My Dark Angel

50 This is the end


Notas iniciais
Então, né, aqui estou como prometi e para esse capítulo preciso que segurem o coraçãozinho de vocês e soltem a imaginação. Lembram daqueles momentos lindos e fofos de Axl e Lizzi que vocês tanto gostavam? Preciso que tragam todas aquelas lembranças de volta conforme começar a música. Interpretem como um filme, acho que fica mais legal assim, relembrando o que eles costumavam ser.
Enfim, espero que gostem :3
Divirtam-se!

- Ás vezes tenho uma impressão aterrorizadora que ele tem de mim mais do que ele merece, que ele é pra mim mais do que deveria. Que somos desajustados, desenfreados, somos um erro. Tudo é um erro dentro de nós dois. Destruímos o um ao outro como se nos odiássemos e então lá vamos nós nos reconstruir e fazer tudo parecer perfeito. Mas o pior de tudo é que estamos presos, acorrentados, condenados a isso. Impossível é terminar com essa dança da morte e sair vivos. Nascemos e morremos dentro desta relação, quase um ciclo vicioso; não podemos deixar o jogo e ao mesmo tempo não sabemos jogar. É uma fatalidade, uma infelicidade, mas é o nosso bem maior, predestinados a mergulhar em feridas e sofrer nas curtas rédeas de uma insanidade para encontrar a felicidade que apagamos em um lugar que não lembramos. Perdemos tristemente a fórmula e não conseguimos mais reinventá-la. Apostamos todas as fichas com tanta confiança e agora perdemos tudo o que não temos, damos o que não podemos, ferimos o mais fraco matamo-nos a cada segundo, salvamo-nos nos lençóis da cama. Somos o que ninguém vai entender, uma morte contada, uma vida cega e apaixonada, um desespero fatal, uma calmaria sinuosa. Somos o inalcançável. Somos nada sem possuirmos um ao outro.

O clarão caiu sobre meus olhos em peso absurdo, despertando-me parcialmente de um inconsciente duradouro. Senti o calor flamejar em meu corpo úmido e a dor arrastar-se em minha coluna, bem como as fisgadas estouravam em minha cabeça. Abri pequena fresta entre os olhos, pressionados, percebendo o sol forte que transviava-se em minha visão turva e diáfana, embaçando um verde ao redor. Senti o cheiro amadeirado perdesse em um aroma de canela, obrigando-me a olhar o corpo que vibrava em respiração fraca, colado ao meu. Estava envolvida por seu grande braço, recolhida contra seu peito, aquecida pela pele macia.

Com permissão do sol enxergava com um pouco mais de facilidade o louro que dormia sob o dossel de uma névoa amarela que pendia no céu límpido. A pele cintilando, em brilho vivo da manhã, os cabelos ainda mais louros vistos assim. A feição relaxada logo se desfez quando ele abriu os olhos os fechando novamente em decorrência da claridade. Apertou um pouco mais minha cintura e um sorriso quase se formou em seus lábios. Dobrou o pescoço e me observou, com os olhos levemente pressionados.

–Tenho que ir para casa, antes que Axl coloque a polícia atrás de mim. –disse, ainda sonolenta, estranhando seu braço a envolver-me.


Parei ao lado de fora, virando-me para ele que seguia ao meu encalço. Afagou meu rosto carinhosamente, observando-me com um sublime sorriso de ternura, sorri fraco para ele, não conseguia alcançar entusiasmo ainda com a imagem de Axl pesando em minha mente. Aproximou-se um pouco mais gravando um beijo demorado em minha testa.

–Obrigada pela noite! –agradeceu ele.

–Obrigada por estar do meu lado. –murmurei.

Assim o deixei, sob raios de sol no jardim da frente, seguindo até meu carro. Acenei uma última vez e ele retribuiu.

No caminho para casa, consenti que as memórias da noite anterior voltassem a minha mente em explosão. De certa forma sentia o peso de ter cometido um equivoco, sentia uma estranha repulsa de mim mesma. Não pelo fato de ter dividido uma noite inteira de desabafo, conversas corriqueiras, brincadeiras e risos com Zac, martirizava-me pelo que acontecera depois. Quando nossos lábios, em símbolo de desejo, se entrelaçaram, tocaram um ao outro, embriagando-nos de um anseio que eu desconhecia, flutuava em linha tênue em meu intelecto- este furiosamente tomado por chamas, que o cosumiram como pólvora. Todavia, eu não pudera culpar meu estado de espírito naquela noite como causador do acontecimento, eu me permitira, entregara-me a ele com grande consciência do ato, do erro, eu queria avidamente, ferozmente errar daquela forma, como nunca quis antes. Naqueles longos segundos que se estenderam, vazando por nós dois, toda a angústia alucinada havia se calado, sentia-me inteiramente reconstruída, livre com uma folha ao vento, sem um lugar por pertencer, sem uma pressão a me dobrar.

Quando o afastei, em face de confusão, queria culpa-lo, enquanto de antemão ele se desculpava por um ato que não houvera cometido. No entanto, estava paralisada, sentindo as chamas de uma emoção consumindo enquanto levemente sentia o movimento interno em minha barriga. Na tentativa de raciocínio distinto, corri para o jardim, e ele me seguiu, perceptivelmente preocupado. Eu não o culpei. Pedi para apenas esquecer. Então me recolhera em seus braços, no divã branco próximo a piscina e junto a ele contara estrelas e conversara sobre constelações, ainda sob os domínios da alucinação que seus lábios quentes haviam despertado em mim. Dormira em seu peito, sentindo-me enclausurada na segurança que eu precisava e estranhamente encontrei nele. Finalmente os pensamentos ruins foram afugentados.


Não queria voltar para casa, não queria ouvir Axl. Tudo ali tornara-se entediante e torturante, já não poderia mais me sentir bem naquele antro de gritos e dor. Deixei a testa cair sobre o volante, estava parada ali há um pouco mais de dois minutos, retomando as forças necessárias para novamente encara-lo e sentir sobre meus ombros força decadente de meus atos.

Tomei impulso, saindo do carro. Meu estômago ardeu, não de fome e sim de temor. Eu já previa o que teria de enfrentar. Meus passos estavam mais pesados do que de costume, minhas pernas punham-se moles. Tive a impressão de um desmaio, mas eu era forte o bastante para lidar com aquilo.

Abri a porta, percebendo a presença na poltrona branca da sala de estar. Tinha profundas olheiras debaixo dos olhos, o rosto pálido como não lembrava de ter visto antes. Os lábios estavam ressecados e o cabelo emaranhado. Havia uma vibração de dor no fundo de seus olhos sobreposta por uma fúria que controlava o novo tom que os orbes ganhavam.

–Onde passou a noite? –a voz era dura.

–Em um lugar onde eu pudesse me sentir bem melhor que aqui. –respondi, dando as costas para tomar o caminho de meu quarto. Sua respiração acelerou próximo a mim e antes que pudesse virar-me novamente suas mãos alcançaram meus braços, atirando-me contra o sofá.

–AONDE VOCÊ DORMIU, SUA VAGABUNDA, HEIN? RESPONDE. –disse aos berros. Mesmo amedrontada, não recuei.

–Será que poderíamos começar isso com você respondendo as minhas milhares de perguntas das várias noites que você passou fora de casa sem nem dizer onde? –trinquei os dentes.

–NÃO ME FAÇA TER QUE TOMAR MEDIDAS DRASTICAS. RESPONDA. –insistiu, segurando fortemente meus braços enquanto sacolejava-me.

–Quer saber onde eu passei a noite, Axl? Quer mesmo? Passei nos braços de Zac. E para falar a verdade foi uma das melhores noites da minha vida. –respondi, vendo seus lábios contraíssem.

–VAGABUNDA! –minha face ardeu assim que sua mão pesou sobre meu rosto. –Como você tem a coragem de...? –virou-se de costas, levando as mãos a cabeça. –Há quanto tempo me traí com ele, hein? Quanto? –virou-se para mim novamente.

–Eu nunca te traí com ele, seu imbecil. Eu nunca te traí e você nunca foi capaz de dar valor a isso. Você preferia as suas garotas de programa a mulher que vai te dar um filho. Você acha que é fácil ir dormir toda noite sabendo que seu marido, o homem que você ama, que prometeu ser fiel a você está indo pra cama com outras? Hein? Cada vez que eu penso nisso eu sinto mais nojo de você Axl. –indaguei e ele se calou.

–Já disse que eu não te traio. –rebateu e eu levantei-me, aproveitando que andara para um pouco mais distante.

–CHEGA DE MENTIRA! Não somos mais crianças, e eu sei o que você faz, eu sei e eu suporto isso todos os dias, eu beijo você toda manhã sabendo que na noite passada você estava com uma puta na cama. E você não tem a mínima noção do quanto isso dói. –lágrimas arderam ao fundo de meus olhos.

–E do que mais você precisa? Você tem uma casa perfeita, você tem roupas perfeitas, você tem um carro, dinheiro... –ri sombriamente de seu argumento.

–Você sabe que eu sempre tive isso e não era o que eu precisava desde então e você me deu o que eu precisava antes, agora você o tirou de mim. Tudo que eu precisava era de você Axl, era do teu amor. –uma lágrima vazou de meus olhos e chegou a meus lábios.

–Se precisava de mim porque não ficou aqui, do meu lado, ontem à noite? Correu para os braços de um panaca, hein? –aproximou-se rapidamente, olhando dentro de meus olhos. Os dele ardiam em um vermelho que chegava vagamente.

–Porque eu já não consigo me sentir bem com você. Eu não consigo me sentir bem nessa casa. Eu não consigo encontrar paz aqui, com você por perto. –confessei e sua feição fora massacrante. –Eu só queria saber o que eu fiz de errado? Onde eu errei? Eu me pergunto todos os dias.

–Não tente se fazer de santa, isso é ridículo. –disse ele.

–Eu nunca fui santa nem quis interpretar esse papel, mas uma coisa que eu sempre fui é fiel, até ontem. Ontem EU beijei Zac, eu quis beija-lo, porque ele passou a ser pra mim o que você deixou de ser há muito tempo. E quando eu o beijei, foi como no começo de nós dois, nossos primeiros beijos. Eu sinto com ele o que eu não consigo sentir mais com você. –em meio aos prantos as palavras doíam a mim, mas não tanto como nele. Pela sua face rígida escorreu uma lágrima de dor.

–Então o que ainda está fazendo aqui? –perguntou, fitando seus pés, fazendo absurda força para dizer aquilo.

–Concluindo o fim. –respondi. –É a gota d’ água, Axl. Já passamos da linha final há muito tempo, não podemos mais nos iludir com isso. –a coragem de dizer o que disse não era minha, veio de um inconsciente tão dolorido quanto o meu consciente devastado. Era mesmo o fim.

–Não pode terminar assim. VOCÊ PROMETEU FICAR AQUI, DO MEU LADO, ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARASSE! –gritou os últimos dizeres.

–Você prometeu ser fiel, me fazer feliz e nunca mais me machucar. E agora estou tão destruída quanto da última vez. –meu pranto era tão mudo quanto o dele.

–Não Elizabeth, não pode ir embora, não pode me deixar! – disse em tom de desespero, agarrando-se a minha barriga.

–Vai ser melhor assim, Axl. Vai ser melhor para nós dois e para nossa filha. –os soluços do choro já chegavam.

Ergueu-se, olhando dentro de meus olhos. Fui gravemente ferida pela devastação nunca antes vista que enxerguei dentro de seus orbes. Segurou meu rosto naquele ato desesperado, as mãos frias e tremulas, bem como sua respiração acelerada.

–Diz que não me ama mais. DIZ OLHANDO DENTRO DOS MEUS OLHOS, ELIZABETH. Diz. –fiz silêncio enquanto buscava fôlego e força.

–Eu. Não. Te. Amo. Mais. Axl. –disse pausadamente- Não como antes, e eu não posso mais viver assim. Eu estou infeliz, estou morrendo a cada dia aqui. –seus braços caíram ao lado do corpo. Segui até a escada, deixando o paralisado ali. Corri pelos degraus, trancando a porta do quarto.

Atirei-me ao chão e então tudo que fiz foi chorar por horas, abafando meus gritos da dor que avidamente me engolia. Era dor de palavras, a dor do fim que nunca quis premeditar, por simplório medo de seguir sem ele.

(Coloque essa música para tocar)

Tudo fora como uma grande viagem até ali, um caminho desnivelado, cheio de perdas e ganhos, cheio de dor e lágrimas, de sorriso e felicidade plena, porém não eterna.

–Sabia que fica linda cozinhando? –ele murmurou com tom de malicia e eu soltei uma pequena risada.

–Nunca parei para reparar como eu cozinho, mas mesmo que tivesse feito, talvez eu não tivesse uma visão tão otimista de mim mesma. –murmurei

–Tenho mesmo muita sorte de ter você como namorada. – indagou ele.

–Eu não consideraria tanta sorte. Não sou algo tão magnifico e perfeito. –rebati.

–Para mim, você é mais que perfeita. É a mulher que sempre desejei ter ao meu lado e que não esperava encontrar. –ele disse.

–Nossa! Agora me senti realmente privilegiada. Eu que deveria agradecer de ter alguém como você como meu namorado. –brinquei.

Ele me dera tudo o que um dia eu poderia recordar. Ele fora para mim o que precisei, o que nunca havia tido, o que um dia necessitaria. Fora meu mais solene herói, meu vilão desconhecido. Meu porto-seguro, minha fortaleza, o sorriso da minha criança, o amor da minha vida. Queimamos como fogo e gasolina, ardemos na paixão incongruente que nos tomou de forma tão insana e errática. Ele fora o acontecimento mais imprudente que se passara em minha vida, fora a proporção mais correta de um destino pretensioso, fora a história de meus livros de romance. Ele fora meu, tão pertencente de mim e eu tão dependente dele. Dera-me a vida, as emoções perdidas, o amor temido. Com ele eu não tivera medo de caminhar, naufragar, não tivera nem mesmo medo de morrer. Eu teria morrido por ele. E morremos juntos naquela noite. Um sonho distante e uma realidade presente. Uma aventura inconsequente, um amor planejado. Eu me senti viva graças a ele, e agora estávamos os dois, desfalecendo por culpa do mesmo amor que nos salvou quando mais precisamos. Sempre fomos iguais, seres criados duplamente, envolvidos em outras vidas, beneficiados nessa, e novamente cumpríamos o ciclo, essa era então a predestinação.

–Nossa história estava escrita nas estrelas. –ele disse.

–Prefiro dizer que nossos destinos foram traçados na maternidade.


Salva de meus demônios, de meu fim, de minha vida, eu renasci ao seu lado e então voltava a campo de origem, ali. Entre tantos anos drásticos ele seria sempre a melhor coisa que me havia acontecido, fora meu céu de domingo, meu sol de verão, meu chão, meu envolto, meu porto. Fora meu, e agora era do vento, bem como eu. Não podíamos mais prever o futuro, não havia necessidade naquele momento. Eu nada mais queria além de relembrar o passado, quando segura em seus braços eu conheci o ruivo que saltara das sombras e enfrentara leões. E eu seria eternamente grata pelos risos nas tardes tédio, pela companhia nas horas mais improváveis, por secar minhas lagrimas, por fazer-me descobrir quem eu realmente era enquanto andávamos de mãos dadas pelas ruas de Los Angeles. Eu agradeceria por ter afastado meus medos, por ter me ensinado como dar um próximo passo, por mostrar o mundo a qual um dia fui cega, por não ter me abandonado, por ter enfrentado o que fosse preciso para estar no meu lado. Mas nada me faria agradecer tanto a ele quanto o fato de ter feito com que eu me sentisse acima de tudo amada, e ele me amou tão desesperadamente quanto eu o amei. Matamos esse amor, porém eu não o culpava por isso. Ele me dera um bem maior e que já o amava tanto quanto eu. Ela era a viva prova de que um dia nos amamos, e que um dia planejamos a família em que ela cresceria.

–Quero casar com você. –murmurou, quebrando o silêncio. Ri baixinho. –Quero construir uma família com você, ver nossos filhos correrem no jardim de nossa casa, você chamando pela menina de cabelos dourados que está dando comida para o cachorro, enquanto eu ensino o garotinho ruivo a tocar piano...

No entanto nem todos os planos são realizados e aquele faleceu junto com nosso amor. Eu não havia mentido quando dissera que o amaria até o fim dos tempos, eu sempre pertenceria a ele. Os olhares nos passeios de outono, os beijos no frio de Paris, os sorrisos nos jantares de fim de noite, a ardência dos lençóis, o perfume amadeirado iam comigo como as mais recordáveis lembranças, e um dia eu as contaria para nossa filha, e depois para nossos netos e então quando eles perguntassem por que houvera um fim eu responderia “Porque a vida precisa seguir seu curso e nem sempre podemos continuar com aquilo que parecia certo”. Aquela louca aventura que vivemos seria sempre relembrada. Eu fora feliz no conforto de seus braços, eu fora mulher sobre seu corpo, eu descobrira quem eu era dentro de seus olhos. E que antes de deixar aquele mundo minhas últimas palavras fossem “Eu o amei”. Contudo aquele era o definitivo fim.

“Todas as graças da mente e do coração se escapam quando o propósito não é firme.”

William Shakespeare


Notas finais
E aí? Gostaram? Espero que sim. Bem, quero agradecer muito, muito a todos os comentários do último capítulo, prometo que assim que possível irei responde-los :3
E espero também que eu tenha conseguido chegar ao meu objetivo desse capítulo: passar a emoção da personagem para quem lê. Bem, óbvio que eu sempre quero transmitir sensações a quem lê a fic, mas acho que é sempre muito difícil conseguir, mas nesse capítulo era quase uma necessidade, já que eu acho que esse é um dos pontos altos da fic. Esse é principal. Enfim, digam nos comentários qual foi a sensação de vocês, please!
Então...
Beijos e até a próxima!