Lembrei do que a psiquiatra tinha dito sobre recaídas e decidi que isso não ia acontecer. Porque eu sabia que se caisse de novo, ia ser ainda mais díficil subir.

Como isso em mente, eu passei os dias em Nova York de forma mais ordinária possível. Tomando todos os meus remédios e tendo as minhas sessões psiquiátricas frequentemente.

Passava as minhas tardes com os meus amigos e a noite em casa, apenas conversando com a minha tia. Minha nova conduta a inspirava à parar de beber, então ela raramente saia a noite e voltava só no dia seguinte, como antes.

Tudo parecia estranhamente bom demais para ser verdade. Mas eu não estava reclamando, a verdade era que eu estava gostando do “bom demais para ser verdade” para variar.

Dois dias antes do ano novo, eu comecei a receber ligações dos meus amigos de Bristol, desejando feliz ano novo e perguntando se eu estava bem e quando eu iria voltar.

Fiquei feliz por eles ainda se importarem comigo e fiquei imaginando o que fariam para comemorar a chegada do ano. Não consegui evitar em pensar em como Sasuke estava e se ele ainda estava no estado no qual Naruto tinha descrito para mim.

Obviamente eu ainda me importava com ele e o amava. Não tinha como perder tudo o que tínhamos construído tão facilmente. Mas eu precisava de um tempo para me ajustar, antes de tentar ajustá-lo.

— E o Sasuke? – finalmente perguntei para Naruto, quando ele tinha acabado de contar sua história de como tinha acabado com todo o macarrão instantâneo do mercadinho do bairro.

Ouvi um silêncio do outro lado da linha e engoli um seco, aquilo não era bom.

— Ele está... – Naruto começou e eu percebi um tom cauteloso em sua voz.

— Pode falar a verdade. – informei. Eu não deixaria aquilo me afetar. Não mais.

Naruto suspirou, resultando em um chiado no telefone e o afastei por um momento.

— Ele foi embora. – ele falou por fim, cansado e receoso.

Não quis saber porque, nem para onde ele tinha ido. Mesmo preocupada, eu sabia que aquelas informações não ajudariam em nada para o meu novo estado mental. Eu tinha que torcer pelo melhor e esperar que ele estivesse bem, onde quer que estivesse.

— Ah. – respondi com a voz falha.

— Ele vai voltar, ele sempre volta. – Naruto disse rapidamente, como se tentasse convencer a si mesmo de suas palavras.

Acenei com a cabeça inutilmente.

— Por que você não me contou toda a história do Kankuro? – lembrei-me de perguntar, antes de desligar.

— O quê?! – ele exclamou, completamente surpreso. – Eu nem sabia que você sabia disso! Como você...? De onde...?

— Esquece. Eu volto para o começo do ano letivo e deixo você saber tudo o que você não sabe que eu sei. – falei de forma difícil para confundi-lo de propósito.

— O quê?! — ele continuava berrando antes de eu desligar e rir.

Saber que Naruto não tinha mentido para mim sobre a história de Kankuro me fez sentir um pouco melhor, mas eu ainda estava inevitavelmente preocupada com Sasuke.

— Cherry, desce e vai comprar leite condensado! – Tsunade gritou do andar de baixo e eu suspirei.

— Vai você! – berrei de volta e sentei na cama para colocar os meus tênis, já sabendo que eu teria que ir de qualquer jeito.

Meu All-Star ainda estava todo pintado com os desenhos de Sasuke. Conti um soluço e desci as escadas rapidamente para não ter que pensar naquilo por muito tempo.

— Sério, quantas vezes eu já fui comprar leite condensado essa semana? Você está substituindo água por leite condensado ou o que? – perguntei para minha tia, que estava fazendo alguma coisa na cozinha.

— Não folga comigo, garota, vai logo. – ela retrucou e eu revirei os olhos.

— Você vai engordar e não vai mais conseguir passar pela porta, ai eu quero ver quem vai te ajudar! – berrei, antes de sair pelas ruas frenéticas de Nova York.

Como sempre, meus cabelos e a minha atitude chamavam atenção e eu já nem ligava mais. Às vezes ainda me dava ao luxo de soltar um comentário ácido para algum engraçadinho que resolvesse assobiar para mim, mas a verdade era que nada me incomodava tanto quanto costumava incomodar e isso era bom.

— Cherry?! – alguém gritou por mim de trás e eu virei-me para ver de quem era o dono.

— Iggy?! – exclamei surpresa ao me deparar com o meu amigo antigo de cabelos brancos pintados e olhos arroxeados. Nunca parei para pensar em como aquele visual era incomum.

Seu nome era na verdade Suigetsu, mas eu sempre achara muito difícil pronunciar, então o apelido “Iggy” surgiu e eu nunca mais o chamei de outra coisa.

— Nossa, faz quanto tempo? Dois anos? – ele perguntou, aproximando-se. Em suas costas tinha um contra-baixo e uma mochila pendurada em um dos ombros. Em suas mãos, um caderno que eu conhecia mais do que ninguém.

— Provavelmente mais. – respondi, tentando me lembrar da última vez que o tinha visto. Ele parecia exatamente o mesmo. – Isso é bizarro. – completei. Sempre odiei coincidências.

Ele acenou com a cabeça.

— Vamos tomar uma cerveja, quero saber da sua vida. – ele falou.

— Puta, Iggy, agora nem vai rolar. Preciso comprar uma coisa para a minha tia. – dei de ombros e ele me olhou com uma expressão inconformada.

— Você não está me dando a desculpa da tia para se livrar de mim, está? Eu conheço bem a Tsunade, você não liga pra ela...

— As coisas estão diferentes agora. – o interrompi, antes que começasse a mencionar todas as coisas horríveis que eu tinha feito no passado. – Escuta, eu te ligo. Você vai ficar na cidade até quando?

— Você que sabe. – disse, como se não acreditasse realmente. – Até o ano novo.

— Que é daqui dois dias. – informei, achando graça. Ele concordou com a cabeça e sorriu.

— Caraca, isso é realmente nostálgico. Te ver assim. Você ainda tem esses seus cabelos rosas e ainda anda por ai completamente perdida.

— E você ainda descolore o cabelo por nenhuma razão aparente. – rimos e ele acenou com a cabeça.

— Me liga, mesmo. – Iggy piscou com um olho só e eu acenei indicando que sim.

Nos despedimos e eu continuei até o mercado. Era engraçado estar em Nova York novamente, onde as pessoas me conheciam, onde eu era apenas eu e não podia fingir ser qualquer outra pessoa.

Onde na rua eu encontrava amigos antigos e no mercado eu tinha uma conta que não pagava há anos.

Ver Iggy me fez esquecer da minha preocupação com Sasuke e me lembrar de tudo o que eu tinha passado antes de sair da escola. Eu tinha tido várias aventuras em Nova York e certamente tinha feito muitas coisas erradas.

Tentei me lembrar o momento exato em que eu perdi meu brilho, em que eu me quebrei, mas não consegui. Tudo parecia um grande borrão de diversão, sexo e drogas.

Eu não podia negar que eu tinha tido alguns ótimos momentos e devia todos eles aos meus amigos americanos. Certamente iria ligar para Iggy.

— De novo, Cherry? – a moça do mercado perguntou, referindo-se ao leite condensado na esteira do caixa.

— Minha tia substituiu suas bebidas por isso, aparentemente. – murmurei dando de ombros.

— Você parece feliz. – a balconista que me conhecia desde sempre disse.

Soltei um sorriso e ela não falou mais nada. Aquilo era bizarro. Ser notada pelas pessoas de forma positiva era novidade para mim.

No dia seguinte, eu disse a Ino que iria ficar ocupada e liguei para Iggy. Ele aceitou o meu convite de ir em um café a plena luz do dia com algumas risadas. Mas eu não daria satisfações, não para Iggy, que foi como um irmão por tantos anos.

— Vai passar o último dia do ano comigo mesmo? – ele perguntou depois de me cumprimentar.

— Só parte do dia. – respondi, mostrando-lhe a língua depois. – Como vão os outros caras? – perguntei, depois de sentarmos.

— Bem. Todo mundo sente a sua falta, se é isso que você quer dizer. – ele respodeu zombateio.

Revirei os olhos. Dei uma boa olhada no meu amigo e percebi o quão igual ele estava. Com seu humor ácido e olhos perdidos em alguma realidade que só ele conhecia. Seu baixo, que muitas vezes tinha o salvado da loucura, ainda firmava-se preso em suas costas, como uma âncora.

— Não era. Mas eu também sinto falta de vocês. Nunca vou superar o fato de vocês terem me abandonado aqui. – falei, deixando meus pensamentos de lado e provocando-o.

— Não começa! – Iggy exclamou, sobressaindo-se. Eu tinha sentido falta de seu jeito, era verdade, mas vê-lo depois de tanto tempo era estranho. Era como se nossas vidas tivessem congelado e só agora podíamos voltar a elas.

Sua reação me fez rir e ele me acompanhou, mesmo um tanto nervoso.

Na medida do possível, ficamos falando de nossas vidas até o entardecer. No fim, rever um amigo antigo tinha sido completamente satisfatório e era a minha recompensa por estar aguentando tão bem e não surtar.

— A gente se vê. – ele falou, quando finalmente esgotamos todos os possíveis assuntos. – Vê se não some.

— Não some você. Vocês sabem onde me encontrar. – retruquei, com um tom indesejado de ressentimento. Eu sabia que não nos veríamos.

Se ele percebeu, ignorou. Porque simplesmente sorriu e andou para longe com o seu baixo balançando em suas costas. Não deixei a nostalgia bater de frente e fui para casa, pronta para arrumar as coisas para o ano novo.

Entrei em casa e me deparei com os cômodos vazios e silenciosos já tão familiares. Tudo o que eu ouvia era o vento batendo na janela e o som peculiar que a madeira fazia com o atrito.

Era o último dia do ano. Depois dele, eu oficialmente podia deixar todo o meu passado doloroso para trás e recomeçar. A esperança de que tudo podia realmente mudar me fez sentir um pouco menos sozinha e eu subi os degraus, me jogando na cama do meu quarto.

Pensar demais e analisar tudo sempre tinha sido o meu forte, mas também era a minha maldição. Então, simplesmente tentei ao máximo esvaziar a minha mente e apenas me concentrar em minha respiração, que já não era a mesma depois de tantos cigarros, devo admitir.

Deixei o meu olhar rodar o quarto e vi o vestido branco que Tsunade tinha separado para mim. Supostamente, eu deveria usá-lo na festa da noite, que seria a primeira festa de verdade depois da minha recuperação. A verdade era que eu não sabia se estava pronta, mas felizmente eu tinha amigos que cuidariam de mim e não deixariam nada de mal acontecer.

Pelo menos era isso que eu dizia para mim mesma para me convencer.

Percebi que aquele vestido não combinava nada com a minha personalidade e sorri ao lembrar de que Tsunade ainda não fazia ideia de como era o meu gosto. Ela nunca soube.

Levantei-me e ocupei o resto da minha tarde fazendo com que aquela roupa soasse mais como algo que eu usaria.

Eu teria uma longa noite pela frente e queria passá-la como eu mesma o máximo possível.

Notas finais
Ok, quem está surtando e chorando e morrendo pelo último cap de Naruto (o mangá), levanta a mão. *LEVANTA AS DUAS MÃOS E CAI NO CHÃO DE CHORAR* - er.... Juro, quantos anos a gente esperou por isso mesmo????
ENFIM, surtos a parte, tai mais um novo cap. Gente, eu sei que tá meio parado etc, mas essa é a intenção nesse momento. Daqui a pouco as coisas voltam a acontecer (:
Gostaram? ♥

:*