Cheguei rápido demais no hotel, talvez eu estivesse gostando muito mais da volta do que da ida, que foi consumida pelo ar de tensão e profundo mistério.


— Te espero aqui. – Hinata disse quando parou sua vespa na calçada. Eu subi e entrei no 301 como se já morasse ali desde sempre. A luz do fim de tarde entrava suavemente pela janela semi-aberta.

Seduzida pelo calor daqueles raios inofensivos, fui até a varanda e a cidade se ofuscou perante aquele pôr-do-sol.

Na mesma hora, pensei nos meus amigos de NY, não existia aquele tipo de paisagem lá, era tudo tão industrialmente bitolado… Eles estariam em completo êxtase, me senti mal por não poder compartilhar aquilo com eles. Suspirei de pesar e voltei para pegar a minha mala.

Desci as escadas pensando no quão inconformada eu estava com o voto de confiança que os ingleses tinham posto em mim. No meu primeiro dia já havia arranjado um lugar para morar. Era impressionante a bondade presente no coração daquelas pessoas. Bondade genuína, não daquelas que esperam algo em troca.

E Naruto era um exemplo perfeito para isso, ele não ganhara nada me levando ao seu quarto, não tinha tentado me roubar e nem estrupar, tinha apenas feito uma boa ação, completamente altruísta.

Eu não acreditava em altruísmo, mas o loiro sorridente me fizera mudar de idéia em apenas algumas horas.

Pisei nos últimos degraus rangentes e reencontrei Hinata apoiada em sua vesta, mexendo a cabeça no ritmo da música que estava ouvindo em seus headphones.

Me aproximei e coloquei minha mala na garupa do veículo, me perguntando onde eu sentaria depois.

— O que está ouvindo? – perguntei, enquanto arrumava a bagagem para que não caisse.

– William Fitzsimmons. – ela respondeu corando.

Ergui as sombrancelhas, Hinata não era o tipo de pessoa que gostaria de Fitzsimmons. Sempre foi difícil eu tirar conclusões erradas sobre as pessoas, sempre fui observadora a ponto de conseguir, de cara, perceber os defeitos e qualidades de cada um.

Mas, novamente, Bristol acabou com as minhas certezas. Em apenas uma tarde ali, várias de minhas crenças tinham se esvairado. Era perturbador.

— Adoro ele. – comentei e ela sorriu.

— Eu também.

Naquele momento, não sei porque, achei que fosse um bom momento para ligar meu celular e ver os estragos que minha saída súbita causara.

Assim que o liguei, inúmeras mensagens invadiram a tela, algumas avisando das milhares ligações perdidas e outras, ainda mais desesperadas, perguntavam onde eu estava.

Eles sabiam onde eu estava. Todos eles sabiam, eu avisei. Angustiada, desliguei o aparelho novamente, não estava pronta para aquilo ainda.

— Vamos? – perguntei para Hinata, que se entretia com sua música.

Ela acenou com a cabeça e subiu na vespa.

– Eu te encontro lá. – eu disse, notando a falta de espaço, completamente ocupado pela minha mala.

— Nada disso! Vem, você se espreme e eu ando devagar. – a morena falou, se apertando e ajeitando um lugar impossível.

A fitava com uma sombrancelha erguida, como ela tinha feito aquilo?

— Nossa… — murmurei e sentei naquele mini espaço que ela, tão gentilmente, tinha achado. Agarrei na minha mala como se fosse um colete salva-vidas e começamos a andar.

Quando finalmente chegamos, minhas pernas, semi esmagadas, estavam dormentes e minha mala, completamente amassada. Olhei para o pequeno prédio de quatro andares, tinha a aparência velha, mas a sua arquitetura inglesa me fez gostar imediatamente.

— É aqui? – perguntei esperançosa e sorri quando Hinata acenou que sim.

Subimos de elevador até o último andar e ela abriu a última porta do corredor, revelando um apartamento enorme e moderno, se diferenciando do prédio.

Não consegui conter um pigarro. Como elas tinham dinheiro para pagar aquele aluguel? Temari era só uma garçonete… Suspirei, não poderia viver ali se fosse muito caro.

— Quanto custa o aluguel? – perguntei de imediato, fazendo Hinata rir.

— Não se preocupe com isso. – disse, pegando a minha mala e levando para um quarto no fim do corredor.

— Não, eu faço questão de ajudar a pagar. – eu respondi, séria. Eu não poderia me aproveitar de toda aquela gentileza, era o mínimo que eu podia fazer.

— A gente mora de favor. – ela respondeu sorrindo. – Esse apartamento não é nosso. Era do padrinho de Naruto, o Jiraya…

Percebi que aquele era um assunto delicado e não perguntei nada, mas ela continuou mesmo assim:

— Ele morreu faz alguns meses e deixou o imóvel para o Naruto, mas ele não quis ficar por causa de todas as lembranças e… Você sabe.

Eu sabia. Então era esse o segredo que aquele sorriso sincero escondia… Suspirei.

— Então ele me deu. – Hinata completou, agora completamente vermelha de vergonha.

Ergui as sombrancelhas, ele devia gostar bastante dela para lhe dar um apartamento de tanta importância. Se Naruto era expansivo e sorridente, Hinata era o oposto, parecia muito tímida e contida. Eles definitivamente se completavam

Sorri com meus pensamentos.

— Será que não tem problema pra ele se eu ficar aqui?

Ela acenou negativamente com a cabeça.

— Ele vai adorar. – disse, com aquele seu sorriso doce.

Hinata me ajudou a arrumar minhas coisas enquanto contava histórias engraçadas sobre Naruto. Eu ria mais da sua inocência, pureza e doçura perante aos acontecimentos do que por eles em si.

Logo estava escuro e eu vi pela primeira vez a lua de Bristol. Assim que a luz daquele satélite tocou no meu rosto, meus olhos lacrimejaram. Era a imagem mais linda que eu já tinha visto em toda a minha vida, ela estava completamente cheia, não só cheia em si, mas cheia da liberdade que eu tinha conquistado, cheia de sorrisos e emoções que eu tinha adquirido em um só dia.

Era maravilhosa. E a sensação que eu tive foi impagável.

A morena chegou por trás e se posicionou ao meu lado, na varanda.

— Como a lua está linda hoje… — disse, surpresa. Ela não fazia idéia. – Vamos aproveitá-la. – completou, me olhando.

Franzi o cenho, o que ela queria dizer?

— Está pronta para conhecer a noite de Bristol, Cherry? – Hinata me perguntou sorrindo eufórica.

Eu não estava. A verdade é que tudo aquilo tinha me sobrecarregado tanto emocionalmente, que se eu saisse, teria um colapso mental. Mas eu não me importei, eu queria mais. Sempre mais.

Concordei com a cabeça e ela me puxou pelas mãos para fora do grande apartamento. Não se importou em pegar sua vespa, parecia que tudo naquela cidade era perto o suficiente para irmos a pé.

Em alguns minutos, gastados em conversas aleatórias, chegamos no nosso destino. Um barzinho de aparência comum que me decepcionou. Não ia gastar a minha noite em um bar. Olhei para a Hinata e ela me deu um olhar de “espera pra ver” que eu acreditei.

Entramos e só tinha algumas mesas ocupadas por homens mais velhos e carecas. Eu ri da desgraça deles, a graça era mais porque a desgraça deles ainda era melhor que a minha e não pela cena em si…

Segui a morena, que deu um aceno para o balconista. Nos aproximamos do balcão e ela deu sua bolsa para o homem. Me perguntei qual era seu motivo, mas como nada mais fazia sentido, eu desisti. Antes de eu poder protestar, Hinata pelo a minha bolsa e entregou também.

— Já sabe, Hyuuga, amanhã as 13h, se você não vier pegar…

— “…eu dou para o primeiro que aparecer aqui.”, já sei, já sei. – ela respondeu, sorrindo. – Muito obrigada.

– Vai, vai. – o balconista respondeu mexendo as mãos depressa. – Vê se não se mete em encrenca…

— Quando foi a última vez que eu me meti? – ela perguntou e depois piscou o olho direito, me deixando completamente atônita. Eu queria saber a resposta daquela pergunta, porque eu definitivamente não queria me meter em encrenca no meu primeiro dia, apesar de tudo.

— Não se preocupe, nossas bolsas estão a salvo. – ela disse, observando a minha angústia.

Não era isso que me preocupava, por que tínhamos que deixar nossas bolsas ali para começo de conversa? Sem saber o que dizer, apenas acenei pateticamente.

Sem minha percepção, Hinata foi para o lado oposto da saída do bar e entrou na suposta cozinha do estabelecimento. A segui como um robô e meu queixo caiu quando eu vi a “cozinha”.

Eu não me impressionava fácil, não mesmo. Mas aquilo era muito além de todas as minhas expectativas juntas. Não sabia dizer qual aspecto daquela balada escondida me surpreendia mais, se eram as bailarinas no teto, o DJ em uma cabine de vidro, os barmans em pernas de pau ou a beleza das pessoas que a frequentavam.

– Vamos! – Hinata disse de repente e me pegou pela mão, me livrando do meu transe. Ainda pensava em como aquilo tudo cabia atrás daquele bar minúsculo. Era genial. Simplesmente genial.

Sorri de satisfação e fui com ela encontrar seus amigos, ignorando completamente a parte de mim que desejava incondicionalmente que ele estivesse ali. Sem pensar nisso, consegui reconhecer Neji, parado de braços cruzados no canto, ele me lembrava Shino com seu jeito anti social.

Depois vi Temari bebendo com o sujeito de rabo de cavalo que vira anteriormente no bar. E na pista de dança, localizei Naruto dançando comicamente, pelo seu jeito, diria que ele estava bêbado, mas talvez ele fosse assim mesmo.

Logo, Hinata foi para perto dele e o afastou da pista de dança, corando. A cena me arrancou sorrisos, até eu perceber que eu estava sozinha.

Naquele âmbito do pecado e de mentes perdidas, eu não reconhecia ninguém. Nenhuma daquelas pessoas era minha amiga, minha confidente, meu apoio…

Ainda pensando na minha completa solidão, senti uma vontade incontrolável de me jogar no álcool e perder a cabeça que, de algum jeito torcido, já não estava mais comigo.

Mas, pensando melhor, me dei conta de que se eu caisse no chão perdida, ninguém me seguraria, ninguém me levaria para casa. Eu não tinha casa. Estava sozinha.

Perturbada, bebi um copo de vodka.

Não gostava dali, aos poucos aquele lugar solitário, mas cheio de gente, me sufocou e eu coloquei as duas mãos na cabeça, completamente perturbada. O pânico me controlou.

— Você está bem? – uma voz intimidadora perguntou pelas minhas costas, perfurando a camada de sensibilidade que eu estava tentando manter.

Me virei, pronta para sair correndo dali, quando me deparei com o dono da voz. Minha respiração parou e minhas pupilas dilataram. Era ele. Sasuke. Sasuke Uchiha. Talvez o exemplo perfeito de perturbação, solidão e miséria ou talvez não. Como eu poderia saber? Eu não o conhecia…

Mas mesmo assim eu sentia que o entendia, que o conhecia melhor que qualquer um sem nem ter trocado uma palavra com ele, nem um olhar… Era uma sensação aterrorizante de estranho conforto e descrença ao mesmo tempo. Assustadora.

Infelizmente ou não, meu desespero para sair daquela esfera suforcadora era maior que a minha vontade de desvendar aqueles olhos cor de ônix. Então não respondi e o contornei.

O que estava acontecendo comigo? Eu sempre gostara tanto de festas daquele estilo, completamente abusadoras e distantes de tudo. Nunca dispensaria uma festa daquela magnitude, eu estava desistindo do que? O que estava me fazendo fugir?

Me condenei pela minha fraqueza de ser incapaz de entender a minha própria mente e continuei procurando a saída arduamente… Mas que saída? A minha cabeça parecia a única coisa a me aprisionar, o que exatamente eu estava procurando? Do que eu estava fugindo…?

De repente, tudo pareceu se misturar, as faces se confudiram e eu cai no nada. Ou no tudo. Por que nada fazia sentido? Eu não estava bêbada, tinha apenas bebido um copo de vodka… Mesmo assim, em questões de segundos, o preto dominou todas as outras cores e eu já não via, nem ouvia nada.

Quando abri os olhos novamente, a minha mente tinha voltado ao normal. Ou à loucura, nunca saberei. Já não estava na perdição daquela festa, já conseguia respirar e pensar. Eu via estrelas… Via a luz me banhar com sua luz, me senti bem, mesmo com as minhas dores físicas.

Depois de alguns minutos restabelecendo minha sanidade mental, olhei para o lado e, mesmo na escuridão, consegui vê-lo sentando embaixo de uma árvore. Uchiha.

Assim como eu, ele conseguiu me ver e, notando meus olhos abertos, acenou de leve com a cabeça, como se perguntasse se eu estava bem. Acenei que sim e continuei a fitá-lo, o silêncio estava cômodo para mim…

Sasuke também não disse nada, reconstou a cabeça na árvore e fechou os olhos. Parecia tão inofensivo, indefeso, intocável… Como alguém podia chamá-lo de verme? Como podiam olhar para ele como olharam de tarde? Eu não entendia…

O silêncio nos envolvia perfeitamente e eu voltei a olhar a lua e as estrelas. O tempo passou desconhecido enquanto eu ficava ali, apenas olhando para o céu e sentindo sua presença.

– Cherry, não é? – ele disse subitamente. Não respondi, estava acomodada demais para abrir a boca e estragar a minha sensação de paz. – Não se perca.


Suspirei e virei para fitá-lo, queria lhe mostrar com o meu olhar que eu já estava perdida há muito tempo…

Notas finais
Ooi amoreees, mais um capítulo pra vocêees ♥
Espero que tenham gostado, reviews, reviews? *-*
Beeijão :*