Máscaras & Sussurros

47 Capítulo Extra


Acordei sem saber onde estava nem que horas eram. Aquilo já era comum e eu não me impressionei pelo fato das enfermeiras falarem outra língua. Como sempre, me livrei dos cabos que prendiam-se no meu braço e não senti falta do soro.

Levantei-me e a dor de cabeça típica bateu de frente. As cores se juntaram um pouco e a tontura demorou para passar. Olhei para os meus trajes de hospital e fiquei enojado. Quando eles iam parar de me despir?

Olhei em volta e não vi ninguém. Eu estava sozinho. Se eu tivesse morrido, ninguém ia saber.

– Sr. Uchiha, por favor, você ainda não está pronto para ir! – eu ouvi uma mulher falar de repente pelas minhas costas em francês.

Óbvio, porque nada seria mais conveniente do que a França naquele momento. Afinal, tudo se resumia à França e meus traumas de criança. Nos meus momentos mais vulneráveis e de alto escapismo da realidade, eu sempre iria me lembrar da França e os franceses e o meu tio. Uma merda de clichê.

– Madame, eu preciso ir embora. – falei, no meu melhor francês possível.

Ela me olhou inconformada e eu soltei um sorriso falso que deixaria ela sensibilizada.

– Por favor. – pedi.

A enfermeira suspirou e sentou-se na minha cama, do lado oposto de onde eu estava.

– Querido. – começou e eu já sabia exatamente tudo o que ela falaria então. – Quando te acharam, você tinha duas vezes mais drogas no seu organismo do que um homem consegue ter.

– Ótimo, me manda para o Livro dos Recordes. – respondi e me levantei.

– Não sei pelo o que você está passando, mas se continuar assim pode morrer. Você quase morreu... – ela apelou, me olhando com o seu olhar treinado de enfermeira.

– O bom dessa história... – comecei e ela achou que eu estava concordando e ia contar a história da minha vida. – É que o problema é meu. – completei e sua face endureceu.

Peguei as minhas roupas no cabide e acendi um cigarro de próposito.

– Obrigada pelos soros e tudo o mais. – falei, antes de fechar as portas, deixando-a perplexa na sala.

Chegava a ser engraçado como as pessoas não sabiam lidar comigo.

O meu celular estava tocando novamente e tudo o que eu queria fazer era jogá-lo pela janela e nunca mais ter que ouvir aquele solo irritante de violino. Eu sempre esquecia de trocar a música, eu já não aguentava mais ouvir aquilo e lembrar da Cherry e da imagem do sangue saindo de seus pulsos.

– Alô?! – berrei para o aparelho, enquanto saia do hospital, tentando me localizar nas ruas francesas. Por sorte, eu estava em Paris, onde eu conhecia bem.

Não consegui destinguir o que Naruto estava berrando para mim então simplesmente deixei ligado e manti o aparelho dentro do meu bolso até que conseguisse arranjar um ônibus que me levasse para algum albergue.

– Naruto? – falei, quando já estava longe do hospital. Naquela altura, eu esperava que ele já tivesse parado de berrar, mas pelo jeito estava errado.

– Cala a boca! – berrei de volta e ouvi ainda mais xingamentos do outro lado. Considerei desligar, como sempre fazia, mas alguma coisa me fez querer ouvir o que ele tinha a dizer dessa vez.

– Você não tem noção nenhuma, você some assim e pensa que a gente não vai... – ele continuava falando as mesmas coisas de sempre e eu bufei.

– Chega. – falei. – Se é isso que você quer, eu volto para Bristol. Eu não sei porque você se importa tanto, estamos de férias.

– Você sabe que dia é hoje? – ele disse depois de algum tempo, de repente bem mais calmo.

– Não. – respondi, dando dinheiro para a recepcionista do albergue onde ficaria pela noite.

– Dia primeiro. Feliz ano novo.

– Ah, certo, é por isso que você está todo sentimental... Não estava ai para te desejar um feliz ano novo e festejar com vocês. Droga, Naruto, não acredito que eu perdi isso. – murmurei, irônico.

– Eu estou tentando te ligar faz vários dias! Finalmente consigo falar com você enquanto está sóbrio e você vem com essas merdas? Não venha me dizer que você não se importa com a gente! – os berros dele voltaram e eu revirei os olhos.

– Você e essa sua necessidade de ser amado. – respondi, ácido.

– Não vou ficar te convencendo de que você está errado. – Naruto começou, depois de um longo suspiro. – Você sempre foge de seus problemas e de si mesmo. Algum dia você vai ter que encarar a sua vida, Sasuke. Eu sei que eu sempre te falo isso, mas algum dia vai fazer sentido!

Subi as escadas para o quarto que me foi designado e esvaziei os meus bolsos para ver o que eu ainda tinha, afinal, a minha mala tinha se perdido em algum lugar.

– Certo, certo. – concordava para que ele calasse a boca eventualmente.

– Eu falei com a Cherry ontem. – ele falou de repente, quando eu já achava que ele estava cansado de me dar sermão. – Ela está bem melhor, sabia? Sem você. Você não conseguiu foder com a vida dela como você fez com Karin e consigo mesmo. Ela parecia bem feliz com os amigos dela e quando eu mencionei que você tinha fugido, ela só soltou um suspiro.

O que ele queria dizendo aquilo tudo?

– Eu não ligo.

– Fique dizendo isso pra si mesmo. Com a Cherry, você estava começando a ser você de novo, você estava melhorando... Ela volta para o começo do ano letivo. E eu tenho certeza que ela não vai querer voltar correndo para os seus braços agora que ela voltou a ter noção das coisas. Ela não precisa mais de você, Sasuke. Então se você quer tê-la de volta, é bom fazer alguma coisa a respeito. – a voz de Naruto soava fria de um modo sério. Eu sabia que quando ele falava assim, era porque estava realmente determinado sobre alguma coisa.

Antes de conseguir dizer qualquer coisa, ele desligou e eu olhei para o aparelho, ainda meio tonto pelo efeito da overdose.

Sem saber porque, lembrei-me de quando eu era criança e como meus pais me ignoravam e sempre esperavam que eu fracassasse em tudo o que eu fazia. Lembrei de como eles não acreditaram quando eu contei sobre a história do meu tio e de como eles me acusaram de matar alguém sem nem me perguntar o que tinha acontecido.

E de quando cresci e quis ser tudo o que eles não queriam que eu fosse. Tudo o que eu fazia era para desafiá-los. Até hoje eu fugia de seus ensinamentos e modo de vida. Eu não queria ser como eles, nem ter a ver com nada que eles faziam.

Pensei em como eu estava sendo exatamente o que eles previram que eu seria. Me toquei do quão patético e rídiculo aquilo parecia. Eu nunca quis ser previsível e isso era tudo o que eu tinha me tornado.

– Nem morta! – ouvi alguém berrar do corredor e percebi que tinha deixado a porta aberta. Olhei as minhas mãos e vi o conteúdo dos meus bolsos.

Alguns trocados e cocaína.

Eu não sabia de onde tinha vindo aquela epifania. Mas eu simplesmente já não estava mais satisfeito comigo mesmo. De repente, a minha liberdade mental e física não bastava. Soava superficial e simplesmente inútil.

Pra que ser livre se eu não posso ter o que eu quero? Pra que ter reflexões mentais altíssimas sem poder compartilhá-las?

Não que eu devesse alguma coisa a eles, mas eu queria mostrar para a minha família que eu podia ser alguém sem sua ajuda. Que eu podia ser melhor do que todos eles, sem tê-los na minha vida.

Os olhos esmeralda de Cherry apareceram subitamente na minha mente. “Com a Cherry, você estava começando a ser você de novo, você estava melhorando...” as palavras de Naruto ecoavam na minha mente.

Como eu tinha deixado alguém me influenciar assim?

Joguei o saquinho de cocaína pela janela, pensando tarde demais que eu poderia vendê-lo para ir pra casa.

Se Cherry conseguia ser feliz sem mim, eu conseguiria ser feliz sem ela. Não devia a minha vida a ninguém, muito menos a uma menina perturbada com problemas de confiança e medo de relacionamentos sérios.

Eu era melhor que ela. Eu sabia que era. Tentei deixar o meu ódio por ela ter me traído de lado e pensar no quanto ela me ajudou por ser assim tão errada. No fim, a gente se equilibrava.

Eu tinha trazido o pior dela e agora sentia como se estivesse em uma eterna dívida. A visão de seus pulsos sangrando e ela perdendo a consciência estava constantemente me assombrando, mesmo quando eu não estava lúcido. Ela tinha ido para o hospital por minha causa. Perturbado, apaguei sua face de minha mente com a mesma rapidez com que ela surgiu.

Enojado com os meus próprios pensamentos lógicos demais, fechei a porta e me joguei na cama, pronto para abraçar a minha ressaca do dia anterior. Era estranho estar finalmente sóbrio depois de tanto tempo.

Enquanto eu tentava esvaziar a minha mente para dormir, todos os pensamentos que eu tentava suprimir com as drogas apareceram a tona com mais intensidade. Até quando aquelas coisas iriam me assombrar?

Olhei para o canto do quarto e senti falta do meu violino.

Eu não tinha Cherry para me acompanhar nas madrugadas sofridas e lembrei que era esse o problema. Era por isso que eu estava fugindo. Era pra isso que as drogas estavam servindo. Eu não queria pensar nela. E, ironicamente, era só nela que eu conseguia pensar.

Olhei pela janela e vi se conseguia achar o saquinho de cocaína, mas já estava escuro demais.

A essa altura a minha dor de cabeça pós quase morte já estava insuportável e eu joguei água no meu rosto. Me vi em uma cena de um filme quando olhei para o meu reflexo no espelho velho.

Meus olhos estavam de cores surreais e eu tinha olheiras que eu nunca notaria se não estivessem muito evidentes. A palidez normal do meu rosto tinha se tornado em uma cor de morbidez e os meus lábios estavam rachados e secos.

Aparência nunca foi a minha prioridade, mas parecer como uma pessoa morta não parecia bom também.

Eu tinha feito aquilo comigo mesmo. O quão idiota alguém tem que ser para se foder assim sozinho? Se Naruto me visse, ele provavelmente berraria comigo e me trancaria no seu quarto por uma semana até eu prometer mudar.

Ele realmente se importava comigo, por algum motivo que eu nunca entendi. Talvez ele gostasse de fazer as pessoas se sentirem melhor por ter sofrido muito quando criança.

Naruto foi o único que acreditou em mim quando eu contei a história de Kankuro e ele tinha sido o único a acreditar que eu pararia de me drogar e sairia da faculdade de Direito.

Eu continuava o decepcionando e tudo o que ele fez foi me acolher. Apesar de sempre desconfiar que ele tivesse uma paixão gay secreta por mim, ele tinha sido o meu amigo quando eu já não tinha ninguém.

Na minha reflexão do espelho, vi tudo o que eu tinha me tornado e que tinha sido por tantos anos, sem perceber o efeito que eu tinha sobre as pessoas ao meu redor. Se Cherry era egoísta, eu era mil vezes mais.

Mas ela iria voltar. Eu tinha um mês para ser uma pessoa melhor para ela. Por um segundo, me senti completamente rídiculo por sequer pensar em me mudar só para alguém, mas então percebi que eu só estava esperando uma desculpa para ser uma pessoa melhor.

Eu tinha noção de que era o meu orgulho sempre me impedira de melhorar, já que era mais fácil simplesmente ser aquela bagunça constante que todos esperavam que eu fosse.

Me deparei com o desafio de acabar com todas as expectativas de todos. Todo mundo esperava que eu falhasse, todo mundo esperava que eu acabasse em um hospital em algum dia ou que eu passasse madrugadas em perdição.

Nunca tinha parado para pensar o quão foda seria surpreender a todos e mostrar para todos que eles não me conheciam nem um pouco e que eu podia ser quem eu quisesse quando eu quisesse. Não devia nada a ninguém.

Com isso em mente, peguei o meu celular e mandei uma mensagem dizendo: “É o Sasuke, que dia e horas você vai chegar? Eu vou te pegar no aeroporto. Não estou brincando, eu estou sóbrio. Me responde ou eu vou te ligar e você vai ficar toda emotiva de novo.”

Era óbvio que aquilo era eu tentando quebrar o clima que ainda estava presente sobre nós, apesar de estarmos em paises diferentes. Eu ainda não conseguia entender o motivo dela ter me traído, mas acho que passar meses no hospital e voltar para o seu país natal era castigo suficiente.

Joguei o celular de lado e finalmente consegui afastar pensamentos errados antes de dormir. Tudo o que eu conseguia pensar era no que ela iria responder e como faria para ir pra casa e me livrar dos meus vícios. Estranhamente, esses pensamentos me fizeram dormir em paz.

Notas finais
Hey hey, ok, como eu fiquei muito empolgada com o mangá, eu estou inspirada, então resolvi fazer esse cap. Eu chamei de "capitulo extra" porque não era pra ser parte da historia... Tipo, se essa fic fosse um livro, ele não estaria nele, por exemplo. É tipo um bônus mesmo -olha como eu sou legal *carinha feliz*-.
Pra quem não entendeu, está no ponto de vista do Sasuke (oh really?). Eu vou dedicá-lo à Morbid que deu a ideia e sempre se envolve tanto com a fic (:
Apesar de ser diferente, espero que tenham gostado ♥
O cap mesmo (na visão da Cherry) já está disponível. Foram 2 caps hoje, olha só. Hahah

Beijo gente ♥