Com esse pensamento, olhei para o relógio. Eram quatro horas da manhã. Eu conseguiria dormir novamente? Provavelmente não, mas eu sabia que eu precisava estar inteira para segunda feira. Precisava encontrar uma faculdade.


De repente, essa afirmação não me pareceu a melhor opção. Eu precisava mesmo encontrar uma faculdade? Por que? Tinha acabado de chegar, eu podia muito bem esperar mais uma semana, ou duas…

Coloquei as mãos na cabeça. O que eu estava pensando? Era óbvio que precisava. Eu queria ser alguém na vida, certo?

Certo?

Minha confusão me impediu de ficar parada. Eu andava inquieta pelo quarto, pensando em questões muito complexas até para o meu próprio entendimento.

Subitamente, para a minha felicidade, meu celular tocou, interrompendo meus pensamentos catastróficos. Não quis interromper a linda voz do Jack White, mas não tive escolha quando vi o número que me chamava. Rock Lee. Aquilo já estava começando a me assustar.

— OLÍVIA! Que bom que você atendeu! – ele berrou no meu ouvido recém acordado. Gemi de desgosto e me sentei, tentando ser o mais paciente possível.

— Escuta Lee, meu nome não…

— Olívia, Olívia, eu preciso falar com você! – ele interrompeu minha tentativa de falar a verdade.

— Bom, você já está falando… — resmunguei, com a voz falha. – Mas são quatro da…

— Você não está me escutando, eu preciso falar com você! – ele berrou novamente. Eu não entendi o que ele quis dizer e continuei em silêncio esperando uma explicação.

Ficamos em silêncio por alguns segundos quando ele finalmente disse:

— Você pode vir aqui?

Arregalei os olhos e percebi, pelo seu tom, que tinha alguma coisa de errada. Eu simplesmente sabia que ele não era do tipo que iria me ligar por sexo.

Apesar da obsessão de Lee por mim, eu gostava dele e de sua inocência. Não queria que ninguém se aproveitasse dele, nem que nada de mal lhe acontecesse.

– É… — balbuciei, pensando no que responderia. Eu ainda estava meio sonolenta e o sonho ainda me afetava. – Claro. Qual é mesmo o seu endereço?

Ele me passou o endereço, eufórico e desligou. Eu suspirei. Desde quando eu era tão boazinha?
Me enfiei na primeira roupa que vi, peguei minha bolsa, que ainda não fora aberta, e sai, tentando não fazer barulho.

Ainda estava escuro, mas eu já via sinais do sol surgindo. Me deliciei com os primeiros raios de sol que me encontraram, enquanto andava até a casa de Lee, que percebi que não era longe do apartamento e do hotel de Naruto.

Pensei em subir no quarto 301, mas não queria incomodar o loiro que tivera uma noite tão difícil. Estava passando reto pelo hotel, quando me surpreendi com alguém saindo do local.

Focalizei o olhar e arregalei os olhos quando notei quem era. Sasuke. Minhas dúvidas e os mistérios se esvairaram no momento em que seus olhos ônix encontraram os meus. Por que eles tinham esse efeito absurdo sobre mim? Não era normal.

Tentando acompanhar a intensidade do olhar, meus lábios formaram um sorriso involuntário e minhas pernas pararam de andar, provavelmente para contemplar a imagem única daquele ser que pairava logo a minha frente.

Sasuke Uchiha não parecia intocável e impenetrável como na noite que me salvou. Ele me lembrava o primeiro Sasuke que vi, o do bar, o ser impróprio, indecente e perdido, mas que, mesmo assim, era maravilhoso.

Ele me fitou confuso e baixou a cabeça, movimentando a boca rapidamente, como se falasse baixinho. Mas não havia ninguém. Só eu, ele e nossos pensamentos perturbados.

Me aproximei, receosa, e ele deu um passo para trás, só olhando de lado para mim. Franzi o cenho. O que tinha acontecido com aquela criatura tão peculiar que me ensinou a acordar?

— Sasuke. – o chamei, baixando meu tom de voz. – Lembra de mim?

Então, de repente, ele começou a berrar. Como da primeira vez. Mirei seus olhos novamente. Dessa vez eu tinha certeza. Eram drogas.

Fragmentos do meu primeiro dia em Bristol passaram pela minha mente. Dele sentando no canto do bar, berrando coisas sem sentido e incomodando os clientes de Temari, que pairava furiosa atrás do balcão.

Mas, diferente de todos que estavam ali na primeira vez, eu não o olhava com desdém, não tinha medo e nem pena. Eu entendia. Sabia que aquilo era muito mais do que drogas. Que seus pensamentos eram tão perturbadores, que era insuportável conviver com o silêncio.

Então, compreendendo o que ele queria, eu berrei junto. Berrava coisas sem sentido assim como ele. Coisas que para os outros, soavam como loucuras, mas para nós, eram botes salva vidas.

Não me importava com os olhares, nem com as pessoas que estávamos incomodando. Eu realmente não me importava com nada, só em vê-lo se sentir melhor. Menos sozinho, menos perdido. Eu estava lá para me humilhar com ele, para gritar por socorro também.

Porque eu entendia.

— SASUKE! – gritei, quando vi que ele não ia parar tão cedo. – SASUKE, SASUKE, SASUKE…!

Continuei berrando seu nome até ele me olhar nos olhos. Então, para a minha surpresa, ele parou.

Já tínhamos atraido muitas pessoas, que nos olhavam com diversas expressões. Ou de medo, ou de desgosto, mas nunca com compaixão. Ignorei-as.

— Venha. – eu disse, pegando sua mão e o conduzindo para algum lugar mais calmo, afim de esperar o efeito da droga passar. Eu sabia muito bem que multidões não ajudavam em nada.

Mais rápido do que esperava, encontrei uma rua sem saida estreita, mas estranhamente iluminada e arejada. O fiz sentar na calçada, enquanto sentava a sua frente, no asfalto.

Então, segurei suas mãos e fiquei o tempo todo fitando seus olhos. Ele não parecia mais inquieto e me olhava com a mesma intensidade. Percebi que o efeito estava passando quando ele soltou minha mão e franziu o cenho.

– Tá tudo bem. – disse, imediatamente. No mesmo instante, eu ouvi passos correndo em minha direção e tudo aconteceu muito rápido.

Naruto apareceu do nada, com a expressão extremamente preocupada e agarrou Sasuke pelos ombros, me olhando com cara feia.

Levantei-me, sem saber o que fazer, ou dizer. Já não entendia mais nada.

– Sasuke, olha pra mim. – Naruto disse para o amigo, que ainda me fitava, confuso. – Sasuke!

O moreno voltou o olhar para o outro e eu pisquei depressa.

– Naruto, eu só…

— Vai pra casa. – ele respondeu, seco.

Nunca tinha o visto falar assim. Apesar de só conhecê-lo faz dois dias, eu já tinha percebido que ele raramente usava aquele tom.

– Mas eu só queria ajudar e… — comecei. Queria me explicar, queria dizer que eu comprendia, mas me cortaram de novo. Dessa vez, não foi Naruto, que ainda fitava Sasuke com preocupação.

— Não preciso da sua ajuda. – o Uchiha respondeu, áspero e eu ergui as sombrancelhas, incrédula. Ele estava brincando?

O quê? – perguntei, indignada. – Não parecia quando você estava berrando no meio da rua.

Seus olhos voltaram a fitar os meus e eu notei a raiva. Qual era o problema dele? Seu transtorno de personalidade me assustava, mas mesmo assim, a minha vontade de querer penetrá-lo ainda se mantia. Queria entender aqueles olhos, que, de tanto sofrer, se tornaram bipolares.

— Naruto. – me voltei para o loiro. – Me desculpe pela inconveniência. Não vai voltar a acontecer. – respondi, soltando faíscas pelo olhar para Sasuke. Nem eu acreditava nas minhas palavras. Eu já estava tão pateticamente envolvida.

Ele deu aquele sorriso e eu entendi que Naruto estava do meu lado.

— Cherry, não se estresse a toa. – ele disse, divertindo-se.

– Quem disse que eu estou estressada? – respondi, acompanhando-o para fora da rua sem saída. Sasuke parecia inquieto novamente, mas não dizia nada. Sua peculiaridade me cativava. Eu sempre amei o incomum e Uchiha era o exemplo mais claro desse aspecto.

Eu conheci seu lado sombrio, seu lado doce e seu lado furioso e mesmo assim, me parecia que ele era um estranho. Aquilo me motivava e me encantava de tal forma que eu não compreendia bem.

– Eu preciso ir, tem um amigo me esperando. – falei, quando chegamos novamente na rua do hotel.

– Às quatro e meia da manhã? – Naruto perguntou surpreso.

– Sim. – afirmei. – Que bom que você está bem, inglês.

Ele corou. Provavelmente não queria ter parecido vulnerável na nossa primeira noite juntos. Ignorei seu desconforto e dei-lhe tapinhas nas costas.

— Só não preocupe Hinata assim de novo. – eu disse e ele sorriu, ainda vermelho.

– Pode deixar! – Naruto berrou e eu sorri com sua exaltação. – A gente se vê, americana!

— Até mais. – eu disse, me afastando. – Ah, eu estou com a sua jaqueta imunda, Uchiha. Se quiser, vai pegá-la, eu não vou correr atrás. – afirmei.

De repente, a expressão dele transformou-se novamente. Suas sombrancelhas ergueram-se, deixando sua face indiferente de lado e seus olhos raivosos se tornaram surpresos.

Ergui uma sombrancelha e o fitei, confusa. Por que estava surpreso? Pensei que fosse mais uma de suas loucuras e me virei para ir embora. Não estava com paciência para lidar com aquele tipo de coisa e Lee já estava me esperando faz um bom tempo.

Cheguei no endereço indicado mais rápido do que eu esperava e minha curiosidade foi o fator determinante para eu bater na porta.


Hesitei ao chegar na porta do apartamento de Lee, eu devia me submeter àquela loucura de chegar em sua casa de madrugada? Quando me de por mim, minha mão já havia batido em sua porta e eu ouvi passos apressados do outro lado.

– Liv! – ele gritou, assim que me viu. Estava exatamente igual a quando tinha o deixado e me perguntei se esteve acordado desde aquela hora.

– Oi, Lee. – respondi com um sorriso e esperei ele me convidar a entrar. – O que você tinha de tão importante para me dizer que não pôde esperar algumas horas?

— A nossa planta! – ele exclamou choroso, me fazendo franzir as sombrancelhas.

— Oi? – perguntei, confusa.

— Não me diga que esqueceu da nossa planta do amor!

— A nossa… O que?

Lee saiu correndo de repente e voltou em segundos com um vaso com uma margarida murcha, envolta em alguns corações feitos de papel. Ele apontou para a flor com uma expressão clara de indignação.

Eu fiquei assustada. Até para mim, que já havia visto muitas loucuras, aquela expressão era medonha, com certeza, era a face menos lúcida que eu já tinha visto.

Seus olhos, escondidos atrás de suas grossas sombrancelhas, não estavam vermelhos e sua voz não saia embrigada. Não eram drogas, não eram bebidas, seria apenas a pura loucura?

Loucura? Eu não achava que isso era relativo?

O fitei de novo. Deixei de acreditar na relatividade da loucura quando me afundei naqueles olhos perdidos e vazios de Lee novamente. Como eu não tinha os notado de manhã?

— Olívia, você não lembra?

Neguei roboticamente com a cabeça. Não sabia lidar com aquela situação, então fingi que nunca tinha descoberto o seu segredo.

— Foi como eu disse, eu não me lembro de nada daquela noite, me desculpa. – disse, tentando parecer indiferente. – Nós fizemos uma planta do amor?

Fitei a flor novamente, certamente soava como uma coisa que eu faria bêbada.

– Sim! Mas ela morreu, Liv! – Lee respondeu, abraçando o vaso fortemente.

Eu quis lhe dizer que meu nome não era Olívia, que eu não me importava com aquela flor e xingar-lhe por me fazer ir até sua casa àquela hora por tal motivo. Uma parte da Cherry gritava para que eu o fizesse, mas a Olívia dentro de mim não deixou, algo nela me impediu de sair andando e bater a porta, excluindo Lee de meu celular e vida.

O controle dela sobre mim era um tanto absurdo e eu me assustei a princípio, mas a verdade era que eu gostava da Liv, gostava de mim sendo ela. Era exatamente igual a ela que eu queria ser quando fugi de Nova York. Me conformando com esse fato, abracei a minha dupla personalidade e respondi:

— Não acredito! Como isso aconteceu?

Peguei o vaso e o abracei, fingindo me importar.

— Eu não sei, Liv! O que faremos?

— Vamos revivê-la. – eu disse, antes de pensar bem sobre o assunto.

Então, passamos o resto da madrugada fazendo com que a margarida ficasse em pé e a enfeitando com corações de papel e purpurina.

Antes do que eu esperava, mais uma noite havia passado em Bristol, e mais um dia começara. Segunda-feira. Finalmente minha jornada em busca do conhecimento acadêmico ia começar.

Notas finais
Ooie, capítulo novo pra vocês (:
Espero que tenham gostado etc, ah, o de sempre! AOUIEHAIUEAE
Comentem, comentem *-*
Beeijão :*