My Fallen Angel
2 Chapter Two
Notas iniciais
..my fallen angel..
Chapter Two
.Aquela manhã de domingo estava sendo tão boa quanto todas as manhãs dos outros cinco domingos que haviam se passado. Mesmo sendo dez horas da manhã, não havia muitas pessoas naquela praia de areia tão branca que quase me fazia crer que era puro sal. Teriam umas vinte pessoas ao longo daquela encosta e eu não podia estar mais feliz com a escolha daquele lugar para ser minha morada por sabe-se lá quantos anos.
Eu quase sentia meus dedos coçando por uma nova aventura no meu mundo fictício. Talvez no dia seguinte eu lembrasse de pegar o notebook para começar a dar asas à minha imaginação inacabável. Eu já estava até começando a ter ideias a respeito do que poderia escrever daquela vez.
Quem sabe dar uma continuação ao meu último livro? Hmm... Não... Eu matei o personagem principal... Ia ser um tanto... incoerente uma continuação se o narrador morreu “tragicamente”... Ou talvez isso pudesse ser interessante se narrado por um dos outros personagens... Ah, que se dane! Eu não era um bom “continuista”...
O surgimento do tópico “meu último romance” trouxe-me uma memória quase instantânea. Certo loiro que eu tinha como vizinho havia ficado com meu livro há pouco mais de um mês e até agora não havia me dito uma palavra a respeito dele. Não que nós dois tenhamos voltado a nos encontrar durante aquele tempo. Eu estava ocupado demais com os papeis do divórcio que conseguiram me alcançar e também havia as notícias que a mídia espalhou e, até mesmo, distorceu... O que não me surpreende, realmente.
De qualquer forma, no instante em que me lembrei daquele detalhe, minha mente começou a levantar inúmeras e improváveis hipóteses a respeito das possíveis coisas que o loiro poderia vir a me dizer sobre aquela obra tão distinta de todas as minhas outras. Eu apenas esperava que não tivesse ficado ruim a ponto dele não conseguir terminar de ler. Esse sempre era o meu medo supremo. Talvez meu único medo em vida...
Já ouvi de muitas pessoas sobre pensamentos de atração. O que eu nunca esperava era que, bem ali, bem naquele momento, o meu vizinho loiro fosse aparecer caminhando cabisbaixo em minha frente. Eu senti um aperto estranhamente incômodo beliscando meu coração com a visão deturpadora daquele homem caminhando choroso em meio à manhã.
Como se meu olhar fixo em sua figura o alertasse, pude ver as pérolas marejadas entrando em contato direto com as minhas arregaladas. Ele mordeu os lábios com força e, antes mesmo que eu pudesse ter qualquer outro pensamento coerente que não envolvesse o motivo de seu choro calado, ele apontou pra mim e veio até onde eu me encontrava, com passos duros. Ele estava com raiva?!
-Seu desgraçado! Imbecil! – e mesmo ele não tendo gritado aquelas palavras, pra mim havia sido como se ele o tivesse feito. Sim, aquelas palavras me atingiram como um soco, mesmo que eu não soubesse o motivo para aquilo – Como você pode?! – ele caiu de joelhos entre minhas pernas e eu me assustei com o toque tão suave de suas mãos fechadas em meu peito. Eu não sabia o que pensar daquelas atitudes tão... estranhas por parte dele – Você o matou... – a acusação baixinha ainda permanecia sem sentido para meus ouvidos. Assim que sua testa procurou por apoio em meu ombro, as frases começaram a se juntar com meus pensamentos anteriores e eu comecei a compreender – Eu me senti morrendo junto...
-Você não gostou? – inquiri doce, com um tom de leve desapontamento. Eu detestava saber que as pessoas não haviam gostado de algo que eu dispus de muito tempo e dedicação para finalizar.
-Amei, mas... Você o matou! Ele... ele... – o loiro fungou, usando as mãos para afastar as lágrimas que deveriam estar querendo escorrer. Eu não tive como não achar aquela cena digna de adoração – Ele podia ter sobrevivido, não é? E ainda assim você o matou!
-Ele não podia viver... Ele tinha uma doença mortal, lembra? Pode ser apenas um conto de fadas, mas ainda assim... eu estaria apelando demais se ele ficasse vivo.
-Ele merecia, Yuu! Ele lutou o livro inteiro pela vida! E ainda morre no final?! Você é cruel! – as duas bolitas, levemente tomadas por uma coloração avermelhada por culpa do choro recente, me acusavam sem dó. Eu lhe sorri.
-A vida é cruel, Kouyou... – segurei seus ombros com firmeza, frisando nosso contato visual – Na vida real ele teria morrido, assim como morreu em meu livro. Às vezes, mesmo que as pessoas lutem muito elas acabam não suportando... Apenas lembre que ele foi feliz em vida, mesmo tendo sofrido o tanto que sofreu... E tem pessoas que não sofrem nada e nunca conseguem ser felizes... Quem você acha que ficou mais satisfeito ao ver o fim da vida chegando, hum?
-Entendi... – ele soltou um suspiro, voltando a esfregar os olhos. Tive que morder meus lábios para conter o riso diante da infantilidade fofa que ele me exibia – Primeira vez que eu choro lendo algo... Você é um maldito...
-Ah, qual é! – bufei e o riso rouco que preencheu o ambiente ao meu redor quase me fez esquecer que ele me chamou de “maldito”. Quase... – Então... Você aprova ou não?
-Se você vender com um aviso para cardíacos... Eu pensei que fosse ter um ataque! Você sabe mesmo usar as palavras, Yuu... É uma dádiva... Eu não consigo ver você fazendo outra coisa além de escrever...
-Então é um sim! – exibi um largo sorriso e ele reforçou minha afirmação com um aceno – Acho que vou botar aqueles monstrinhos à venda...
-Monstrinhos mesmo! – ele voltou a exalar um suspiro um tanto longo, sentando de frente para mim. Os orbes amendoados fixos em suas mãos enterradas na areia fina. Fiquei intrigado com aquele silêncio repentino, mas minha coragem era tanta que tudo o que eu fiz foi ficar acompanhando o movimento de suas mãos – Sabe... Foi bom que... eu tenha terminado de ler hoje e... tenha botado um pouco da minha angústia pra fora... Então... Eu acho que devo agradecer por isso...
-Você não precisa agradecer por nada...
-Obrigado por aquele presente maravilhoso, Yuu... – ele ignorou meu pedido e as pérolas que já brilharam tanto em alegria agora brilhavam apenas por lágrimas. A agonia tão visível alcançou meus sentidos – Minha mulher vai ficar com a guarda do meu filho... Eu não sei o que fazer... – o desabafo repentino me surpreendendo ao mesmo tempo em que me dava a informação necessária a respeito da melancolia imensurável do meu vizinho loiro – Ela sequer sabe cozinhar! Aposto como o Gabriel vai ficar largado com uma babá... Mesmo que ela não trabalhe, nunca teve paciência com crianças... E ainda assim ela vai ficar com o meu menino... Esse mundo é tão injusto... – outro suspiro – Me diga... Algum dia... talvez... eu poderei ser feliz?
-Eu... – a esperança que ele depositou em minhas palavras futuras me fez pensar e repensar na resposta que eu poderia dar, mas eu sabia que não deveria mentir. Não pra ele... Não em uma situação delicada como aquela – Eu não sei... Sinceramente, a felicidade depende mais da gente do que podemos imaginar... Se eu contasse pra você o motivo da minha alegria ao acordar todas as manhãs às seis horas você me acharia louco!
-Me conta... Eu quero saber...
-Minhas janelas...
-Suas...? – a incompreensão no olhar profundo me arrancou um sorriso amplo.
-Sim... Minhas janelas... É por ter cada uma delas lá na minha sala... Por onde eu posso ver todo um mundo limitado, mas ainda assim encantador demais. Por onde os primeiros raios solares podem ser vistos junto da calmaria do mar... Nunca reparou em como é lindo de ver o sol nascendo na frente de nossas casas? É quase... romântico...
-Você é louco! – ele deixou aquela risada fácil demais dominar seu corpo e eu não pude deixar de acompanhar com minha própria risada que há meses eu não ouvia. Ela soava um tanto... diferente do que eu me lembrava.
-Não... Eu sou um romancista... Você devia tentar algum dia... Parar com tudo, não pensar em nada além da beleza exótica que pode existir num simples nascer de sol e ficar lá... apenas observando, em silêncio, sem qualquer pensamento nas dificuldades que você tem que enfrentar depois que o sol nascer por completo... Faz com que você se sinta calmo.
-Ah... Quem me dera ter todo esse tempo...
-Faça por meia hora... Qualquer dia... Quando se sentir triste, quando se sentir aborrecido, quando se sentir alegre... Não importa... Só... pare por um tempo e aproveite pra não pensar em nada além de como a combinação dos tons em meio as nuvens fica gracioso aos nossos olhos... Em como o balançar das árvores, lento, delicado, é reconfortante... Em como as ondas do mar chegam tão levianas para dar um selo rápido na beira da praia... Só um simples selar de lábios, gentil, carinhoso... Nada mais... Simples... Adorável...
-Você vê o mundo de um jeito que eu jamais vou conseguir... Principalmente na situação que eu me encontro agora...
-Tudo é possível... – murmurei, contente por ter sido o suficiente para prender a confusão daqueles olhos nos meus – Levanta... – pus-me em pé, fazendo um sinal para que ele me acompanhasse – Vem!
-O que você vai fazer?
-Vem! – circulei o pulso fino com minha mão, puxando-o para o toque gentil da água refrescante em nossos pés – Está sentindo?
-O que eu devia sentir?
-O toque... – parei em sua frente, meus polegares tocando de leve seus olhos fechados, meus outros dedos afogados nas mechas aloiradas – Está sentindo em como o mar é gentil com seus pés? Em como ele os envolve sem causar dor alguma... – minha voz sussurrada era tudo o que eu prestava atenção no momento, nela e no som doce do mar – É uma sensação ruim?
-Não...
-O mar é como a felicidade, Kouyou... Ele vai e vem... Vai e vem... Sempre em movimento, mas sempre ali em sua frente... Você sente quanto a felicidade chega de leve e acaricia seus pés, mas ela vai embora, não vai?
-Sempre... É passageira...
-Não, Kouyou... Ela sempre está ali, não é? O mar não tem para onde fugir, tem? E ainda assim, mesmo com ela não fugindo demora algum tempo até que volte a deliciar seus pés com aquela sensação doce, não é?
-Sim...
-Mantenha seus olhos fechados, por favor... – deixei minhas mãos fazerem um caminho lento, macio, percorrendo toda a pele alva do loiro até o encontro do calor ameno de suas mãos grandes – Você tem medo do mar, Kouyou?
-Não...
-Tem medo da felicidade?
-Não... Eu quero a felicidade.
-E por que você não a pega? – comecei a dar alguns passos de costas, seguindo em direção ao azul claro das águas do mar – Você está sentindo ela não está? Inundando seus pés... Preenchendo todo o espaço ao seu redor... Suas pernas... Sua cintura... E a carícia é sempre a mesma... Indo e vindo, mas agora ela está sempre ao seu redor... Afinal, só você pode extrair o máximo da sua vida... Abra os olhos... – sorri, indicando o mar azul a nossa volta – Essa é toda a sua vida... Toda a felicidade que você precisa está bem onde você pode alcançar...
“Nas pequenas coisas, como na vidraça da minha casa que tem seu toque especial pra mim... Aquelas vidraças fazem parte de mim, da minha vida, eu extraio delas a visão maravilhosa que me acalma... Que me tranquiliza, mesmo quando meu dia foi estressante. Eu sempre vou ter aquele pedaço de felicidade pra mim... O mar é a nossa felicidade, Kouyou... Você não tem medo, você o quer... Você pode tocar... Pode deixar que ele lhe passe as sensações boas que você precisa...”
“Não são em todos os momentos que conseguimos ter forças para sermos felizes, mas podemos amenizar a dor ao lembrar que temos algo especial que sempre vai estar lá, mesmo que você não se lembre dele o tempo inteiro... E quando você não tiver forças o bastante para se lembrar de como fazer para um sorriso doce nascer no seu rosto, peça ajuda a um amigo... Ele pode fazer você lembrar onde foi que escondeu sua pequena parcela de felicidade diária... Mesmo que a resposta seja tão simples e óbvia...”
-Eu... não sei onde a escondi, Yuu...
-Quer um ombro amigo para tentar lembrar? Ou o que você precisa agora é um ombro onde largar toda a tristeza e abandoná-la? Quem sabe assim você não consegue pensar melhor onde você escondeu sua felicidade, hum?
-Você pode... me emprestar seu ombro? – o brilho lacrimejante das duas bolitas gentis me fez exibir um pequeno sorriso compreensivo, antes de abrir meus braços onde ele se acomodou confortavelmente, me segurando com força naquele amplexo doído. O som das ondas beijando a praia abafava os soluços incontidos do meu vizinho loiro.
-Você sabe que pode encontrar algum motivo que o faça sorrir todos os dias... É algo que só você pode encontrar... Procure com calma... Eu sei que você vai encontrar...
-Obrigado, Yuu... Por tudo... Você é... incrível... – os braços quentes dele voltaram a me apertar com força e eu me permiti o atrevimento de enroscar meus dedos em seus cabelos, enquanto minha outra mão percorria toda a extensão de suas costas cobertas por uma regata de tecido fino.
O choro baixo dele continuou, ininterrupto, por vários minutos seguidos. O mar levando-o embora.
Notas finais
Desculpem a demora, de boa... mas final de ano na UPF é pauleira nos alunos... #PE-U-TE-A-LASQUEIRA
Além da faculdade, semana retrasada eu estava doente e na passada tinha ANIMETCHÉ *----* então não consegui aparecer... mas agora finalmente pude postar LOL
Agradecimentos especiais, claro, aos linds que me deixaram reviews! *---* obrigada pelo apoio gente! sua opinião me deixou animada e avancei 2 chaps! LOL
Obrigada a todos e até o próximo!!
2O11, NOVEMBRO 27 @le_akita
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