Passamos o resto do domingo nos recuperando da terrível ressaca que nos afetava igualmente. Temari parecia se surpreender toda vez que eu dizia que conhecia o seu método para afastar a dor de cabeça.


— Não acredito que você conhece esse também! – ela exclamou, me entregando uma xicará de chá.

– Já te disse, eu tenho tanta experiência quanto você. – respondi sorrindo com sua reação.

— Você definitivamente é uma das minhas. – afirmou com um sorriso sincero. – Soube disso quando te vi.

– Que honra. – eu disse, sinceramente. – Também soube quando você não ergueu a mão para apertar a minha.

– Você também acha isso patético? – ela perguntou, indignada. Eu acenei com a cabeça e ficamos um bom tempo discutindo como alguns costumes humanos são ridículos.

Depois de esgotarmos nossos argumentos, rimos mais um pouco e nos aconchegamos no sofá, ligando a grande televisão, já estava anoitecendo e eu estava caindo no sono, quando a porta abriu-se e Hinata entrou, parecendo exausta.

Na mesma hora, Temari levantou-se e a envolveu em um abraço, o que me fez sorrir de admiração.

— Vai ficar tudo bem, amiga. Prometo. – a loira disse, se afastando. Percebi, então, que Hinata estava com os olhos inchados. Provavelmente passara o dia chorando ao lado de Naruto, que devia ter dormido mais do que devia.

— Ele… Ele… — comecei, tentando achar as palavras certas.

— Está bem. – ela respondeu, na mesma hora. – Mas me obrigou a voltar.

Eu e Temari suspiramos ao mesmo tempo, aliviadas.

– Sabe Na, eu acertei com essa daqui. – Temari, disse, gentilmente. – Ela é uma das nossas. Não é como aquela vaca da Karin.

Hinata deu um sorriso forçado e eu me levantei, pensando que deveria fazer alguma coisa para animá-la.

– Ei, sabe qual é o melhor disfarce para olhos inchados? – eu perguntei, olhando sugestivamente para Temari. Felizmente, ela me entendeu e começamos a fazer cócegas na morena, que pedia freneticamente, entre as gargalhadas, para parármos.

Paramos e ela nos socou de leve.

– Vocês vão ver! – ameaçou, ofegando. Quando disse isso, eu peguei Temari pelo braço e saimos correndo pelo apartamento, que era grande o suficiente para nos permitir manter distância.

Depois de uma incansável guerra de travesseiros, caimos exaustas no sofá. Eu me senti alegre. Alegre de verdade, por ter feito Hinata sorrir, por finalmente parecer que eu pertencia a alguma coisa.

Mas nunca feliz. Feliz era um luxo muito grande para mim. A felicidade momentânea era o máximo que eu podia alcançar, mas não a felicidade plena. Faz tempo que eu desistira dessa, mas eu já tinha me acostumado.

Mesmo assim, nada podia tirar a minha alegria daquele momento. Olhei para o lado e vi minhas duas novas amigas encostadas no sofá e olhando para o teto, completamente perdidas em seus próprios pensamentos.

— Por que será que as galinhas não voam? – Hinata perguntou de repente, arrancando gargalhadas minhas e de Temari. Ela parecia séria, como se realmente quisesse a resposta e não riu conosco, o que nos fez rir ainda mais.

Depois de mais alguns comentários aleatórios e conversas filosóficas sobre o mundo, Hinata me perguntou:

— Cherry, você vai tentar entrar em alguma faculdade?

— Sim. Sabe de alguma que as inscrições ainda estejam abertas? – perguntei, suplicante. Já tinha me esquecido desse aspecto.

— Bom, acho que a Universidade de Bristol… Mas é difícil, quer dizer, só o Naruto conseguiu entrar, porque, apesar de parecer um idiota, é muito inteligente. – ela respondeu. E eu notei o orgulho presente na sua voz e sorri.

— E o Uchiha. O Uchiha entrou em Direito, mas largou. – Temari disse, com escárnio. – Mas, como nós, você não tem o tão prestigiado sobrenome Uchiha. Então tente alguma em Londres. A Hinata e o Neji estudam por lá…

— Achei que o Sasuke tinha feito Oxford e largou… — Hinata disse. – E nem vem com esse lance de sobrenome, porque o Shikamaru entraria na de Bristol sem problemas se não fosse um vagabundo.

Eu ouvia a conversa com tremendo interesse, queria saber mais de Sasuke, por que elas estavam mudando o assunto? Eu nem ao mesmo sabia quem era Shikamaru, mas presumi que fosse o de rabo de cabelo do outro dia.

— Certo, mas vai dizer que o Uchiha entrou por esforço próprio? – ela perguntou. Eu notava o desgosto presente em sua voz, Temari realmente parecia odiar Sasuke. Não entendia, como alguém podia ser capaz de odiá-lo?

Hinata bufou. Aparentemente não concordava com a loira, mas não queria discutir.

— De qualquer jeito. Você que sabe Cherry, se quiser tentar a de Bristol, eu dou o maior apoio, apesar de não saber se eles recebem estrangeiros…

Eu acenei agradecida.

— Vou perguntar para o Naruto como ele fez para entrar. – respondi, achando graça da ideia. – Eu quero prestar Literatura mesmo, não deve exigir muito.

As duas riram e eu notei que aquele seria o momento perfeito para voltar ao assunto que eu queria tanto discutir. A minha obsessão por saber mais sobre Sasuke era absurda, era mais do que eu podia entender.

— Mas Direito… Isso deve ser bem complicado. Queria saber como o… Sasuke, né? – fingi esquecer seu nome. – conseguiu…

Temari revirou os olhos e levantou-se, depois de dizer, seca;

— Ele é um Uchiha. Isso parece bastar para fazer o que bem entender.

Depois, virou-se e foi para o seu quarto. Ergui as sombrancelhas, sem entender. Seu ódio não era normal.

— O que ela tem contra ele? – perguntei, descaradamente.

– Ah, é complicado… — Hinata murmurou. Percebi que não queria entrar no assunto e a respeitei. – Só não comenta muito sobre o Sasuke com ela por perto, ok?

Franzi a testa, mas acenei com a cabeça. Mais do que nunca, queria saber o que tinha acontecido. Aquilo me consumia. O mistério, as mentiras, a ilusão…

— Quem é Shikamaru? – perguntei, percebendo o desconforto da morena. Eu devia muito a ela por me deixar ficar em sua casa, então não podia me dar ao luxo de conversar sobre assuntos que não a satisfaziam.

— O namorado de Temari. Ele é meio… Hm… Avoado. – respondeu, sorrindo com sua própria frase.

Imediatamente lembrei de Shino. Fiquei pensando em como as pessoas de Bristol se assemelhavam as de NY. Ino era ativa como Temari, Kiba tinha quase o mesmo gênio que Naruto, Tenten era gentil e doce como Hinata, Gaara era quieto como Neji… Todos pareciam ter seu igual. Menos um.

Não tinha um igual para Sasuke. Apesar de Sai ser o que mais se assemelharia com ele, não chega perto da complexidade de Sasuke Uchiha. Não chega perto a seus mistérios, ternura e solidão. Não, Sasuke era único.

Sorri comigo mesma e voltei o olhar a Hinata, que também parecia perdida em seus pensamentos.

— Acho que eu vou dormir. – ela disse, de repente. – Tenho aula amanhã. – explicou, rapidamente, depois de ver a minha expressão de surpresa.

Com Temari trancada em seu quarto e Hinata dormindo, eu tinha o apartamento para mim. Apesar de ainda não me sentir completamente a vontade, eu definitivamente tinha me acostumado a ficar ali, era aconchegante, bonito e grande.

Voltei a sentar no sofá e notei que ainda estava com a jaqueta de couro de Sasuke. Me abracei, sentindo aquele cheiro de boemia e cigarros e deitei, dando de cara com uma foto em um criado mudo.

Assim que focalizei a foto, abri a boca e soltei um gritinho. Levei as duas mãos na boca. Como poderia ter esquecido? Levantei-me em um pulo e bati na porta do quarto de Temari.

— Desculpa te incomodar, mas… — comecei, antes mesmo da loira abrir a porta.

– O que foi? – ela perguntou, me dando espaço para entrar.

Eu não queria entrar. Sabia bem o quanto um quarto podia ser pessoal. Não éramos amigas o suficiente para isso, mas ela parecia não se importar. Não fiquei observando o aposento e muito menos os detalhes dos objetos, eu sabia que aquilo era invasão de privacidade.

— Você…- falei, sem saber por onde começar. – É irmã do Gaara, não é?! Eu não acredito, que coincidência! – exclamei, antes dela responder.

— Cherry… — ela sussurrou, mas eu ignorei.

– Eu sou amiga dele! Ele é namorado da minha melhor amiga lá de NY! Isso é muito bizarro. Ele chegou a comentar que tinha uma irmã na Inglaterra, mas eu tinha esquecido…

Eu nunca gostei de coincidências, sempre tive medo delas, porque nunca acreditei em destino. Mas aquilo, aquilo era muito mais que uma coincidência ou peça do destino. Era absurdo.

— Cherry.

A fitei, ainda eufórica pela minha descoberta. Ela parecia séria, por que não estava rindo?

— O que foi? – perguntei, parando de sorrir.

— Eu não quero falar sobre isso. – disse, simplesmente. A fitei, confusa, mas não discuti. Eu soube, imediatamente, que aquilo não tinha a ver só com Gaara. Sasuke estava envolvido, e talvez até o outro irmão que Gaara mencionou antes. Eu simplesmente sabia.

Apesar da minha extrema curiosidade, eu não ia forçar aquela situação. Eu não era amiga de Temari o suficiente para isso. Então, apenas acenei de leve com a cabeça e sai de seu quarto, pensando em teorias para a sua inquietação.

— Espera… — ela pediu, me alcançando. – Desculpe, é que…

— Não precisa me falar, mesmo. – respondi, sincera. Já estivera na situação dela muitas vezes, a entendia completamente.

— Não… Quer dizer, eu quero falar. – Temari afirmou, agora me fitando nos olhos.

Por mais sutil e simples que fosse, aquilo significou muito para mim. Era como se ela passasse a confiar plenamente em mim. Sorri involuntariamente e esperei as suas palavras.

— Eu e Gaara morávamos juntos aqui na Inglaterra. Viemos do Japão, mas ele provavelmente já deve ter te contado isso. – ela começou e eu acenei que sim. Já sabia parte da história sombria do ruivo pela Ino. – Viemos os três, eu, Gaara e Kankuro, nosso irmão.

Engoli em seco. Sabia o que vinha a seguir, mas ouvir de Temari parecia infinitivamente pior.

– Então, nos envolvemos com algumas pessoas – ela continuou, enfatizando a última palavra, e eu percebi a quem ela se referia. – e Kankuro acabou falecendo. Gaara não conseguiu superar e fugiu para os Estados Unidos, me deixando sozinha…

Conforme ela falava, eu fazia esforço para não sentir pena. Eu não gostava de sentir pena dos outros, não me achava digna o suficiente para inferiorizar ninguém a ponto de sentir pena por ela.

Minha expressão mostrava o meu pesar, eu não precisava dizer nada. Ela entendeu que eu sentia muito. Que eu realmente achava aquilo horrível. Mas mesmo assim, eu precisava de mais. O que fez Kankuro morrer? Que tipo de envolvimento fora aquele?

— Gostaria de saber se ele está bem lá… Quase nunca nos falamos. – ela admitiu, fingindo indiferença.

— Ele está ótimo. – eu respondi, mas, percebendo meu tom, me corrigi. – Quer dizer, o melhor que alguém poderia estar, considerando… Tudo. Ele está namorando e trabalhando.

Temari acenou, satisfeita com a resposta.

– É realmente bizarro você conhecer ele. – disse, tentando amenizar o assunto.

– Sim. – concordei e forcei um sorriso. – Ele é realmente único.

A loira acenou novamente, agora com um sorriso no rosto que me fez sentir melhor.

— Se você quiser, amanhã eu falto no trabalho e vou com você caçar faculdades. – ela disse, de repente, em um tom de sabotagem.

– Nem pense nisso. Não me use de desculpa para não ir trabalhar. – respondi, achando graça.

- Droga, você me pegou, novata. – Temari respondeu, sorrindo.

Mostrei a lingua e fui para o meu quarto. Precisava dormir, precisava descansar. Não só fisicamente, como psicologicamente. Apesar da minha aparente alegria e satisfação, tudo aquilo era demais pra mim. Sasuke, Gaara, Lee, Naruto… Tantas histórias, tantos mistérios.

Era como se todos os labirintos se intercalassem e eu estivesse metida no meio, tentando achar a saída para todos eles. Era impossível. Só poderia escolher um, só um…

Me deitei e, ainda pensando nisso, adormeci.

Estava escuro, só havia uma luz bem acima de mim. O que ela queria? Eu não tinha feito nada errado, não era justo ela me julgar assim. Me exibir, me mostrar. Eu queria sair dali, mas não conseguia. A luz teimava em me seguir para onde quer que eu fosse.

Então me deparei com um par de olhos impenetráveis que fez com que eu soubesse exatamente o que fazer. O dono ergueu a mão e eu não hesitei em segurá-la. Assim que toquei sua pele fria, a luz me deixou.

Mas, em segundos, sua mão me deixou e eu quis a minha luz de volta. Por que ela não voltara? Ele a tinha roubado? Sugado de mim? Ou simplesmente a feito desaparecer junto com seus olhos, que logo me abandonaram tão friamente?

Em tremendo desespero deitei no chão e me abracei, pensando na minha solidão.


Acordei suando. Meu sonho fora tão real que me fez acordar na mesma posição do sonho. Assustada e completamente confusa com as imagens sonhadas, levantei-me e lavei o rosto. Precisava acordar… Acordar? Qual era a melhor forma de acordar mesmo? Ah sim, enlouquecendo.

Notas finais
Oi oi amoores. Capítulo fresquinho para vocês *-*
Espero que tenham gostado ♥
Revieeeews?
:*