Entramos na floresta. Corremos por horas. Eu fiquei até com pena de fazê-las correr tanto, mas sabia que quanto mais longe melhor. Eu estava extremamente cansada e o pior de tudo: estava faminta. Enquanto corríamos, avistei Artie e seus amigos lobos nos cercando pelas laterais, o que me trouxe uma certa confiança. Paramos assim que vimos o rio.

–Que rio é esse?- perguntei, ofegante.

– Savannah River- disse Beatrice com rosto iluminado pela luz que seu celular emitia.

–Ainda em Geórgia?

– Na fronteira. O que vamos fazer agora, Ty?

–Acampar. Vemos nossas condições e nos preparamos. Será apenas questão de horas para que as Seguidoras nos ache e precisamos estar preparadas.

Beatrice voltou ao grupo e anunciou minhas ordens, já que eu não estava disposta a gritar. O acampamento foi montado em questão de minutos. Não me deixaram fazer nada. Stella diagnosticou em mim mais ferimentos que podíamos ver. Eu havia lascado uma costela com a pancada na parede, ia ficar com um hematoma na garganta; também dois machucados na cabeça por ser atingida em duas regiões distinta e pelo visto, as feridas das minhas mãos haviam infeccionado devido à falta de limpeza. Sentei num tronco, desanimada.

– O que falta me acontecer? Descobri que tenho uma super virose incurável? – queixei-me.

– Larga de drama, Ty. Tudo isso vai sumir logo, em dois ou três dias. Talvez os ferimentos da mão demorem mais. E a costela, uma semana pra colar de novo. – avisou Stella.

–Isso não me anima! – resmunguei.

–Ty Lee, esses ferimentos poderia ter te matado, se não percebeu. Dê graças de estar viva. – disse ela.

–Ok. Pra quem devo a honra de agradecer?! — perguntei, ironicamente erguendo as sobrancelhas.

–Vou ver como as outras estão. Elas também não estão nos seus melhores dias. – e se afastou.

E ali estava eu, sozinha na floresta. Pela primeira vez me questionei se estava fazendo o certo. Olha a confusão que estávamos. Eu quase descumpri uma regra da caçada e estava com tantos ferimentos que podia enumerar. Será que estava fazendo o meu melhor por minhas irmãs?

“ Bom, você arriscou sua vida por elas. Eu acho que isso é o que julga ‘o melhor’ ” disse Artie se aproximando.

–Valeu, Artie, mas mesmo assim. E se fosse outra no meu lugar? Será que teríamos um destino diferente? Melhor? Questiono-me se Ártemis fez realmente uma escolha sensata me escolhendo. – afirmei triste.

“ Minha querida, acho que você não entendeu o espírito da coisa. Ártemis não queria alguém forte ou perfeita...”

–Por que se quisesse, mas uma vez: ela errou!

“ ... ela queria alguém de coração puro e valente o suficiente para fazer o que precisar por essas garotas. Eu não sei você, mas sei que a maioria ai já teria desistido do cargo. Teria sido levada a loucura.”

–Difícil virar uma maluca quando já se é louca.

“Não estou me referindo a isso, Pequena Deusa. Eu já vi. Há eras atrás, uma ex- tenente enlouqueceu por completo, após um ataque de um bando enorme de empousai. Ela nem sabia seu nome e ficava dizendo que precisava fugir. A deusa apagou a memória recente da jovem, tudo que envolvia a caçada sumiu e a devolvemos para os parentes. Nunca tinha visto Ártemis tão triste. A deusa ficou sem uma tenente por mais de três séculos, mas percebeu que seria complicado continuar sem ajuda. Ela ficou extremamente rigorosa com suas tenentes, pois não queria que o incidente acontecesse novamente. Aposto que a deusa jamais esqueceu isso.”

– Que barra pesada, Artie.

“Sim. Parece que a maioria das tenentes da Deusa sofre uma espécie de maldição, elas não duram muito. Sabe, as tenentes são as que pagam um preço maior que as outras caçadoras. Maior até que a própria deusa. Quando descobrimos que entre nós dois houve a Ligação, Ártemis ficou apavorada e fascinada ao mesmo tempo. Ela não via esse tipo de magia há eras, e isso a animou por você ter um sangue extremamente forte. Mas essa Ligação também significava que você estava e está mais vulnerável. Nós estamos. Mas vai por mim, Pequena deusa, está fazendo um trabalho excelente. Sei que nem as caçadoras nem Ártemis tem do que reclamar”

Eu comecei a rir.

“ O que foi?” perguntou ele.

– Artie, só você para fazer alguém se sentir melhor com uma história triste. – afirmei, parando de rir.

“ Está melhor?” senti a surpresa em sua pergunta.

–Estou. Se é pelo que diz, eu não enlouqueci e não morri. Devo está no caminho certo. – falei.

“ Vai por mim e continue assim, Pequena Deusa” falou o lobo.

– Só mais uma coisa. – anunciei.

“ O que?”

– No dia que nos conhecemos, você já me chamou de Pequena Deusa, certo?

“Sim”

–Mesmo sabendo que poderia me chamar de semideusa. Na época, eu achava que era porque não sabia meu nome, mas depois de meses de convivência, é perigoso você saber até meu CPF de cabeça.

“Hmm... Prossiga”

– Então porque nunca me chamou de Ty ou Ty Lee?

Senti sua risada ecoar em minha mente. Um som tão familiar e reconfortante que me acalmou mais.

“ Pergunta extremamente curiosa. Bom, qualquer pessoa que te conheça vai te chamar de Ty Lee. E seus amigos e familiares, é claro com mais intimidade te chamam de Ty. Mas nós... nós dois compartilhamos a alma. É algo que não pode ter com mais ninguém. Acho que isso me dá uma certa intimidade para ter um apelido que só eu use”

Isso me fez rir mais.

–Certo. Acho que entendi claramente. – afirmei.

“ Fico feliz em ter ajudado, Pequena Deusa. Se não se incomoda, eu tenho que ir, uma de suas caçadoras quer conversa com você” disse ele e fez um gesto com o focinho. Olhei na direção e vi Beatrice apoiada na arvore, olhando para nós.

– Ok, Artie. Até logo e fique por perto. – disse eu.

“ Sempre estarei no alcance para lhe ajudar” e com isso o lobo sumiu entre as arvores.