A semana passou mais rápido do que eu esperava, mesmo eu tentando evitar contato com cada um deles. Ignorava toda vez que Jack White começava a cantar e não passava perto das ruas pecadoras onde sempre estávamos.


Eu não conseguiria me despedir, não era capaz de dar adeus, nunca fui. Então simplesmente parti sem olhar uma última vez para ninguém. Eu os veria de novo, eu voltaria só para vê-los, tinha certeza disso.

No dia em que finalmente tive a coragem de fechar a minha mala e ir embora com as minhas economias da vida toda, ignorei as mensagens de texto do meu celular e escrevi um recado que não soasse como uma despedida.

“Vocês não me deixam em paz, não é? Amo vocês, chapados. Até mais. C.”

Eu não disse adeus, o meu “até mais” pontuava perfeitamente a minha situação. Eu não disse adeus…

Desliguei o aparelho para não sentir a tentação de ver as respostas e segui até o aeroporto de táxi. Assim como Tsunade deixava dinheiro, eu deixei um bilhete em cima da mesa.

“Fui para a Inglaterra.”

Simples assim. Quando ela lesse esse recado, esperava que se sentisse como eu me sentia todos os dias ao ver que a única comida que eu tinha era o dinheiro em cima da mesa e o bilhete mal escrito mandando eu pedir algum lanche, ou quando algum papel da escola não estava assinado e ela deixava dinheiro, achando que aquilo resolvia.

Cheguei no aeroporto enorme de Nova York e pela primeira vez na vida, me senti completamente livre. Eu podia pegar um avião para qualquer lugar, nada me impedia de ir para o outro lado do mundo e ficar lá para sempre, sem dar satisfações a ninguém. Nem a mim mesma.

O vôo foi calmo, rápido. Eu estava tão em êxtase, que nem percebi as várias horas que fiquei dentro daquele avião.

Quando finalmente pisei no aeroporto da Inglaterra, dei um sorriso sincero que não soltava a muito tempo. Estava livre, completamente livre. Eu não fazia a menor ideia de como andar por Bristol, eu não conhecia nada, nem ninguém e ainda precisava de um lugar para ficar.

Mas nada disso me importava, eu era jovem e sabia me virar bem, graças a minha tia problemática. Lá ninguém notava meu cabelo rosa, ninguém me olhava de cima para baixo, me julgando baixinho. Eu amei Bristol no primeiro instante que pisei na calçada.

Andei pela cidade, sem me preocupar com nada. Enquanto eu não estivesse com fome e com sono, poderia andar para sempre por ali. Tudo era tão lindo, convidativo, misterioso… E eu estava sozinha, só eu, meu cabelo rosa e os ingleses.

Os homens ingleses que me pareciam tão charmosos e misteriosos assim como a cidade.

Minha mala já estava começando a me incomodar, então finalmente resolvi ceder a lógica e ir em busca de um hotel ou um apartamento para alugar. Não me importava em dividir com alguém, já que não podia existir alguém mais insuportável que eu.

— Ei, cuidado por onde anda. – um inglês disse quando trombei de frente com ele.

— Me desculpe. – pedi, sinceramente. Fiquei o fitando por algum tempo, era bonito, loiro, de olhos azuis, ainda mais com seu sotaque. Mas, sendo socialmente estranha, eu não disse mais nada e o contornei, para continuar a minha jornada.

— Espere, quer ajuda com a sua mala? – ele perguntou gentilmente. Eu não acreditava naquilo, normalmente pessoas muito gentis com desconhecidos são psicopatas ou estrupadores.

Não respondi, apenas continuei andando. O ouvi dar uma gargalhada por trás e me virei, irritada.

— Está gostando do show? – perguntei, áspera. Estava acostumada a puxar brigas na rua quando riam de mim. Eu já não conseguia engolir aquele tipo de desrespeito porque engolia muitos outros.

O loiro arregalou seus olhos cor do céu e mostrou as mãos, em sinal de rendição.

– Me desculpe, não pretendia ofender. – falou num meio sorriso.

Ele se aproximava enquanto eu subia a minha sombrancelha direita.

— Tem certeza que não precisa de ajuda com a sua mala? – perguntou novamente, apontando a minha bagagem com a cabeça.

Bufei.

– Eu nem sei para onde estou indo, então, se me der licença… — pedi, me virando novamente.

– Como assim não sabe para onde está indo?! – agora ele gritava no meio da calçada e eu coloquei a mão na testa. Precisaria mesmo lidar com aquilo no meu primeiro dia em um novo país?

Eu suspirei por causa da minha própria precariedade e andei na direção do loiro para que parasse de gritar.

— Você sabe? – perguntei, pronta para me livrar dele.

— Sei o que?

— Pra onde você está indo?

Ele franziu o cenho.

— Sim. – respondeu, confuso.

— Então vai. – ralhei entre os dentes.

Novamente, ele riu, mas agora era uma gargalhada, estava claramente se divertindo as minhas custas. Eu o olhava com desdém, qual era o problema daquele cara?

— Você é sempre assim? – perguntou, entre as risadas.

— Assim como?

Chata. — murmurou, se aproximando com o rosto.

Acenei com a cabeça que sim e dei um sorriso sarcástico. Pelo jeito, o sujeito era mais teimoso que eu e não me deixaria ir embora tão cedo.

– Meu nome é Naruto. – ele disse, erguendo a mão esperando que eu a apertasse. Eu não apertava mãos, era contra apertos de mão, achava um gesto completamente inútil e sem significado. Então, apenas o deixei esperando enquanto me olhava sugestivamente.

Naruto riu novamente e abaixou a mão. Enquanto ele achava graça de tudo, eu achava tudo muito patético e superficial. Talvez eu fosse mesmo de outro planeta.

— Sou Cherry. – falei finalmente. Eu ainda estava desconfiada de suas intenções, não existia aquele tipo de bondade em alguém, ninguém era tão inocente.

— Cherry… Tipo a fruta? – perguntou, achando graça.

– Exatamente. – o cortei antes que começasse a rir novamente. Ele acenou rapidamente e andou ao meu lado.

Sem eu pedir ou deixar, Naruto pegou a mala das minhas mãos e continuou em silêncio. Ele finalmente estava me conhecendo. Eu valorizava o silêncio, o preferia do que as palavras sem significados e falsas ou as mentiras. Principalmente as mentiras.

— Ainda não sabe para onde está indo? – perguntou, estragando meu momento de paz e admiração ao silêncio.

— Não. – respondi simplesmente. Quis lhe dizer que eu nunca realmente soube para onde estava indo.

– Então vem comigo. – ele pediu, virando em uma rua estreita. Desconfiei, mas o segui, alguma parte de mim dizia que eu podia confiar em Naruto. Eu nunca confiava em ninguém de imediato, nunca.

Não sei se foi influência do ambiente, da companhia ou da minha cabeça mesmo que me fez entrar naquela rua e confiar no loiro de olhos cor do céu, mas eu me joguei de cabeça na situação, não tinha nada a perder.

O segui em silêncio até chegarmos em um hotel um tanto boêmio que me encantou imediatamente. Eu, adoradora da arquitetura européia e seduzida pelo mistério, me deixei levar pela imagem leviana daquele prédio.

– Toma, essa é a chave do meu quarto. É o 301. Eu já volto. – Naruto disse e depois me deu suas chaves.

Era díficil eu me surpreender com alguma coisa, mas sua atitude, de confiança plena em uma desconhecida, me deixou supresa. O fitei de olhos arregalados e disse:

— Vou colocar fogo no seu quarto.

Ele nada disse, apenas saiu andando rindo, como sempre fez nos poucos minutos que passamos juntos. Já conseguia estabelecer um padrão em sua personalidade, eu era boa nisso. “Que figura peculiar esse Naruto.”, pensei na hora. Eu gostei dele, parecia ter bondade e essa era uma característica muito subestimada.

Deixando meus julgamentos de lado, subi no prédio e entrei no 301. Era um ambiente típico de um jovem inglês, cheirava a drogas e promiscuidade. Mas a bagunça escondia qualquer tipo de objeto ilícito.

Aquilo me fez sorrir. Mais um vez, um sorriso sincero. Eu larguei a minha mala no chão e fui até a varanda de trás, me deparando com a linda visão da Catedral de Bristol, a mais maravilhosa igreja que eu já tinha visto desde então.

Estava completamente apaixonada por aquela cidade. Ali sim eu sentia que minha vida podia começar, ou recomeçar. Soltei um suspiro típico de pessoa apaixonada e fiquei apoiada na grade da varanda, perdida em pensamentos.


Não sabia dizer se eu havia passado horas ou minutos, apenas ali, observando a cidade como uma espiã.

– Ainda aqui? – ouvi uma voz dizer por trás de mim.

Me virei e vi Naruto entrando e jogando um pacote em cima da cama.

– Esse lugar é maravilhoso. – me forcei a dizer. Eu não costumava elogiar as coisas, mas eu também não costumava entrar em quartos de hoteis de desconhecidos, então me perdoei.

— Você se acostuma. – ele murmurou, dando de ombros. Logo, sentou-se em uma poltrona de couro que havia no canto do quarto e começou a enrolar um baseado.

Em segundos, terminou e me ofereceu. Fiz que não com a cabeça, já estava chapada demais com a beleza da cidade, com o ambiente, com tudo.

– Então, o que pretende fazer aqui, americana? – ele perguntou, tragando.

— Pretendo ser livre, inglês. – respondi.

Naruto gargalhou e disse:

— Veio para o lugar certo, Cherry.

Eu sorri e me sentei no chão, de frente para ele.

— E você, o que pretende fazer aqui? – perguntei. Estava começando a gostar daquele loiro risonho.

— Completar minha faculdade e ser alguém na vida. – respondeu, me decepcionando.

– Que merda de clichê. – eu disse, o fazendo rir.

– A vida é um clichê. – afirmou. Ele estava certo. E completamente chapado, mas eu não ligava, já estava acostumada.

Deixei a minha cabeça pesar e deitei no chão do carpete, fitando o vazio. De novo, não soube quanto tempo passei ali, apenas divagando sobre nada e ouvindo as coisas aleatórias que Naruto falava às vezes.

De repente, a porta se abriu e meus devaneios foram interrompidos. Ergui o corpo rapidamente e me virei contra a figura que aparecia na porta.

Era um sujeito alto, com o seu cabelo negro, liso e comprido e olhos tão incrivelmente azuis, que eu poderia confundí-lo com um cego.

— Naruto. – ele disse, assim que entrou. Chegou a olhar para mim, mas ignorou.

— Neji, meu grande. – o loiro respondeu, levantando-se. O mirei e vi seus olhos vermelhos pelo efeito da maconha. Por experiência, eu sabia que o barato estava quase acabando nesse ponto.

Os dois se cumprimentaram e logo, o que aparentemente se chamava Neji, disse, preocupado:

Ele está causando problemas de novo. – e essa foi a primeira vez que eu ouvi falar nele. Mal sabia eu que nunca mais esqueceria.

Naruto bufou e coçou a nuca, como sinal de nervosismo.

– Não sou pai dele. – disse, com a voz falha.

Vi Neji revirar os olhos e andar de um lado para o outro, inquieto.

— Você é o único em quem ele confia, não vai ouvir ninguém que não seja você. Você sabe que ele te considera um irmão…

Naruto desviou o olhar. Eu percebi que aquilo tinha o afetado.

– Ele já tem um irmão. Chama ele! – replicou. Parecia determinado em não ajudar.

— Não venha com essa pra cima de mim, Naruto! Larga de ser viado e vai resolver logo as coisas com ele, essa birra de vocês dois já está me cansando! – o outro disse, aumentando o tom de voz.

— A culpa não foi minha… — o loiro balbuciou para si mesmo.

— Eu sei, cara. Mas você sabe que eu não viria se não fosse urgente.

Naruto acenou em concordância e pegou seu casaco para sair.

– Você vem? – perguntou para mim. Por que eu iria? Eu tinha tanto mais o que fazer do que ir com dois caras estranhos cuidar de um terceiro cara que parecia ser o mais estranho de todos.

Mas, de novo, não tinha nada a perder e era sábado, não tinha como eu achar uma faculdade e um lugar para morar em apenas um fim de tarde. Então deixei meu senso de aventura me guiar e fui novamente atrás do loiro.

Notas finais
Ooi, fim de fevereiro, mais que na hora de eu postar um capítulo dessa fic. Hahhaa, desculpa a demora, teve os feriados e eu viajei, enfim....
Ta aí, espero que tenham gostado (:
Reviews? Criticas são sempre bem vindas ^^ (talvez eu poste mais rápido se tiver bastante. ok, mentira. hahha)
Beeijos :*