Notas iniciais
Perdão por qualquer erro, espero que gostem e boa leitura!

Andando pela movimentada calçada, Jennifer desacelera seus passos, deixando que as pessoas mais apressadas passassem a sua frente. Embora tivesse uma reunião em aproximadamente dez minutos, a verdade era que não sentia vontade alguma de chegar a seu destino. Não tinha cabeça para aguentar uma nova negociação com este difícil cliente. Solta o ar pesadamente, arrependendo-se pela segunda vez naquele dia de ter ido trabalhar, a primeira fora ao chegar ao escritório e ter seu assistente lhe dizendo que o advogado de sua esposa havia ligado, informando-a que a documentação do divórcio seria enviada em dentro de três dias.

Olha a um dos lados distraidamente, colocando as mãos no bolso de sua calça social branca, sofrendo o agora familiar aperto em seu coração ao se lembrar do inevitável divórcio. Já haviam se passado dois dias desde que sua esposa lhe informara sobre seus planos ao futuro, deixando-a completamente perdida, dois dias em que não sabia o que fazer ou sentir, a não ser ódio pela situação, ódio por ter colocado em risco o melhor que já lhe acontecera, revivendo cada segundo feliz ao lado de Madeleine através de vídeos e fotografias ao chegar a sua casa vazia, afogando as mágoas no álcool, que vergonhosamente se tornara em seu refúgio, a única coisa que conseguia tolerar ultimamente. Jamais se sentira tão solitária, tão infeliz em sua vida. Nada mantinha sua atenção por muito tempo, nada lhe oferecia contentamento mais, nem mesmo a possibilidade de uma nova campanha publicitária bem sucedida a trazia qualquer tipo de sentimento. Passa a mão entre as mechas soltas de seu cabelo castanho claro, em um gesto inquieto. Era assustador como alguém podia lhe fazer tanta falta, era como se lhe faltasse o ar sem Madeleine por perto, como se uma parte sua houvesse se quebrado e agora era obrigada a conviver com os restos, não havia paz, sua mente era dominada pelo que fora e o que poderia ter sido do relacionamento delas. E doía, como doía saber que era a única culpada disto e que não havia volta.

Observa ao único sentido do trânsito, cessando seus movimentos ao aguardar o semáforo de pedestres. Um garoto com um estilo totalmente punk esbarra em seu ombro e rapidamente murmura um pedido de desculpa, que ela responde por meio de um simples aceno com a cabeça. Seu celular vibra no bolso da calça, notificando uma nova mensagem de texto, mas o ignora, deixando seus olhos discretamente percorrer o inusitado figurino do jovem posicionado ao seu lado, repousando-os em seu moicano laranja. Parecia libertador, reflete; tomar uma decisão tão ousada como pintar o cabelo de uma cor diferente e apenas não se importar com as opiniões alheias. Abaixa o olhar ao seu próprio terno branco feito a medida, não conseguindo evitar se questionar qual fora a última vez que usara qualquer outra coisa, algo mais casual. Aperta a mandíbula ao chegar à conclusão que há um bom tempo sua seleção de trajes consistia em ternos ao dia a dia e pijamas quando conseguia dormir em casa. Ao sinal ficar verde, atravessa a rua no meio da multidão, ainda pensando sobre sua escolha de vestuário, será que Madeleine havia percebido este descuido nos últimos meses de casamento?! Com certeza sim, sua esposa nunca se esquecera de um detalhe, nunca deixara nada passar despercebido, era Jennifer quem sempre estivera ocupada demais para reparar ao seu redor.

Chegando a calçada, o grupo se dispersa e a publicitária interrompe seu caminhar abruptamente ao dar de frente a vitrine de uma luxuosa marca de roupas, onde havia um enorme cartaz de Madeleine. Por mais estúpido que parecesse, seu pulso realmente se acelera ao focar em cada traço de sua esposa naquela imagem colorida. O barulho a sua volta deixa de existir, e com as mãos ainda dentro dos bolsos da calça, fecha os punhos, apertando-os com certa força ao constatar que Madeleine ainda usava o anel de noivado e aliança de casamento na foto que só podia ter sido tirada há um ano e alguns meses, quando ainda estavam juntas e o futuro parecia brilhante. Sente o metal de sua aliança ser pressionado contra sua mão, logo o acaricia com a ponta do dedo polegar, embora a modelo não usasse mais estes anéis desde que lhe deixara, Jennifer se recusava a tirar a aliança de ouro branco que trocaram ao jurarem para sempre naquele que fora o melhor dia de sua vida. Havia falhado e quebrado diversas promessas em relação a sua esposa, contudo esta não seria uma delas. Independentemente do que ocorresse, este anel permaneceria em seu dedo até os últimos dias de sua vida, era um modo de demonstrar fidelidade àquela que havia roubado seu coração para nunca mais retorná-lo. Levanta o olhar ao grande sorriso de Madeleine no pôster, era o mesmo sorriso que lhe dera quando se conheceram durante uma sessão de fotos, em que a publicitária fora pressionada por seu cliente, dono de uma marca milionária, a contratar a famosa modelo ou não fecharia negócio com a agência de publicidade, a fim de satisfazê-lo oferecera a modelo um contrato impossível de recusar e uma semana depois a conhecera pessoalmente durante as fotos para a campanha de joias. Madeleine estivera pousando a câmera com uma séria expressão, típica de modelos, e ao Jennifer chegar ao local e observá-la silenciosamente, se sentira completamente atraída por tamanha beleza, não demorara muito para seus olhares se encontrarem ao Maddie fazer uma pequena pausa com o intuito de mudar de posição e naquele instante a publicitária recebera o sorriso que viria a transformar seus dias. Se fechasse os olhos podia reviver aquele momento como se fosse ontem, ainda assim parecia tão distante, como se tivesse ocorrido em outra vida. Sinceramente, não pode se lembrar de quando fora a última vez que tivera um destes sorrisos dedicado a ela, provavelmente antes das discussões se tornarem constantes em seu casamento.

Seu celular volta a vibrar, tirando-a de seus pensamentos. Alcança pelo aparelho, percebendo que havia recebido duas mensagens de texto por parte de Scott, seu assistente, informando-a que seu pai tinha convocado uma reunião com os chefes dos departamentos em cerca de duas horas. Aparentemente haviam conseguido outra conta milionária que demandava atenção imediata. Movimenta a mandíbula, lançando um último olhar ao cartaz antes de retomar seus passos em direção ao exclusivo restaurante, que se encontrava no final daquela avenida.

Ao chegar em frente à porta dupla de vidro deste, toma alguns segundos para admirá-lo. A grande construção reproduzia o desenho de uma torre moderna, rodeada por paredes de vidro e muita iluminação. Embora fosse um restaurante relativamente novo, Toronto's Tower já era um grande sucesso, um dos mais disputados da cidade, e por seu pai ter sido o responsável pela campanha publicitária do lugar, conseguira garantir a família Haven e a agência uma mesa reservada no restaurante a qualquer momento, não tendo a necessidade de ficar na lista de espera. Respira fundo, se preparando mentalmente para interpretar a mulher de negócios implacável, por mais que sentisse vontade de dar meia volta e passar o resto do dia sozinha em casa com suas memórias, sua carreira não podia sofrer grandes descuidos, não agora quando era tudo o que lhe restava. Repete a estratégia que seria usada nesta reunião em silêncio, e decide-se por entrar no restaurante de uma vez e enfrentar o que seria mais uma longa transação. Cumprimenta com a cabeça os dois funcionários que abrem as portas a ela, e rapidamente os ruídos de talheres e pessoas conversando em diversos tons invadem seus ouvidos.

"Senhora Haven, é um prazer tê-la conosco nesta tarde." Diz o maître ao se aproximar, dando-a um sorriso simpático. "O seu convidado já lhe aguarda na mesa."

Jennifer retribui o sorriso, observando o agitado restaurante por cima do ombro do homem mais velho. "Excelente. Qualquer coisa consumida por ele deve ser colocada na conta da agência. E, por favor, sirva-me um gim-tônica." Desfaz os botões de seu blazer branco, passando ao lado do empregado, se dirigindo a mesa em um canto mais quieto do local.

"Sim, senhora." O maître volta a sua bancada, pegando dois menus, antes de se apressar em segui-la. Ao ver um garçom andando desocupado, murmura para ele fazer o pedido do drink ao barman e servi-lo o mais rápido possível.

"Senhor Webber, é um prazer vê-lo novamente." Declara a publicitária ao chegar à mesa. O empresário se levanta educadamente, oferecendo-a a mão para um aperto, que ela aceita em um confiante gesto. "Perdoe-me pelo meu atraso, surgiram alguns imprevistos no caminho." Toma o assento de frente ao cliente, repousando o antebraço sobre o vidro da mesa coberto por uma longa toalha branca.

"Gostaria de lhe dizer o mesmo, Haven, mas só irei descobrir no momento em que me revelar quanto essa publicidade vai me custar." Joe Webber, um velho empresário no ramo da agricultura, ri de sua própria fala como se fosse uma piada engraçada. Pressiona suas costas contra o encosto da cadeira, alcançando por sua taça de licor quase vazia. "E não se preocupe pelo atraso, estava por aqui perto e acabei chegando alguns minutos mais cedo, o que me deu a oportunidade de familiarizar com o belo bar deles." Gesticula com a cabeça em direção ao mencionado bar, cheio de bebidas demasiadamente caras com nomes difíceis de pronunciar.

"É um bar admirável, não é mesmo? Particularmente, adoro o whisky da casa, é um dos melhores que já tomei. " Comenta Jennifer, nem um pouco interessada no assunto, apenas desejando que pudessem começar a negociação imediatamente. O maître discretamente deposita o cardápio a sua frente, o que ela reconhece com um meio sorriso de lábios fechados, mantendo a atenção no empresário ao dizer. "E a campanha vai lhe custar menos do que pensa."

Ele repousa o braço sobre a cadeira vaga ao seu lado, olhando-a com certa curiosidade, como se analisasse a situação. Depois de alguns segundos, ao parecer chegar a uma conclusão, desvia a atenção ao maître. "Se vou ter que escutá-la falar sobre gastar meu dinheiro, usando palavras longas e com significados desconhecidos por mim, preciso ter o estômago cheio." O funcionário do restaurante dá uma pequena risada com as bochechas levemente coradas, enquanto a publicitária acostumada com este tipo de comportamento por parte de clientes mais velhos, simplesmente o ignora. Joe Webber era o exemplo perfeito dos homens ricos de idade mais avançada, miseráveis e piadistas. O senhor de cabelos grisalhos abre o cardápio, fazendo um som com a garganta. "Então, que prato você me recomenda?"

"De entrada, recomendo nossas asas de frango fritas ao molho da casa, que é uma verdadeira delicia. E ao prato principal, temos a carne tradicional, com pão especial, batatas francesas e anéis de cebola." O maître ajeita seus óculos sobre o nariz, portando uma expressão divertida ao Joe fazer outro som com a garganta, concordando com sua sugestão. Alcança por seu mini tablet no bolso da calça de uniforme, a fim de anotar o pedido.

"Eu vou querer o mesmo de sempre, Frances." Declara Jennifer, referindo-se ao homem por seu primeiro nome, este assente e após escrever algo no eletrônico, pede licença e se retira. Dissimulando um aliviado suspiro, pois finalmente poderiam começar a discutir sobre o trabalho, move-se sobre o assento, buscando uma posição mais confortável. Um agradável cheiro invade o ambiente e pelo canto de seus olhos, nota um garçom passar carregando uma bandeja com fondue de queijo. Pensando que isto lhe resultaria em uma excelente abertura à negociação, pergunta. "Você já considerou ter seu queijo em restaurantes ao redor do país?"

O empresário coça a barba branca por fazer. "Já pensei nesta possibilidade, até tentei fechar acordo com um chefe de cozinha na minha cidade, mas não deu certo."

"Se tiver interesse, podemos tentar com um chefe daqui de Toronto." Faz uma pequena pausa, deixando que absorvesse suas palavras antes de continuar, tendo cuidado para manter uma linguagem simples. "Poderíamos escolher um chefe que possui um nome reconhecido e um restaurante popular, ofereceríamos um bom acordo e ele usaria seus produtos em todos os pratos, literalmente colocando seu queijo na boca do povo." Um garçom chega com sua bebida e o agradece em um murmuro. "Sua campanha é o meu tipo favorito, pois permite uma criatividade maior que as outras, afinal não temos um público limitado. Podemos brincar com diferentes estilos sem temer colocar a marca em risco, e a nossa ideia principal é utilizar toda diversidade possível, colocando banners de pessoas que representem nossa verdadeira sociedade espalhados ao redor da cidade, incentivando a consumirem o seu queijo, queremos associar sua marca com a ideia de uma grande família descolada, que a cada mordida os consumidores possam sentir conforto e prazer." Dá um gole em seu drink, permitindo-se apreciar o sabor por um breve instante, sentindo o atento olhar do homem sobre ela. Solta um leve suspiro contente, tinha o seu cliente exatamente onde o queria; intrigado por suas ideias. "Também pensamos em colocar algum youtuber nas redes sociais e na televisão recomendando seu saboroso queijo. Hoje, vivemos em um mundo onde youtubers são verdadeiros influenciadores, portanto poderíamos atrair milhares de pessoas através destes. Tudo que devemos fazer é conseguir alguém que seja dono de um canal de vídeos de culinária, o levamos a sua fazenda para gravar um ou dois vídeos, mostrando todo o processo pelo qual o queijo Webber passa além de dar dicas de pratos que possam ser feitos com o produto. Seria uma campanha de muito sucesso e o único que deve fazer é me dar a luz verde para que possamos iniciá-la o quanto antes."

Joe permanece em silêncio por alguns segundos, portando uma séria expressão facial, refletindo sobre o que lhe fora dito. Levanta a taça aos seus lábios, virando o resto do licor e em seguida, dizendo. "Realmente, é uma excelente ideia, mas seria uma campanha muito grande e não sei se estou disposto a pagar o valor que isso me custaria."

"Webber, você quer ser o fornecedor número um do país, então deve investir dinheiro para que seus planos se concretizem." Responde, movendo a um lado o guardanapo perfeitamente dobrado.

O homem junta as mãos sobre a mesa, em um gesto calculado. "Estamos falando de quanto?"

Jennifer dá outro gole em sua bebida, fazendo o cliente esperar pela resposta. Uma forma de demonstrar controle sobre a situação. Balança o copo vagarosamente, escutando os cubos de gelo bater contra o cristal deste. "Novecentos mil dólares."

Franzindo o cenho, o empresário assobia pasmo. "Creio que não consigo pagar uma quantia dessas. É muito alto para uma campanha publicitária."

Inclinando-se para frente, revela em um tom de voz totalmente profissional. "Senhor Webber, se me permite lembrá-lo, sua marca está há anos no mercado local e já tem um bom número de consumidores, mas se quer aumentá-lo, se deseja atingir níveis nacionais, deve estar preparado para arcar com os custos." O que ele sem sombra de dúvidas era capaz de fazer, uma vez que as vacas mais caras do país pertenciam a ele, mas como todos os outros homens ricos, agia como se o preço que pedia fosse um absurdo e realmente fosse lhe doer ao pagar por este. "Deve investir em uma boa campanha que possa colocá-lo no topo e é exatamente isso que estou lhe oferecendo..." Se interrompe ao perceber pelo canto de seus olhos uma mulher alta parada há alguns metros de distância, conversando com o maître amigavelmente. Seu ritmo cardíaco involuntariamente acelera, sua mente se esvazia, fazendo-a sentir como se fosse apenas uma visão de um sonho ou uma realidade alternativa. Madeleine estava no restaurante. Após dias pensando que não a veria por um bom tempo, chegava a ser ridícula tamanha felicidade e alívio que se espalhavam por todo seu ser ao vê-la há poucos passos de onde se encontrava. Passa a língua entre os lábios, recusando-se a piscar com medo que a perdesse de vista, que de alguma forma evaporasse no ar. Necessitava falar com ela, urgentemente, escutar sua voz, sentir seu cheiro, saber como estava e se havia sentido sua falta. "Vamos fazer o seguinte, tome as próximas horas para pensar sobre minha proposta, aproveite o almoço, peça mais alguns drinques tudo por conta da agência e quando tiver uma resposta entre em contato com meu assistente." Apressa-se em encerrar esta reunião, não se importando nem um pouco com o fato de não estar agindo como uma experiente profissional ou que pudesse perder o cliente. "Agora, se o senhor me desculpar, há um assunto que precisa da minha atenção imediata." Se levanta, despedindo-se do desentendido empresário com outro aperto de mãos, em seguida indo em direção a sua esposa com passos apressados.

Aproxima-se no mesmo momento em que Madeleine se senta ao redor de uma mesa localizada no meio do restaurante. Inclusive com o blazer, seu corpo se arrepia ao escutar a voz de sua mulher agradecendo ao maître por algo. Engole a saliva, evitando analisar o repentino nervosismo que a invade. Mais parecia uma adolescente com uma crush do que uma séria mulher prestes a ter uma conversa com sua esposa. Aperta a mandíbula, dizendo a si mesma para se controlar, e logo faz sua presença ser notada. "Que surpresa agradável." Olha diretamente aos olhos verdes escuros da modelo. "Olá Maddie, não sabia que você estaria aqui hoje, devia ter me avisado e eu colocaria a mesa da família a sua disposição." Diz honestamente, remarcaria qualquer reunião que tivesse no restaurante, só pela oportunidade de ver sua esposa na mesa reservada aos Haven.

Tentando ao máximo disfarçar a surpresa ao ver a sua ex, Madeleine a oferece um pequeno sorriso, sofrendo o familiar aperto em seu estômago. Os últimos dias não haviam sido nada fáceis, não conseguira parar de pensar na expressão facial de Jennifer ao sair de seu escritório. Tudo que quisera fora confortá-la, dizê-la quanto a amava e que tudo ficaria bem, mas sabia que não deveria fazê-lo ou estaria indo contra suas próprias palavras, afinal a dissera um milhão de vezes que era hora de seguir em frente, assim que com um esforço tremendo saíra do escritório sem olhar para trás, disposta a finalmente viver seus sonhos. "Não era necessário, Jennifer." Prefere não mencionar como não seria mais uma Haven em questão de semanas, portanto não lhe parecia adequado utilizar a mesa da família.

Assentindo com a cabeça, a publicitária pressiona os lábios com força, até se tornarem brancos. Queria envolvê-la em seus braços, beijá-la até que o ar fosse extremamente necessário, mas não sabia como agir perante a sua própria esposa. Havia uma grande tensão no ar, uma distância emocional entre elas que mesmo tão perto, sentia como se estivessem em mundos separados. Ao ouvir um murmuro, descobre que a modelo estava acompanhada por duas mulheres sentadas no outro lado da mesa. "Olá Caroline, como vai?" Cumprimenta a melhor amiga de Maddie, que a responde com apenas um sério olhar. Dizer que não era a pessoa favorita da fiel e protetora Caroline no momento, era um eufemismo gigantesco. Desvia a atenção a segunda e desconhecida mulher, oferecendo-a sua mão direita para um aperto. "Acredito que não nos conhecemos, sou Jennifer Haven, esposa da Madeleine." Fica a espera de sua mulher corrigi-la e quando isto não acontece se surpreende. Embora poucos soubessem do processo do divórcio, a separação infelizmente era algo público.

"Oh, realmente não nos conhecemos, mas já ouvi falar muito sobre você, senhora Haven. Sou Pamela Forlan." Declara a jovem loira, sorrindo simpática.

"Coisas boas; espero. E é um prazer conhecê-la." Alterna o olhar entre sua esposa e Pamela, arqueando uma sobrancelha, curiosa. "Como conheceu a minha Maddie?" Pelo físico da garota, Jennifer deduzia que também fosse uma modelo. Ao ter os olhos de sua esposa sobre ela, ajeita a postura discretamente, repousando a mão esquerda sobre o vidro da mesa, fazendo com que sua aliança ficasse visível. Era uma maneira silenciosa de relembrá-la que não havia desistido delas.

"Igualmente, e não se preocupe, eu só ouvi coisas boas sobre você. Você é muito admirada em nosso meio, quem não quer trabalhar com a melhor publicitária do país?" Comenta, não escondendo o entusiasmo por falar com Jennifer. Só as melhores conseguiam trabalhar com a famosa publicitária, e embora estivesse na carreira há anos e se considerasse uma boa modelo, nunca nem chegara perto de ser cogitada para estrelar em uma campanha feita pela agência Haven. "E conheci Madeleine pelo trabalho. Estamos fazemos a campanha da nova coleção de lingeries da Sarah Carter."

Franzindo o cenho, Jennifer sente sua mandíbula tensionar e fecha os punhos de forma com que as unhas deixassem marcas em suas mãos, embora este pedaço de informação parecesse algo pequeno e insignificante a alguns, para ela possuía um terrível poder. Já havia começado... Já estava sendo excluída da vida de Madeleine, não sabendo das mudanças e de seus planos, se transformando em seu passado. Respira, deixando que o ar chegasse com certa dificuldade em seus pulmões. "Eu não sabia que você estava fazendo esta campanha." Mantém a atenção em sua mulher. Sarah Carter era dona de uma famosa marca de lingerie, competindo diretamente com Victoria's Secret, e havia tentado lhe contratar diversas vezes para fazer as propagandas da marca, mas Jennifer nunca se interessara pela conta, recusando cada uma das propostas. Ah, como se arrependia disto agora, se tivesse aceitado poderia estar passando mais tempo com sua esposa. Coça a nuca, preocupada, e ignorando o fato de que mesmo com uma cadeira vazia ao seu lado, Madeleine não a convidara para se juntar a elas ou ao menos fizera um esforço para conversar com ela, puxa o assento e o ocupa sem pensar duas vezes.

A modelo lança um nervoso olhar a publicitária, pedindo silenciosamente para que não começasse uma discussão sobre o assunto, afinal somente as pessoas mais próximas sabiam de seus planos. "É, Sarah me convenceu a fazê-la." A mencionada e ela se conheciam há anos, assim que decidira fazer desta campanha àquela que seria sua despedida do mundo da moda por tempo indeterminado. Ajeita-se na cadeira, mordendo o lábio inferior ao sentir o calor que emanava do corpo próximo a ela. Antes que pensamentos sobre o passado pudessem invadir sua mente, os bloqueia, desviando o foco a raiva que crescia dentro de si. Jennifer não podia simplesmente impor sua presença como se nada houvesse ocorrido há dois dias, quando tentava seguir adiante, se adaptar a esta nova vida. "Você não tem num uma reunião para comparecer? Uma ligação para fazer?" O melhor a ambas seria manter a distância, não se verem por um tempo ou seu coração nunca se recuperaria.

"Acabei de encerrar a minha reunião com Joe Webber, e a minha próxima será daqui uma hora." Gesticula com as mãos, tirando importância do assunto. Não deixa de observar o tom de voz de sua esposa, que parecia incomodada por ela estar ali. Era como se houvesse se tornado em uma estranha para Madeleine, e não havia nada mais triste do que duas pessoas que um dia chegaram a significar tudo uma a outra, passarem a agir como desconhecidas. Tinha a sensação que seu coração estava sendo quebrado uma vez mais, o que era impossível quando já convivia apenas com seus destroços. Olha rapidamente ao redor da mesa, sem realmente prestar atenção no que fazia antes de girar seu corpo em direção a sua mulher. Esta poderia muito bem ser a única chance que teria para se expressar e não poderia desperdiçá-la. "E o único lugar em que quero estar é ao seu lado, Madeleine."

"Que romântica." Ironiza Caroline, uma mulher negra com mais de trinta anos, enrolando um dos cachos de seu afro na ponta do dedo. Apesar de que considerara Jennifer uma de suas amigas mais próximas por alguns anos, esta amizade terminara no momento em que Madeleine, sua melhor amiga desde a infância, batera na porta de sua casa aos prantos, revelando suas intenções de pedir o divórcio.

"Caroline!" A modelo a reprime com uma séria expressão.

"Está tudo bem, Maddie." Jennifer dá um meio sorriso sem graça, hesitantemente alcançando pela mão direita de sua esposa descansada sobre a mesa. Ao tocá-la pela primeira vez em dias, que mais aparentavam como décadas, sente uma calma estender-se por suas veias, aquecendo-a e lhe dando forças. "Mereço esse e qualquer comentário que Caroline faça sobre mim. Não fui a melhor esposa, e com certeza, não fui o que você merecia, mas eu gostaria de mudar isso se você me der uma chance." Limpa a garganta ao sua voz soar rouca.

Retirando sua mão como se houvesse levado um choque elétrico, Madeleine respira fundo, controlando as emoções que ameaçavam levar as paredes que havia erguido em volta de si. Como Jennifer ousa a humilhá-la desta forma, brincando com seus sentimentos, será que não podia ver como lhe causava dor a cada palavra que dizia ou a cada momento que passava ao seu lado?! Ela não merecia ao menos a chance de tentar ser feliz agora e finalmente conquistar o que sonhava?! Discretamente, deposita as mãos sobre seu ventre, acariciando-o com o dedo polegar num gesto involuntário, pensando que no final tudo valeria a pena, mesmo que resultasse com seu coração dividido. "Jennifer, não é o momento ou local para falarmos sobre isso."

"Ok. Então, me diga que vamos conversar depois?!" Sai entre uma pergunta e afirmação. Imploraria de joelhos se fosse necessário.

"Eu acho que já falamos tudo que devíamos." Nada que a outra pudesse lhe falar mudaria sua decisão, era tarde demais. Não havia volta. "Eu disse tudo o que tinha para dizer." Suas bochechas se coram ao ter o atento olhar de sua melhor amiga sobre elas. Abaixa à cabeça, fingindo grande interesse no guardanapo posto em cima da mesa, a última coisa que queria era que presenciassem o que Jennifer e ela se tornaram.

"Maddie, apenas me escute..." É interrompida por sua esposa.

"Acho que é hora de você ir, Jennifer. Sua reunião começará em breve, não é mesmo?" Se esforça para manter seu tom educado, desviando a atenção à mencionada.

"Eu... Você tem razão." Diz, não dissimulando sua expressão desolada. Gostaria de ficar, mas não iria tentar a sorte, não agora que Madeleine claramente não a queria por perto. Levanta-se, dando um pesado suspiro. "Foi um prazer conhecê-la, Pamela. E foi bom vê-la novamente, Caroline." Ajeita o blazer, abotoando-o antes de encontrar com o olhar de sua esposa. "Até mais, Maddie. Oh, e por sinal, eu ainda não disse tudo que o tinha para dizer." Entretanto, o faria, em breve. Sai do restaurante, sentindo o peso que havia em seus ombros ficar mais leve. Durante meses dera espaço a Madeleine, considerando que seria o melhor a se fazer, mas não mais. Iria lutar por sua esposa, por seu casamento com todas suas forças. Era hora de deixar todo orgulho de lado e mudar suas prioridades, demonstrar a Madeleine o amor que sentia, não só com palavras, mas também com atos, era hora de fazer por merecer.

...

Entrando no famoso estúdio fotográfico associado à marca Carter, a primeira coisa que a publicitária observa são as pessoas andando de um lado ao outro, carregando peças do vestuário e do cenário com agilidade. A segunda é o grupo de mulheres altas e extremamente magras num canto próximo ao que deduzia ser a sala de maquiagem. Infelizmente, nenhuma destas era Madeleine. Morde o canto de seu lábio inferior, permanecendo situada próxima a porta de entrada, certificando-se de que sua esposa não estava no piso principal, o que significava que só podia estar se trocando ou se maquiando. Pressiona suas costas contra uma parede, ignorando os curiosos olhares que recebia por parte de alguns integrantes da equipe de produção.

No dia anterior, ao planejar o que faria para provar o seu amor, decidira aparecer de surpresa na sessão de fotos de sua esposa, pensando que seria uma boa oportunidade para vê-la e convidá-la para passarem um tempo juntas. O mais difícil fora descobrir qual estúdio usariam, mas não tomara mais que algumas ligações a conhecidos para saber o nome do fotografo encarregado, o local e horário em que Madeleine seria fotografada. Não tinha vergonha em admitir que um dos benefícios de ser uma Haven era que em somente mencionar seu sobrenome portas se abriam, literalmente, e neste momento utilizaria todas as vantagens que tinha para salvar seu casamento.

"Precisamos trocar esta luz." Grito o encarregado pelas fotos, aproximando-se do cenário com uma modelo seguindo-o. Antes mesmo de ver sua face, Jennifer sabia que a modelo usando um lingerie sensual de renda vermelha, era sua esposa. Reconheceria este corpo escultural em qualquer lugar, até no escuro, afinal passara horas memorizando-o. Engole a saliva com certa dificuldade ao sentir sua garganta seca, ao mesmo tempo em que estuda a modelo da cabeça aos pés, notando cada detalhe. Haviam cacheado o longo cabelo escuro de Madeleine e penteado alguns fios para o lado, dando-a um look bagunçado e extremamente sexy. Sua maquiagem era leve, mal parecia que tivesse usando alguma. Sua pele estava ainda mais bronzeada, o que destacava a cor das peças íntimas. Uma música de rock pesado começa a tocar num volume alto e Jennifer leva um susto, se afastando da parede e constatando que nesta estava localizada o alto-falante do som.

"Desculpe por isso, Octavio tem uma seleção de músicas um tanto peculiar." Comenta uma mulher mais velha ao se posicionar ao lado dela, referindo-se ao fotografo.

"Está tudo bem." Não se importando em manter uma conversa, não diz nada sobre como sabia das manias do fotógrafo, uma vez que trabalharam juntos numa campanha há alguns anos. Volta à atenção a sua esposa, que fazia algumas poses básicas ao fotografo andar ao seu redor, tirando fotos testes. Seu peito se contrai ao vê-la sorrir à câmera, provocando as lembranças do momento em que se conheceram a surgirem em sua mente. Desistiria de tudo que lhe pertencia se pudesse voltar àquele exato momento e revivê-lo, consertando seus erros para que hoje não estivesse parada neste lugar, se sentindo como uma estranha na vida de sua própria esposa. Só queria encontrar o seu caminho de volta para Madeleine, de volta para casa. Segura firme o buquê de tulipas em uma das mãos aos seus olhares se cruzarem e o sorriso que até então agraciava os lábios rosados de sua esposa desaparecer.

"Você é Jennifer Haven, não é mesmo? Esposa da Madeleine?" Pergunta a mesma mulher num tom amigável.

Ajeita a postura ao ver que Madeleine se dirigia a ela, em sua face havia uma expressão desentendida, como se não conseguisse nem imaginar o que Jennifer poderia estar fazendo ali. "Sim, sou a esposa da Madeleine." Declara com veemência no instante em que a mencionada se posiciona a sua frente.

"Se você nos der licença..." É o único que a modelo diz antes de alcançar pela manga do blazer de Jennifer e puxá-la a um canto mais afastado.

Dando um sorriso divertido, a publicitária cumprimenta o conhecido fotografo com a cabeça, disfarçando o fato de que com aquele simples toque, a sua esposa havia roubado o seu fôlego. "Isso não a traz memórias?" Questiona em um sussurro ao se posicionarem próximas a uma mesa com galões de água. "Nunca vou me esquecer do dia em que nos conhecemos, foi um dos melhores dias da minha –".

"O que você está fazendo aqui?" Madeleine a interrompe, soltando a peça de roupa da outra e cruzando os braços sobre seus seios cobertos pelo sutiã de renda. Por alguns segundos havia esquecido completamente de que estava usando somente a lingerie, e embora normalmente isso não lhe causasse timidez, se sentia diferente ao estar em frente a sua ex esposa após um ano sem terem qualquer contato íntimo. Suas bochechas se coram levemente e abaixa os braços num gesto hesitante, tentando e falhando miseravelmente em agir com certa naturalidade.

"Eu vim vê-la e trazer estas flores." Estende o braço com as tulipas coloridas. "Suas favoritas." Acrescenta ao Maddie não pegá-las. Lança um olhar incerto as flores, questionando se havia algo de errado. Ao não encontrar nada, franze o cenho. "Eu as comprei naquela floricultura perto da agência, a que você sempre parava a fim de comprar qualquer flor recomendada pela dona antes de ir para casa." Era apenas mais um dos hábitos de sua esposa que lhe fazia falta. Todas as vezes que Madeleine ia visitá-la na agência, na volta devia parar em mencionada floricultura e comprar um ramo de flores qualquer, alegando que daria vida, alegria e cor a casa delas. Nunca parara para pensar ou apreciar este ato atencioso de sua mulher, e hoje sabia que esta sempre tivera razão, o apartamento nunca lhe parecera tão descorado, sem vida. Era triste pensar, mas havia deixado escapar a única pessoa capaz de lhe trazer alegria.

"Ah..." Murmura a mais alta, sem saber o que realmente dizer. Jamais considerara que Jennifer fosse se lembrar disso, ainda por cima quando parecera algo tão insignificante à publicitária durante os anos juntas. Aceita as flores, sentindo seu acelerado batimento cardíaco em suas orelhas. "Obrigada. Elas são lindas." A oferece um meio sorriso, pressionando o buquê contra seu abdome. O delicado cheiro das tulipas invade o ar, lhe dando certo conforto enquanto seus pensamentos questionavam o comportamento da outra. Foram raras as vezes que Jennifer lhe surpreendera no trabalho, e a maioria destas ocorrera no começo do namoro ou ao ficarem noivas. Abaixa a cabeça, repetindo a si mesma que não importa, seja o que for que motivara esta atitude de Jennifer, deveria manter suas defesas altas e não deixá-la quebrá-las, deveria ser forte. "Eu tenho que ir... Obrigada pelas flores."

"Espere." Alcança pelo braço livre da modelo, fechando a mão em volta de seu pulso. Não esperara ter uma recepção calorosa, porém nada estava indo conforme o planejado, Madeleine estava se afastando, se reclusando a cada tentativa sua de se aproximar e isso lhe causava um enorme medo. Engole o nó que formava em sua garganta, dando um passo adiante. "Eu sinto sua falta, Maddie. Eu sinto falta da vida que tínhamos, sinto falta de estar com você." Estas eram as palavras mais sinceras que já havia dito, as sentia desde as profundezas de sua alma. "Eu te amo."

Prendendo a respiração, Madeleine vira o rosto a um dos lados, não querendo que Jennifer pudesse ler sua expressão. Houve uma época em que esta frase sozinha teria acalmado todas as suas dúvidas, pondo fim em qualquer pensamento negativo sobre seu casamento e pensamentos sobre um divórcio, salvando-a de tanto sofrimento. Reprime-se mentalmente a lágrimas se formarem em seus olhos, ofuscando sua visão. Já havia chorado o suficiente por este relacionamento. "Você está atrasada por um ano, Jennifer." Endurece seu semblante e evitando olhar a mulher a sua frente, dá por encerrada esta discussão. "Eu preciso ir, é o meu local de trabalho e tenho mais o que fazer." Se afasta.

"Que tal ao menos um almoço esta tarde? Poderíamos ir a seu restaurante preferido." Tenta mais uma vez, observando a modelo de costas a ela negar com a cabeça, lhe respondendo silenciosamente antes de sair em direção ao fotografo. Jennifer movimenta um músculo da mandíbula, perguntando-se quê demônios faria agora para reconquistar Madeleine.

...

"Maldito dia..." Murmura Jennifer, saindo de um edifício localizado na principal avenida da cidade. Havia passado as últimas três horas com antigos clientes, debatendo sobre estratégias para a nova campanha milionária da marca de refrigerantes, normalmente era uma conta fácil, uma vez que estes empresários eram agradáveis e realmente ouviam suas ideias, porém hoje não conseguira se concentrar em momento algum, tendo por diversas vezes que reler suas próprias anotações. Desde que deixara o estúdio fotográfico esta manhã, não conseguia manter o foco em outra coisa que não fosse a sua esposa. Não tinha a mínima noção do que deveria fazer para eliminar as barreiras que havia entre elas, nunca havia se sentido tão desconectada de Madeleine. Frustrada, leva as mãos as suas têmporas, massageando-as com certa força, buscando alívio a insuportável dor de cabeça.

Mesmo ainda estando em pleno horário comercial e tivesse outras reuniões, não voltaria ao escritório, decide. Não poderia voltar, só queria ir para casa e ficar sozinha com seus pensamentos. Distraída, não percebe a poça de água no meio da calçada e acaba pisando sobre esta, molhando seus sapatos italianos. Faz uma careta, sacudindo-os, praguejando em voz baixa. Logo, pega sua própria reflexão na vitrine da loja e passa a estudá-la. A imagem refletida era de uma mulher exausta com olheiras debaixo dos olhos, fios de cabelos bagunçados por conta das vezes que passara a mão entre eles durante toda a reunião, o blazer amarrotado e agora sua sandália de salto preta molhada. Movimenta a cabeça, dando um minúsculo sorriso sarcástico, era bom saber que aparentava do mesmo jeito que sentia, como uma verdadeira bagunça.

Ainda observando a vitrine, uma conhecida figura andando por um dos corredores da loja chama sua atenção. Arqueia uma sobrancelha, questionando se o seu cérebro estava pregando truques em seu pobre coração, mas ao esta figura se mover a outro lado, alcançando por uma peça de roupa, constata que era real. Respira aliviada, era como se a sorte estivesse tentando ajudá-la. Seus pés a carregam a loja antes que compreendesse o que estava se passando, e ao entrar nesta, rapidamente vai ao encontro de sua esposa. "Então nos encontramos outra vez." Diz, casualmente, apoiando-se em uma manequim.

Olhando-a de lado, Madeleine cessa sua procura por novas peças, apertando o tecido de uma blusa azul escura contra as palmas de suas mãos. "Você está me seguindo?"

"Não, a não ser que você gostaria que eu estivesse." Sorri de lado presunçosa, porém ao receber um olhar impaciente, desfaz seu sorriso e explica. "Estava em uma reunião por aqui perto e a vi pela vitrine." Dá de ombros, como se não fosse grande coisa. Em um piscar de olhos, Madeleine começa a andar em outra direção e é rápida em segui-la, mesmo que suas escorregadias sandálias dificultassem seus passos. Ao chegarem à seção de roupas infantis, Jennifer faz outra careta, mas tenta dissimulá-la, mantendo a atenção em sua esposa, que alcança por um macacão branco que parecia pertencer a uma boneca de tão pequeno que era. "Não acho que vá servir em você." Comenta numa voz que nem ela reconhecia, levando a mão a gola de sua camisa social e ajustando-a, como se esta de repente estivesse sufocando-a e precisasse de espaço para respirar. Não querendo ser lembrada de um dos principais motivos do divórcio, ignora todos os objetos ao seu redor e como estes a faziam se sentir.

A modelo acaricia o urso estampado na pequena roupa com certa veneração, sorrindo inconscientemente. Em alguns meses poderia ser o seu bebê usando um macacão como este, se concentrasse o bastante até poderia imaginar como seria segurá-lo entre seus braços, sentir aquele delicioso cheiro que só bebês tinham, escutar o seu choro ou risada, sabendo que finalmente havia realizado o maior sonho de sua vida. Solta o ar pela boca, colocando a roupa de volta no lugar, lutando contra todos os seus impulsos para não comprá-lo. Deveria esperar o procedimento ser feito e sua gravidez ser confirmada. E embora, soubesse que havia uma grande chance de não engravidar na primeira tentativa, Madeleine se mantinha positiva, acreditando que engravidaria logo na primeira e que em questão de poucos meses poderia começar a comprar o que quisesse ao bebê. Ao perceber que a publicitária assistia cada movimento seu, vira-se de frente a ela. "O que você quer Jennifer?"

Você de volta, é o que a publicitária diz em pensamentos, mas em voz alta sugere. "Por que não saímos para jantar esta noite?" Coça a nuca, nervosamente. "Poderíamos jantar naquele restaurante perto de casa e depois irmos dançar, seria como antes." No começo do namoro, quando Jennifer não sabia o que era viver longe de Madeleine e acreditava ser capaz de passar todas àquelas horas extras na agência e ainda ser uma parceira presente.

"Não, obrigada."

"Maddie..."

A mais alta ajeita a sacola da loja em um dos braços, em seguida colocando a mão livre na cintura. "Jennifer, acredito que não seja uma boa ideia um casal prestes a se divorciar sair por aí revivendo aquilo que fizeram no passado. Um divórcio não consiste em apenas papéis assinados dividindo nossos bens, consiste também em deixar o passado ir e aceitar que nem tudo pode ser salvo, não importa quanto você tente algumas pessoas simplesmente não estão destinadas a continuarem juntas." Uma das piores sensações nesse mundo é saber que fizera de tudo para demonstrar a alguém o que sente por eles, amando-os por completo, e no final não ser o bastante. Por meses Madeleine se debatera contra esta realidade até finalmente aceitá-la, sabendo que não estava em seu controle mudar o ocorrido e que embora lhe doesse profundamente, às vezes algumas coisas deviam mudar para algo melhor ser conquistado no futuro.

Movendo o corpo para trás, como se tivesse sido fisicamente agredida, a publicitária move os lábios sem emitir um som. Abaixa a cabeça, negando repetitivamente, sentia-se como se o mundo estivesse desmoronando sobre si, como fora tão estúpida a ponto de fazer Madeleine duvidar tanto de seu amor?! "Não diga isso... Você é o amor da minha vida, não existe outra pessoa nesse mundo pra mim, e eu sei que é nosso destino continuarmos juntas tanto quanto sei que o sol vai nascer amanhã." A modelo não a responde, somente volta a olhar as roupas, agindo como se não a escutasse. Fecha os olhos, apertando-os, odiando-se por ter causado aflição e incertezas em Madeleine sem ao menos perceber que o fazia. Passa as mãos por sua face, respirando pesadamente. Ao ver a calça jeans do manequim, engole a saliva, propondo. "Por que não fazemos o seguinte, já que estamos por aqui mesmo, o que acha de me ajudar a escolher algumas roupas? Preciso de um guarda roupa novo e você sempre teve um excelente gosto, além de que poderíamos aproveitar e conversar mais sobre a situação em que nos encontramos." Faria o que fosse necessário a fim de passar tempo ao lado de sua mulher e tentar se redimir.

Madeleine joga a bolsa de plástico com as roupas que havia pegado anteriormente sobre a superfície mais próxima e dá alguns passos a frente, colocando-se diante a sua ex, olhando-a com toda a raiva que sentia no momento. "Por que você simplesmente não pode me deixar em paz? Esse divórcio vai acontecer de um jeito ou outro, aceite de uma vez por todas, Jennifer, assim que pare de dizer a todos que é minha esposa e pare de me seguir por todos os lugares, agir como uma stalker não combina com você!" Sua voz se entrecorta no final e antes que a outra tentasse lhe responder, dá meia volta sobre suas pernas trêmulas, saindo da loja o mais rápido possível.

Paralisada no vazio corredor, Jennifer sente as lágrimas que havia segurado durante dias queimarem seus olhos e seu peito doer como se houvessem descarregado uma arma contra este. Porém, não importa o que acontecesse, não iria desistir...

Notas finais
Bem, após três meses sem uma atualização, por fim consegui voltar a escrever e postar a fic! Peço perdão a todas por esta demora, não foi algo intencional, passei por alguns problemas pessoais que acabaram me afastando da escrita, mas finalmente estou de volta! E durante este tempo em que estive ausente, pensei muito sobre esta estória e personagens, e decidi que merecem mais alguns capítulos, para realmente aprofundarmos nessa história de amor, assim que teremos cerca de oito capítulos agora. E o próximo cap será domingo que vem! Até mais. XxBre.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.