Pelo meu tom de voz, ela entendeu que eu estava falando sério, dessa vez, eu queria respostas concretas e não só suas revoltas sem fundamento.

— Por que você não confia em mim? – ela me perguntou, ignorando a minha questão.

Com esse comentário, percebi que talvez minha tentativa fosse inútil novamente.


— Eu confio em você, estou morando com você, porra! Temari, eu gosto de tirar conclusões por mim mesma, não é do meu estilo julgar as pessoas pelos comentários das outras... Eu acredito que você tenha motivos para odiá-lo, mas não posso comprar essa briga como minha.

Ela suspirou.

— Os motivos que eu tenho para odiá-lo não tem relação nenhuma com os que eu tenho para não querer ele com você.

Franzi a testa, do que ela estava falando? Tudo ficou confuso e eu sentei ao seu lado. Então o que a fazia odiá-lo não era a mesma coisa que a impedia de querê-lo comigo? Isso não fazia sentido nenhum.

— O que ele fez com os meus irmãos sempre vai ser imperdoável, mas não é por isso que eu não quero que você saia com ele, Cherry. – ela continuou, de uma forma calma que não combinava com seu caráter explosivo.

Achei que ela ainda não estava pronta para falar sobre Kankuro e Gaara, então não perguntei nada, mas continuei a fitando, esperando mais explicações.

— Há alguns meses atrás, logo depois de Jiraya morrer, – suspirei, do jeito que ela falou, parecia que estava completamente cega sobre a verdade. – tínhamos outra colega de quarto. Karin.

Esse nome me era familiar, elas já haviam o mencionado quando tinha me mudado, talvez tivessem me comparado com ela...

— Nós éramos amigas, ela nos acompanhava nos rolês da noite, nos ajudava... Enfim, era nossa companheira. Então, ela começou a gostar do Sasuke, como parece acontecer com todo mundo que o conhece.

Ela falou essa última frase com um rancor claro, mas não ousei interrompê-la.

— Logo eles estavam namorando, ou sei lá o que era aquilo. Pouco a pouco, Karin começou a ficar mais ausente, não saia mais com a gente, só ficava com ele e coisas do tipo. Soa familiar?

Abri a boca para responder, mas parecia que era uma pergunta retórica. Quis gritar que não, não era assim que eu estava me comportando. Eu ainda saia com elas no fim de semana, eu voltava para casa, só havia passado uma noite no Sasuke... Temari conseguia ser tão exagerada.

— Começou a piorar, ela chegava completamente drogada aqui, destruia a casa, pegava emprestado nosso dinheiro para comprar drogas e nunca devolvia. Foi dai que surgiu a ideia da caixa chinesa... Enfim, era óbvio que estava completamente dependente, não só das substâncias, mas de Sasuke. Ela não conseguia ficar um dia sem falar com ele.

Suspirei. Isso soava familiar.

— Chegou um dia que eu e Hinata já não aguentávamos mais, ela só vinha para pegar nosso dinheiro e comer. Tentamos salvá-la, dizer que estava indo para o mau caminho, mas ela não ouvia, parecia que Sasuke tinha uma influência anormal nela... Karin acabou sendo demitida do trabalho e expulsa da faculdade.

“Completamente sozinha, ela foi morar na casa do Uchiha e isso foi a pior decisão que ela podia ter tomado. O pouco de luz que tinha dentro dela foi completamente oculto pelo estilo de vida dele e ela se tornou a pessoa mais dependente que chegamos a conhecer. Foi difícil para nós vermos ela tomar esse lado. Ver Sasuke era mais fácil, estávamos acostumados, mas ela, ela não.

Então, em um dia qualquer, sem mais, nem menos, Sasuke resolveu ir embora. Ele simplesmente se mandou, como sempre faz. Karin ficou tão deprimida que não saiu do apartamento por 2 meses. Ela tinha perdido tudo, absolutamente tudo por causa dele. Pior do que nunca, ela teve que voltar para casa dos pais na Itália e nunca mais voltou.”

Pisquei algumas vezes. Certo, talvez a situação em que Karin estava era parecida com a minha, mas eu nunca me permitiria entrar no mundo das drogas novamente, não era por isso que eu tinha vindo a Bristol?

Eu tinha uma coisa que Karin não tinha: uma vida para voltar. Temari precisava entender isso, eu não me perderia assim...

Ainda tentando convencer a mim mesma, a loira continuou, agora com um olhar mais parecido com o que costumava usar.

— Sabe o que é pior disso tudo? Sasuke nem foi atrás dela. Ele nem perguntou sobre ela quando voltou de sei lá onde. Esse é o tipo de cara que o Uchiha é, Cherry. Ele usa as pessoas para afogar suas mágoas, para uma tentativa falha de se curar e depois se manda quando percebe que não adianta. Então, ele se dá conta de que não dá para fugir de si mesmo e volta. O ciclo é infinito, percebe?

— Eu entendo que o que aconteceu com Karin foi foda, mas eu não sou a Karin. – afirmei, convicta.

Ela revirou os olhos e levantou-se.

— Ok, certo. Quando acontecer a mesma coisa, não venha chorar pra mim, tá legal? Já disse isso e estou falando de novo. Não venha chorar pra mim. – falou, em um tom agressivo e saiu pela porta. Estava claramente cansada de me convencer de que Sasuke era uma pessoa má.

Mas o que eu podia fazer? Ela não o conhecia como eu... Com certeza ele teve motivos para ir embora. Karin devia saber que ele voltaria, por que ela não esperou? Ela não entendia, ninguém entendia... Não aconteceria a mesma coisa, eu o entendia.

“Eu vou protegê-la de você, entendeu? Qualquer merda que você fizer. Não vou deixar que a história se repita. Eu, diferente de você, aprendi com os erros e essa vez não vai ser que nem daquela.” As palavras de Naruto continuavam a se repetir na minha mente e eu não podia deixar de me perguntar: e se eles estivessem certos?

E se eu realmente fosse fraca o suficiente para me deixar cair nas drogas novamente? E se eu dependesse tanto de Sasuke que quando ele terminasse comigo, eu não iria aguentar mais viver? E se eu começasse a rejeitar as pessoas que me acolheram e fosse demitida e expulsa?

Shouji já estava bem bravo comigo e eu tinha faltado no segundo dia da aula, quando no primeiro eu quase ganhei uma suspensão...

Não. Não, isso não aconteceria comigo. Eu aprenderia com os erros dos outros, eu era assim, certo?

— Sabe, Temari só está com medo. – ouvi uma voz atrás de mim que me fez saltar.

Hinata estava segurando uma xícara com um sorriso meigo que me fez sorrir automaticamente, apesar dos meus pensamentos preocupantes.

— Como assim?

— Éramos muito próximas a Karin, foi realmente muito doloroso para Temari perder mais uma pessoa, depois de seus irmãos. Ela gosta de você, Cherry, só isso. Tente entender, ela realmente quer seu bem, isso não tem nada a ver com uma vingança idiota contra o Sasuke.

Como Hinata tinha uma visão tão clara e calma das coisas? Tudo era tão mais fácil na cabeça dela, do jeito que ela falava parecia que as coisas eram tão perfeitamente boas e puras.

Mas não eram.

— Entendo. Mas eu já sou grandinha, eu posso cuidar de mim mesma. E você não pode achar essas coisas horríveis de Sasuke, como ela, certo? Naruto é amigo dele, como ele pode ser tão ruim?

Vi Hinata ficar sem jeito, como sempre ficava. Ela simplesmente era incapaz de falar mal de alguém e isso me aliviava, ela nunca me julgaria ou odiaria independente do que eu fizesse. Era confortador ter alguém assim ao meu lado.

— Eu... Hm... – ela tentou achar palavras. – Sasuke é como um irmão para Naruto, antes de... É... Tornar-se o que ele é hoje, ele ajudou muito mesmo Naruto. Então ele meio que se sente na obrigação de retornar o favor, entende? Naruto acha que tem uma dívida eterna com Sasuke, por isso nunca desistiu dele.

Desviei o olhar, não sabia o que pensar sobre aquilo. Como assim “tornar-se o que ele é hoje”? Como Sasuke era antes? Isso não fazia o menor sentido, mas de um jeito inexplicável, eu entendia. Eu sempre percebi que Sasuke e Naruto tinham uma conexão forte.

Desde o momento que eu vi Naruto confortando Sasuke no bar, eu sabia que os dois tinham uma história. O loiro foi o único que se importou, o único que se propôs a ajudar. Depois daquele dia, suas ações só confirmaram as minhas expectativas.

Quando Naruto disse que só entrou na universidade porque Sasuke o havia desafiado ou quando ele socorreu o moreno naquele beco, sendo grosso pela primeira vez comigo... Era óbvio. Hinata só estava confirmando a mais clara das poucas verdades que eu tinha deduzido em Bristol.

Mas por que? Que dívida era essa?

— Acho que Naruto não é muito de desistir das coisas. – comentei, invés de perguntar o que eu tinha em mente.

Hinata corou e deu um sorriso sincero.

— Ele é a pessoa mais persistente que eu conheço.

— Sim. Mas... Você não respondeu minha pergunta. – disse, porque eu realmente queria a opinião de Hinata. Mais do que tudo, eu precisava da visão otimista dela, precisava ouvir alguém dizer que ele não era tão mau. – O que você acha de Sasuke?

— Ah, ele é muito importante para Naruto e...

— Hinata... – resmunguei.

— Ok, ok! Ai Cherry... Ele é... Complicado.

Suspirei, ela sabia que aquilo não me satisfaria, então continuou:

— Ele é um cara muito inteligente. Mesmo. Se destacava em tudo. Mas não sei, tem algo nele que se perdeu no meio do caminho, entende? O brilho que ele tinha no olhar não está mais lá... Eu não consigo mais vê-lo como meu amigo de infância... Agora ele é quase um estranho pra mim. Só ouço histórias.

— Você acha que... Que tem esperanças?

Ela sorriu.

— Claro.

Sorri de volta e a abracei subitamente. Surpresa, ela me abraçou de volta e eu segurei minhas lágrimas de agradecimento.

— Eu não acho que você seja igual a Karin. Tinha algo nela que não batia muito bem... – ela comentou para a minha felicidade e eu ri. Aquilo tinha me deixado mais confiante e eu certamente poderia seguir com aquele relacionamento sem repetir a história.

— Mas se Sasuke se mandar... Você pode chorar pra mim!

Esse comentário fez com que as lágrimas que eu estava segurando caíssem livremente. Como Hinata conseguia ser tão fofa? A abracei novamente e ela sorria, dando tapinhas de leve nas minhas costas.

— Se ele se mandar, eu vou caçá-lo e trazê-lo de volta. – afirmei. Aquele idiota não ia a lugar nenhum sem mim, ele não faria isso. Eu não ia deixar.

Hinata deu seu famoso sorriso gentil e disse:

— Não precisa. Ele volta. Ele sempre volta.

Suspirei, aquilo era fácil de acreditar. Apesar daquela história acabar com muitas de minhas dúvidas, eu ainda tinha tantas perguntas sem respostas. Fiquei me perguntando se Hinata sabia de tudo... Já que ela era namorada de Naruto e ele conhecia Sasuke mais do que ninguém.

— Na, por que o Sasuke tem uma relação tão complicada com Itachi? – perguntei, porque apesar de respeitar a privacidade dele e querer ouvir de sua boca, a minha curiosidade era maior e eu precisava ouvir a versão de alguém de fora. Alguém que não distorcesse a verdade para parecer o bonzinho.

— Você sabe de Itachi? – ela perguntou surpresa e eu acenei com a cabeça. – Ah, Sasuke tem uma relação difícil com toda a família dele... Naruto nunca me disse muito a respeito, mas sei que todos consideravam Itachi como perfeito e Sasuke nunca conseguiu acompanhar seu sucesso...

Suspirei, tinha imaginado que era algo assim. Itachi realmente parecia bem mais sucedido, mais centrado, mais tudo... O exemplo perfeito de um filhinho de papai que tinha a vida perfeita.

Eu sabia que Sasuke não era pobre, que ele escolhera viver naquele cafofo por si mesmo, isso faria de Itachi o oposto? Mas isso não era motivo para odiar o irmão e eu sabia, só pela expressão dele ao atender o celular, que sua raiva era genuína.

— Só isso?

— Até onde eu sei, sim. – ela respondeu com um suspiro. – Acho que a rixa deles tinha alguma coisa a ver com algo que Itachi fez aos pais, mas não sei mesmo Cherry, melhor eu não falar nada do que ficar supondo, né?

Não, não era. Queria ouvir as suposições, queria entender a família de Sasuke, queria o conhecê-lo... Por que Hinata tinha parado? Por que ela não continuou contando tudo o que sabia e mais? Eu precisava daquilo.

Ela sorriu e bocejou, desencadeando um bocejo meu também. O dia tinha realmente exaustivo e eu precisava dormir. Mas como eu ia colocar a cabeça no travesseiro depois de tudo aquilo?

Meus pesadelos me perseguiriam como pragas, ia ser impossível adormecer sozinha. Pensei em ligar para Sasuke, sabia que dormir com ele não me faria ter pesadelos, mas parte de mim ficou com medo por causa das coisas que Temari dissera.

Parte de mim gritava para que eu não dependesse tanto dele como eu já estava dependendo.

Como eu sempre escolhia a parte que dizia para eu esquecer de tudo e ir atrás dele, resolvi variar e ficar em casa. Porque, apesar de tudo, eu não queria levar o mesmo fim que Karin.

Notas finais
Heeey, como estão? (:
Cap fresquinho pra vocês contando um pouco mais do passado da galera de Bristol. Gostaram?
Mantenho a minha proposta do cap anterior, perguntem qualquer coisa para Cherry, ela responderá, hihi :D
Beijão :*