempo todo.

Ela deu um sorriso sem graça e se afastou.

— Posso dormir aqui? – perguntei a Naruto que estava logo atrás.

— Claro! – Hinata respondeu por ele, que estava com uma face de completa confusão. Ela pegou na minha mão e me fez sentar na poltrona velha do canto da sala, enquanto o loiro levantava-se, ainda me fitando com curiosidade.

— Você e Sasuke brigaram? – ele perguntou, inquieto.

— Não. – afirmei, só piorando a situação.

— Então...

— Então a Temari está brigada comigo e eu não quero vê-la. Posso ficar aqui ou não?

— Pode, mas...

— Ótimo. – falei, inclinando a poltrona e me acomodando com o cobertor que Hinata tinha me dado.

Naruto olhou para Hinata procurando explicações e ela deu de ombros, indo até a pequena área que Naruto tinha reservado para uma cozinha improvisada. Como ele morava em um hotel, os quartos não vinham com geladeira, mas ele conseguiu fazer com que o ambiente parecesse um apartamento mesmo.

— Certo, você vai me dizer o que está acontecendo ou vou ter que te chantagear? – ele perguntou, quando percebeu que a namorada já não estava mais ouvindo.

— Ah, por favor, Naruto, o que é essa curiosidade toda? – perguntei, irritada. Eu sabia de sua teimosia, mas dessa vez eu realmente não queria conversar.

— Não é curiosidade. Se Sasuke estiver mal de novo, eu tenho que...

— Você não tem que fazer nada. Deixa que eu cuido dele. – o interrompi.

— Então ele está mal?

— Não... Quer dizer, não é da sua conta... – falei, mesmo sabendo que não era verdade.

Ele me encarou com seus profundos olhos azuis e até então eu não tinha notado quão azuis eles eram. Naruto suspirou e sentou-se na minha frente, invertendo a situação de quando eu tinha chegado em Bristol e ele estava sentado na poltrona e eu no chão.

— Escuta, Cherry.

Bufei, já sabia o que viria a seguir. Uma longa dissertação do porque Sasuke não prestava e porque eu não podia ficar com ele. Aposto que ele começaria com a história de Karin...

— E pare de rolar os olhos para mim, eu conheço Sasuke melhor do que qualquer um, ok? Ele é como um irmão pra mim.

— Eu sei, Naruto, mas...

— Não, por favor, me escuta dessa vez. – ele falou sério e eu cedi. Cedi porque ele realmente parecia preocupado e eu sabia que para ele falar sério assim, a coisa era importante.

— A família Uchiha é muito rica, Cherry. Sasuke mora em um apartamento pequeno e imundo longe de onde ele estuda, por que você acha? Não é porque ele quer ser diferente e bacana. – afirmou, respirando fundo.

Quis dizer que ele só estava tentando ficar longe da família, mas eu sabia que tinha mais alguma coisa por trás.

— Além do seus desentendimentos com o irmão e o pai, Sasuke se envolveu com drogas pesadas e para cobrir os prejuízos, ele acabou roubando de Itachi e de seu pai... Até que eles cansaram e o mandaram para França.

Engoli um seco. “Junto com o tio que o estrupou por três anos” quis completar, mas fiquei calada.

— Ele até deixou uma mina aqui... Temari ficou furiosa. – Naruto suspirou e eu finalmente entendi porque ele tinha abandonado-a. Eu sempre soube que ele não era assim tão cruel. — Mas você conhece Sasuke, ele fugiu de lá. Sua família deu-lhe mais uma chance, mas de nada adiantou. Ele quase fez a empresa Uchiha falir com suas dívidas com traficantes...

Naruto ajeitou-se e suspirou.

— Dai ele foi expulso de casa, e seus pais só pagam a faculdade porque acreditam que é a única coisa que pode salvá-lo. Mas ambos sabemos que ele odeia aquele lugar e aquele curso... Só está fazendo para os pais dele não cortarem todas as economias.

Eu já não estava ouvindo, minha mente ainda estava processando a fala anterior.

— Você está dizendo que ele evita Itachi porque ele deve dinheiro a ele? – perguntei, com repulsa.

Ele acenou e deu de ombros. Depois, deu seu sorriso característico e murmurou:

— Mas acho que tudo é minha culpa, afinal.

Pisquei, incrédula.

— Como raios isso pode ser sua culpa, Naruto? Me poupe.

— Ah... Porque... – ele ficou sério novamente, me surpreendendo. – Sei lá, quando eu pensei que Jiraya estava morto, bem no começo, eu realmente surtei. Eu não estava lá para ajudá-lo. Eu fingi que não sabia de toda a sua história com o tio dele e...

— Para. – pedi, anda inconformada com o pensamento do loiro. – Sasuke não é uma criança que precisa de babá, você estava bem pior do que ele, se alguém devia estar lá para alguém era ele, não você.

Naruto sorriu novamente e eu o admirei mais do que nunca. Ele era um homem tão melhor do que Sasuke, ele era tão mais íntegro, certo, bom, puro... Por que eu não me apaixonei por ele?

Seria tão mais fácil. Se Hinata não existisse e eu me apaixonasse por Naruto e nós vivêssemos felizes para sempre em Bristol. Vivendo de sorrisos e felicidade. Mas não. Eu me envolvi com algo muito mais perigoso, muito mais destrutivo. E a pior parte era que eu gostava. Eu amava.

— É, mas mesmo assim... – ele começou, interrompendo meus pensamentos.

— Você sabe que eu estou certa. – afirmei, teimosa e ele mostrou os dentes.

— Agora você entende porque eu perguntei se ele tinha piorado? – ele perguntou de repente, não querendo admitir a derrota.

Acenei que sim, mas sem a intenção de dizer que suas supeitas estavam certas.

— Entendo. – afirmei e ele bufou, conformando-se com a minha teimosia.

— Certo, não me conte! – exclamou, levantando-se bruscamente.

Eu sorri e mostrei a língua, mas ele estava frustrado demais para retribuir.

Depois de algum tempo, Hinata finalmente voltou da cozinha e eu me perguntei se ela estava lá de própostio para não atrapalhar a nossa conversa. Sua bondade excessiva sempre destruia a minha auto estima, mas eu não podia me deixar levar.

— Está confortável ai ou quer outro travesseiro? – ela perguntou, sentando-se na cama de casal.

— Está ótimo, Na, obrigada. – falei, com um sorriso.

Logo, ambos estavam dormindo, Naruto roncava alto e Hinata parecia um anjo em seus braços.

Mas não foi o ronco que me manteve acordada. Eu não parava de pensar nas coisas que Naruto tinha me dito. Então esse era o motivo da reclusão de Sasuke? Dinheiro? Drogas?

Era esse todo o mistério que o envolvia?

Suspirei, tentando me acalmar. Eu não podia surtar naquele momento.

Ao mesmo tempo que eu sentia repulsa das escolhas de Sasuke, eu acabava o amando ainda mais. Por saber que ele não tinha abandonado Karin de propósito, por saber que ele tinha fugido de seu tio criminoso e mesmo assim continuava estudando em um lugar que odiava só pelos seus pais.

Eu não conseguia condená-lo por usar drogas. Eu tinha que ajudá-lo, não ficar brava ou enojada. Se ele fugia de Itachi por dívidas, eu tinha que ajudá-lo a quitá-las, precisava salvá-lo de si mesmo.

Era por volta das três e meia da manhã quando resolvi ir até seu apartamento, eu estava me sentindo muito culpada por tê-lo deixado sozinho. Ele precisava de mim, talvez mais do que eu dele.

Talvez ele que fosse a Karin nessa situação.

Ignorei o olhar suspeito do porteiro e subi as escadas quase correndo, ávida pelos olhos negros do meu amado. Abri a porta com cuidado para não acordá-lo, mas me surpreendi ao entrar e vê-lo desperto.

Como sempre, ele estava perfeito. Estava apenas com uma calça de moletom, sentado na cama de casal, com um cigarro nas mãos. Em seu colo, estava um caderno de desenho que ele parecia analisar minuciosamente antes de erguer seu rosto para a porta.

Ao me ver, abriu um meio sorriso e fez um gesto com a cabeça para que eu fosse em sua direção. Mas é claro que eu iria.

— São três e meia, sabia? – falei, porque eu seriamente achei que ele tinha perdido a noção do tempo.

— Posso dizer o mesmo pra você. – retrucou e eu notei a sobriedade em sua voz. Aquilo me fez sorrir e logo me sentei ao seu lado.

— Eu não conseguia dormir. – aleguei o óbvio.

— Nem eu. – Sasuke concordou, voltando o olhar ao caderno.

Fitei o desenho que ele estava analisando e não entendi nenhuma parte dele. Era algo muito abstrato e artístico até para mim, entendedora de todas as artes graças a Sai.

Ele não se deu ao trabalho de me explicar e deixou o caderno de lado, olhando para mim agora.

Me perdi em seus olhos e percebi, então, o quanto eu o amava. Amava seu jeito indiferente, irreverente e rebelde. Amava como ele conseguia ser cortês e romântico quando queria, mas ao mesmo tempo selvagem e bruto.

Eu amava cada pedaço de Sasuke Uchiha. E ele me amava de volta, eu sabia.

Tudo isso era muito assustador pra mim. Aquele amor era algo que eu nunca tinha sentido antes, era absurdamente intimidante e eu estava aterrorizada. Eu odiava tudo que me deixava fora do controle e aquilo obviamente fugia de minhas capacidades de manipulação.

Mais do que nunca, eu entendi Karin. Eu entendi porque ela teve que ir embora, eu entendi porque ela não conseguia ficar sem ver aquele par de olhos ônix. Me perguntei se eu ficaria como ela, sem nada e ninguém, mas pela primeira vez eu não liguei. Eu não liguei porque valia a pena.

Cheguei a pensar que todo e pequeno momento com Sasuke compensaria qualquer desventura do futuro e me acalmei.

Eu estava enlouquecendo.

— Cherry, está tudo bem? – ele perguntou, claramente notando a loucura no meu olhar.

Eu não respondi. Eu não sabia.

Sasuke não disse mais nada, apenas pegou o violino e começou a tocar, mas aquilo era demais pra mim. Eu não poderia ouvir aquela melodia perfeita de novo sem me envolver ainda mais com meus pensamentos masoquistas e auto-destrutivos.

Roboticamente, levantei-me e tomei o instrumento das mãos de Sasuke, que me olhou confuso. Alucinada, comecei a tacar o violino no chão, até quebrá-lo. Tudo foi tão rápido, que Sasuke não conseguiu me impedir e só ficou me fitando com indignação.

Eu também não sabia porque eu estava fazendo aquilo, a verdade era que eu estava completamente enlouquecida com tudo que estava acontecendo em Bristol e tentei compensar tudo naquela destruição.

Quando a madeira já estava partida, meus olhos se encontraram com os de Sasuke e ele não disse nada, apenas pegou meu pulso e viu minhas lágrimas sairem.

— Eu... Eu pago. – solucei, finalmente voltando a mim.

Ele me fitou ainda mais incrédulo e negou com a cabeça.

— Eu não sei qual é o problema. – ele disse, estranhamente calmo. – Mas eu estou aqui por você.

Então, me envolveu em um abraço e eu senti o seu cheiro, me envolvendo ainda mais naquela loucura.

Você é o problema” quis dizer, mas nada saiu da minha boca.

Notas finais
Heey, feliz 2013!!
Como foi as festas de vocês?? Espero que tenham sido ótimas!
Primeiro capítulo do ano, espero que tenham gostado ♥
Mandem review para eu saber, ok?
Beijão :*