O pequeno paralisou e começou a tremer devido o medo que sentiu quando aquelas mãos começaram a apertar sua cintura. Ouviu uma risada vinda da pessoa que estava atrás.

- Eu não acredito! – Disse nervoso. – Você quase me matou de susto!

- Shhh... – tapou a boca do baixinho. – O outro padre já chegou e está na sala ao lado.

Ruki tirou a mão de Uruha de sua boca e se virou de frente para o garoto, dizendo:

- Eu posso saber o que você está fazendo aqui? – cochichou. – Quando eu me deitei você estava dormindo!

- Eu estava, mas aquele Shiroyama estava roncando tanto que acabou me acordando.

- Hum... Me diz o que você veio fazer aqui

- Eu vim procurar minha ficha.

- Sua ficha? Pra quê?

- Pra saber se eles têm algum endereço ou algo que indique onde o meu pai está.

- Uru você prometeu que...

- Eu não prometi nada a respeito disso, Taka.

- Por favor, não faça nada que...

Ruki não pôde concluir sua frase, porque alguém abriu a porta e acendeu a luz. Era o padre Francisco.

Uruha entrou embaixo da mesa com Ruki e levou o dedo indicador até os lábios, sinalizando que o menor deveria ficar quieto.

O padre sentou-se à mesa, e os garotos estavam encolhidos e apertados um de frente para o outro. Kouyou estava calmo e tranqüilo, ao contrário de seu amigo, que tinha os olhos arregalados e tremia.

- Cal-ma! – O lourinho disse, sem deixar sair o som da voz.

Ruki acenou com a cabeça rapidamente. O suor escorria por seu rosto e as gotas começaram a pingar no chão. O local estava tão abafado que o pequeno começou a se abanar com uma das mãos e Uruha se lembrou que Takanori também sofria de claustrofobia. Ele já estava imaginando que em poucos minutos o pequeno entraria em pânico e ambos se dariam muito mal.

Para a sorte dos garotos, o padre se levantou e saiu da sala.

Takashima saiu, puxando o amigo pelo braço.

- Calma, Ru-chan... Respira – pegou umas folhas de cima da mesa e começou a abanar seu amigo.

- Eu pensei... Que ia morrer ali embaixo.

- Está tudo bem agora, já passou – continuou abanando o garotinho.

Ruki, um pouco mais calmo, esfregou os olhos e deu um longo suspiro.

- Sente-se melhor? – Uruha perguntou um pouco preocupado.

- Acho que sim.

- Vamos até a cozinha, você precisar beber um copo d’água.

- Mas... E se aquele padre aparecer na cozinha?

- Vem logo, Taka – saiu arrastando o pequeno pelo pulso.

Entraram na cozinha, e o mais velho puxou uma cadeira e fez o mais novo se sentar. Pegou um copo no armário, colocou água e ofereceu para o baixinho, que bebeu todo o líquido em questão de segundos.

- Quer mais?

- Quero – respondeu, enxugando a boca com a manga da blusa.

A porta se abriu e o padre entrou. Olhou para os dois meninos e disse:

- Quer dizer que vocês são os novos garotos?

- Sim! – Ruki respondeu com um sorriso sincero no rosto, ao contrário de Kouyou, que não disse uma palavra, apenas encheu o copo do menino de água e entregou para ele.

O padre prestou atenção nos dois rapazinhos, observou Ruki por inteiro e depois Uruha. Seus olhos examinaram minuciosamente o corpo do garoto louro, principalmente as coxas que estavam expostas.

- O que estão fazendo aqui a essa hora? Vocês deveriam estar dormindo.

- Eu... Não me sentia muito bem e ele – apontou para Kouyou – me trouxe para beber um copo d’água.

- O que você está sentindo? – Tocou a testa do menor verificando se ele tinha febre.

- Às vezes eu me sinto mal sem motivo – respondeu e continuou falando. – Às vezes dói aqui – apontou para a garganta.

O padre tocou a garganta do pequeno delicadamente e disse:

- Pode ser uma infecção... Dói em algum outro lugar?

- Ah... Às vezes...

- Taka! – Uruha gritou, chamando a atenção dos dois e disse:

- Você não se sente bem, é melhor ir deitar. – Ele estava indignado pela forma descarada que o padre tocava seu amigo. Achou melhor levar o pequeno para o quarto antes que o padre o tocasse em algum lugar indevido e, sem sombra de dúvidas, Kouyou pegaria uma faca e cortaria todos os dedos do homem.

- Ele tem razão – padre Francisco disse, afagando os cabelos de Takanori. – Melhor ir para a cama.

O pequeno se levantou da cadeira e saiu da cozinha com o mais alto.

- Ele parece ser uma pessoa bem legal – Ruki falou, enquanto subia as escadas.

- Eu não confio nele... Você é muito bobo e ingênuo.

- Eu?

- Você mesmo, chibi. Será que você não percebeu quanta malícia ele tinha no olhar?

- Ah, Kou-chan... Você vê malícia em tudo. O padre só estava sendo atencioso.

- Meu Deus... – Suspirou, não acreditando no que tinha acabado de escutar. – Eu não quero você sozinho perto dele, entendeu?

- Mas...

- Sem “mas”. Eu não te quero perto desse cara!

- Tudo bem... – respondeu emburrado.

Entraram no quarto em silêncio. Reita estava acordado, com o cobertor cobrindo a cabeça. Ao perceber a porta abrir, descobriu o rosto até a altura dos olhos para poder ver o que estava acontecendo. A pouca luz que entrava pela vidraça foi o suficiente para que ele visse quando Kouyou deitou Ruki na cama, o cobriu e deu um selinho em seu lábio, lhe desejando boa noite. Após presenciar a cena, Akira cobriu seu rosto novamente.

*

Os garotos se levantaram às seis horas da manhã. Uruha e Ruki ainda estavam dormindo. Hiroto foi acordar o baixinho.

- Bom dia, Taka! – Chamou mais duas vezes.

- Bom... Dia – respondeu de olhos fechados.

- Levanta daí seu preguiçoso, a gente tem aula!

- Aula? – perguntou, abrindo os olhos um pouco espantado.

- Sim! Os professores são voluntários, mas nós podemos aprender bastante coisa.

- Isso é muito bom – disse sorrindo enquanto se levantava. – Eu só vou... – olhou para o lado e viu que Kouyou dormia de bruços – ...acordar o Kou-chan.

Hiroto olhou para o amigo um pouco receoso.

- Tem certeza de que vai acordá-lo? Ele é meio nervoso e...

- Não se preocupe, Hiro-chan... Kouyou é uma boa pessoa. – Se abaixou ao lado de Uruha, tocou seus cabelos e disse baixinho em seu ouvido:

- Hora de acordar!

O maior não se moveu, Ruki suspirou e disse:

- Depois ele diz que sou eu quem dorme feito uma pedra... – Olhou para Hiroto e sorriu, voltou sua atenção para Uruha e começou a cutucá-lo. Finalmente após algum tempo insistindo, o mais velho despertou.

- Ah, Taka, me dá um tempo... Me deixa em paz...

- Não, Uru. Você tem que se levantar porque nós vamos estudar.

- Huh? Estudar?

- Sim! Incrível, né? – Sorriu. – Agora levanta logo daí senão vamos chegar atrasados.

- Eu não vou...

- Como? Mas... Por quê?

- Porque eu não quero. Isso tudo é perda de tempo.

- Uru, por favor... Você me prometeu que ia mudar, mas parece que você não está cumprindo suas promessas – o pequeno disse, extremamente chateado.

- Maldita hora que eu fui te prometer tantas coisas – se levantou irritado, pegou uma toalha na gaveta e foi em direção ao banheiro. – Sai do caminho! – Empurrou Hiroto, que caiu em cima da cama. Ruki correu para ajudar o amigo a se levantar.

- Desculpa, Hiro. Ele é um pouquinho mal-humorado e na parte da manhã o mau-humor dele piora.

- Como você agüenta ser amigo dele?

Eu entendo os sentimentos do Kouyou e ele entende os meus... Nós nos ajudamos muito e talvez seja por isso que nos damos tão bem.

Uruha saiu do banheiro, jogou a toalha em Ruki e disse, ignorando a presença de Hiroto:

- Vamos descer.

Os três se sentaram à mesa.

- Bom dia! – O pequeno cumprimentou todos, que responderam, exceto Reita. Ruki resolveu cumprimentar o garoto individualmente.

- Bom dia, Akira!

O rapaz não respondeu, fingiu que não escutou e começou a puxar um assunto qualquer com Shou. Takanori, extremamente sem graça, abaixou a cabeça e ficou calado. Aoi, tentando ajudar o pequeno, chamou seu amigo.

- Reita!

- Que foi, Aoi?

- O garotinho ali falou com você – apontou para Ruki, que ergueu a cabeça e sorriu para o louro da faixinha. O jovem olhou o pequeno com indiferença e perguntou:

- O que você quer?

- Bom dia, Aki...

Akira respondeu:

- Bom dia... Está satisfeito agora?

Os olhos de Takanori se encheram de lágrimas. Humilhado e envergonhado, ele resolveu ficar quieto.

Kouyou suspirou profundamente, atraindo a atenção de todos os rapazes para sua pessoa, inclusive Reita. Uruha estava olhando para o moço de uma forma ameaçadora e Akira, que não se deixou intimidar, devolveu os olhares para o lourinho.

Ambos os padres estavam na sala principal, tratando de assuntos particulares e os meninos, percebendo que o clima estava tenso demais, resolveram fazer algo para evitar uma briga desnecessária.

- Acho melhor a gente ir pra aula, porque senão vamos nos atrasar – Miyavi disse, pegou Reita pelo braço e o levou para longe de Uruha.

*

Na sala de aula, os garotos estavam concentrados fazendo os exercícios. Ruki, por ser pequeno, se sentou em uma das primeiras carteiras. De repente, um papelzinho voou em sua mesa. O garoto, muito curioso, abiu o papel que, para sua surpresa, não havia nada escrito, apenas um coração desenhado. Olhou para trás na tentativa de descobrir quem havia jogado e a primeira pessoa que seus olhos viram foi Reita.

- Só pode ter sido ele – disse em voz baixa para si mesmo. As horas se passaram da forma mais tranqüila o possível. Kouyou, como sempre quieto, não conversava com ninguém, ao contrário de Ruki, que falava com todos. Às vezes o garoto se empolgava tanto que a professora tinha que lhe chamar a atenção.

Estudaram até a uma da tarde, a sala que usavam era a mesma que servia como sala de estudos religiosos para outras crianças aos sábados.

Voltaram para o orfanato, onde o almoço os esperava na mesa. Padre Manoel, como sempre muito atencioso, perguntou aos garotos:

- Como foi o primeiro dia de aula? – Olhou para Takashima, que nem se deu ao trabalho de responder.

O senhor, um pouco sem jeito, olhou para Ruki, que já estava com um belo sorriso no rosto esperando pela pergunta.

- Gostou da aula?

- Sim! – Respondeu com empolgação e começou a contar com detalhes sobre seu dia. Ruki estava tão eufórico que acabou contagiando os demais, que começaram a participar da conversa. Enquanto isso, Kouyou lançava olhares atravessados para Akira.

Almoçaram e terminaram seus deveres. Os garotos tinham o resto da tarde livre.

Takanori procurou por Reita e não o encontrou. Resolveu subir para tomar um banho e depois conversar com o padre.

Ao entrar no quarto, viu uma camiseta em cima de sua cama. O pequeno achou a roupa um pouco feia, porém não se importou. Tirou sua camisa e vestiu a que estava sobre o colchão. Correu até a frente do espelho e suspirou desapontado. – Ficou muito grande... – disse para si mesmo.

- Rei... – Saga entrou no quarto e viu que a peça de roupa que estava no corpo de Ruki era de Akira. Extremamente furioso, ele bateu a porta e foi para o quarto, onde se jogou na cama e jurou que destruiria a vida do baixinho.

O pequeno, sem entender a reação do rapaz, continuou se olhando no espelho, até que Suzuki saiu do banheiro apenas vestindo uma calça de moletom. Olhou para a cama procurando sua camiseta e se irritou quando viu que Ruki a estava vestindo.

- Quem deu permissão pra você vestir isso? – Perguntou, quase gritando.

- É sua?

- O que você acha?

- Eu juro que não sabia que era sua, Aki... Me desculpa.

- Tira isso agora! E pára de me chamar de Aki porque eu não tenho nenhum tipo de intimidade com você!

O garoto tirou a camiseta e cabisbaixo estendeu o braço com a peça de roupa na direção do maior, que tomou bruscamente a peça, assustando Ruki.

Olhou para o corpinho de Ruki por alguns segundos e se repreendeu em pensamento, porque sentiu um forte desejo de beijar aquela pele tão macia e branquinha. “Ele não faz o meu tipo... E o Saga de longe é muito mais gostoso” pensou, enquanto pegou a camisa de Ruki de cima da cama e a jogou em cima do garoto, ao mesmo tempo que o mandava embora do quarto.

- Sai daqui porque eu estou me vestindo.

- Mas você já está com as calças.

- Eu vou trocar de calças garoto! Desapareça daqui antes que eu te dê uns tapas na cara!

O pequeno respirou fundo tentando tomar coragem e disse:

- Depois que eu confessei meus sentimentos, você nunca mais foi o mesmo comigo...

- O que você quer dizer com isso?

- Que você tem medo de amar ou tem medo que alguém te ame.

- O que você está dizendo? Quem você pensa que é? – Gritou, visivelmente irritado. – Saia daqui!

Takanori obedeceu e saiu do quarto.

Akira, ao vestir a camiseta, sentiu o perfume do baixinho. Olhou para os lados, vendo se havia alguém no quarto e aspirou profundamente a peça de roupa para poder sentir o cheiro daquele garoto. Deitou-se na cama e se lembrou do dia em que Ruki se declarou. Fechou os olhos e tocou os lábios, ainda podia sentir o gosto daquele beijo... Sorriu ao se lembrar de como Takanori estava nervoso, as mãos suadas, o coração disparado, a expressão doce e o brilho nos olhos. “Será que ele me ama mesmo?” pensou e Saga novamente entrou no quarto.

- Reita?

- Taka?

Percebendo que havia trocado os nomes, Akira sorriu tentando disfarçar e Saga, profundamente chateado, mais uma vez jurou que ia acabar com a vida de Ruki.

- O que foi? – Reita perguntou ao rapaz, que sorriu amargamente.

- Eu vim te chamar pra dar uma volta lá fora e conversar um pouco.

- Conversar sobre o quê? – Perguntou. – A gente nem tem assunto.

- Não temos assunto porque você só me procura pra transar.

Akira coçou a cabeça e disse:

- Tudo bem, eu só vou trocar de roupa e nós vamos conversar um pouco.

- Te espero no meu quarto.

- Ok!

Quando Saga fechou a porta, Reita suspirou pesado. Achou melhor vestir outra coisa, não era uma boa idéia ficar andando por aí com o cheiro daquele baixinho.

Ruki abotoava a camisa enquanto descia as escadas chorando. Kouyou, que estava na sala vendo umas revistas, percebeu que o pequeno chorava e correu ao encontro do amigo. Perguntou preocupado.

- O que houve?

- Nada... – Sorriu. – Eu só estou um pouco triste.

- Triste por quê?

- Não é nada... – Sorriu. – Não se preocupe, Uru, hoje eu estou meio sensível.

- Foi aquele cara, não é? – Perguntou, apertando o punho. – Ele está no quarto?

- Não! – Disse assustado. – Ele não fez nada Uru!

- Me espere aqui – disse, subiu as escadas correndo e foi em direção ao quarto. Entrou e bateu a porta. Passou a chave e a jogou num canto. – Temos um assunto para resolver, Akira.


continua



Notas finais
^^