My One and Only Love
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Não eram nem dez da manhã e Jennifer Haven já desejava uma dose do whisky mais forte que tivesse. Cessa os movimentos com a caneta cromada, direcionando o olhar ao seu bar particular, localizado num canto do espaçoso escritório. Considera levantar-se e colocar uma dose dupla da bebida, logo nega com a cabeça, voltando à atenção a pilha de papéis sobre a mesa. Sua próxima reunião seria daqui uma hora e todos os documentos deviam estar assinados e devidamente copiados para esta.
Repousando os cotovelos sobre o vidro da grande mesa quadrada, solta um pesado suspiro, levando as mãos a suas têmporas e massageando-as impaciente. Dizer que estava cansada seria eufemismo, passara a noite toda no escritório terminando os preparos para esta importante reunião. Só fora adormecer quando já amanhecia no confortável sofá de sua sala, e não muito tempo depois seu assistente chegara e lhe acordara para o primeiro compromisso do dia. Movimenta o pescoço de um lado ao outro, alongando-o, em seguida assina seu nome na última linha da folha, colocando-a junto aos papéis já assinados.
Umedece os lábios, pensando nos difíceis executivos que teria de enfrentar. Embora tivesse a complicada missão de agradá-los e convencê-los com sua apresentação, não tinha dúvidas que conseguiria fechar mais um acordo milionário à agência de seu pai. Confiava no que seu time criara para esta campanha, além de acreditar em si mesma, em seu potencial. Podia não saber de muitas coisas nesta vida, inclusive quando se tratava de sua vida pessoal, mas sabia que era boa naquilo que fazia. E por mais que alguns acreditassem que chegara onde estava apenas por ser a filha do fundador e presidente da agência, aqueles que a conhecia e conhecia seu trabalho sabiam que não era assim.
Começara nesta agência como qualquer outro estagiário no último ano de seu curso, fazendo cópias e levando café aos chefes dos departamentos, muitas vezes se sentindo mais como uma empregada doméstica do que uma estagiária de publicidade. Seu pai sempre deixara claro que não haveria tratamento especial a ela e que se quisesse conquistar uma posição de destaque teria que trabalhar muito, dar o seu melhor. E por anos assim fora, se dedicara completamente ao trabalho, sua prioridade e paixão, o que lhe fazia feliz e dava certo sentido a sua vida, os dias começavam e terminavam naquele local. Não demorara muito para começar a ser promovida, passando de cargo a cargo até chegar à vice-presidência com apenas trinta anos.
Hoje, com trinta e três anos, ainda trabalha mais que qualquer um, fazendo mais horas extras do que humanamente aceitável, nem se lembrando do que seriam férias, e conquistando tudo aquilo que sempre sonhara profissionalmente. Era uma renomada publicitária, conhecida por ter a capacidade de vender qualquer coisa ou como dizem no ramo, de vender gelo no inverno, tendo diversos prêmios por suas campanhas e o título de publicitária da década de acordo com uma famosa revista especializada, suas campanhas estavam em todos os lugares do mundo, empresários faziam de tudo para trabalhar com ela, e havia aumentado o império de seu pai, tornando sua agência de publicidade a número um do país. E apesar de todo esforço para chegar ao topo ter lhe custado muitas coisas importantes, e que o trabalho já não lhe fizesse tão feliz como antes e andasse mais exausta que nunca, questionando certas decisões em sua vida, jamais reclamaria. Não podia reclamar; não depois do que perdera.
"Senhora Haven, sua esposa está aqui para vê-la." Anuncia Scott, seu assistente pessoal, através do intercomunicador.
Por alguns segundos não consegue reagir, sentindo uma repentina apreensão tomar conta de seu corpo. A última vez que sua esposa viera lhe visitar no escritório fora há quase um ano e não terminara nada bem. Engole a saliva com dificuldades ao se lembrar do ocorrido, desviando o olhar ao telefone, cheia de incertezas, escutando a voz da mulher que ama dizer.
"Ex esposa, Scott."
Mesmo estando separadas há meses, escutar esta palavra doía como se fosse à primeira vez. Não importa quanto tempo passe, jamais iria superá-la, era como uma facada em seu coração, um recordo permanente daquilo que fora estúpida o suficiente para arruinar. Não permitindo que seus pensamentos a levassem a um caminho repleto de sentimentos que não queria lidar no momento, limpa a garganta nervosamente antes de pressionar a tecla do intercomunicador, declarando. "Deixe-a entrar. E coloque todas minhas chamadas em espera, não devo ser interrompida." Ajeita a postura, soltando um botão da camisa social branca, logo passa as mãos pela calça preta, alisando-a, olhando ao redor do escritório, certificando-se que tudo estava em seu devido lugar.
Ao ouvir a porta dupla ser aberta, rapidamente volta à atenção aos documentos, querendo aparentar distraída. Respira fundo, seu corpo se arrepia a passos se aproximarem e sentir no ar a fragrância preferida de sua esposa. Há tanto tempo não sentia este perfume, há tanto tempo não a tinha por perto que estava contente por saber que ao menos uma coisa não mudara; este ainda era seu cheiro. Levanta a cabeça, encontrando com o olhar do assistente. "Isso é tudo, Scott, obrigada." O dispensa, se preparando para interpretar o papel da esposa confiante. Não podia demonstrar fraqueza, não podia demonstrá-la a imensa dor que tinha dentro de si, devia mostrá-la determinação, como estava pronta para mais uma discussão sobre o divórcio. Afinal, sabia muito bem que esta visita inesperada era para discutir o maldito divórcio, infelizmente, isto era a única coisa que havia entre sua mulher e ela ultimamente. Observa o rapaz deixar a sala e dá um pequeno sorriso de lado, lançando o olhar àquela que para sempre teria seu coração. "Madeleine, quanto tempo. É bom vê-la novamente."
Madeleine Barbon-Haven era uma famosa modelo franco-canadense, nascida e criada na cidade de Quebec. Filha de um casal inter-racial tinha a pele parda, grandes olhos verdes escuros, sobrancelhas grossas, lábios carnudos, um delicado nariz, longo cabelo castanho escuro ondulado, que lhe rendera mais de vinte comerciais, além de um contrato de exclusividade com uma importante marca de shampoo, onde a proibiram de cortar seu cabelo pelos próximos anos. Com um metro e setenta e seis centímetros, não era a sua típica modelo magra, Madeleine tinha um corpo com curvas que mais pareciam ter sido desenhadas por um inspirado artista. Com seios do tamanho médio e firmes, abdômen bem definido, um bonito quadril também médio e longas pernas que pareciam não ter fim, era o corpo perfeito. Seus traços marcantes a tornara a modelo mais famosa do país e ainda lhe trouxera reconhecimento internacional. Simplesmente era a mulher mais bonita que já conhecera, mas o que realmente atraíra a publicitária em Madeleine fora sua personalidade.
Jamais conhecera uma mulher tão fascinante, Madeleine era dona de uma inteligência incrível, podia falar sobre qualquer assunto com confiança, ainda era engraçada, sempre a fazendo sorrir com suas histórias, atenciosa fazia todos ao seu redor se sentirem acolhidos e especiais, bondosa, era capaz de deixar o que fosse para ajudar alguém necessitado, tinha uma força admirável, defendia com unhas e dentes aquilo em que acreditava, era determinada e muitas vezes podia ser um pouco cabeça dura, aturando o que jogassem em seu caminho e respondendo com a mesma intensidade. Era exatamente o que Jennifer sempre necessitara e nunca soubera até encontrá-la.
"Jennifer, como vai?" Pergunta a modelo, tentando soar o mais profissional o possível, manter certa distância emocional assim como a outra constantemente o fazia. Mesmo que para isso precisasse fazer um tremendo esforço. Era uma pessoa totalmente transparente, honestidade era tudo para ela, dizia o que pensava sem temer as consequências, usando seu coração na manga, mas aprendera de uma maneira difícil que às vezes era melhor esconder seus sentimentos, poupar-se do sofrimento e humilhação causados ao demonstrar cada emoção em sua face. "Desculpe vir sem avisar, mas você tem ignorado as ligações do meu advogado."
"Melhor, agora que você está aqui." Dá um divertido sorriso, fazendo questão de levantar-se e se aproximar da mulher lentamente. Coloca uma mão no bolso da calça social em uma atitude que torcia para parecer despreocupada, enquanto seu coração se acelera ao tê-la a sua frente. Como sentia sua falta, falta do que tinham, só queria abraçá-la, apertá-la contra seu corpo e sentir seu cheiro, sentir aqueles suaves lábios contra os seus e dizê-la o quanto a ama, mas não podia fazê-lo, Madeleine não lhe permitiria. "E você sabe muito bem que não tenho nada a falar com seu advogado." Jamais teria. Pouco importa que este só estivesse fazendo o seu trabalho, defendendo os interesses da modelo, Jennifer não conseguia suportá-lo ou suportar o que estas ligações significavam a elas.
"Por isso mesmo que decidi vir até seu escritório. Já que se recusa a resolver isso com ele, vamos resolver aqui e agora." Pressiona as alças de sua bolsa vermelha contra as palmas de suas mãos, portando uma séria expressão. Discretamente, olha a sua ex da cabeça aos pés, notando como a publicitária parecia bem, muito bem, exceto pelas escuras olheiras debaixo de seus olhos. Resultado de uma longa noite na empresa tinha certeza disso, e lhe entristecia ver que nem mesmo após a separação Jennifer não havia acabado com este terrível hábito de deixar o trabalho dominar sua vida. Não pode evitar se questionar se alguma vez ela chegara a ser mais importante, se realmente significara mais do que esta agência a sua esposa. Suspira, cruzando os braços em um gesto defensivo. "Eu preciso que você assine os papéis do divórcio o quanto antes."
Apertando a mandíbula com força, Jennifer ignora a pontada em seu estômago. "Eu sinto muito, querida, mas isso eu não posso fazer." Não podia aceitar como tudo acabara. Há um ano, Madeleine simplesmente entrara em sua sala pela última vez, após ela passar mais uma noite trabalhando, focada em fechar um notável acordo, dizendo-a que não aguentaria mais ficar neste casamento, que sua paciência havia se esgotado, que cansara de promessas vazias e de ser colocada em segundo plano, surpreendendo Jennifer com um pedido de divórcio. Ainda se lembra de sentir como se o mundo tivesse desabado sobre sua cabeça com aquela notícia, fora algo totalmente inesperado, um dia tudo estava bem entre elas, no outro a mulher que lhe prometera um para sempre queria terminar seu casamento de dois anos. Óbvio, que se não estivesse tão focada em outras coisas, na época teria percebido o verdadeiro significado daquelas discussões que pareciam fúteis e repetitivas, teria percebido as pequenas mudanças no comportamento da modelo, mas vergonhosamente, atuara de maneira terrível e no final sua esposa estivera tão descontente com ela que não lhe dera ao menos uma chance para se redimir, não quisera nem lhe escutar, mudando-se da casa delas e cortando todo contato, semanas depois só lhe mandara os documentos do divórcio através de um advogado. Por essa razão, há meses a publicitária se recusava a assinar esta maldita papelada, não podia desistir deste relacionamento, não podia deixar o amor de sua vida ir. Necessitava de apenas uma chance para acertar as coisas entre elas, uma chance para reconquistar sua esposa e demonstrá-la como seria diferente desta vez, seria melhor. Só não tinha ideia de como fazê-lo acontecer, como se reaproximar dela, tudo que tentara só resultara em rejeição.
"Você tem adiado esse divórcio por meses." E Madeleine havia sido estúpida o suficiente para aceitar, pensando que em algum momento Jennifer perceberia seus erros, iria lhe pedir perdão e realmente mudar, implorando por outra chance, porém nada disso acontecera. Tudo que recebera de sua esposa foram flores com dedicatórias amorosas, presentes luxuosos e incessantes ligações e mensagens de texto. No começo até atendera estas ligações, acreditando que poderiam conversar honestamente e tentarem resolver seus problemas, e claro, sentia falta da outra, de ouvir sua voz e lhe doía toda essa distância entre elas, entretanto após escutar o que Jennifer tinha para lhe dizer nestes telefonemas, onde só a pedia para ser sensata e se encontrarem pessoalmente, afirmando que não deveria tomar uma decisão tão precipitada, desistira de atendê-las. Era extremamente frustrante ver como a publicitária sempre estava no topo do jogo quando se tratava de sua profissão, nada passava por ela, agora quando era sobre sua vida pessoal, principalmente casamento, a mencionada não podia ficar mais perdida. E a modelo não pedia muito, queria que sua esposa se comunicasse com ela, que tivessem uma relação baseada na comunicação e honestidade, algo que sua esposa não fora capaz de lhe dar durante o tempo em que permaneceram casadas. Sempre havia uma reunião ou jantar de negócios, uma viagem nacional e muitas vezes internacional que não podia cancelar, um novo projeto que requeria toda sua atenção e a promessa jamais cumprida que logo a situação melhoraria, que seria a última vez e passariam mais tempo juntas. Suportara isso por certo tempo, convencendo-se que realmente era uma má fase e ao saírem desta, sairiam mais fortes e unidas, que seu amor podia sobreviver o que fosse, até perceber que não estavam indo a lugar algum, nada havia mudado entre elas, era como se tivessem atingido um caminho sem saída, apertado o botão de pausa permanente, e esta situação a esgotara emocionalmente. Leva uma mecha de seu cabelo para trás da orelha, uma vez sua mãe lhe dissera que o amor às vezes não é o bastante para manter duas pessoas juntas, nunca havia acreditado nisso, afinal quem ama cuida e luta por este amor, mas as circunstâncias mudaram e hoje sabia melhor, sabia o quão verdadeira é esta frase. Ama Jennifer com todo seu coração e a amaria pelo resto de sua vida, contudo esse amor não era motivo suficiente para mantê-las casadas, não há como um relacionamento durar quando só há uma parte totalmente investida neste. "Preciso seguir em frente com minha vida, Jennifer."
Dando meia volta e se afastando, a publicitária passa uma mão por seu rosto em um gesto frustrado. Jamais vira Madeleine tão determinada a conseguir este divórcio, nem mesmo quando ela inventara as desculpas mais esfarrapadas para não assinar os papéis, sua esposa fora tão direta sobre o assunto. Não sabia o que dizer e o que já havia dito só parecia ter piorado a situação, aumentando a determinação da outra. Abaixa o olhar, sentia como se estivesse perdendo todo o controle. Nunca imaginara que estaria nesta posição um dia, mas também há alguns anos nunca teria imaginado que realmente se casaria. Durante a maior parte de sua vida só preocupara-se com seus próprios sentimentos e com o trabalho, nunca tivera tempo para um relacionamento sério, nem queria tê-lo, porém isso mudara ao Madeleine chegar com toda sua elegância, seduzindo-a com apenas um sorriso e fazendo-a desejar coisas que jamais sonhara ter antes, como se casar e passar o resto da vida ao lado de sua bela esposa. De repente, suas prioridades mudaram, Madeleine era o centro de seu mundo e só queria vê-la e fazê-la feliz, tudo que fazia era pensando nela. Mas velhos hábitos são difíceis de morrer e acabara esquecendo que sua presença física também era importante para esse casamento dar certo, fazendo sua esposa se sentir negligenciada. Algo pelo qual não se perdoaria tão cedo e passaria o resto dos seus dias recompensando-a, isto é, se conseguisse salvar este relacionamento. Vira-se, dando dois longos passos à frente, voltando a se colocar diante da modelo. Sendo somente três centímetros mais baixa, Jennifer conseguia olhar diretamente aos olhos verdes escuros, permitindo-se perder nestes. "Podemos seguir em frente juntas, Maddie." Não controlando sua vontade de tocá-la, levanta o braço, repousando uma mão sobre o ombro da morena, acariciando-a com o dedo polegar. "Eu quero você, quero o que tínhamos de volta, não quero me divorciar." Diz honestamente, engolindo o nó que se formava em sua garganta.
A mais alta fecha os olhos ao escutar o apelido, lembrando-se dos bons momentos que viveram juntas. Diversas vezes ouvira este nos momentos mais espontâneos seguido de uma declaração, também como uma advertência ao irritá-la por qualquer motivo que fosse e um suspiro entre beijos ao fazerem as pazes, como um murmuro ao provocá-la sensualmente e uma súplica ao fazerem amor, quando era acordada pela manhã ou durante a madrugada com sua esposa chegando do trabalho e sussurrando-o carinhosamente. Abre os olhos, movimentando a cabeça como se isso fosse afastar estes pensamentos. Não devia perder o foco, devia manter a atenção em seu objetivo. Evitando ao máximo deixar que a outra percebesse como seu corpo havia reagido ao seu toque familiar, dá alguns passos ao lado, posicionando-se próxima a uma janela de vidro, que ia do piso ao teto. O que tinha a dizer não era nada fácil e sabia que Jennifer não reagiria bem à notícia que colocaria um ponto final nesta relação de uma vez por todas e em qualquer possibilidade de reconciliação, portanto era necessária certa distância entre elas, usaria estes passos como uma forma de se proteger emocionalmente, talvez mesmo com este curto espaço Jennifer não conseguiria ver como seu coração se quebrava. Umedece os lábios ao senti-los secos, dizendo a si mesma que assim seria melhor, já tiveram uma chance e olha no que dera, era hora de viver sua vida e lutar por um de seus maiores sonhos. E justamente por sonhar sozinha não deveria desistir deste. Força-se a dar um minúsculo sorriso, seu coração começa a bater de forma descontrolada, sabendo que aquele momento era a calma antes da tempestade. Abre a boca e ao não ter certeza por onde começar a fecha, apertando os lábios. Podia ver o desentendimento refletido nos olhos castanhos de sua esposa e sentindo lágrimas se formarem em seus próprios olhos, rapidamente confessa com a voz quebrada. "Eu vou ser mãe."
Três segundos, este fora o tempo que levara para todo o ar deixar seu corpo, paralisando-a no meio do escritório. Havia a estranha sensação de ter sido atingida por um trem em alta velocidade, sua cabeça dava voltas e voltas, tonteando-a. Não conseguia compreender o que acabara de ser falado, honestamente não queria fazê-lo. Aquilo era um pesadelo, um terrível pesadelo, tenta se convencer, somente sua mente cansada lhe pregando um truque. Em breve acordaria no sofá de sua sala com a visão de seu assistente chamando-a para a próxima reunião. Assente com a cabeça, concordando com seus pensamentos, sentindo o oxigênio voltar aos seus pulmões lentamente. Provavelmente esta fora a maneira que seu cérebro encontrara para lhe avisar que necessitava de um repouso, e assim que despertasse e terminasse com seu compromisso, iria para casa descansar e ligar para Madeleine, convidando-a para jantar. Ao ter seu nome sussurrado retorna a dura realidade, uma expressão de angústia apossa-se de sua face ao observar a modelo. Mãe. Sua esposa seria mãe. Sente um amargo gosto em sua boca e àquela pontada em seu estômago se multiplica, revirando-o. Daria tudo que tinha para que isso só fosse um sonho agitado ou ao menos uma pegadinha de mau gosto, para que pudesse voltar ao tempo e não cometer tantos erros, para que ainda tivesse sua esposa ao seu lado e não tê-la a sua frente neste momento dizendo-a que teria um filho. "Você vai ter um filho?!" Sai mais como uma rouca pergunta para si. Hesitantemente, abaixa o olhar ao ventre da outra. Um bebê. Algo que Jennifer nunca planejara ou quisera ter, e agora Madeleine teria com outra pessoa, havia lhe superado, desistido do que poderiam ter novamente, desistido delas. "Você está de quanto tempo?"
Repousando a mão esquerda sobre sua barriga, Madeleine afirma desajeitadamente. "Uh, eu ainda não estou grávida." Percebe o alívio estampado no rosto de sua ex e antes que esta falasse qualquer coisa, explica. "Você sabe que um dos meus maiores sonhos é engravidar, ter uma grande família, e estou numa idade em que já deveria ter ao menos um filho, não estou ficando mais jovem, o tempo só está passando e meus sonhos ficando de lado. E bem, depois de tudo que aconteceu entre nós, percebi que era hora de focar em mim um pouco, no que quero para minha vida, para o meu futuro. E ser mãe é o que mais desejo, sempre desejei, é o que vai me fazer feliz e me realizar, então após passar os últimos meses considerando a ideia, decidi que era o momento certo para torná-lo realidade." Já esperara tempo demais para isso. Durante seu casamento, nas poucas vezes em que tocara no assunto, Jennifer deixara claro que não queria uma família, que não queria arruinar o que tinham com crianças dependendo delas para absolutamente tudo e tirando sua liberdade. Estupidamente, tivera a ilusão de que sua esposa um dia mudaria de ideia e viria a querer um bebê com ela, infelizmente, não fora assim e aprendera a respeitar a decisão desta, afinal não seria justo com ninguém trazer o bebê a este mundo quando a publicitária não o queria, os três só acabariam infelizes, portanto na época se esquecera de seu propósito. Oito meses após a separação, voltara a refletir sobre o assunto e tomara a grande decisão de fazer uma inseminação artificial, buscando uma clínica, onde a garantiram que não teria problemas em engravidar, já que era uma mulher saudável e fértil de apenas vinte e nove anos. Mal podia esperar pelos próximos meses, por gerar seu bebê e senti-lo todos os dias em seu ventre, acompanhando seu crescimento e aproveitando cada fase da gravidez, há muito tempo não se sentia tão feliz e ansiosa por algo. O procedimento seria daqui dois meses, uma vez que seu agente lhe pedira um curto prazo para que pudesse organizar o último desfile antes dela fazer uma pausa em sua carreira por tempo indeterminado. Queria focar exclusivamente na maternidade, o bebê seria o que possuía de mais importante na vida, sua prioridade.
"Você fala como se estivesse velha." Coçando a cabeça descuidosamente, Jennifer bagunça alguns fios de seu cabelo castanho claro preso em um coque antes perfeito. Sua mente estava completamente nublada, não sabia o que pensar ou lidar com o que sentia. Necessitava de uma bebida e rápido. Direciona-se ao bar com passos precisos, desconsiderando o fato de ainda ser manhã, como diz a famosa expressão, era cinco da tarde em algum lugar do mundo. Ao se posicionar em frente a este, alcança pela garrafa de whisky e um copo, servindo-se uma dose e em seguida virando-a depressa. Aprecia a sensação da forte bebida alcoólica descendo por sua garganta, era uma boa distração ao turbilhão de sentimentos que dominavam seu ser. Mãe, sua esposa seria mãe, repete internamente. Funga o nariz, batendo o copo sobre o balcão de vidro com uma força desnecessária. A felicidade que tivera ao descobrir que sua mulher não estava grávida fora massacrada ao ouvir que ainda engravidaria, queria gritar, implorar que não fizesse isso com elas, que ao menos lhe desse outra chance antes de tomar tal decisão. A modelo tinha toda uma vida planejada sem ela, estava perdendo-a definitivamente e tinha certeza que não havia pior dor que esta. Ainda de costas a outra, coloca mais uma dose de whisky, desta vez dupla, virando-a num piscar de olhos. "Madeleine, por favor, pense mais sobre isso, não tome nenhuma decisão precipitada. Você precisa considerar os sacrifícios, a responsabilidade que um filho requer. É um compromisso para toda vida." Argumenta, pondo uma nova dose dupla em seu copo.
Revirando os olhos, pois claro que a publicitária tinha que expressar seu medo a comprometer-se a qualquer coisa, a famosa modelo sente uma irritação perante o comportamento desta. "Eu sei disso e não se preocupe por mim, Jennifer. Sei o que estou fazendo, estou preparada para o que vier." Joga sua bolsa sobre uma das poltronas próxima a ela, voltando a cruzar os braços.
"Sabe?" Pergunta, girando em seus calcanhares, segurando firme o copo com a mão direita. "E a sua carreira, como fica? Um bebê vai tomar todo seu tempo e energia, você não vai conseguir fazer tantas campanhas e desfiles mais, sequer pensar numa viagem internacional a trabalho. Uma criança vai mantê-la presa a esta cidade, Maddie, a uma rotina ordinária." Gesticula com a mão livre ao seu redor, egoistamente tentando fazer com que sua esposa a entendesse. Uma imagem de Madeleine vivendo esta rotina com uma pequena criança tenta brotar em sua mente e rapidamente a bloqueia, sofrendo um aperto em seu coração, àquilo era demais para ela. Porém, não consegue impedir que seus pensamentos a façam se questionar sobre o progenitor desta possível criança, e antes que perceba o que está fazendo, indaga em voz alta, curiosamente. "E o doador, quem será?"
Não dando ouvidos aos protestos de sua ex, considera não lhe responder, pois havia dito que manteria o doador como anônimo, mais nesse caso decide ser honesta. "O meu doador será o James." James Alba era um de seus amigos mais próximos desde a adolescência, se conheceram durante uma campanha publicitária quando ela ainda era apenas uma aspirante a modelo e o rapaz o assistente do fotógrafo. Ao pensar num possível doador, não quisera escolher um disponível do banco da clinica de fertilização, lhe parecera algo tão frio e lhe trouxera certo receio ao saber que por mais que as fichas tivessem um resumo da história de vida daquela pessoa, não podiam lhe garantir que este estava sendo cem por cento honesto, desse modo decidira que gostaria que um conhecido seu fosse o doador, uma pessoa de confiança, que a faria se sentir bem com sua decisão. E ninguém mais adequado que seu amigo, uma das melhores pessoas que já conhecera em toda sua vida, com uma personalidade tão agradável que era praticamente impossível não gostar dele, o fato deste ter excelentes genes era apenas um bônus. Obviamente, tivera que refletir bastante, não é fácil chegar a um amigo e pedi-lo algo tão grandioso assim, ainda mais quando este está num sério relacionamento com o parceiro, mas a cada momento que passara ao lado de James só a fazia ter certeza que devia ao menos tentar, portanto relevara seus planos de engravidar em uma noite ao convidar ele e o namorado para jantarem em seu apartamento, manifestando o desejo para que ele fosse seu doador e que caso aceitasse manteria sua identidade anônima. Ambos aparentaram surpresos com a proposta e pediram um tempo para pensar, afinal não era todo dia que se escuta um pedido destes e deviam levar em consideração os sentimentos de Timothy – parceiro de James –, o que ela respondera que podiam tomar o tempo necessário e que sentia muito por ter jogado esta bomba sem ao menos um aviso prévio, que esperava que isto não acabasse com a amizade que tinham ou que trouxesse problemas a relação deles. Dias após a conversa, se surpreendera ao receber uma visita do casal aceitando sua proposta, o que lhe fizera soltar algumas lágrimas de felicidade, e combinaram que James e Timothy seriam os padrinhos da criança. Seria para sempre grata a eles por lhe ajudarem a tornar este sonho em realidade.
Sentindo-se sufocada com estas informações, passa a andar de um lado ao outro em seu escritório, como se isso fosse ajudar de alguma maneira. Dá um gole na bebida, logo cessando seus passos e olhando-a com o cenho franzido. "James? Seu amigo James, o fotógrafo?" Observa a mais alta assentir com a cabeça e sente um pequeno alívio ao saber que ao menos não seria um desconhecido. Leva o copo a boca, tomando o resto do drinque, seguidamente depositando o copo vazio sobre a sua mesa. Cansada de tentar se controlar, deixa as emoções dominarem suas ações, invadindo o espaço pessoal de sua esposa. Coloca uma mão na parte inferior das costas dela, percebendo como esta prende a respiração no momento em que seus corpos se tocam. Se não estivessem discutindo algo tão trágico, sorriria, era bom ver que ainda despertava alguma reação em sua mulher. Olhos castanhos se encontram com os olhos verdes escuros intensamente, e sussurra não disfarçando o temor que tinha da resposta. "E nós? O que será de nós?"
Nega repetitivamente com a cabeça, antes de abaixá-la ao sentir lágrimas se formarem. Não era justo que mesmo após um ano, seu corpo ainda se derretia pela publicitária, ainda a desejava com todas as suas forças, não era justo que Jennifer lhe provocasse estes confusos sentimentos, causando-a sofrimento com uma simples pergunta. "Nós já não existimos há um bom tempo, Jennifer." Move o canto de seus lábios em um triste e minúsculo sorriso.
"Maddie..."
Fechando sua expressão facial, disposta a não aparentar vulnerável, Madeleine continua. "Eu pedi ao meu advogado para que redigisse um novo acordo." Automaticamente o corpo que até então lhe envolvia e lhe aquecia se afasta, deixando-a com uma sensação gélida e desprotegida. Respira fundo, lembrando-se que mesmo que lhe doesse profundamente, iria sobreviver. "Neste eu não peço nada, você pode ficar com a casa aqui em Toronto, com o apartamento na Itália e até mesmo o apartamento em Quebec, eu quero sair deste casamento com o que entrei." Não queria viver em nenhum dos lugares que algum dia chamara de casa ao lado de sua esposa, seria um recordo doloroso demais e para isso já basta seu cérebro que insistia em fazê-la se lembrar do que viveram nos momentos mais inoportunos. Tinha esta necessidade de começar de novo, construir uma nova casa para si e seu bebê, assim como novas memórias, e embora uma parte de seu coração fosse ficar com a mulher que ama, a outra focaria em viver esta nova vida. Ainda não sabia como, mas o faria acontecer, era o que ambas mereciam e principalmente o seu bebe, este não merecia ter uma mãe que sofria por um amor mal resolvido. "Os documentos serão enviados até o final dessa semana e você tem uma semana para assiná-los, Jennifer, ou vamos entrar com um pedido para que um juiz conceda o divórcio. Por favor, não prolongue mais este processo, acho que ambas não queremos que o bebê nasça com seu sobrenome, não é mesmo?! Portanto, assine os papéis o quanto antes e os envie ao escritório do meu advogado."
Virando-se de costas a outra, faz uma careta a uma solitária lágrima escorrer por sua face sem permissão. Encontrava-se destroçada, não era apenas seu coração que se partia, era seu corpo inteiro. Por que tivera que falhar miseravelmente com sua esposa, por que não abrira seu coração completamente a ela, deixando o orgulho e defeitos de lado, se humilhando e implorando por perdão quando tivera a chance?! Por quê? Agora era tarde demais, haviam chegado a um ponto sem retorno. Sua esposa queria algo que ela nunca poderia lhe dar. Não contém o silencioso choro e com a voz entrecortada, questiona mais uma vez. "Você vai mesmo fazer isso? Vai mesmo me abandonar, abandonar tudo que temos e seguir com essa ideia?"
"Não estou abandonando o que temos, pois isso implicaria que tivéssemos algo, uma relação, e entre nós duas não há mais nada. Você se encarregou disso e estou cansada de esperar por você, esperar por você lutar por nós duas." Responde, aumentando o tom de voz, olhando fixamente as costas da publicitária, esgotada com esta discussão e toda situação. "É hora de seguir com minha vida, de voltar a ser Madeleine Barbon, aquela que vai atrás do que quer, atrás dos seus sonhos e não desiste até consegui-los. Eu vou ter esse bebê em dentro de dois meses, Jennifer, e não estou pedindo para que você me apoie, porque sei o quanto despreza esta ideia, eu só peço que respeite minha decisão." Faz uma pausa à suas emoções ameaçarem levar o melhor de si, olhando a um dos lados. Esta provavelmente seria a última vez que estaria nesse escritório e a última vez que veria sua esposa. Solta um tremido suspiro, não havia nada mais trágico que ver pessoa que ama com quem planejara passar o resto de seus dias e saber que era a última vez, que ao sair deste escritório tudo estaria no passado. Involuntariamente coloca uma mão sobre seu abdômen plano, acariciando-o como se fosse lhe dar forças para continuar e imediatamente diz emocionada. "Eu sei que não quer escutar isso, mas durante algum tempo realmente fui feliz ao seu lado e espero que a tenha feito feliz também. Você me ensinou muitas coisas, inclusive como é o verdadeiro amor, e sou grata pelos anos que passamos juntas, nunca me arrependerei de ter lhe amado e me casado com você. Jennifer, você é uma pessoa incrível e merece somente o melhor, e sei que não demonstrei muito durante nosso casamento, mas me sinto orgulhosa de você, por tudo que conquistou, por tudo que você é." Sorri tristemente enquanto a outra dá meia volta, olhando-a com angústia. Limpa uma lágrima que cai por sua bochecha esquerda, alcançando por sua bolsa, repousando-a sobre o ombro e apertando uma alça contra a palma da mão, nervosamente. "Você sempre terá um pedaço do meu coração, nunca vou esquecê-la. Adeus, Jennifer."
Não! Não estava preparada para um adeus. Abre a boca, porém era incapaz de reagir ou formular qualquer palavra, e com os pés grudados no carpete a publicitária assiste ao seu primeiro e único amor sair de sua sala, de sua vida.
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