My Dark Angel
44 Unexpected
Notas iniciais
Poxa vida,eu quase não tenho mais comentários, se vocês não ficam me perturbando pedindo "Carol, posta mais" eu esqueço daí.Mas enfim, obrigada a todos que tem a paciência de ler e comentar.
Espero que gostem.
Divirtam-se.
Beijos!
-Ai mãe. Senti sua falta. –disse chorosa, sentindo lágrimas arderem em meus olhos.
-Eu também, meu anjo. -declarou. –Calma, calma. Deixe-me te ver. –disse ela afastando meu corpo. –Olha só, não te vejo há alguns meses e já está tão diferente. O casamento mudou muita coisa, por aqui, hein?! –disse ela e eu ri nasalada.
Comemorações e uma calorosa recepção a parte eu e mamãe já estávamos sentadas ao sofá, deliciando-nos com os fatos que só então tivera a chance de conta-la sobre o casamento e a lua-de-mel. Mas haviam perguntas me corroendo, perguntas que ela ainda não me respondera. Primeiro: Onde estava papai? Ele nunca permitiria que ela viajasse sozinha. Segundo: O que acontecera com sua aparência? Estava tão diferente. Terceiro: Por que estava evitando tanto me contar sobre o que estava acontecendo?
Eu não conseguiria achar tantas respostas sozinhas e estava na hora de cobra-las.
-Agora a senhora já pode me dizer o que está acontecendo. Por que papai não está aqui? O que realmente aconteceu? Ele nunca a deixaria viajar sozinha. –murmurei.
-Querida...Há muito a contar e se quiser mesmo saber espero que escute com atenção. –ela disse e eu assenti. –Logo depois que ajudei Axl a fugir com você, depois que eu e seu pai voltamos para o Brasil tudo se tornou mais complicado. Devo dizer insuportável. As brigas pioraram e tudo aquilo me enjoara. Em menos de um mês eu colhi todas as minhas forças. Estava farta.
“Acho que nunca te contei, mas existe uma coisa que poucos sabem. O dinheiro que seu pai diz ter é meu. Foi herança de meu pai.
Seu avô era um homem muito, muito rico. Um italiano muito complicado de se entender. E todo aquele dinheiro nunca pode lhe comprar a delicadeza. Mas ainda assim, sua frieza e grosseria conseguiu roubar o coração de uma dançarina de cabaré. Ela era linda, jovem, magnifica. E seu avô já não mais podia negar: estava louco por aquela mulher.
Foi aos poucos em com muito sacrifício que ele venceu. Ela era tão jovem e ele um homem de mais de 40 anos. Logo casaram e as complicações vieram a partir daí. Ele a amava, mas não aceitava o que ela fazia, não aceitava que ela o continuasse depois do casamento, mas ela...Ah, ela o amava, porém não negava, era apaixonada por seu trabalho e homem nenhum a faria abandona-lo. Ela engravidou. Eu nasci. E seu avô nada mudou. Acho que sua avó levou aquele casamento com muito sacrifício por sete anos por minha causa. Mas não suportou, voltou ao cabaré e eu tive de ficar com meu pai.
Ele nem mesmo deixava que eu fosse visita-la, mas não podia impedir, eu amava minha mãe e estaria com ela onde quer que fosse.
Eu tinha nove anos quando seu avô morreu. Um enfarto. Eu era dona da herança grandiosa, mas ainda assim, acabei crescendo no meio de plumas e paetês. Eu amava o cabaré. Amava aquela vida. Sua vó me criou no meio daquelas meninas com roupas mínimas e luxuosas. Sonhava em ser uma delas um dia. Mesmo depois de mais velha ela nunca abandonou aquele lugar, a vida dela estava nos palcos. Quando meus 12 anos chegaram um incêndio tomou o cabaré onde sua vó trabalhava, no momento que estava fora. Ela fora uma das vitimas.
Fui criada por uma grande amiga dela que escapara com vida, que também não abandonara a vida de cabaré. Ela morreu quando em tinha 17 anos.
Eu era uma adolescente complicada. Uma eterna apaixonada por luzes e câmeras, glamour e fama, homens e sexo. Já tinha 18 anos e mais parecia uma locomotiva sem freio. Ninguém poderia me parar.
Em cima dos palcos conheci seu pai. Da mesma forma que minha mãe. Mas o ignorei desde então. As coisas estavam ficando complicadas quando ele me salvou de um abismo. Pensei em me matar, pondo-me a beira de uma ponte, foi quando vi alguém demonstrar que se importava comigo.
Eu casei com seu pai por amor. Já ele nunca me amou da mesma forma, amava sim ao meu dinheiro, aquele que poderia salvar a empresa que seus pais o deixaram antes de morrer. Mas eu estava sozinha e perdida, o que ele tinha para me oferecer já me bastava.
Eu sofri por muito tempo nas mãos de seu pai. Eu o amava e estava disposta a suportar tudo aquilo. Porque o amava, e ainda acreditava na sua mudança. Quando eu estava sem forças veio você. Uma benção de Deus para me salvar de todo aquele sofrimento. E eu suportei tudo por você. Mas depois de tantos anos até mesmo meu amor por Henrique se cansou.
Estava cansada de machucados que ele me fazia de todas as formas possíveis. Estava cansada de sustentar aquela imagem de esposa perfeita. De ser exibida como troféu. De não receber nenhum mérito pelo meu esforço. Estava cansada da humilhação.
Então eu simplesmente decidi que era hora de seguir minha vida e ele a atrasava já fazia muito tempo.
Tomei de volta tudo que era meu. Vendi minhas ações na empresa e tirei dele tudo que me pertencia. Abri minhas pastas que guardei as setes chaves e fui para Paris. Percorri os principais pontos da moda.
Eu tenho que confessar que tenho uma súbita paixão por moda e a muito tempo guardo desenhos que surgiram de minha imaginação. Ficaram maravilhados com o meu trabalho. E com tantas idas e vindas estou prestes a lançar uma marca. O desfile de estreia será em Milão e tudo já está a todo vapor. Vou realizar meu sonho.”
Em meus olhos, que observavam os de mamãe, brotaram lágrimas. A face procurando uma reação certa para esboçar, mas tudo que pude fazer fora abraça-la. Ela precisava disto. Eu via dentro de seus olhos que ainda estava destruída, relutando pela reconstrução, e daquela dor devastadora eu já provara antes.
Em seus orbes do castanho mais puro e límpido havia uma sombra de dor intensa, em suas palavras uma obscuridão mórbida, quase letais aos ouvidos de quem a ouvia, quase cegante aos olhos de quem observava as expressão profundas de sua face em dor extrema. E naquelas palavras me afundei, deparando-me com tantas lembranças de uma infância dolorosa da qual eu nunca me libertara por completo. Entretanto, devo dizer, que depois de tudo que ali ouvi, ressurgindo daquela enxurrada de informações e sentimentos, eu estava me desfazendo aos poucos daquelas correntes que me prendiam as marcas de uma infância conturbada no Brasil. Talvez aquelas perguntas nunca me permitiram tal ato, porém agora havia respostas concretas encaixando-se a elas com perfeição. Contudo, não era assim tão fácil apagar todas aquelas cicatrizes do passado, tudo que ouvi não era o bastante. Se é que aquilo era possível.
Concluí enfim que vivi uma mentira, uma mentira que criei a mim mesma. Mas se pensasse melhor, vivi o nada, pois nem mesmo mentira havia, nem mesmo eu sabia quem era, e tudo que acreditara pelo longo de minha vida sofrera uma grande modificação, e alguns casos, a estrutura fora gravemente abalada. Entretanto, estava decidida a enterrar todas aquelas memórias, distantes de mim, de forma que não mais me perturbassem; eu ficaria melhor sem elas, mesmo que aqueles momentos bons se esvaíssem junto a elas.
A garota de cabelos bronzes correu pelo jardim esverdeado naquela tarde de sol, em pleno outono. Feixes de luz crepitando em sua pele pálida, realçando um leve bronze que anunciava surgir pelas grandes bochechas. Os olhos azuis tomados pelo brilho, tão exultante quanto aquele sorriso de uma criança de 5 anos. Caiu aos braços da mãe, sem a preocupação de amassar seu lindo vestido florido. Coberta por uma nebulosidade, outra imagem se fez, abandonando vagamente a nuvem que o cobrira. Desta vez a visão turva enxergava a menina a brincar com suas bonecas de porcelana no quarto de paredes, pêssego, uma tonalidade tão morta e séria para acolher aquela menina tão viva e “livre”. Da porta surgiu a mãe, sorrindo-lhe carinhosamente, sentou-se ao chão, conferindo a todo momento a porta que deixara entreaberta, como se temesse a chegada de alguém. Fez companhia a menina, tão feliz quanto a própria garota que movimentava suas bonecas, tão alegre quanto antes, desta vez, pela presença da mãe, aquela que quase nunca pudera estar ao seu lado. Então muitas imagens confudiram-se em minha cabeça, imagens perdidas, de uma felicidade que um dia esqueci-me de recordar, a felicidade satisfatória e contagiante de uma criança ao lado de sua mãe. E poucos foram aqueles momentos, entretanto, não poderiam ter sido melhores. Nunca culparia Lara pelo tempo que não passamos juntas, eu entendia sua impossibilidade de rebater as ordens do homem que amava. Mas palavras me faltavam para agradecer sua presença ao meu lado mesmo quando ela estava em lágrimas, devastada. Seus sorrisos sinceros em meio a dor. Seus beijos de boa noite que nunca foram esquecidos, mesmo depois de uma grande briga com meu pai.
E eu ainda lembrava-me das pequenas mãos de uma criança inocente que lhe tocaram a face, secando suas lágrimas, no chão do quarto recém-bagunçado. Até mesmo neste momento ela me acolheu, na tentativa de não me permitir sentir dor ao vê-la daquela forma. Ela me protegeu mesmo machucada, mesmo ferida, só precisava de meu sorriso, e por mim foi capaz até mesmo de enfrentar o homem que amava, mesmo que isso significasse perde-lo. Aquele amor incondicional demonstrando ao longo dos anos me fazia crer que nunca estaria sozinha, que independente de onde estivesse, alguém estaria orando por mim com toda fé necessária para suplicar a Deus que secasse minhas lágrimas e preenchesse meu coração de alegria.
-Ainda não me contou como está sendo seus dias de recém-casada. –comentou. A essa altura lágrimas já haviam secados e o antigo clima de tensão abandonara a sala. Mas eu me calara desconfortável perante a pergunta e ela percebera.
-Bem... estamos felizes.
-Não minta, Lizzi. Não gosto que minta, querida. –disse dócil, curvando-se em minha direção. Analisei minhas pernas buscando palavras que lhe pudessem contar como estava sendo os últimos dias.
-Estamos brigando... –fiz silêncio, antes de prosseguir. –Estamos brigando quase todos os dias. As coisas não tem sido como imaginei. Discutimos muito. Axl tem um ciúme possessivo, ele me assusta em alguns momentos. Parece que ele é tomado por um ódio que o transforma. E o Axl que eu conheci some, se perde em algum lugar que eu não sei onde é. Mas depois disso tudo sempre acabamos nos reconciliando... na cama. É como se nossos corpos clamassem um pelo outro, não suportassem a distância, não conseguissem sentir raiva um do outro. E ele me mata toda vez que passa pela porta sem que eu saiba se ele vai voltar, mas às vezes eu mesma tenho de faze-lo. Preciso correr para os braços de Sarah e conta-la o que aconteceu, ouvi-la dizer algo e então voltar para casa e mais uma vez me entregar a ele, tão frágil quanto uma linha podre. -contei-a.
-E ele já te bateu? –perguntou. Intimidei-me em contar a verdade.
-Duas ou três vezes. –respondi. –Depois tudo que pensei foi em divórcio, mas eu não consigo viver sem ele, eu o amo mais do que a mim mesma.
-Que você o ama eu não tenho dúvidas. Basta ter a certeza de que ele sente o mesmo por você. Lizzi, eu sustentei um casamento, por anos, onde apenas eu sentia amor, e eu poderia ter me poupado de tudo que passei antes, mas eu amava seu pai, e hoje me arrependo de ter insistido permanecer tanto tempo ao lado de um homem que tudo que me deu em troca foi dor. Eu serei eternamente grata ao seu pai por duas coisas, por ter me salvado, e por ter me dado você, e eu nem sei o que seria de mim se você não tivesse nascido e renovado minhas esperanças. Mas eu não quero te ver sofrer da mesma forma que sofri. É difícil manter um relacionamento mesmo quando há amor de ambas as partes. Muitas vezes gênios fortes não permitem, por assim dizer. Confesso, que desde a primeira vez que vi Axl algo nele me lembrava seu pai, mas diferente de Henrique, ele transbordava em amor por você, e deixara claro, não em palavras, mas em atos que ele daria a vida se fosse para salvar a sua. Com essa certeza eu entreguei você nas mãos dele. Porém eu fiz isso com a certeza de que haveriam brigas, mas confiei no amor que vocês sentiam um pelo outro, tão forte e tão certo, como nunca imaginei existir, mas nem por um momento achei que não existiriam brigas, pois o que em Axl me lembrava seu pai era a personalidade forte, um gênio difícil de lidar, e você é como a calmaria das águas do mar em uma manhã de verão, a calmaria que eu tinha quando mais nova, mas que tantas dores e dificuldades me tiraram. É como se um pudesse suprir o outro.
“Não vai ser fácil Lizzi. Eu sei disso. Mas você tem uma maturidade que mal cabe em uma menina de 17 anos. Olhe por tudo que passou, Lizzi. E ainda está viva, está casada tão nova, muitas não teriam tido a mesma capacidade de enfrentar tudo que enfrentou desta forma. Se vale mesmo a pena, Lizzi, lute, lute por vocês dois, lute para fazer as coisas voltarem a ser como era antes, não deixe que o casamento estrague tudo. Vocês ainda se amam, mas esse amor pode não ser eterno se as coisas continuarem ruins.”
Ela me fez calar por alguns minutos, pensar com todas aquelas confusões que estavam escondidas debaixo do tapete desde quando mamãe chegou. Aquilo que fiz questão de esquecer depois de todas as brigas com Axl.
Mudamos de assunto, conversamos sobre bobagens, ainda trocando fatos, falando sobre coisas tolas e fúteis, a conversa que nunca tivemos, e mesmo por tanto tempo separadas não nos faltava assunto. Permitiu-me até mesmo ver alguns de seus desenhos recentes, era mesmo incrível seu trabalho, como nunca vira nada parecido antes.
-Quero te pedir uma coisa. –murmurou enquanto eu ainda tinha nas mãos os desenhos, que analisava deslumbrada.
-Hum.
-Quero que desfile para mim, vestindo a grife. Quero que se torne garota propaganda quando a grife for lançada no mercado.- disse ela e eu a encarei surpresa.
-Err...Mas, mãe, eu nem tenho perfil de modelo...Quer dizer, nem sou tão bonita quanto aquelas garotas, e alta, e nunca fiz isso. –indaguei e ela riu nasalada.
-Só pode estar brincando. Lizzi, você é linda. E eu não preciso de mais nada do que alguém que vá se encaixar com naturalidade a essas roupas. Ninguém melhor que você. E eu não vou aceitar um não como resposta.
Eu não podia recusar. Mesmo achando tudo aquilo louco. Mesmo odiando a fama que poderia vir junto aquilo, ser uma modelo que não se encaixa nos padrões. Odiando com todas as forças ser de alguma forma o centro das atenções. Era quase uma loucura. Mas eu a faria por quem tanto fez por mim.
-Tudo bem. Acho que posso fazer isso. –eu disse a vendo abrir um enorme sorriso e abraçando-me. E eu já podia imaginar a vermelhidão em minhas bochechas, o tremor em minhas pernas e o soco no estomago quando eu tivesse de atravessar uma passarela. Mas faria aquilo satisfação por minha mãe.
-Mas agora. –disse ela soltando-me de seus braços. –eu não esqueci-me que dia é hoje.
-Doze dias para o meu aniversário. –disse revirando os olhos.
-Você vai completar 18 anos, meu amor. –disse ela, alegre. – E eu não vou poder estar ao seu lado novamente. Mas eu trouce algo para compensar. – ela disse. Puxou sua grande bolsa e tirou de lá uma caixa.
-Ah mãe! Sabe que detesto presentes. –disse, recebendo em mãos a caixa vermelha com laço dourado. Abri delicadamente, tirando o papel fino que revelara uma caixinha de música reluzente. Era minha caixinha de música, aquela que perdera aos 12 anos, que participara de um sonho meu não havia muito tempo. Meus olhos arregalaram-se e meu queixo caiu-me. -É minha caixinha de música! –declarei. –Achei que tivesse perdido.
-Não. Seu pai se irritou com a música que ela tocava certa vez e quase a quebrou, a tomei dele prometendo que desaparecia com ela. Tive de tranca-la em meu armário. Quando abandonei a casa do Brasil eu a achei. Ainda estava em perfeito estado, talvez algum problema na hora de tocar. Aí eu levei a em um lugar que pudesse deixa-la nova outra vez e ficou perfeita. –explicou. Dei corda, vendo a bailarina girar junto a canção, a canção que muitas vezes embalou meu sono. Era incrível ouvi-la novamente.
-Obrigada mãe! –agradeci alegre, abraçando-a.
-Ah, te mais uma coisa. –disse ela, puxando novamente a bolsa. –Isso estava entre as suas coisas, acho que ia gostar de tê-lo de volta. –estendeu a mão que segurava meu diário, que já não via havia tempo.
-Ah, meu diário! –disse o tomando em mãos. –Quase me esquecera dele. Achei que não o fosse ver novamente.
-Achei no meu das suas coisas que foram para o Brasil. Sabia que gostaria de tê-lo de volta. –disse ela. –Sei que é errado, mas eu não resisti, tive de ver como foram todos os momentos que eu passei longe de você, aquilo que você não podia contar a mim e então escreveu nas páginas desse diário. –a culpa submergiu em sua voz. Suspirei.
-Não se preocupe com isso. Não há nada aqui que deveria esconder da senhora. São só palavras sobre alguns momentos da minha vida que eu não podia contar a ninguém. –murmurei.
-Foi doloroso ler algumas das primeiras páginas, tantas lágrimas transformada em palavras, você estava sozinha como eu um dia já estive, e essa era a dor que eu nunca poderia ter permitido que enfrentasse. Eu poderia ter te livrado disso antes, a culpa foi minha... –eu a interrompi.
-Não, mãe, por favor, não se culpe por isso. –supliquei, esticando minhas mãos até as dela, para então segura-las. –Você não teve culpa. Você o amava. Eu sei bem o que é isso, mãe. Por favor, não se culpe. Eu passei por momentos maravilhosos naquela casa, e as dores eu deixarei que saiam de mim um dia, eu conseguirei me livrar das marcas internas, uma hora. Só queria que a senhora fizesse o mesmo. –As lágrimas avançaram por seus olhos. –Você é tão nova e bonita, mãe. Tão cheia de vida, tão batalhadora. Olhe só onde chegou. Você enfrentou com honra todos os demônios que poderia enfrentar e olhe, está firme e forte. Você resistiu, mãe. É rica e independente, está se dedicando ao seu trabalho, você é talentosa, é guerreira, mãe. Você é meu anjo, e eu tenho orgulho de você. Mas agora, o melhor presente que pode me dar é se libertar do passado, papai vai ficar melhor sozinho, e não importa como esteja ele, o que importa é a sua felicidade. Por favor, se entregue a um novo amor, alguém que vai te amar da forma que papai não foi capaz, seu coração já passou tempo demais sofrendo. Abra-se a novidades mamãe, e você vai ter uma filha que te ama sempre que precisa, que vai fazer de tudo para ser ao menos um terço de tudo que foi para ela. –eu sorri para ela, cuja face já estava molhada por algumas lágrimas. Ela sorriu em retribuição, apertando mais forte minha mão e esticando os braços para me envolver em um abraço de agradecimento.
Quando se afastou, rimos sem um motivo. Ela secou as lágrimas, eu suspirei em felicidade, ao ver aquele sorriso estampar-se em seu rosto, sua risada trovoando pela sala. Eu me sentia em casa, vira uma felicidade abrindo os braços nela novamente.
-Ah, eu juro que não parei de suspirar quando li o começo da sua história com Axl. Formam um casal tão perfeito. Ai, a noite em que você torceu o pé e ele te levou para dentro no colo, a insistência dele em você, o presente de aniversário, as declarações de amor, Paris...Sim, você enganou seu pai direitinho, e a mim também. Li também a primeira noite de vocês dois, confesso que fiquei encantada. Eu podia jurar que ele era o homem que um dia sonhei para você. Até que chegássemos a um trecho, e esse eu acho que você lembra muito bem. Eu queria mata-lo quando li tudo aquilo, não gosto nem de lembrar, mas ainda assim, eu estava com raiva de mim mesma por ter a certeza que apesar de tudo ele te amava. E acho que eu deveria agradecer a Duff também. E correlação a ele, ainda sente algo? –perguntei e eu fechei o sorriso que abrira após os fatos que ele me lembrara. Fugi o olhar, fitando o chão.
-Acho que nunca senti nada de verdade por ele. Mas ainda assim, parece que tudo que tivemos, por mais que por pouco tempo, foi forte demais, sabe?! Eu ainda tremo quando estou perto dele, mas eu amo Axl, porém se não fosse ele, acho que teríamos sido felizes juntos. –respondi.
-Hmm...Ah, e como pude me esquecer, a música. Lembra o disco no apartamento? Tive a liberdade de pega-lo para mim. Sweet Child O’mine é encantadora, é a declaração de amor mais bonita que eu já vi. –o sorriso estava de volta aos meus lábios. –Quanto ao encontro com sua vó, sim, eu acredito. E algo em mim sentiu-se aliviado pelo fato de tê-la conhecido de alguma forma, e eu vou agradecer a ela o resto de meus dias por ter estado ao seu lado quando mais precisou. Algumas páginas dessa história me fizeram tremer, você quase mo...Enfim, prefiro esquecer este ocorrido. Tem muitas páginas aí que já podem ser preenchidas com fatos novos, mas quero pedir uma coisa. –disse ela.
-O que? –perguntei incrédula.
-Que quando achar o bastante e que já possa entrar um final feliz, quero que transforme isso em livro. A uma história fantástica, digna de filme aí dentro, é errado deixar isso trancado, se liberte disso, Lizzi. Ajude aqueles que podem se identificar com tudo que escreveu. –pediu ela.
Talvez aquela não fosse uma má ideia. Porém, tal nível de exposição não me era satisfatório. Algum tempo pensando sobre o assunto seria necessário antes de uma decisão concreta. Havia muito sobre mim ali, coisas que talvez não me agradeçam serem abertas a público.
-Vou pensar na ideia. –disse-lhe.
Era cair da noite. Eu já apresentara a mamãe toda a casa. Zyan já se esfregara por tantas vezes nela, cobrando-lhe carinho, coisa que ele dificilmente fazia a estranhos. Era fim de uma longa conversa, e infelizmente uma nova separação que me doía.
-Queria que ficasse mais alguns dias. –choraminguei.
-Não posso, meu anjo. Há muito trabalho a fazer. Cheguei de madrugada e já saio daqui para o aeroporto. Eu só precisava te ver, sabe de tudo em que resultara aquele casamento louco. –disse ela. Um silêncio se fez enquanto ela analisava com precisão meu rosto. O afagou com uma das mãos. Então abraçou-me. –Você cresceu tão rápido, minha menina. Tão rápido e eu mal pude perceber. Eu tenho orgulho de ver a mulher que se tornou. –murmurou chorosa.
-Mãe. –indaguei, ainda em seus braços. –Obrigada, obrigada por tudo. Obrigada por ter me transformado na mulher que eu sou. Tudo que eu sou hoje eu devo a você. Você é meu espelho, mãe. E eu só quero ser um pouco daquilo que você é, só isso já me basta. Nunca vou ter como agradecer por tudo que fez por mim.
-Você já agradeceu, minha filha. Você me deu o orgulho de ser quem é. Orgulho da filha que eu tenho. –disse soltando-se então de meus braços. Nos olhos já haviam lágrimas novamente. –Assim que puder estarei aqui de novo. Quero ver Axl, os amigos de banda dele, Sarah, Martha que eu já tive o prazer de conhecer na época de seu casamento, mas não tive o mesmo prazer em conversar. Devo agradecer por ter cuidado de você assim como Sarah, Axl e Duff.
-Eu vou estar esperando pela senhora. –eu disse sorridente e ela plantou um beijo em minha testa.
-Agora deixa eu ir porque daqui a pouco o táxi vai embora. -disse ela se apresando. Beijou-me a bochecha repetidas vezes como fazia quando era mais nova. –Se cuida pequena Juliet. –disse ela, chamando-me da mesma forma de quando eu era criança, devido minha paixão pela história de Romeu e Julieta.
Vê-la partir era doloroso mesmo depois de me separar de Lara por tantas vezes. Ao fim, eu estava exausta. Aquele dia havia sido cansativo. Tantas noticias, explicações, ouvira demais em algumas horas. E tudo que fiz ao final foi deitar-me no sofá e fitar o teto. O silêncio rodeando-me, a trilha sonora perfeita para aquela confusão mental que se fez em minha cabeça. Pensamentos em conflito já era de costume, mas dessa vez, tudo parecia em revolução. Eram fatos antigos a serem remexidos, arquivos a serem modificados.
Logo minha cabeça reclamou, berrou por socorro, era demais para mim. Talvez o remédio me servisse para aliviar-me da tal dor em protesto aos pensamentos. Um cigarro fumado na varanda do quarto, ao som dos latidos de Zyan, que repetia o feito toda vez que eu ou Axl fumávamos. Quase nunca acendia um cigarro, apenas em momentos de estresse, nervosismo...Quando tudo que precisava era relaxar. E Zyan parecia odiar esses momentos, latia incessantemente, como se nos bronqueasse pelo tal ato.
O sol invadiu o quarto perturbando-me os olhos. Mal lembrava como dormira na noite passada. Tateei o outro lado da cama dando por falta de Axl. Mas uma manhã se iniciara sem ele. A mão então recuou enquanto eu fechava novamente os olhos, corroída pela intensa preguiça de levantar-me. Passei os dedos pelos cabelos emaranhados, coçando a cabeça levemente. Tampei o rosto com as duas mãos, como se de alguma forma aquilo fosse impedir o sol de chegar aos meus olhos, mas o resultado não foi o esperado. Abri novamente os olhos fitando o relógio. Se enrolasse muito ali, acabaria me atrasando.
Antes de levantar, deixei cair no chão o diário jogado ao meu lado. Recordava-me de marcar algumas páginas nele na noite anterior. Desde que mamãe o trouxera para mim, doze dias antes, eu não o largara.
Escorreguei assim que levantei. Eu era mesmo um desastre. Segui o rumo do banheiro, evitando o espelho de sempre. Larguei a roupa pelo caminho enquanto abria o chuveiro quente por completo. A água caiu com alta pressão sobre minha cabeça, meus ombros agradeceram, minha coluna cobrando que me espreguiçasse, como não fizera quando acordei.
Ao fim da minha higiene de sempre, vestida devidamente, direcionei-me a varanda antes de descer. Aquele sol que me perturbara de manhã era apenas uma luz fraca anunciando uma manhã de outono. O inverno se aproximava e os dias por Los Angeles já não eram tão quentes. Talvez o inverno de 1987 chegava com mais força. O vento soprou forte, arrepiando-me. Ao céu muitas nuvens davam um aspecto de chuva a se aproximar, mas o clima pro ali era louco. Logo o mesmo estaria brilhantemente azul, contudo, o sol forte não daria as caras naquele dia, eu estava certa disto.
Peguei no closet meu cardigã. Busquei a bolsa sobre a poltrona branca ao canto do quarto. Desci correndo as escadas, ouvindo o barulho berrante de meus sapatos. Zyan já latia na beirada da escada, descera antes que eu acordasse naquele dia, algo que dificilmente fazia.
-Oi bebê! –eu disse de forma carinhosa, sorrindo para ele.
Agachei-me assim que cheguei ao primeiro andar, enquanto ele saltava sobre mim, lambendo minha bochecha. Esfreguei seu pelo, recebendo todo carinho que ele tinha para me oferecer em troca. Antes que ficasse toda melecada por sua baba e arranhada por suas unhas levantei-me. Joguei sobre o sofá minha bolsa e vesti o casaco. Ergui as mangas na altura dos cotovelos.
Segui até a cozinha, encaminhada pelo aroma que já tomara conta de toda a sala de estar. O cheiro de panquecas e bolo de laranja intensificou-se. Meu lugar já estava preparado no balcão, onde preferia comer quando Axl não estava em casa. Louise virou-se, pondo mais uma panqueca no prato.
-Bom dia, dona Lizzi! –disse ela.
-Bom dia, Louise! –eu disse sorridente.
Tomei me lugar, com Zyan ao meu encalço.
-Tô morta de fome. –indaguei.
-Claro, a senhora não comeu nada ontem a noite. –lembrou-me.
-Ah, eu estava enjoada. Acho que comi muito no almoço, depois passei mal. –expliquei. Olhou-me com dúvida, erguendo uma sobrancelha, pensativa, os lábios movendo-se. Esperei então uma pergunta. Mas ela não a fez. Deu de costas deixando-me a espera. –O que foi, Louise? –perguntei.
-Nada. Deixa pra lá. –não quis insistir, apenas dei de ombros.
Enquanto deliciava-me com o café-da-manhã algo chamou a atenção de meu olhos. O calendário na geladeira. E como poderia me esquecer. Era 18 de novembro de 1987. Eu completava enfim os 18 anos. Revirei os olhos. Não disse nada a Louise. Queria evitar congratulações.
Ao fim, tomei o rumo do carro. Ouvi o motor ressonar assim que girei a chave no painel. Antes de arrancar, achei óculos do Axl por ali. Um dos vários, de estilo aviador. Amarrei os cabelos em um coque desajeitado, e pus tal óculos. Dei partida, seguindo pela estrada de saída da área residencial silenciosa e de grandes mansões.
Fale com o autor