Máscaras & Sussurros
4 Ele
Eu não fazia ideia de onde estava indo, mas naquela jornada eu consegui conhecer melhor a cidade. Era díficil reconhecer as ruas de Bristol, eram todas mais ou menos parecidas e todos os lugares tinham o mesmo aspecto antigo e misterioso que me encantava.
Finalmente chegamos no destino incerto pelo qual eles me guiavam. Neji não dirigiu a palavra a mim durante todo o trajeto, não sei qual era a dele, mas definitivamente não era tão educado, alegre e expansivo como Naruto.
Ao chegarmos, vi que os dois entraram em um bar de esquina. Na mesma hora pensei que aquele lugar era como o “The Republic”, era só deles, eu sentia isso. Fui atrás, me sentindo uma intrusa.
Entrei naquele bar, que era bem mais suburbano que o de Nova York e com certeza menos parnasiano, me arrisco dizendo que era mais romântico... Olhei para o rapaz atrás do balcão e não vi o Sai, aquilo me afetou, era estranho não conhecer ninguém.
Ainda olhando em volta, tentei localizar o loiro e o de cabelos compridos, em instantes, os vi ajoelhados no chão, em volta de alguma coisa, ou alguém. Me aproximei, cautelosa, não queria me intrometer mais do que já estava.
Quando me aproximei, vi um sujeito sentado no chão de olhos meio abertos meio fechados, sussurrando coisas impossíveis de se entender. Ou estava no auge da bebedeira ou no auge de uma boa dose de variadas drogas.
Mesmo naquele estado, completamente impróprio, indecente e perdido, eu o achava absurdamente lindo. Uma beleza única que eu nunca soube como caracterizar, nem classificar. Era outro tipo de maravilha, daquelas que você não encontra facilmente.
Aqueles olhos cor de ônix, assim como seus cabelos negros, me seduziam de um jeito absurdo. Não era como a beleza de Naruto, comum. Era outro tipo… Outra dimensão. Todo o conceito de beleza se redefinia na minha cabeça enquanto ele começava a gritar coisas sem sentido.
Naquela hora, eu acordei para a realidade e olhei ao meu redor. Naruto e Neji não estavam sozinhos. Havia mais duas pessoas ali, uma mulher que prendia seu cabelo rebelde em maria xiquinhas e um moreno com o cabelo preso em um rabo de cavalo extremamente mal feito.
Comprovei, então, o que era só uma suposição no início. Aquele lugar era deles, era daquele grupo, assim como aquele espaço. E eu não pertencia a ele.
Me levantei angustiada e constrangida, tentando ignorar os berros daquela criatura única que beirava o absurdo.
— Ei, espera. – ouvi quando estava me aproximando da porta. – Você não quer nada? – a de maria xiquinhas me perguntou. Eu a fitei, do que ela estava falando?
Então, a observei de cima a baixo e notei, por suas roupas, que ela trabalhava ali.
– Não, obrigada. – eu disse em um tom patético de esclarecimento mental.
Ela me olhou de cima a baixo, assim como fiz com ela e ergueu uma sombrancelha.
— Você é americana, não é? – perguntou. Eu só estava em Bristol a algumas horas e já odiava o fato das pessoas me taxarem como “gringa” ou “americana” sempre que eu abrisse a boca.
– Sim, e você, é inglesa? – perguntei de volta, seca, tentando fazê-la entender o meu ponto de vista.
Ela acenou com a cabeça, mas não abriu um sorriso. Estava prestes a falar alguma coisa, quando o causador deu outro berro. Agora mais gente foi parar em volta dele. Eu não entendia o motivo de tamanha preocupação, aquilo só podia ser efeito do álcool ou das drogas, por que estavam todos tão aflitos? Aquilo iria passar…
— Me desculpe por isso. – a garçonete falou. Seu cabelo castanho claro balançou com as xiquinhas. – Tem certeza de que não quer nada?
Eu pisquei depressa, podia muito bem aproveitar alguma bebida já que estava ali. E parecia que ela estava tendo um dia difícil, então resolvi ajudá-la.
— Ah… Eu poderia beber um copo de cerveja gelada. – disse, sorrindo.
Não sei o que me fez continuar naquele lugar, eu me sentia uma intrusa, me sentia mal por eles e aquilo me parecia com Nova York. Eu me mudei para ter diferenças e não só mais uma imitação de sexta-feira no “The Republic”.
Mas, mesmo assim, continuei parada, esperando a minha cerveja. Alguma coisa me prendeu, eu não sabia o que… Era simplesmente mais forte do que eu. Voltei o olhar involuntariamente para o moreno decadente.
– Aqui. – a garçonete voltou com minha bebida.
Não agradeci, dei um longo gole, tentando esquecer a imagem perturbadora que vira.
— Ele vai ficar bem? – eu perguntei, fitando-a. Agora nem eu tinha certeza se o efeito de qualquer coisa que ele tinha tomado iria passar.
A de xiquinhas deu de ombros.
— Nunca realmente ficamos bem, não é? – eu suspirei e dei outro gole. Tinha gostado dela, era realista, me lembrava o Sai nesse aspecto.
— Realmente... – concordei, ignorando outro berro.
— Sou Temari. – ela disse, obviamente tentando tornar o ambiente menos hostil. Não ergueu a mão para eu apertá-la e naquele gesto eu soube que seríamos amigas.
— Cherry. Tipo a fruta. – completei, para que não houvesse perguntas.
— Como veio parar nesse lugar? – ela perguntou, se referindo ao bar.
Apontei para Naruto e ela deu um meio sorriso .
– Ele consegue ser bem amigável.
Concordei com a cabeça.
– Cheguei hoje dos Estados Unidos. Fugi. – esclareci.
– Boa jogada. – Temari disse, se diferenciando de todas as pessoas comuns que diriam que eu enlouqueci. Eu sorri e ela retribuiu. – Vai entrar em alguma faculdade?
— Tentarei. Foda-se se eu não conseguir também, só de estar longe de casa já valeu a viagem.
– Entendo… — ela murmurou, agora voltando ao olhar para o canto do bar. – Aquele filho da puta está espantando a clientela de novo.
Olhei em volta e, de fato, só tinha mais uma mesa ocupada. Felizmente, todos estavam bêbados o suficente para não perceberem ou se incomodarem com a cena dramática.
— Quem é ele? – perguntei, fingindo desinteresse.
— Sasuke Uchiha. – ela disse com escárnio. Obviamente o odiava. – Não queira se envolver com esse verme.
Já era tarde demais, eu quis me envolver assim que o olhei, e a minha curiosidade em saber mais do que seu nome me consumia. Eu saboreava aquelas letras na minha mente… Sasuke Uchiha… Era realmente um belo nome.
— Por que? Só me parece que ele está completamente drogado…
— Ah, se assim fosse! – ela exclamou, com um sorriso irônico. – Confie em mim, esse verme não presta…
O fitei novamente. Ele parecia não parecia um verme… Parecia só assustado, sozinho, perdido… Eles não entendiam… Ninguém parecia entender.
Eu entendia, vi naquele sujeito uma representação moribunda de mim mesma. Eu estava tão perdida quanto ele… A única diferença era sua coragem de assumir, mas a verdade era que, como eu, também estava tentando preencher o vazio que o consumia.
E eu pude concluir tudo aquilo apenas dando uma boa olhada em Sasuke Uchiha. Se Sai era o meu cavaleiro negro que me levou para a estrada errada, Uchiha era a própria estrada.
– Você já tem onde morar? – Temari perguntou, interrompendo meus pensamentos irreverentes.
— Na verdade, não. Deixei a minha mala no quarto de hotel do Naruto. – falei, tentando ignorar o quão patético aquilo soava.
— Se você não quiser morrer de intoxicação alimentar, pode ficar no meu apartamento até quando quiser, tenho um quarto sobrando – ofereceu sorrindo.
Os ingleses eram mesmo assim? Confiavam em todo mundo e ofereciam sua casa para o primeiro estranho que aparecesse? Aquilo era de uma esquisitisse tão grande, que me fez gostar deles.
— Seria ótimo. – respondi, sincera. – Muito obrigada.
Temari acenou com a cabeça e disse, baixando o tom de voz:
— A dona do apartamento está ali, fala com ela para que te leve pra lá. Tenho certeza que ela não verá problemas.
Virei a cabeça e vi uma jovem no outro canto do bar, não tinha a notado antes. Ela tinha cabelos compridos, tão negros que pareciam azuis. E assim como Neji, eu podia pensar que ela fosse cega de tão azuis que eram seus olhos.
Lia um livro em sua solidão pacífica e não ergueu o olhar quando me aproximei. Invejei sua capacidade de se perder no mundo dos sonhos literários e sentei na cadeira a sua frente.
— Me desculpe… — pedi de início. Não queria a interromper. Ela ergueu seus olhos de cor impossível e assustou-se com a minha presença.
— O-olá. – gaguejou com a voz mais doce e meiga que eu já tinha ouvido na minha vida. Sempre achei que aquele tipo de voz significava falsidade, perversão… Mas naquela figura, estranhamente, parecia um sinal de completa inocência.
Sorri com o tom rosado que apareceu na face dela.
— Sou Cherry. – disse.
– Hinata.
– Temari me ofereceu um quarto no apartamento de vocês, queria saber se tudo bem por você… — murmurei, tentando parecer confiável.
Hinata abriu um sorriso, que me soou sincero, e acenou com a cabeça repetidamente.
— Mas é claro! – finalmente disse. – Vamos, te levo lá agora, se quiser. Só me deixe terminar o capítulo…
Acenei em concordância e ela voltou o olhar para o livro. Me arrumei na cadeira e olhei para o outro canto do bar. Agora só Naruto estava sentado ao lado de Sasuke, enquanto os outros estavam sentados em uma mesa mais afastada, soltando alguns olhares preocupados de vez em quando.
Estreitei os olhos para focalizar a imagem e notei a expressão do moreno. Estava completamente acabado, rolei os olhos para encarar Naruto. Este estava cabisbaixo, murmurando coisas impossíveis de se decifrar de onde eu estava. Meu coração apertou, era triste.
Eu normalmente achava que as coisas eram erradas, angustiantes, feias, mas não tristes. Não como aquela cena. Aquilo era triste. Aquelas expressões, os gestos, as palavras indecifráveis… Tudo.
— Pronto. – Hinata disse, fazendo com que eu voltasse a olhá-la. Então, levantou-se e eu a imitei. Estava pronta para ir para a porta, quando ela contornou a mesa e foi em direção ao canto da perdição.
Confusa, a segui. O que ela estava fazendo? Ia interromper aquele momento tênue? Mas ela parecia não se importar com a grandeza de tudo aquilo. Foi direto em direção a Naruto e Sasuke.
Eu queria ir embora, queria me livrar daquilo, não ir mais fundo.
Ela ajoelhou-se ao lado do loiro, que parou de falar subitamente e virou-se para fitá-la. Hinata o beijou nos lábios e disse alguma coisa enquanto o abraçava. De novo, não fui capaz de decifrar, só conseguia me concentrar em não olhar nos olhos ônix que fariam as minhas pernas cederem.
Não mais pela beleza, mas sim pela compaixão e completa compreensão que eu sentia perante aqueles olhos.
Então, a morena debruçou-se e beijou o Uchiha no rosto. Ele não mudou sua expressão congelada, que para alguns era de indiferença, mas para mim, mostrava a grande angústia, solidão e o vazio que continuava o consumindo.
– Não faz mais isso. – Hinata sussurrou para ele, enquanto levantava-se. A fitei com admiração e ela sorriu, andando na minha frente.
— Vai me abandonar, americana? – Naruto disse, percebendo o que estava acontecendo.
Acenei com a cabeça.
— Vou ficar com isso. – eu disse, mostrando-lhe a chave. – Ainda estou te devendo um incêndio, inglês.
Naruto riu, mas eu soube que era moderado, como se não se permitisse sentir-se tão feliz com alguém tão miserável ao seu lado. Ele era uma pessoa tão absurdamente boa.
Ainda sem fitar o moreno, sai atrás de Hinata, que me esperava na porta.
— Onde estão suas coisas? – ela me perguntou.
Expliquei-lhe toda a minha situação, desde que cheguei e fui acolhida por Naruto até quando Temari me oferecera moradia. E Hinata, assim como os outros, não me julgou quando eu disse que havia fugido.
— Então vamos passar no 301 e depois nós vamos para casa, tudo bem?
Concordei com a cabeça e a segui em direção a uma lambreta azul que me encantou imediatamente.
– É sua? – perguntei, eufórica.
Ela acenou sorrindo e me deu um capacete. O coloquei e me aventurei mais uma vez pelas ruas de Bristol.
Notas finais
Espero que tenham gostado, revieeews?
Beeijão :*
Fale com o autor