My Dark Angel
51 New Life
Notas iniciais
Então leiam...
Divirtam-se!
Em um passo pesado encontrei o primeiro degrau. A mala pesava por entre meus dedos, embora houvesse poucos pertences ali dentro, apenas o necessário para os dois primeiros dias até que pudesse retornar para retirar minhas coisas. O peso maior afugentava-se nas extremidades de meu peito, alcançando fortemente meu coração naquela dor absurda que eu controlava nas lágrimas nervosas em meus olhos inchados. Chorara em berros por mais de três ou quatro horas, não me acalmando nem por um segundo, mesmo depois de ouvir a condolência de Sarah ao outro lado da linha.
Prossegui mesmo que hesitante, pesando os olhos sobre a sala, tendo em vista a sombra do cabelo perdendo-se a frente do assento do sofá maior, encolhido como uma criança amedrontada. Tremia, vibrando tanto que fazia fantasmas momentâneos a sua volta.
Sua respiração era audível, como se tivesse uma grave crise de asma. Não restara som de choro, apenas de um desespero incontrolável que se transpunha no ar que fugia de seus pulmões rapidamente. A outro lado, em longa distância, quase na entrada da cozinha, estava Zyan, este, com os olhos caídos e brilhosos, a feição já entregava tristeza e agonia. Grunhia som de dor a cada dois minutos, levando continuamente sua pata um pouco mais a frente. Estava agitada, olhando, nervoso, o estado que não esperava ver Axl. Nem mesmo eu esperava.
Não tinha crença em uma facilidade naquela situação, todavia, não esperava que aquilo lhe atingisse de forma tão violenta e trágica. Estava matando os dois, seguindo seu curso. Não éramos mesmo nada longe um do outro. A possibilidade nos fazia agonizar, e só pioraria quando concretizássemos a certeza.
Zyan me olhou apenas quando cheguei ao último degrau. Sacudiu nervosamente o focinho como se apontasse para Axl. Parei ao lado do cachorro. Axl matinha os olhos em mesma direção, perdidos em localidade distante, não fitando-me nem quando minha presença ali foi extremamente perceptível. Respirei fundo sentindo as farpas que afundavam em minhas vias nasais em decorrência do ar pesado que se respirava ali.
O gosto amargo que crepitava ao fundo de minha língua pareceu correr até meu estômago, fazendo uma ardente varredura ali. O olhei por um pouco mais de três minutos, analisando cada traço que bruscamente ganhara profundidade em seu rosto perfeito. Era como se eu lê-se nas entrelinhas, no entanto, era tão fácil quanto contar até três. Estava devastado, como nunca estivera, como nunca o vira, nem quando achei que tivesse chegado ao seu limite no momento que apontou uma arma para a cabeça quase um ano antes. Parecia envolvido pela névoa púrpura que encobria os céus em dias tempestivos. Aquele pedaço elástico de dor parecia ter lhe agarrado os sentindo e prolongado-se devidamente até o coração que parecia parar dentro de seu peito. Ambos eram negros agora. A antiga luz ressonante que o preenchia enfim houvera se apagado, com sinais de que nunca mais voltaria a brilhar.
Sentiu uma ardência comichar em minha garganta, varrer minha face e escorrer por meus olhos. Curvei os lábios para dentro da boca, forçando os dentes contra eles, buscando força para não entregar-me definitivamente ao pranto. Suspirei, sentindo a pressão em meu peito massacrar-me absurdamente.
–Não precisava ter terminado assim. -relutei contra a voz cortante, porém o choro fora inegável. Demorou meio minuto para me olhar, sem alterar a feição irrijecida, os olhos ainda mais inchados que os meus, a alegria morta bem como o garoto que costumava carregar dentro de si.
Vi seus olhos pesarem sobre a mala e meu choro tornou-se quase desesperado.
–Não, não...-balançou a cabeça, dolorosamente incrédulo. –POR FAVOR, LIZZI, POR FAVOR, POR TUDO QUE É MAIS SAGRADO, NÃO! –a voz de uma criança sobrepondo seus gritos me assustou, bem como em um salto ele agarrou minha barriga, prendendo-se a meu corpo, de joelhos.
O som dos últimos gritos da criança que lutava pela vida dentro dele era torturante.
–Lizzi, por favor, por tudo que é mais sagrado, se você acredita em Deus, se você amou esses anos todos, por favor, não vai...Eu juro que eu mudo, eu vou ser o marido perfeito, eu vou te reconquistar, fazer tudo que eu não fiz...Mas pelo amor de Deus, eu estou te implorando, pelo amor que um dia você sentiu por mim, não vai embora. – fitou-me em feição de amargura e estertor, lágrimas desceram arrebetadoramente de seus olhos, bem como eu não pude controlar o choro.
–Eu cansei de promessas, Axl. Vai ser melhor para nós dois. Tudo isso está destruindo a mim e a você. Não podemos mais fingir que somos felizes porque sorrimos uma ou duas vezes ao dia. –disse, evitando seus olhos, temendo um fraquejar de minha parte. Ter sua dor infinita em vista me feria ainda mais, a ponto de quase me fazer cair em seus braços e perdoa-lo outra vez. –Eu preciso ir, antes que eu fiquei acorrentada a esse lugar, vivendo uma coisa que não é vida. Eu não quero que minha filha cresça no mesmo ambiente que eu cresci. Só Deus sabe o quanto eu sofri.
–Mas nós vamos dar a ela tudo que ela quiser...-levantou-se, agarrando meu rosto com as duas mãos, olhando a fundo de meus olhos. –Vamos ser a família perfeita como a gente sempre sonhou, lembra? –meus lábios novamente contorceram em choro.
–Acontece, que não existe família perfeita e não existe mais “nós”. Eu te amei de todas as formas que um ser humano pode amar uma pessoa, Axl. Você foi a coisa mais certa e ao mesmo tempo mais errada que aconteceu na minha vida. Só que nada dura para sempre e corações podem mudar. –lembrei a última frase que o ouvi dizer a certo tempo, enquanto conversávamos sobre amor e suas escolhas. –Acabou! –murmurei e as lágrimas inundaram a linha rígida entre seus lábios.
De repente, todo sentindo de permanecer dentro da casa foi-me arrancado abruptamente, perdendo-se por entre meus dedos de forma incrível. Direcionei-me até a porta, driblando suas mãos que continuamente tentaram me alcançar e seu choro que cortava minhas entranhas e penetrava em meu organismo como veneno. Eu teria dado a vida para não ter de enfrentar aquela situação.
Virei-me para ele já no jardim, em meio ao seu choro, travando a perseguição.
–Axl, Axl, me escuta! –eu disse, agarrando seu rosto com as mãos. Caiu de joelhos. –Eu preciso que você se mantenha forte, aqui. Zyan precisa de você, ele é nosso primeiro, filho lembra?! E ela também vai precisar de um pai quando nascer. Você vai sempre poder me visitar e saber sobre a gravidez, assistir ultrassonografia, vai passar alguns dias da semana com nossa menina... Mas eu preciso que se mantenha vivo e forte para isso. Ela precisa disso. Então por favor, não tente nada contra a sua vida, aceite os fatos e também, não tente nada contra Zac, ele nunca teve culpa de nada. –busquei forças ao fundo de minha alma para dizer determinadas palavras.
Plantei um beijo demorado em sua testa enquanto isso, senti seu cheiro amadeirado penetrar mais a fundo em minhas narinas, mergulhar em meu pulmão, acalmando parte agitada de mim. O calor de seu corpo me tomou uma fração de segundos como se despedisse. No silêncio de um longo minuto todos os “eu te amo” que dissemos por todo o tempo que passamos juntos uniram-se em minha mente, um sobre o outro, em eco profundo, perecendo em um naufrágio fatal. Pensei então como eu viveria sem ele.
Sua sombra ficou paralisada ali, sumindo pela penumbra da noite enquanto eu me afastava. Enfim, as rodas arrancaram pela a estrada me permitindo chorar até que finalmente estivesse no braços de Sarah.
Apenas Deus tinha convicção do quanto eu pranteara sobre o volante de couro escuro daquele carro, fazendo sinfonia com o som do motor, rangendo pela estrada inteiramente escurecida pela noite sem luar que se estendia no céu. Minhas mãos trêmulas quase levaram-me a um equivoco, um acidente para arder nas ondas do silêncio, matar-me na calada da noite. Eu o provocaria por vontade própria se não tivesse plena consciência da outra vida que carregava comigo. Minha filha era tudo que eu tinha naquele momento de devastação.
Cruzei a neblina em velocidade máxima, mantendo os olhos abertos, mesmo que estes desejassem enfurecidamente serem fechados, dormir no acalento do silêncio frio, doloroso, até que me interior buscasse paz em lugar qualquer, eu pudesse respirar novamente, nem que fosse parcialmente. Essa paz florescia no que eu carregava nas extremidades de minha barriga.
Os postes de onde pendia luz amarela, que formavam ângulo perfeito até as calçadas, a cada 10 metros, já haviam corrompido minha visão e refrescado-me a memória. A sensação de que das casas soprava aroma de paz e harmonia, recorrentes nos cenários de filme já estendia-se pela rua. Por ali, alguns jovens reunidos, todos com suas roupas descontraídas, evitando gritos que pudessem render confusão com a vizinhança; uma velha senhora de cabelos grisalhos e camisola lilás, que caminhava lentamente pela rua, tendo em mãos uma colhera, onde carregava seu fiel escudeiro, um cãozinho marrom, que já encontrava também a idade tardia; um senhor mexia no motor o carro um pouco mais a frente, em feição de dúvida, a camisa suja de graxa; na casa ao lado a garota beijava o namorado, olhando logo após para dentro de casa, como se houvesse sido chamada pelos pais impacientes, fitou uma última vez os olhos carinhosos do rapaz, sorrindo fraco, porém alegre e esta fora a cena que me fizera voltar minha atenção para minha memórias e esquecer da rua onde os pneus do carro deslizavam lentamente.
Sabia do brilho que se escondia ao fundo dos olhos dela, os devaneios corriqueiros, os planos que faziam, os sonhos que tinha. Sabia que ela passava horas acordada relembrando cada beijo, cada toque, cada frase que a seus ouvidos haviam chegado como a doce melodia do mar rebentando na areia, no sublime fim e tarde. Ela orava por ele todas noites, orava também para que seus sonhos fosse com ele e que ela estivesse presente nos dele. Ela desejava insanamente que ele batesse em sua janela pela madrugada e a fizesse companhia pelo resto da noite; conversariam até a aurora e ela dormiria em seus braços, sentindo-se protegida de qualquer mal que pudesse existir. Ela seria dele e ele seria dela, até que o universo provasse ao contrário, pertenceriam um ao outro até mesmo depois da vida, pois aquele amor era tão forte que ultrapassava a que viviam. Iam longe, tinha passagem para a estrelas, tinha travesseiros nas nuvens, tinham um paraíso prometido, que estava pronto para recebê-los. Aquela explosão de sentimentos nunca fora tão dominante. Eles venceriam tudo para ficar juntos. Amariam-se com tamanho desespero até o final dos tempos, quando enfim seria eterno.
Era como um filme que eu já vira antes, no entanto, queria avidamente revivenciar, voltar a primeira vez que o mesmo passara por meus olhos e provar novamente da sensação única da descoberta. Não costumava adorar aos clichês, mas tinha de dizer aquela frase que passara pelos lábios e tantos homens “Eu era feliz e não sabia”. Se fosse me corrigir diria que sempre soube, porém, que sempre achei que algo no mundo seria eterno, não era eterno, e só descobrimos isso quando chegamos a linha final. Mas o ser humano nunca aceita um fato repentino, que foge dos seus sonhos e convicções, é uma surpresa que maltrata, fere, arranca-nos o libido pela vida, arranca-nos um coração doente por um amor que ali ainda deixara marcas.
Quando despertei, estava a ponto e perder de vista a casa de Sarah. Sabia que ela fingia não ter ouvido o som do carro, fingia não estar atrás da porta esperando que eu batesse...Era de praxe. Então eu o fiz, com a mala na mão, contendo qualquer lágrima. Logo ela surgiu, a feição de agonia vibrando em seu rosto pálido, nos entreolhamos por menos de um segundo e ela não teve tempo nem de estender os braços. Pulei contra seu corpo, abraçando a fortemente, explodindo em lágrimas. Estava então segura para chorar diante de seu conforto e acalento.
–Eu te amo! –o ouvi dizer em meio ao silêncio em que despertei, a voz estendendo-se em eco.
O teto branco era alto, distintamente familiar. O lustre e cristal ocupava parcialmente minha visão. Uma luz amarela transpondo em clarão que abrangia todo o envolto, como um sol de verão furioso ao lado de fora, invadindo o local por qualquer fresta que se permitisse. Era exatamente a visão que podia ter quando deitava-me no sofá desconfortável, na sala de estar de meu antigo apartamento. O cheiro de tinta fresca e móvel novo era tão intenso quanto no lugar que um dia morei.
–Não, eu te amo mais! –desta vez era minha voz soando-me nova, porém facilmente reconhecível.
Em feição de estranheza, encontrei forças para torcer o pescoço e identificar onde estava com mais precisão, no entanto, uma certa sensação de pavor sacudia-se nas extremidades de meu estômago, fazendo-me petrificar vagamente. Meus olhos ardiam, como os de uma criança ao entrar em contato com a espuma do xampu durante o banho, e por este motivo deparara-me com um grane borrão onde não conseguia encontrar foco. Enxerguei a tevê reluzindo logo a frente, desconhecia sua existência, porém, não precisavar analisar mais a fundo para concluir que aquele era meu antigo apartamento, como aparentara de inicio.
Ergui o corpo, sentindo minha coluna endurecida, e junto a dor e tal fato uma chama pareceu acender-se em minha garganta, incendiando minhas vias respiratórias. Observando mais atentamente percebi o apartamento inteiramente vazio, o chão empoeirado, bem como o sofá, a estante e o alto da tevê, tudo que restara por ali. E na tela desta refletiu-se o sorriso de Axl, em imagem que mais parecia uma gravação amadora de nós dois. Rapidamente, imagens transcenderam, falas misturaram-se, como um filme exibido em seus melhores momentos.
Certamente, estava distante de um pensamento concreto sobre aquele acontecimento, pois 95 % de mim parecia inconsciente, paralisado, alienado pelas imagens que refletiam-se na tela, e esta grande parte esmagava friamente a que gritava por socorro, dando-me a vaga sensação de estar presa dentro de meu próprio corpo. Era desesperador. Então logo aquela porcentagem de paralisia parecia aumentar, até que eu fosse apenas um robô, fixado em imagens que eu perdera em minha memória, que eu queria calar para não ter de sentir a dor profunda, que a fundo de minha alma procurava caminho para o peito onde se propagaria e me destruiria fatalmente, definitivamente, talvez para sempre.
As vozes em eco destacavam-se, cada momento apresentado nas imagens sombrias, como um vídeo e família apresentado no funeral da morte de um dos entes queridos, para que outros tivessem visão da felicidade que costumava rodea-los. Mas diferente de qualquer sensação que eu já provara aquele me matava, ferindo-me gravemente. Eu poderia sentir as facas penetrando meu estômago e as navalhas rasgando a pele de minhas costas, o arame farpado agarrado a minha garganta, o golpe de espinhos em meu rosto, o flamejar do corpo inteiro. Sentia-me no meio de chamas.
Percebi um ato automático, levantei o braço buscando a imagem do rosto de Axl, iluminado como um céu brilhante e límpido da manhã, seus olhos com o sensual sombreado do luar empalidecido, seus lábios misturando a melodia que vinha das cores da aurora. Senti a insana necessidade dele, e então eu poderia abandonar qualquer coisa para estar em seus braços de novo, eu poderia perdoa-lo por qualquer erro, aceitar até mesmo as mais ridículas desculpas para amanhecer mais uma vez junto a seu corpo, vendo o sorrir enquanto sua luz cativante me cega e me abre os olhos para o mundo que conheço e pertenço um pouco mais a cada dia.
–Você prometeu! –ouvi o dizer e dessa vez a voz não correspondia a imagem da tela, era próxima e clara, não havia eco, apenas uma dor ascendente no tom. –Você prometeu! –meu corpo respondeu virando a cabeça para a direção da voz.
Sua imagem era quase que diáfana, acinzentada, como uma fumaça assumindo um forma que vagamente ganha vida, porém seu rosto era claro e a feição de dor enervante, sucedida pela arma apontada para sua cabeça. Meu corpo levantou, em traços de choro. Em um forte golpe na cintura senti o comando voltar a mim. Fitei meus pulsos, ele respondia a mim novamente.
–Não, Axl, você não pode! Você prometeu também, você prometeu que seria um pai para nossa filha. Prometeu que estaria ao lado dela. –as palavras saíram apressadas e quase emboladas por meus lábios frios.
–Você prometeu! Prometeu! Prometeu ficar... –sua voz era firme enquanto eu esticava os braços ao ar como se pudesse toca-lo de longe. –para sempre. – a continuação da frase veio como um sussurro, ecoando enquanto sua imagem se desfazia em uma fumaça negra. Em seguida, uma estranha sensação de vazio preencheu-me. Senti-me molhada por algo e em minhas pernas o sangue descia em enxurrada. Estava perdendo meu bebê, sabia disso. Porém, antes que pudesse gritar percebi que o mesmo sangue enchia minha boca e escorria por meu nariz.
E quando a mancha vermelha em meus dedos confirmou a perda e sangue pela face acabei em um grito desesperado.
–Lizzi! Lizzi! –a voz de Sarah se sobressaiu, aumentando em meus ouvidos. Saltei, pondo-me sentada na cama, recostando o corpo sobre os braços, a respiração terrivelmente descontrolada bem como meus batimentos cardíacos acelerados que já enviavam o som a meus ouvidos.
De minha testa brotavam gotas de suor que por meu busto escorriam.Torci o pescoço vendo a feição preocupada de Sarah na beirada da cama, estava pasma, curiosa, ansiosa...Olhava-me com os olhos arregalados, escurecidos pela penumbra do quarto, a luz fraca do abajur refletindo só em metade de sua face.
–Meu Deus! Estava em um pesadelo! –disse ela, assustada. A sondei por mais alguns segundos de ofegar e então pulei contra seu corpo, abraçando-a fortemente. Pranteei de imediato, como uma criança aterrorizada. –Ora, Lizzi! Se acalme. Já passou, meu amor! Eu ficarei aqui e vai ficar tudo bem. Se acalme. –disse condolente.
Eu preferi o silêncio, estava me sentindo um pouco mais segura junto a ela, precisava apenas chorar as lágrimas que o pesadelo me trouxeram. Não queria nem mesmo falar, e ela não insistiu em pedir que contasse. Depois que Sarah me acalmara com um copo de água com açúcar e ter garantido que sua mãe não houvera acordado com meu grito já que tomava fortes remédios para dormir, acabamos por falar de algumas coisas bobas, assuntos pendentes, besteiras da época de escola, até que dormíssemos abraçadas, como irmãs em noite de chuva e trovões. Uma sempre acolheria e cuidaria da outra.
Não sabia o que o dia me guardava, mas logo pela manhã resolvi procurar novamente meu médico, ainda aterrorizada pelo pesadelo. Mesmo que ele garantisse que estava tudo bem, me pediu alguns exames e pela tarde pude voltar para a casa de Sarah. Ao lado de fora, antes que pudesse abrir a porta já podia ouvir uma discussão entrecortada que assustou-me. Em um salto abri a porta, entrando atordoada e ansiosa assim que pude distinguir a voz de Axl.
–O que está acontecendo aqui? –perguntei incrédula, assim que cheguei a sala, ao ver Sarah pequenina sobre o ombro e Axl, os dois a certa distância. Sarah estava inegavelmente vermelha, estava furiosa, seus olhos ardendo em quase um castanho, cor que costumava assumir quando ela não podia se conter.
Axl virou-se lentamente, como se temesse o que veria. Seus olhos cairam sobre os meus, quase cegando-me pela visão de discórdia e desespero que eu via. Acima de qualque representação no verde-oliva estava a dor, a amargura, e então iniciei um insistente e continuo combate de relutância contra a sensação de morte que me acometia, obrigando-me a voltar para seus braços.
–Precisa voltar para casa, Elizabeth. –disse ele a voz firme mesmo que suas mãos estivessem trêmulas. –Precisa voltar! –era quase uma ordem saindo por seus dentes.
–Eu não vou voltar, Axl, e não insista. –disse a ele, seus olhos caíram, abandonando a feição endurecida, de fúria.
–Eu não posso viver naquela casa sem você. Entenda isso. Não vê que eu estou morrendo? –embora o sentimentalismo e a suplica não fosse tão sempre o ponto forte de Axl as palavras eram sinceras, eu sabia reconhecer isto nele.
–Aprenda a conviver com a consequência de seus erros. Eu avisei que um dia você iria olhar para a cama e ela estaria vazia, eu não estaria lá, esperando por você, eu avisei por várias vezes, mas nunca adiantou de nada, você continuava me ignorando como se eu fosse apenas o seu status, a mulher que você gostava de exibir como sua perfeita esposa, que você gostava de ter em seus braços quando se sentisse sozinho, mas que nunca te teria por completo e eu não nasci para ter apenas a metade de um homem, Axl. –desta vez minhas palavras tinha fúria espessa, tinha quase um ódio misto a um pudor enquanto fugiam por entre meus dentes.
–Eu se que eu errei, eu já me arrependi, sua vingança acaba aqui, agora vamos voltar para casa, você é minha mulher. – disse em meio a uma incredulidade estendendo a mão para segurar meu braço. Esquivei-me.
–Chega de infantilidade, Axl! Você não é mais nenhuma criança! Estou perdendo a paciência. Não vou voltar para aquela casa nem hoje nem nunca mais e se a questão é eu ainda ser sua mulher eu logo vou começar a pensar sobre o divórcio... –cortou minha frase antes que eu terminasse.
–Divórcio? Você não pode pedir divórcio? Elizabeth, como...? Como você pode esquecer de tudo...? Eu não vou me divorciar! –uma lágrima caiu de seus olhos. –Você prometeu, lembra?!
Junto as últimas palavras veio o forte abalo em decorrência do pesadelo da noite anterior. “Você prometeu!” a voz acendia-se novamente em minha cabeça. “Prometeu!” prosseguiu e um instante de tontura chegou assim que a imagem de minha mão ensaguentada retornou.
–Lizzi? –ouvi a voz de Sarah, enquanto fitava meus pés, assumindo estabilidade após de minha visão tê-los feito girar bem como o chão e meu entorno. Na face de Axl ressaltara-se uma nova curiosidade –Você está bem? –perguntou, mais próxima do que antes.
–Sim, só estou um pouco tonta. –respondi. Respirei fundo, voltando a encarar Axl. –Axl, por favor, vai embora. Eu ainda não consegui me recuperar da noite de ontem, estou cansada. Por favor, pelo amor que você sente pela nossa filha, vá para casa e pense com calma. Você pode vir sempre que quiser, afinal, você é pai, é natural que queira acompanhar a gravidez, mas não insista mais nesse assunto, pelo amor de Deus. Isto está machucando não só a nós dois, mas a ela também, não merece sentir isso tudo, pagar pelos nossos erros, sem ter a mínima noção do que se passa. Por favor... –supliquei, a voz um pouco mais calma enquanto eu apertava os dedos abaixo da barriga.
Depois de fitar-me no silêncio de dois segundos sondou minha barriga. Aproximou-se vagamente e a beijou, demorado.
–Só quero que vocês duas fiquem bem. –murmurou. -Volto assim que possível.- completou, a face assumindo uma feição mais serena agora.
Logo sumiu pela porta, não houve barulho de carro, talvez tivesse estacionado na esquina da rua.
Segui até o sofá da sala e sentei-me, suspirando. Não derrubei uma sequer lágrima, talvez estivesse cansada demais para isso. Sarah se juntou a mim.
–Até quando isso vai durar? –perguntei e ela apertou minha mão.
–Eu não sei, mas estarei aqui, esperando que tudo acabe e você se sinta bem. Precisa ser forte agora.
O céu já anunciava um sensual crepúsculo quando despertei, sentindo o peso de 4 horas de sono agitado, porém, sem demais pesadelos. Eu podia sentir sua presença até mesmo em meio inconsciente, aquilo me aterrorizava. Deparei-me de imediato com Zac, sentado a espreita, na poltrona do quarto. Sarah e Martha havia se oferecido em benevolência a buscar o que sobrara de meus pertences na casa onde morava. Estavam receosas correlação a Axl, preferiam que eu ficasse em casa, temendo que eu pudesse me sentir mal se voltasse.
–Eu vou ficar bem. –garanti, tentando demonstrar o mínimo de animo na voz, sem eficácia.
–Tem certeza, meu anjo? –perguntou Lara, a voz absorvida em preocupação.
–Tenho. Vai passar. –provavelmente nem mesmo eu tinha completa convicção do que garantia a ela, mas ainda poderia ser firme o bastante para livra-la de parte da agonia. –Eu só...-enrolei-me com as palavras e percebi sua ansia ao outro lado da linha. Fiz um silêncio melancólico de um pouco mais de dois segundos, relutando para evitar qualquer lágrima. Eu prometera a mim mesma que durante aquela ligação eu tentaria parecer o melhor possível, pois sabia que caso contrário, mamãe, acabaria abandonando tudo que tinha a fazer em Milão e correria para Los Angeles. –só queria que estivesse aqui. –embora eu não desejasse que ela larga-se seu trabalho em qualquer estado por minha causa, eu não pudera deixar de ser sincera.
Driblava um misto desejo de tê-la por perto e tê-la longe. Talvez, sua vinda a Los Angeles me acalmasse, me assegurasse, no entanto, ela estava feliz, já havia se preocupado demais com casos amorosos, não queria que ela estivesse ali sofrendo por minha causa, vendo-me chorar toda noite. Ela não precisava presenciar aquilo, da mesma forma que eu presenciei antes.
–Quero que esteja aqui quando o bebê nascer. –funguei o mais baixo possível, tentando evitar que ela ouvisse o choro que lentamente chegava. Ela gemeu ternamente ao outro lado.
–Prometo que verei minha neta assim que ela nascer. Eu estarei aí, com você, vendo você amemanta-la nas primeiras vezes, se enrolar na hora de dar banho, colocar a fralda do lado errado... –brincou. –Não se preocupe com nada, querida. Você será uma ótima mãe. Eu estarei ao seu lado, não irei lhe abandonar nem mesmo por um segundo.
Já podia vislumbrar as lágrimas escorrendo de seus olhos ao outro lado da linha.
–Eu te amo, mãe. –murmurei.
–Mamãe também te ama muito, muito, muito filha. –respondeu.
Não aguentaria me conter por muito tempo, com isso, desculpei-me com um cansaço e sonolência para que pudesse desligar, antes que desatasse em lágrimas.
–Não quero que ela sofra por mim. –comentei, assim que desliguei o telefone, sentindo o peso dos olhos de Zac sobre mim. Soltou uma breve risada sombria, indo até a cama, onde sentou-se junto a mim.
–Ela vai ficar bem, você só precisa estar bem antes de tudo. –murmurou.
Eu o fitei por uma fração de segundos e então recostei minha cabeça em seu peito.
Zac estava sendo sublimemente compreensível comigo, mantinha as coisas como sempre foram entre nós, melhores amigos, sem ao menos reforçar o acontecimento na sua casa, mas eu sabia que ele relutava para isso, sabia que cada vez que seus olhos se perdiam em mim ele lembrava daquela noite, e naquele momento, sem Axl, eu não podia evitar o pensamento de que mais tarde seguiríamos o que houvera sido um começo dias antes, no entanto, não era forte o bastante para concluir aquele raciocínio, minha mente estava infinitamente exausta, queria a paz de dias silenciosos e pensamentos surdos, bem como eu.
Eu não vira Axl no dia seguinte, nem no outro dia, e então eu já estava há uma semana sem nenhuma notícia dele. Zac mantera-se como fiel escudeiro a meu lado, visitava-me todo dia. Martha parecia mais viva nos últimos dias, estava visivelmente alegre pelo fato de ter a casa movimentada de novo, mesmo que o momento não fosse um dos melhores. Ela se sentia vazia desde que Mike morrera, sentia falta do barulho dos amigos dele, da vida correndo pela grande casa, que se tornara tão tensa e morte apenas com ela e Sarah. Já havia se apegado a Zac a um bom tempo, ela costumava dizer que ele era um bom garoto, parecia-se com Mike, cheio de vida e de expectativas com o futuro brilhante que tinha pela frente. Quanto a mim, ela me adotara definitivamente como filha, cuidava-me como se esperasse um neto seu na barriga. Martha certamente seria avó de minha filha. Sarah era ainda mais exigente correlação a mim, quase neurótica com meu bem estar, corrigiria-me até se eu estivesse fugindo da posição certa para estar sentada, era incrível como ela podia me arrancar risos daquela forma.
Mamãe telefonava quase todos os dias, ávida por notícia. Chegou a insistir que me mudasse para Milão, junto a ela. Por mais que fosse uma proposta a se pensar, eu não poderia deixara Sarah, Martha e Zac, era desleal, eu os amava, queria tê-los por perto.
Certo dia, assim que cheguei de algumas compras, deparei-me como o excesso de homens vestindo macacões azuis saindo da casa, com alguns móveis e entrando com outros. A mudança era no antigo quarto de Mike, o que mais me surpreendera. Serelepes Sarah e Martha coordenavam tudo. O quarto, já estava tomado por papéis de parede lilás, móveis novos, uma cama de casal e a canto um berço terminando de ser arrumado.
–O que está acontecendo? –perguntei incrédula.
–Mandamos reformar o antigo quarto de Mike. –disse Martha, naturalmente, aproximando-se. –Eu aprendi, querida, aprendi que não preciso manter o quarto, com as coisas dele, isso só me fazia sofrer a cada dia mais. É como se eu estivesse presa aquele tempo, esperando que ele chegue e me sorria, vá para o quarto o comece a ouvir as músicas que gostava, coma seu sanduíche, mas isso nunca acontece, e essa espera me mata a cada dia mais. Eu não preciso desse quarto para fazê-lo presente... –murmurou- eu só preciso manter na memória as lembranças doas dias felizes que vivemos e ele ficara guardado aqui dentro, para sempre. –apontava o coração. –Preciso me livrar desse fantasma e aprender a conviver com isso. Por tantos anos estive acorrentada a essa dor, fazendo Sarah sofrer junto a mim...Eu não posso mais e acima de tudo eu vou ser eternamente grata a você, por ter nos mostrado isso. –disse , segurando minhas mãos.
–Eu? –perguntei.
–Sim...Você chegou, movimentou a nossa vidas, ajudou Sarah a enfrentar a morte do irmão, e me fez ver o quanto ela sofria, por quanto tempo ela foi infeliz aqui, e como ela está feliz agora, porque ela tem uma irmã, e a ligação de você duas é de outro mundo, nunca vi nada parecido. E agora está morando aqui, enchendo de vida essa casa, você e esse bebê que eu quero que fiquem aqui, até o dia que resolver seguir seu caminho por si só e eu não irei impedi-la.
Poucas vezes me sentira tão tocada como naquele dia. Era como ter completado minha missão naquele mundo, ajudar aquela família que estava morta a tanto tempo. Dias depois um simples telefonema abalaria minha vida por completo.
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