Máscaras & Sussurros
24 Arrependimento
Eu consegui dormir sem pesadelos e acordei cedo para ir pra aula, minha mente estava pensando em encontrar Sasuke de novo, claro, mas eu tentava com afinco me desvenciliar de meu aparente vício.
Apesar de não agir como tal, a história de Temari me afetou. Eu sabia que eu não era como Karin e nunca me perderia daquele jeito, mas a palavra “se” me perseguia como meus pecados.
— Bom dia. – Temari disse, quando eu entrei na sala. Fiquei feliz por ela não estar mais brava comigo e respondi com o mesmo tom de sono. – Vamos, o Shikamaru te dá uma carona até o trem.
Fiquei me perguntando o que o namorado de Temari fazia da vida e como ele tinha um carro e ela não. Preferi não me intrometer e agradecer a oportunidade. Apesar dela não estar mais raivosa, como sempre, o clima ainda estava meio pesado entre nós e evitamos qualquer tipo de conversa que envolvesse outras pessoas.
— Oi. – ela disse para o namorado quando chegou no carro e deu-lhe um selinho pela janela aberta. Por algum motivo que não consegui decifrar na hora, percebi que eu e Sasuke nunca seríamos assim.
Éramos mais intensos, qualquer coisa tinha um significado maior, tudo era um exagero.... E eu gostava assim. Cumprimentei Shikamaru com a cabeça e ele retribuiu o resto, já imaginando que teria que desviar de seu caminho habitual para me dar carona.
Primeiro, ele deixou Temari no bar, que saiu a contra gosto do carro. Ela obviamente não gostava de trabalhar naquele lugar, tinha percebido isso no primeiro momento que a fitei naquele ambiente.
Sai do banco de trás e me sentei ao lado de Shimakaru. Com ele, o silêncio era confortador, tudo era mais calmo, eu não sentia a necessidade de puxar uma conversa e isso era uma surpresa, considerando que nos conhecíamos tão pouco.
Só com o som do rádio, eu estava pronta para me perder nos meus pensamentos masoquistas, quando ele disse:
— Uchiha, hein?
Suspirei.
— Ah, por isso que Temari ofereceu carona... Ela quer que você me convença que Sasuke é uma péssima escolha... Certo, uma coisa bem matura de se fazer. – disse, rolando os olhos.
— Você é rápida em assumir o pior das pessoas, não é? – Shikamaru respondeu, para a minha surpresa.
— Não é isso... – comecei.
— Escuta. Eu não sei qual é a briga entre você e Temari, mas eu não tenho nada a ver com isso. E eu sou amigo de Sasuke.
Fitei-o, incrédula. Tinha finalmente achado alguém que não ia aproveitar a oportunidade para xingar Sasuke e contar uma história de como ele destruiu sua vida? Como percebi que ele não iria falar mais nada, respondi:
— Você é a primeira pessoa a me falar isso. Todo mundo fica me alertando e mandando eu ficar longe dele, até Naruto...
— Ambos sabemos que é só uma questão de percepção. – afirmou, indiferente.
— Como assim?
— Ninguém consegue perceber o que Sasuke realmente precisa. Nem você. Mas eu não vou deixar que o estado dele agora afete minha opinião sobre ele. Éramos amigos, ainda somos. Ele mudou, mas isso é sempre reversível.
Pisquei rapidamente. Toda a genialidade de Shikamaru que tanto me falavam tornou-se palpável naquela frase. Queria agradecê-lo por ser o único, além de mim, que conseguia perceber que Sasuke era apenas incompreendido e que tinha salvação.
Ao invés disso, apenas perguntei:
— O que Sasuke realmente precisa?
O carro parou, Shikamaru me deu uma piscadinha e respondeu, com um sorriso:
— Não teria graça se eu respondesse, certo?
Bufei e sai do carro, assumindo que não conseguiria nenhuma informação a mais dele. Shikamaru parecia um personagem de um filme, aqueles que servem para ser a consciência do personagem principal...
Era como se ele soubesse exatamente o que eu queria ouvir, mas mesmo assim disesse o contrário para eu ter que descobrir sozinha. Era engraçado e irônico, mas eu gostava.
Por puro reflexo e sem perceber, rolei os olhos pela estação, procurando os cabelos negros e espetados de Sasuke. Percebi o quão patético aquilo parecia, quais eram as chances dele estar lá na mesma hora que eu? O destino já tinha provado me odiar tantas vezes, não seria agora que demonstraria seu afeto.
Cheguei na faculdade mais cedo do que previsto, já que tinha ido de carro até a estação, quando normalmente me aventurava no ônibus, sendo assediada por olhares devoradores de homens carentes.
— Srta. Haruno. – Kakashi disse, assim que passei pela porta da sala de aula. Ótimo, minha primeira aula seria Ética. Destino pregando peças novamente...
Percebi que ele tinha aprendido meu nome, pois não me chamara de “menina dos cabelos rosas” e simplesmente acenei com a cabeça, em resposta ao seu cumprimento.
Notei que a sala estava vazia e estranhei, estaria no lugar errado? Não seria supresa se eu tivesse errado de sala, era só o meu segundo dia e eu não tinha Sasuke para me guiar.
O professor aproximou-se de mim e o ignorei. O que ele queria? Já o odiava o bastante...
— Não seja tão petulante, ainda posso te dar aquela advertência. – ele disse ao sentar-se na mesa na minha frente.
— Isso seria bem ético da sua parte. – respondi, provocando-o. Ele era tão patético que chegava a ser engraçado. Apesar de tudo, era uma figura interessante. Seu tapa olho e seus cabelos brancos por opção me intrigavam e eu era sedenta por mistérios.
Ele deu uma risada genuína e eu continuei fitando-o indiferente, tentando descobrir qual era o segredo daquela criatura.
— Não seja tão engraçadinha, eu posso não me ofender, mas você vai se dar com os outros professores.
— Ah, então agora você se importa? Se quer saber, os outros professores soaram completamente indiferentes à minha... Petulância. Acho que eles não se deixam afetar com tão pouco. – respondi, ríspida. Apesar de acreditar em minhas palavras, eu estava respondendo daquele jeito para provocá-lo e nada mais. Poderia muito bem ter ficado na minha.
Ele riu novamente e dessa vez ficou calado. Fiquei olhando para a porta fechada e me perguntando onde estavam os outros alunos. Claramente estava na sala errada. Já pronta para me levantar, fui detida pelo braço de Kakashi.
— Vamos conversar.
— Não. – murmurei e me desvincilhei de sua barreira.
— O que? Não tem mais coragem agora que seu namoradinho drogado não está mais aqui? – ele falou pelas minhas costas, em tom zombateio.
Normalmente eu não ligaria. Normalmente eu teria mostrado o dedo do meio e saído com passos largos. Mas minha semana tinha sido terrível. Eu tinha brigado com Temari mais de uma vez, duvidado minhas escolhas, quase perdido Lee... Tudo estava desmoronando
Eu não deixaria Kakashi tirar o melhor de mim.
— Cala a boca, seu professor de merda. Pelo que eu me lembre, eu que nos salvei. – exclamei, agressiva.
Meu comentário não surgiu efeito nele, seu sorriso se manteve e só o fez vir em minha direção, como se quisesse ouvir aquelas palavras.
— Você tem um vocabulário afiado para alguém da sua idade.
Imediatamente lembrei de Jiraya, em nosso primeiro encontro. Ele tinha dito exatamente essas palavras. Era impressionante como a mesma frase fora dita em circunstâncias tão diferentes. Mais era ainda mais absurdo o quanto eu odiava Kakashi e tinha simpatia por Jiraya, apesar da questão do abandono.
— Vai se fuder. – respondi. Lembrando-me da resposta que tinha dado à Jiraya.
“Eu gostaria de dizer o mesmo, mas o senhor não me deu muito material para eu estabelecer um padrão, não é mesmo? A não ser que queira que eu julgue seus olhares como palavras. Então devo dizer que o seu vocabulário é bem pobre.” Eu tinha dito então. Poderia ter dado o mesmo discurso para Kakashi, mas ele não merecia mais de uma frase.
Se antes eu não o tinha afetado, agora tinha. O professor pegou meu braço com violência e disse, feroz, me fitando com seu único olho:
— Não se esqueça quem é o superior aqui, Srta.
— Não vou me esquecer. – respondi, com o mesmo tom de voz e a mesma intensidade no olhar. – Sei que sou eu.
Pensei que Kakashi iria me dar um tapa na cara. Ao invés disso, ele afroxou o aperto e me beijou.
A princípio, fiquei em choque, parada, recebendo as carícias daquele homem adulto que eu nunca mais veria com os mesmos olhos. Depois, ao me dar conta do que realmente estava acontecendo, eu retribui.
Talvez porque seu beijo era mais experiente, talvez porque eu estivesse carente ou talvez porque eu apenas cedera para a luxúria, eu retribui, mas retribui até o ponto dele colocar suas mãos na minha bunda.
Suas mãos não eram as de Sasuke, não tinham aquela delicadeza que podia ser selvagem ao mesmo tempo. Não sabiam me agradar. Aquele gesto fez meus lábios perceberem que eu não estava gostando daquele beijo. Era muito real, muito sedento...
Não, Sasuke não beijava assim, o que eu estava fazendo?
Empurrei-o com repulsa e limpei minha boca com urgência.
— Eu vou te denunciar, seu pedófilo filho da puta. – disse, tentando me manter indiferente. Mas o sorriso no rosto de Kakashi já tinha me desmascarado, ele tinha ganhado.
Ele sabia que eu tinha retribuido. E ele sabia que não era pedofilia, eu tinha 19 anos.
Tentando manter minha posição de nojo, fingi cuspir no chão e me virei para sair, quando ouvi:
— Estou interessado em saber o que Uchiha vai dizer sobre isso, você me conta, certo?
Deixei-me levar pela raiva que subiu na minha cabeça e dei meia volta, dando-lhe um soco no seu rosto coberto.
— Você é um nada pra sociedade. – disse, enquanto Kakashi massageava sua face recém machucada. Eu sabia dar um bom soco e pegá-lo de surpresa foi meu triunfo. – E devia sentir vergonha ao se olhar no espelho.
Dito isso, finalmente sai pela porta, batendo-a ao passar.
Rápido demais, o arrependimento bateu de frente e pensei naquelas coisas que minha mente sempre fazia questão de ocultar: qual era o meu problema? Por que não o empurrei de primeira?
Por que eu machucava todo mundo com quem eu me envolvia?
Afinal, eu precisava contar para Sasuke, eu não era capaz de mentir pra ele. Nós nunca prometemos exclusividade, mas era implícito. Era como se não precisássemos prometer exclusividade porque nunca nos imaginariamos com outra pessoa.
E eu não queria outra pessoa.
Então por que a culpa me consumia?
Depois de algumas aulas tentando em vão esquecer o assunto, eu finalmente estava livre para ir trabalhar, quando Sasuke apareceu no campus. Aparentemente ele estava chapado e, pela primeira vez, era a última pessoa que eu queria ver naquele momento.
Vê-lo significaria ter que contar a verdade, e contar a verdade seria o mesmo que tentar entender o que aconteceu e eu ainda não sabia ao certo. Eu estava confusa e queria esquecer, me libertar daquele arrependimento e culpa tão consumidores.
Da última vez que tinha visto Sasuke, tínhamos feito sexo em um beco escuro após experimentar a pior droga de nossas vidas e apesar de parecer uma eternidade atrás, fora só no dia anterior.
A partir de então, tinha ouvido tantas versões de sua pessoa, que tinha me esquecido da real. Da perfeição que era o Sasuke Uchiha real.
Aquela bipolaridade em seus olhos, a complexidade de seu ser... Era tudo tão perfeitamente errado. Sua presença me atraia e eu não conseguia ficar longe dele por tanto tempo. E mesmo dizendo a mim mesma que eu não podia depender dele tanto assim, era impossível me manter afastada.
Ciente de meu erro e da situação drogada de Sasuke, me aproximei e ele sorriu.
— Por que ontem você não foi pra minha casa? – perguntou, com aquele tom lezado que a maconha causava.
— Precisava de ar. – respondi.
Ele franziu o cenho. Não tinha entendido, mas preferiu deixar daquele jeito mesmo, ele sabia que não iria entender nada naquele estado.
— Vou trabalhar. – respondi, por que pior do que lidar com os olhos do Sasuke sóbrios era lidar com eles tão vulneráveis. Como eu mentiria para aqueles olhos?
Notas finais
Genten, vai ter vestibular logo menos - e ok, eu já estou na faculdade, mas estou pensando em prestar outra e enfim... -, então vai ficar difícil de eu postar frequentemente, mas vou tentar, como sempre! Hahah
Gostaram?? *--*
Ah, esse cap foi dedicado à Beella, que deixou uma recomendação muito linds para a fic ♥33
Beijão :*
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