Máscaras & Sussurros
2 Decisão
Para entender como eu chegara no fundo do poço, eu tive que lembrar de tudo, e admito, não foi uma coisa fácil, todos os meus fantasmas voltaram naquele dia... Tudo que eu fiz tanto esforço para esquecer voltaram a tona, zombando de mim por ter sido tão estúpida…
Tudo começou quando eu resolvi sair da minha pacata vida que levava nos Estados Unidos, morando com a minha tia Tsunade. Para dizer o mínimo, eu estava cansada de tudo e todos, eu precisava de uma aventura, já não aguentava mais o tédio e a rotina que era a minha vida pós colégio. Estava sufocada naquele lugar, eu queria ar, queria sol, queria vida. Queria mais. Sempre mais
– Vou para Bristol. – soltei em uma certa manhã de sábado.
Minha tia apenas acenou com a cabeça, por trás de sua garrafa de gim.
– Você entendeu, tia? Isso fica na Inglaterra. – esclareci, porque estranhei o fato dela não surtar. Ela sempre surtava, mesmo bêbada.
– Sim, sim. Eu apoio você, Sakura, dá o fora dessa vida de merda. – ela disse, sem erguer a cabeça. Obviamente o ácool já havia feito efeito, ela só me chamava de “Sakura” quando estava bêbada. Balancei a cabeça de desgosto.
– Então tá, eu vou embora semana que vem. – disse, em um tom seco e típico de uma adolescente revoltada que não sabe nada da vida. – Vou arranjar uma faculdade onde tenha alojamentos e eu moro lá mesmo… Ou, se não tiver, eu posso dormir na casa de alguém que eu achar por lá. Você não precisa se preocupar com nada.
Como vi que ela não ia reagir, continuei, no mesmo tom:
– Nem com dinheiro, eu viro stripper e pago minhas despesas.
Tsunade acenou novamente e eu franzi o cenho. Se tinha uma coisa que eu odiava mais do que o tédio, era ver a minha tia bêbada quase todos os dias. Mas ela não se importava, nunca nem se desculpava, de fato, acho que nem notava que eu precisava dela de vez em quando.
E deixar dinheiro em cima da mesa não adiantava mais como pedido de desculpas, não era mais esse tipo de perdão que me faria ficar naquela casa.
Então, tomada pela minha raiva e angústia, subi as escadas pulando degraus e comecei a preparar a minha mala. Eu iria mesmo embora na próxima semana, algum dia ela perceberia minha ausência e se culparia por ter sido uma tia tão ruim durante dezenove longos anos.
Xinguei o destino por ter me tirado minha mãe antes de conhecê-la e por meu pai ser um canalha e surrei as minhas roupas dentro da mala, que claramente não era feita para guardar todo o meu ódio.
– Essa porra de mala! – xinguei novamente quando notei que não cabia nem metade das minhas roupas ali.
De repente, eu ouvi aquele som familiar do começo da música “Seven Nation Army”, dos “The White Stripes”. Era meu celular tocando.
Deixei tocar, devia ser mais alguma pessoa desnecessária querendo jogar seus problemas para cima de mim.
“I'm gonna fight 'em all
A seven nation army couldn't hold me back
They're gonna rip it off
Taking their time right behind my back”
Então, a linda voz do Jack White foi interrompida e eu torci para que a pessoa desistisse na primeira tentativa. Obviamente, não desistiu. Começou novamente aquele tom tão calmo e melódico e eu balancei a cabeça no ritmo.
Derrotada pela curiosidade, fui em direção do aparelho que estava jogado embaixo da cama e o levei a orelha.
– Alô?
– Cherry! – e era assim que me chamavam as pessoas sóbrias. – Eu já te falei para colocar um toque que você não goste, assim você atende rápido…
– Não entendo a urgência de eu atender rápido… O celular é meu, eu que devia decidir se devia atender as pessoas ou não. – repliquei.
– Ai, cala a boca. Odeio quando você fica falando essas merdas, atende logo e não reclama. – Ino respondeu, claramente se divertindo com meu pensamento crítico.
Eu ri, adorava quando ela ficava irritada por causa da minha capacidade de ser insuportável.
– Certo, o que você quer?
– Vem pro The Republic, tá todo mundo aqui. – a loira falou num tom descontraído que escondia muito mais do que parecia.
Eu revirei os olhos.
– Não vou sair de casa num sábado de manhã para beber em um bar de esquina, Ino. – argumentei, segurando o celular com o ombro e tentando fazer as coisas caberem na minha mala.
– Ah, desculpa se troquei a sexta por sábado… — ela murmurou Irônica e eu bufei.
– É diferente, sexta a gente matava aula, tínhamos um motivo inicial para acordar cedo e ir beber em um bar de esquina. Já estamos formadas, não há necessidade de…
– Porra, Cherry, você já tá acordada mesmo! – gritou, já impaciente.
Ela tinha um ponto. Eu já estava acordada e minha tia já estava bêbada, nada me impedia de sair daquela casa. Minha mala podia esperar.
Eu soquei algumas coisas para dentro da minha bolsa e calcei meu All Star recém comprado, novinho, coitado, nem sabia o que vinha pela frente. Desci as escadas rapidamente e nem me preocupei em dar tchau à Tsunade, que já estava roncando sobre a mesa de jantar.
Bati a porta, na esperança de acordá-la, e sai pelas ruas movimentadas de Nova York. Não queria enfrentar a selva que era o trânsito na cidade grande, então resolvi ir estreando os meus tênis novos. Eu já estava acostumada a ser notada na rua mesmo, meus cabelos conseguiam chamar mais atenção do que as roupas impróprias das jovens bulímicas da rua.
Acho que ter cabelos cor-de-rosa era mais incomum do que ser vulgar e isso me assustava. As pessoas não deviam normalizar a vulgaridade daquele jeito, devia olhá-la assim como olhavam para mim, como se pensassem “O que essa menina está fazendo com sua vida?”. Se nem eu sabia, quem eram eles para tentar adivinhar?
Eu já não ligava mais. Deixava meus cabelos compridos e pintados voarem por trás de mim, enquanto ignorava os olhares cheio de desdém dos julgadores.
Finalmente cheguei na rua estreita onde ficava o “The Republic”, um barzinho parnasiano francês que ficava em uma esquina escura e envolvida em pecados. De onde estava, eu consegui reconhecer Ino e meus amigos pela janela semi-aberta.
Entrei e cumprimentei o homem que estava atrás do balcão, distraido com alguma coisa.
– Bonjour, Sai.
– Chérie! – ele acenou de leve. Sempre me chamara assim, desde da primeira vez que pisei naquele bar com Ino, seis anos atrás.
Eu gostava de Sai, ele era francês, gentil e tinha uma beleza única que me fez se apaixonar perdidamente por ele aos meus 15 anos.
Desde então, passei a frequentar o “The Republic” todas as manhãs de sexta-feira. Já não me importava mais em matar aula se aquilo significava ficar com a presença única de Sai e suas artes incríveis.
Foi com ele que eu acabei perdendo a minha pureza. A pureza psicológica, a física e a química. Podia considerá-lo meu cavaleiro negro que me levou para o lado errado da estrada, minha perdição. Ainda sim, o admirava e agradecia por me trazer a verdade sobre tudo.
Por me mostrar como era a vida realmente e foi o efeito dessa verdade que formou a minha personalidade alternativa e revoltada que me castigou por todos os anos que se seguiriam. É, eu gostava do Sai.
– Como você está? – perguntei com um sorriso, acordando dos meus devaneios, era tão mais fácil se eu ainda estivesse apaixonada por ele, mas a vida aconteceu e eu cresci, o deixando livre… Me deixando livre.
– Estou ótimo. E você, mi amour? – perguntou com seu sotaque maravilhoso, que era o motivo dele dizer “Chérie” e não “Cherry”.
– Estou bem. – respondi e pisquei com o olho direito, indo em direção a mesa do canto que já era nossa. Literalmente nossa, tinha nossos nomes marcados eternamente pela chave da casa de Ino e isso bastava para nos acharmos donos daquele espaço.
Meu olhar encontrou o da loira e eu o rodei pelo resto da mesa, reconhecendo a turma de sempre. Lá estava Gaara, abraçando Ino pela cintura, que sentava em seu colo. Ao seu lado estava Tenten, sempre com seu olhar sonhador. Logo depois, Kiba, comendo freneticamente e, mais ao fundo, Shino, com seu ar de autista drogado.
Sorri e me sentei no lugar de sempre, cumprimentando todos com a cabeça, já me conheciam suficiente bem para saberem que eu não me daria o trabalho de levantar e beijar o rosto de cada um.
– Cherrybomb… – disse Kiba, parando de comer. Ele me chamava daquele jeito por um motivo que eu tentava esquecer, mas ele fazia o favor de me lembrar todos os dias ao me cumprimentar. Mas eu já não ligava, era só mais uma das coisas com as quais eu não me importava mais.
– Como vai, Kiba? – perguntei.
– Bem, bem. – ele respondeu arrumando o capuz de seu casaco peludo de estimação. — E você, Bomb?
– Também. – menti. E essa era só mais uma daquelas coisas que mencionei, as que eu me importava mais. Esse “também” era a mentira mais óbvia, mais comum e, ainda assim, a mais cruel de todas. Quando eu finalmente diria que eu não estava bem? Que eu nunca estive realmente bem?
Quer dizer, felicidade plena era diferente da felicidade momentânea que me consumia várias vezes. A adrenalina, o prazer, a alegria… Não é igual a felicidade. É diferente… E eu me contentava com essa diferença, afinal, eu era diferente.
– A nossa cereja quer sair da cerejeira… — disse Ino logo depois.
Eu bufei e olhei para o nada.
– Por que? – perguntou Tenten me fitando.
– A Ino está falando merda Ten, eu estou presa aqui, esqueceu?
A morena riu e continuou a olhar para o ar, sempre com seu ar sonhador. Eu invejava ela por ter essa capacidade de se desligar do mundo e viver em um conto de fadas impossível.
– Você me disse que ia se mandar para Bristol semana passada. – a loira insistiu, agora me fitando séria.
Todos voltaram os olhares para mim, inclusive Shino, que nunca prestava atenção em nada. Ou na verdade prestava atenção em tudo, eu nunca saberia dizer.
– E é o que eu pretendo. Semana que vem eu vou embora. – eu esclareci, desviando o olhar. Eu não tinha nada preparado, só a minha vontade absurda de largar tudo e ir para Inglaterra, queria me encontrar.
– A nossa cereja vai sair da cerejeira… — repetiu Shino, mudando uma palavra que transformou o sentido da frase.
Todos os olhares se voltaram para o frio e opaco chão, eles entendiam a minha decisão, eles sabiam que eu não aguentava mais.
– Semana que vem? – perguntou Kiba, agora tentando voltar ao seu tom alegre de sempre. Eu acenei com a cabeça de leve, sem o fitar. – Então a gente tem que aproveitar até você ir!
Ele se levantou e bateu as duas mãos na mesa, chamando a atenção de Sai, que saiu de seu lugar de costume e foi atender seus clientes preferidos.
– O que vocês querem hoje? – perguntou ao se aproximar.
– A Bomb vai vazar daqui uma semana, temos que aproveitar, não acha, gringo? Então manda uma rodada de vodka. Eu pago!
Os outros bateram palma e assobiaram, enquanto eu continuava a fitar a frieza do chão. Não conseguiria encarar Sai e ver seu olhar pairar sobre mim e julgar a minha decisão.
Se tinha uma coisa que poderia me manter nos Estados Unidos era os meus amigos, se eles insistissem, se eles não entendessem e me obrigassem a ficar, eu ficaria. Por eles. Mas eles compreendiam e era essa conexão que eu sentiria falta de verdade.
Eu amava cada um, com seus defeitos e qualidades. Cada ser único que fazia parte das minhas aventuras, meus companheiros… Eu sentiria falta de todos eles.
– Isso é verdade, Chérie? – ele perguntou, antes de se afastar para pegar as bebidas.
Me forcei a fitá-lo e me arrependi quase que imediatamente. Ele estava com aquele olhar triste e misterioso que me fez apaixonar-me por ele quatro anos atrás.
– Sim. – respondi num fio de voz. Eu não ia me apaixonar novamente, mas era tão nostálgico o ver daquele jeito, não queria largar aquele olhar, aquela comodidade de ter um lugar para fugir sempre que eu quisesse. Ter alguém para filosofar sempre que eu cansasse das conversas fúteis.
Mas ele sorriu. Também me entendia.
– Então não precisa pagar Kiba, é por conta da casa! – Sai disse e se afastou.
Os outros bateram mais palmas e eu soube, naquele instante, que aquele era o último momento que todos nós estaríamos juntos antes da minha partida. Tentando me conformar, deu um sorriso forçado e aproveitei ao máximo o dia com os meus salvadores.
Notas finais
Eu ia esperar até fevereiro pra oficialmente começar a postar essa fic, mas como vou viajar, resolvi postar o primeiro cap agora, espero que tenham gostado ((:
(e ah, muito obrigada aos reviews deixados no prólogo *-*)
Reviews?
Beeijos :*
Fale com o autor