My complicated love
1 Prólogo - A viajem sem volta
Notas iniciais
“– Lucy... – Chamou-me, depois de vários minutos de um silêncio desgostoso.
– Porque não me falou antes, Natsu? – Minha voz saíra trêmula e baixa, transparecendo meu desespero.
– Eu não tive coragem. – Admitiu com pesar, passando as mãos nos cabelos róseos, num ato de inquietude.
– Eu...Eu não esperava que isso fosse acontecer... – E realmente nem imaginara que tal coisa estivesse acontecendo. Tudo estava tão perfeito. As provas tinham sido ótimas, assim como todos os momentos os quais passei com Natsu. Meu pai estava melhorando suas ações para comigo e eu havia, finamente, superado a perda de minha mãe. Mas algo tinha de acontecer para estragar tudo isso, não é mesmo?
– Eu também não, Lucy. – Ele estava ficando irritado. Minhas mãos suavam e minhas pernas tremiam levemente. Uma dor sufocante crescia em meu âmago. Natsu iria embora. E iria para bem longe.
As lágrimas começaram a cair e em poucos segundos eu estava soluçando. Pude sentir os braços de Natsu me enlaçando num abraço apertado. Tudo que eu queria era que ele nunca mas desfizesse esse abraço, assim ele não iria embora. Mas a vida não é um mar de rosas e nada dura para sempre. Natsu logo se afastou para enxugar minhas lágrimas com suas mãos delicadas.
– Lucy, não chore. Por favor, não chore, meu amor... – Sua voz estava começando a ficar abafada e pude sentir seu pranto escorrendo de suas bochechas e caindo sobre meu rosto, enquanto ele pedia para eu parar de chorar.
Não estava raciocinando direito. Não conseguia. Ainda chorávamos quando ele nos deitou na cama, num abraço colado, permitindo que sentíssemos o calor do corpo um do outro numa forma dele avisar “Ei, eu estou aqui. Se acalme.”. Chorava baixinho enquanto ele acariciava meus cabelos. Não dizíamos nada, pois não tinha nada a ser dito. Não havíamos nos conformado, mas sabíamos que discutir era irrelevante.
– Natsu, eu te amo. – Minha voz ainda estava trêmula, mas o choro ia indo embora aos poucos, dando lugar ao sono.
– Eu também, meu amor. – Os olhos verde ônix estavam marejados, não tinham o mesmo brilho de antes. Estavam opacos e tristes. E foi com essa visão que adormeci. Tendo um sono conturbado pelos pesadelos em que Natsu iria embora para nunca mais voltar.”
Depois do dia em que ele me noticiou de sua repentina mudança, entrei em um estado de apatia. Sorrir já não me importava tanto. Não saía mais com meus amigos. Estava indiferente a tudo. Estava entrando numa depressão.
Natsu estava sentido e passava todo o tempo ao meu lado, abordando assuntos aleatórios nas poucas conversas que tínhamos. Todos os nossos amigos estavam apreensivos com aquela situação, fazendo de tudo para melhorar os nossos ânimos. Mas nada surtia efeito. Uma semana inteira passou-se assim. Noites mal dormidas, pesadelos tenebrosos, lágrimas silenciosas que escorriam sem pudor, a sufocante aflição em meu âmago, tudo aumentava o meu medo. O medo de que aquele dia chegasse.
E ele chegou, Tão rápido quanto fora avisado que chegaria. E lá estava eu, enfiada num jeans velho e um casaco de couro, botas de cano alto e olheiras profundas que se equiparavam a dor que me corroía a todo momento. Natsu estava desleixado, usava um jeans surrado e tênis negros, combinando com o casaco, também negro, que usava. As feições cansadas imploravam por uma boa noite de sono, que não era concebida há tempos.
O senhor Igneel, seu pai, estava elegante, como sempre, num terno italiano e sapatos sociais arrojados. Exibia uma feição triste e olhava com pesar em minha direção. Poderia sentir seu sentimento de culpa, por separar dois apaixonados. Ele deveria saber essa dor, já que sua esposa se separou dele, justamente por causa de sua escassez de carinho.
Todos os nossos amigos foram ao aeroporto para a despedida de Natsu. Levy e Erza tinham os olhos marejados. Gray xingava o rosado o tempo todo, mas no fundo já estava com saudades de seu melhor amigo.
E pensar que já faziam quatro anos que nos conhecíamos. Três anos de uma longa e maravilhosa amizade. Dois magníficos anos de namoro e um ano como completos desconhecidos. E agora esses quatro anos, repletos de toda uma história de amizade e de amor, se desfaziam como cinzas depois das chamas.
O vi se despedir de todos os presentes com um abraço e palavras de encorajamento e esperança. Discursos que falavam de todos os momentos bons e ruins que eles viveram juntos. A cada abraço que recebia, Natsu fazia uma expressão desgostosa, provavelmente, sentindo a dor do adeus.
Ele parou rente a mim, com seu inseparável cachecol quadriculado.
– Eu te amo. – Disse-me me envolvendo num abraço cheio de saudade, apertando-me o quanto podia em suas braços. Serrei os olhos aproveitando mais daquele ato carinhoso, retribuindo-o com a mesma intensidade. – eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. – A cada palavra proferida meu coração se apertava mais e as lágrimas caíam.
– Eu te amo. – Sussurrei em seu ouvido, abraçando-o com mais força.
Ele alargou o pequeno espaço entre nós, desfazendo o abraço, acariciando as maçãs de meu rosto delicadamente, como se estivesse com medo de eu me desfazer.
– Eu quero que fique com isso. – Colocou o cachecol em volta de meu pescoço, esquentando a área. – É para você não esquecer de mim. – Sorri em resposta, pela primeira vez naquele dia.
– Não conseguiria me esquecer de você, Natsu. – Acariciei seu rosto, observando seus olhos se fecharem vagarosamente e um sorriso se formar em seus lábios perfeitamente delineados. – Você foi o meu primeiro em tudo. O homem que fez meu coração pulsar mais forte desde a primeira vez que te vi. – Ele deu uma risada fraca, a qual eu acompanhei.
– Não sabia que você já tinha noção de amor quando tinha quatorze anos, Lucy. – Acariciei seus cabelos de leve.
– E não sabia. – Aproximei-me de sua face. – Mas agora eu sei, Natsu. Você me mostrou o que é o amor. – Ele juntou nossas testas e deixou umas poucas lágrimas rolarem pelo rosto.
– Eu te amo, Lucy estranha. – Ouvir aquele apelido demasiado velho me trouxe uma nostalgia imensa. Logo quando nos conhecemos ele me chamou de “Lucy estranha”. Nada muito carinhoso, mas para o menino travesso que ele era a alguns anos atrás, era um apelido e tanto.
– Eu te amo, Natsu Dragneel. – As bocas se tocaram e as línguas permitiram explorar a boca um do outro, numa carícia lenta e proveitosa. Naquele momento não existia aeroporto. Não existia viajem. Não existia Igneel. Éramos apenas eu e Natsu.
Mas, como nada é para sempre, o beijo terminou e a voz da aeromoça chamava-os para o ponto de embarque. Natsu deu um último adeus. Um último beijo de despedida, um selo rápido para não jogar tudo para o alto e abandonar seu pai sozinho no avião voltando para os meus braços.
E eu voltei sozinha para casa naquele dia. Nesse mesmo dia choveu. Nesse mesmo dia, eu me afundei numa depressão amarga, repleta de lembranças, antes felizes e memoráveis, agora doídas e sufocantes, que me afirmavam que eu estava sozinha. Mal sabia eu que ele não iria voltar nem tão cedo.
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