No dia seguinte, eu acordei de ressaca moral. Eu realmente tinha tido um ataque de loucura no dia anterior e absolutamente sem motivo. Ou pior, o motivo era amor. Era simples e puramente o amor.

Esse sentimento literalmente tinha me deixado louca. Pensando nisso e morta de medo por perceber que tudo aquilo estava fora de minhas mãos, eu levantei antes de Sasuke acordar, indo para a faculdade sem ele.

Afim de conseguir minha sanidade de volta, eu faltei na aula de Ética e evitei falar com Lee o dia inteiro. Quando finalmente cheguei no meu trabalho, me deparei com um Chouji de bom humor, o que favoreceu a minha situação.

Feliz por ter que desligar o celular para trabalhar, ignorei todas as ligações preocupadas de Hinata e do próprio Sasuke.

— Me traz fritas, por favor. – Neji pediu de repente, na mesa de canto. Estranhei o fato dele estar sozinho, mas o atendi mesmo assim. Não fiz esforço nenhum para ser simpática, já que eu não ia com a cara dele.

— Saindo. – murmurei e fui pegar as malditas batatas fritas.

Estava prestes a sair da mesa dele novamente, após deixar o prato, quando ele perguntou:

— Você é amiga de Lee, né?

Acenei com a cabeça e fitei-o, curiosa.

— Por que?

— Queria saber se ele está bem... – ele murmurou, em um tom quase inaudível, como se estivesse se forçando a dizer aquilo.

— Ele está. Quer dizer, ele está bem do seu jeito especial. O que você tem a ver com isso? – perguntei, grossa, mas não me importei.

Neji ficou calado e voltou a olhar pro nada. Impaciente, sentei-me em sua frente e o fitei. Já fazia tempo que eu estava curiosa sobre a história de Lee com Neji e o motivo dele ter gritado e surtado daquele jeito quando tinha o visto no restaurante.

Temari tinha dito que eles eram muito amigos. O que tinha acontecido? Como Neji abandonara uma pessoa insana?

— Neji. – chamei, com um tom autoritário que não era característico da minha voz.

— Não interessa, rosada, vai trabalhar. – ele respondeu, completamente frio. Algo em seu olhar, em sua prepotência e seu complexo de superioridade me fez levantar imediatamente e pegar em seu colarinho.

— Ninguém me chama de rosada, seu merda. Escuta aqui, eu sei que aconteceu alguma coisa entre você e Lee, ou você me conta agora, ou eu grito e falo que você estava me abusando sexualmente.

Por mais séria que eu estivesse, Neji permaneceu indiferente, com uma expressão gélida de seriedade. Ele conseguia ser tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente de Sasuke.

— Me solta. – falou, tentando controlar-se.

— Eu vou gritar. – ameacei, puxando-o mais para perto e abrindo a boca para soltar um berro.

— Certo, eu falo! Não sei porque você está tão curiosa, mas eu falo. – Neji finalmente concordou e eu o soltei, sentando-me novamente em sua frente. – O que você quer saber?

— Por que você e Lee não são mais amigos?

— Eu tinha um caso com a mãe dele.

Eu não me surpreendia fácil, mas aquilo fez o meu queixo cair imediatamente.

— Oi? – perguntei, só para ter certeza de que tinha ouvido certo.


— Você escutou. Nós éramos melhores amigos, a mãe dele era louca também, ela deu em cima de mim e eu cedi. Lee descobriu e ficou furioso. Depois de algumas semanas ela morreu e ele colocou na cabeça dele que foi culpa minha. Acho que sua loucura começou a aparecer nesse ponto.

Cada palavra de Neji parecia uma agulha atravessando a minha pele do pior jeito possível. Como ele podia dizer tais coisas com tanta indiferença e frieza? Sem absolutamente nenhum remorso?

— Que coisa mais repugnante. – eu disse e ele bufou.

— Não me julgue, você não me conhece.

— Depois disso, eu nem quero. – respondi, áspera. – É por isso que você nunca anda com a gente, ninguém aprovou o que você fez. Agora eu sei porque todos te odeiam.

— Cala a boca, Cherry, você não é parte da “gente” e definitivamente não conhece a história de ninguém, pára de achar que pertence a Bristol. – ele disse quase imediatamente e se levantou bruscamente.

Antes de virar-se para ir embora, eu consegui, com sucesso, jogar um copo de suco em suas costas, fazendo-o xingar-me arduamente posteriormente.

— Pelo menos eu não comi a mãe de ninguém! – berrei, quando ele já estava no meio do caminho.

Neji bateu a porta ferozmente ao sair e eu comecei a tremer imediatamente, sentindo que tudo que eu tinha feito para evitar minha loucura tinha voltado a tona com aquele simples comentário.

Ele tinha razão, eu não sabia nada de ninguém, eu não era parte de Bristol, eu só era uma intrusa que apareceu para foder com tudo.

— O que foi isso? – Chouji apareceu, aterrorizado.

Eu dei de ombros e sentei-me, ainda abalada. Aparentemente, eu estava horrível, porque o meu colega me fitou preocupado e foi pegar um copo de água.

— O que foi? – ele perguntou, agora mais calmo. – Você tem sorte que o chefe não está aqui hoje, se não teria te demitido.

Suspirei, aliviada por um breve momento por não ter sido demitida.

— O que eu estou fazendo? – perguntei mais para mim do que para ele, que ainda me olhava confuso.

O que eu estava fazendo? Eu tinha fugido de Nova York para ter uma vida diferente e tudo o que eu consegui foi intrigas, misterios, ódio, dependências...

— Eu não sei, eu te perguntei e...

— Não, Chouji. Por que? Por que eu estrago tudo o que eu toco?

— Mas você não...

— Você não entende. – balbuciei, prestes a deixar minhas lágrimas cairem. Eu estava prestes a surtar de novo.


Pensar no que Lee tinha passado e no motivo dele ser do jeito que era só me fez piorar ainda mais e tudo o que eu queria era encontrá-lo e abraçá-lo.

— Você pode segurar as pontas aqui? – consegui falar, apesar das palavras não fazerem mais sentido na minha mente.

Chouji, ainda completamente impressionado, acenou roboticamente que sim e eu fui direto para casa de Lee.

Entrei em desespero e o peguei sentado no sofá assistindo Cartoon Network.

— Lee. – chamei-o e ele virou-se imediatamente, abrindo um sorriso que quase me quebrou no mesmo instante.

— Oi, Liv! – exclamou, vindo em minha direção. Não consegui conter o abraço forte e longo que dei-lhe.

— Sinto muito por Neji e sua mãe. – falei, porque não conseguiria guardar aquilo por mais nenhum segundo. E como automaticamente tinha me transformado em Olívia, consequentemente tinha me tornado mais sincera.

Lee arregalou os olhos e encolheu-se, caindo no chão de repente. Pega de surpresa, não consegui pegá-lo, mas abaixei e me encontrei com ele lá embaixo.

— Sinto muito, eu sinto muito mesmo. – supliquei de novo e agora segurei sua mão. Eu queria vê-lo sano novamente. Agora eu sabia o que tinha causado aquilo, podia reverter.

Ele parecia não estar mais na realidade, ficava sussurrando coisas sem sentido e se mexendo de forma estranha. Ficou alguns minutos assim, até que finalmente o convenci a sentar-se.

Depois de finalmente fazê-lo parar de falar, consegui que olhasse nos meus olhos.

— Lee, escuta. Neji não é o culpado da morte da sua mãe. – afirmei logo, aproveitando a chance.

Então, ele começou a berrar muito alto, de uma forma histérica.

- LEE! – gritei, tentando fazê-lo parar. – Você tem que me escutar!

Ele não parava de berrar e eu já não sabia o que fazer, quando um sujeito entrou pela porta.

— O que está acontecendo aqui? – perguntou, me dando um olhar acusador.

— Eu... Eu estava só tentando ajudar. – murmurei rapidamente, já com os olhos marejados.

O homem era incrivelmente parecido com Lee e julguei, por sua aparência e súbita aparição, que era seu parente.

Fiquei aliviada por ter alguém conhecido me ajudando naquela situação, a verdade é que eu não tinha a menor ideia de como lidar com a loucura. Nem minha, muito menos dos outros.

— Saia daqui, garota. Olha o que você fez. – o homem disse, autoritáro, indo rapidamente em direção a Lee.

— Me perdoe, eu não... Eu não queria. – disse, soando extremamente como Olívia. – Olha, eu sei o que aconteceu, eu estava tentando contar-lhe a verdade, tentar reverter a...

— Não adianta. – ele disse, dando alguma coisa para Lee tomar, fazendo-o apagar imediatamente. – Ele não vive mais na realidade, contar algo assim só pioraria a situação.

— Mas deve ter algum jeito de...

— Não tem.

— Mas...

— Escuta, garota, você é muito intrometida para alguém da sua idade. Acredite, se tivesse um jeito, eu já teria descoberto, esse moleque é muito importante pra mim.

Acenei e fitei Lee, agora dormindo pacificamente no sofá. Odiei Neji mais do que nunca naquele momento e desejei para que o sombrancelhudo achasse paz em seus sonhos.

— Quem é você? – perguntei, sinceramente curiosa.

— Quem é você?

Quis dizer que eu era uma amiga, mas não me pareceu suficiente.

— Sou Cherry. – respondi, sem erguer minha mão, o que indicava claramente que Olívia já não estava mais no comando.

— Gai. – ele falou logo depois e deu um sorriso. – Eu sou tipo o pai desse moleque.

Ele fitou Lee e eu vi em seu rosto um brilho de orgulho que eu nunca tinha visto no rosto de Tsunade.

— Ele tem sorte. – me forcei a dizer, porque ver algo daquele tipo era tão raro e puro, eu não podia deixar meu orgulho pisar em cima daquele elogio.

— Obrigada, garota.

Quis dizer para ele parar de me chamar de “garota” e Lee de “moleque”, mas por algum motivo não consegui.

— Como você ficou sabendo o que aconteceu? – ele me perguntou, depois de alguns minutos em silêncio.

— Neji me contou. – respondi depois de engolir um seco. Só de pronunciar seu nome eu já ficava enojada.

— Entendo. – Gai falou, ficando sério imediatamente. – Foi tudo muito traumático para Lee, ele já tinha seu distúrbio por genética, mas a doença só atacou depois do que aconteceu...

Acenei e suspirei. Aquilo certamente não tinha me feito bem também. Como certas coisas, as vezes tão pequenas, podiam quebrar uma pessoa, podiam levá-la à loucura. Como a falta de sanidade podia significar tantas coisas...

Tudo por causa dos elos. O elo que Lee tinha com Neji e se quebrou, a confiança que tinha em sua mãe...

Tudo prova de como se relacionar pode ser tão perigoso quanto uma arma de fogo. Talvez até pior. O efeito colateral é pior e mais lento, dolorasamente mais intenso.

— Vou indo. – falei, porque não podia alimentar tudo aquilo da minha mente ainda mais.

— Certo. – Gai disse, depois falou mais alguma coisa que eu não prestei atenção, eu já estava correndo pelas ruas de Bristol para o apartamento de Sasuke. Sabia que não tinha mais o violino para quebrar, mas pelo menos ele entendia as minhas frases sem sentido e os meus pensamentos masoquistas.

Se eu ia afundar, pelo menos estaria com ele.

Notas finais
Heey, cap novo para vossa alegria, haha (:
Vou viajar dia 17 e não sei quando volto, então o próximo provavelmente demorá um pouquinho mais que o normal para sair, mas prometo que assim que eu voltar, eu escrevo!
E ai, gostaram?
Beijão :*