My Dark Angel

53 She Will Be Loved


Notas iniciais
Bem, tô com bem pouquinho tempo, então, vou tentar ser breve: Primeiro, obrigada por todos os comentários seus lindos e lindas, vou tentar responde-los assim que puder. Segundo: Eu só lerda por isso o cap. só veio agora. Terceiro: Entro em prova na terça-feira e elas só terminam na segunda-feira que vem, talvez não dê tempo de postar no sábado (ou no domingo) então eu postarei terça-feira que vem ou quarta-feira que vem. Quarto: UM MÊS PARA O NATAAAAAAAAAL o/ Quinto: Eu sou anormal. Sexto: Divirtam-se!

Agarrei-me fortemente a meus instintos, relutando de forma dolorosa para manter-me na cama tendo o a minha frente, com um breve sorriso ao canto da boca, os olhos iluminados por uma ligeira luz que acabará de chegar.

-Axl?! –minha voz era de incrível rouquidão. –O que faz aqui? –perguntei, tentando ser o máximo discreta possível.

-Vim ver como você e nossa filha estão. –respondeu, caminhando lentamente até mim, com seu sorriso torto dominante.

Sentou-se a beirada da cama mantendo distância considerável de mim. Era impressionante o quanto mudara nos dias que estivera fora, estava mais conservado, um pouco mais alegre, pacífico e calmo, como as ondas do mar em manhã de verão, ou mesmo o lago na clareira ao fim de outono.

Pigarreei, tentando quebrar o clima de seus olhos naufragando dentro dos meus.

-E...Você passou tanto tempo sem vir aqui, confesso que já estava ficando...assustada. –assustada provavelmente não era a palavra certa, no entanto, não queria dá-lo a sublime impressão de que me fizera desesperada falta no tempo que estivera distante. Apenas pioraria a situação complexa que beirávamos.

-Abri espaço na agenda para uns shows fora do estado, queria espairecer um pouco, longe daqui. –explicou, e até mesmo sua voz era leve, flutuando cada palavra pela órbita continental.

Um novo silêncio formou-se entre nós e então percebi que ele evitava sondar-me, como se encontrasse em mim uma grande perda do precioso controle que adquirira. Torci o pescoço, percebendo as rosas vermelhas enchendo o vaso de cristal sobre o criado mudo. Era um espaço para quebrar o tenso calar entre nós.

-Ah, Obrigada! Pelo... pelas flores. –enrolava-me com as palavras enquanto limitava-me em dar-lhe apenas pequenas olhadelas.

-Não tem de quer! –abriu um sorriso largo. –Mas como está nossa menina? –perguntou.

Certamente as últimas palavras refrescaram em minha memória a notícia que recebera poucos dias antes, mas Axl estava no grupo dos que eu pouparia de uma dor antecipada e uma agonia prevista.

-Bem. –respondi, tentando soar convincente.

-Estava pensando se eu não poderia ir com você nas próximas consultas médicas... Acho que seria bom se eu soubesse um pouco também de como serão as coisas depois que ela nascer e como estão agora. –murmurou.

-Claro, eu avisarei assim que a próxima estiver chegando. –sorri fraco.

Aquele épico evento de assuntos banais e silêncios prolongados se estendera por mais 10 minutos. Sabíamos que o mesmo feria discretamente a nós dois, e que então, quando Axl partisse, carregando nos olhos as palavras surdas que gritavam para ser ditadas, eu prantearia o estado que chegamos. Éramos quase que estranhos, desconhecidos, dois pré-adolescentes, tímidos, que acabara por se encontrarem pela primeira vez.

Bem como ele calava palavras eu afogava instintos, relutando de forma cruel contra aquela parte berrante de mim que crescia a cada segundo, podendo sentir o cheiro de seu perfume amadeirado que não mais deitava-se na cama ao fim da noite nem impregnava minha pele por 24 horas... Não pertencia mais a mim, era apenas dele então.

-Não precisa fazer isso. –disse quase que por um impulso, quebrando mais um silêncio que se estabilizara entre nós.

-O que? – perguntou, incrédulo, embora já soubesse do que eu falava.

-Endurecer. Se reprimir. Eu não pedi para que se calasse, pedi para que fosse compreensível. Parece até que não nos conhecemos. –levantei-me da cama, seguindo até o banheiro em uma breve demonstração de irritação. Arranquei a blusa que vestia, deixando apenas o sutiã de renda bordô e o curto, e justo, short cinza.

Seu silêncio me instigou, distante da abrangência de sua imagem não pudera interpretar a feição que adquiria ao relembrar os fatos que vibravam em sua mente. Apoie-me na bancada de mármore branco fitando meus lábios contraindo-se à medida que eu respirava mais afundo o ar, que por um momento me pareceu tão rarefeito. Fitei a pia branca, refletindo a luz que pendia do teto engolindo o recinto em luminosidade. Talvez fosse melhor desistir de uma resposta vinda dele. Pensei então se não fora um erro ter coçado a ferida ainda aberta, jorrando o sangue escuro, que não tivera tempo de secar.

-Acha que está sendo fácil para mim? –ouvi sua voz mais perto e percebi sua presença a porta do banheiro.

Sua expressão sofrera brusca alteração, ressaltando rugas de expressão, pesando os traços antes suaves. Os lábios eram duros como se houvessem sido congelados. E os olhos tornaram-se de um verde-musgo sombreado por uma dor acalentada. Seu corpo era extremamente rígido, como se nem mesmo pudesse mover-se, o rosto tremia levemente.

Escondi qualquer expressão de terror, embora, o mesmo fosse crescente em ver seu estado após algumas palavras.

-Não, mas também não está sendo para mim, e ver você se reprimindo, sendo alguém que você não é nem nunca foi só piora tudo. –murmurei. –Não quero que sorria ou faça piadas, também não quero que faça o mesmo que fez da última vez que esteve aqui. Não vou te reprimir se me pedir para voltar uma ou duas vezes, ou se disser que sente minha falta... No final das contas ainda somos marido e mulher. –disse em tom condolente.

-De que adiantaria dizer? Por que preciso repetir as mesmas coisas? Eu vou me render a isso tudo, repetir as mesmas coisas e voltar para casa sozinho. Isso está me matando, Elizabeth. É desesperador entrar naquela casa vazia e saber que você não vai estar lá, esperando por mim. –a voz afundou-se em dor.

-Eu esperei por você meses e meses, naquela casa vazia, Axl, mas você nunca chegava. Agora é tarde demais. –suas palavras seguiram as minhas automaticamente.

-Precisa me lembrar disso toda hora?! Eu sei que eu errei e já estou pagando por isso! Não é o bastante para você? –perguntou ele.

-Não existe “o bastante”. Eu não saí daquela casa para te fazer sofrer. Eu saí porque era o melhor para nós dois. –respondi.

Senti a alta pressão abaixo da barriga em seguida uma forte pontada na altura do umbigo. Minha bexiga pareceu comprimir-se em resposta a movimentação brusca a sua proximidade.

-O que foi? –perguntou Axl, os olhos arregalando-se enquanto ele aproximava-se de mim.

-Nada. Ela só se mexeu com um pouco de... força. –respondi, apertando os dedos contra a barriga enquanto a outra mão mantinha-me segura a pia.

Axl manteve a feição preocupada enquanto sondava minha barriga.

-Acho que tanta força não é nem normal para um ser tão pequenino. –brinquei, um sorriso formou-se no rosto de Axl, e de alguma forma encontrei satisfação no ato.

-Será forte como o papai. –disse ele.

-Ela mexeu de novo! –anunciei entusiasmada. Ele riu, olhando-me nos olhos por alguns segundos.

Puxei uma de suas mãos delicadamente, para mim, levando-a até minha barriga. Rapidamente ela agitou-se.

-Ela gosta de você. –comentei. –Gosta da sua voz e de quando toca na minha barriga. –Um brilho que poucas vezes tive o prazer de ver refletiu-se em seus olhos, reluzindo avidamente à medida que sua face ganhava sublimes traços de plena fascinação, como uma criança que acabara de fazer uma grande descoberta. Fora um dos momentos mais encantadores que já havia se passado por minha vida.

Uma viva noite estrelada havia pairado luminosa pelos céus da Califórnia. A brisa fria já abrigava-se pelas redondezas. As luzes da rua já estavam todas acesas, sincronicamente, as janelas revelando a névoa amarela, contrastando com os postes brancos das calçadas. O silêncio que ardia pela rua era quebrado pela melodia das teclas do piano de calda tocado perfeitamente pela vizinha da casa em frente, pianista há mais de 10 anos, que costumava tocar suas sonatas todas as noites, logo que o crepúsculo ascendia-se. E em quase que um costume, eu relaxava a cabeça na janela do quarto, ouvindo o som da nostalgia, a calmaria em cada nota, chegando a sentir falta de quando eu podia tocar piano. Desde que deixara meu apartamento, nunca mais tive o extremo prazer de deleitar-me do som que comandava por simples diversão e satisfação.

Meus devaneios a respeito de sonatas foram interrompidos pelas duas leves batidas na porta.

-Liz? –chamou-me Zac, com a voz aveludada, usando o apelido que raramente aplicava a mim.

-Hey, Zac! –disse, descendo da cama, enquanto ele aproximava-se com um fraco sorriso forçado.

Ele passara a controlar uma falsa felicidade desde que soube do meu diagnóstico. Aquilo o estava ferindo, e o machucava ainda mais estar perto de mim, saber que talvez me perdesse dali a alguns meses. Preferia acreditar que não, bem como ele, mas sabia que algo em nós dois gritava uma despedida.

O abracei com entusiasmo e ele retribuiu apertando-me fortemente contra o corpo.

-E aí, pequena heroína! –murmurou enquanto deixava o calor de seu corpo. –Como está essa menininha? –perguntou, tentando parecer o mais animado possível.

-Agitada. –respondi diretamente.

-Sarah me disse sobre Axl. –comentou enquanto eu sentava-me na cama.

-É, ele esteve aqui mais cedo. –lembrei enquanto ele juntava-se a mim.

-E pelo visto vocês não... –procurou a palavra certa.

-Não, Zac. –disse antes que terminasse a frase. –Não estamos juntos e provavelmente não voltaremos a ficar juntos –completei.

-Ah! –disse timidamente.

Depois daquele dia, Axl passou a visitar-me frequentemente, sem que houvesse discussão entre nós. Ele levava certa alegria a meus dias. Passávamos uma tarde inteira dentro do quarto, enquanto ele conversava com a minha barriga; e aquele gesto que parecia tão tolo, fazia uma grande diferença, agitava significativamente nossa filha, que chegava a transmitir uma estranha felicidade para mim, como se soubesse tudo que se passava ali. Todavia, o melhor do ato estava no que eu passara a enxergar em Axl. Era como se estivesse se reconstruindo, dedicando-se de corpo e alma a filha que nem mesmo havia nascido. Estava tomado por um deslumbre e por uma alucinação que parecia que nunca passaria. Estava apaixonado por aquela criança. E em cada palavra que ele dizia parecia-me mais maduro, estava crescendo a cada dia, aprendendo a ser pai desde então. Havia percebido que definitivamente Axl seria um pai perfeito. Fora invadido por uma precaução, dissolvendo naquele encantamento que encontrava no amor paterno. Aquela nova luz que envolvia sua face, como a aurora resplandecendo no céu, estava conquistando-me, ganhado-me tão facilmente que chegava a ser assustador.

Passara a sentir que para ele nada mais existia, nem mais a dor de ter me perdido, tudo girava em torno da filha que teria, então, quando batia em minha porta no inicio da tarde não era para implorar-me que voltasse, nem fingir uma passividade, era simplesmente para manter contato com aquilo que eu carregava dentro de mim. E entre nós dois tudo parecia mais tranquilo, poderíamos conversar normalmente, sem uma tensão pesando na órbita que nos envolvia. Eu voltava ao tempo, sendo novamente a adolescente de dois anos antes, conhecendo novamente Axl. Sentia que me apaixonava de novo.

Tão rapidamente minha barriga já pesava, as roupas maiores ocupavam meu guarda-roupa, minha coluna sofria as consequências do sétimo mês de gravidez. Muitos sintomas antigos não faziam mais parte da minha rotina, no entanto, havia outros. Sentia meus pés incharem, cansaço frequente, e a minha respiração descontrolada pelas recorrentes faltas de ar. Havia poupado-me dos exercícios, o médico recomendado-me repouso absoluto, para que minhas complicações de gravidez não me fizessem dar a luz mais cedo após algum problema no coração ou em minha pressão arterial.

Axl não me abandonara em nenhuma consulta médica, não me permitia um ato que o mesmo achasse que pudesse ser um malefício a mim ou ao bebê. Eu pedira ao médico para que não tocasse no assunto da gravidez de risco enquanto Axl estivesse por perto, já que o mesmo não desconfiava.

Este fato já começava a preocupar-me. Pensava se talvez não estivesse sendo egoísta por não conta-lo sobre as probabilidades de morte durante o parto. Porém, conclui que egoísta mesmo eu seria se lhe arrancasse a felicidade em que vivia pela proximidade do nascimento da filha.

Axl Point of View

Certamente já fazia um pouco mais de uma hora que Lizzi dormira, próximo a mim, no entanto, era incrivelmente difícil abandonar aquela cama, perdendo a possibilidade de estar perto dela por dois ou três minutos a mais. Eu poderia passar uma eternidade a olha-la daquele ponto de vista. Calma, dentro dos traços serenos em sua face pálida, branca, como flocos de neve que raramente via. A luz do luar empalidecido caindo sobre ela, anunciando a noite que a pouco chegara.

-Eu só queria que soubesse o quanto eu te amo e o quanto eu sinto sua falta. Eu daria tudo para voltar ao tempo e fazer as coisas do jeito certo. Daria a vida para ouvir você dizendo que me ama de novo. Eu mataria meio mundo se fosse para te fazer feliz, Lizzi. –murmurei, mesmo sabendo que ela não poderia me ouvir. –Queria que acreditasse em mim. Eu nunca vou desistir de você.

Levantei-me, temendo algum incômodo de sua parte. Já era hora de ir embora. Plantei um beijo em sua testa, sentindo pela última vez o perfume floral embriagante, embebedando-me com a dor de saber que teria de ir, e que não dormiria ao seu lado aquela noite, em nossa casa, por um erro meu. O arrependimento estava me machucando de forma imensurável.

Toquei levemente sua barriga, despedindo-me também de minha filha.

-Lizzi?! –ouvi a nova voz, e então virei-me para a direção da porta.

O louro me fitava com olhos de desgosto e repulsa, trancando o maxilar.

-Não sabia que estava aqui.-disse em quase um pedido de desculpa, embora a voz fosse dura, como se controlasse séria fúria.

-Já estou de saída. Acho melhor que vá embora também, Lizzi está dormindo não pode ser atrapalhada. –respondi.

Ele riu sombriamente.

-Dando uma de marido zeloso a essa altura do campeonato, Axl? –disse em tom de ironia.

-Cale a boca, seu idiota. –aproximei-me dele, trincando os dentes.

-E por que eu deveria? Não consegue ouvir a verdade? Não consegue ouvir que você destruiu a Lizzi, porque é um fanfarrão, imbecil? –disse ele.

-Espero não ter que perder minha paciência com você. – o imprensei contra a parede.

-Se não foi capaz de ser homem o bastante para cuidar da Lizzi, para ser um marido para ela, seja agora para ouvir. –indagou. –Você tinha uma mulher perfeita, que te amava desesperadamente, que era capaz de ser tudo por você e tudo que fez foi jogar isso no lixo por causa de meia-dúzia de putas. Você fez a garota que provavelmente mais vai te amar no mundo sofrer, chorar todas as noites, você a matava todos os dias e nem se importava com isso. Depois ela ficou grávida e passou a achar que agora sim as coisas seriam melhores entre vocês, mas você sempre fazia questão de decepcioná-la um pouco mais a cada dia.

-Você não sabe de nada, seu moleque! –retruquei.

-Sim, eu sei, Axl Rose! –insistiu. –Porque éramos eu e Sarah que a ouvíamos chorar por sua causa, e depois a ouvíamos acreditar novamente que você havia mudado, e nós sabíamos que não passava de mais uma alegria e possibilidade que você iria destruir. Nada me dava tanta raiva do que saber que você achava que podia simplesmente matar daquela forma uma garota como a Lizzi. Eu lutei por ela com todas as minhas forças, tudo que eu desejei foi tira-la do inferno que ela passou a viver com você, mostrar para a ela que alguém a amava de verdade. E eu a teria feito feliz se não fosse por você. Ela sofreu mais do que um ser humano poderia aguentar em suas mãos, mas independente de tudo ela sempre vai te amar, mesmo que distante de você, ela vai pertencer sempre à mesma pessoa e isso me destrói, saber que você é incapaz de dar o mínimo valor a alguém que te ama. Quando você perceber isso vai ser tarde demais para voltar atrás.

-E quando ela te beijou, era pensando em mim também? –fui sarcástico, recusando a me render perante as palavras, embora eu soubesse que era a mais pura verdade.

-Aquela noite provavelmente vai ser uma das melhores da minha vida. –disse com um sorriso provocador. –Mas eu sei que ela só fez aquilo por raiva, ela estava enfurecida com você, queria devolver na mesma moeda, e eu poderia ajuda-la a fazer isso. Lizzi estava confusa correlação aos sentimentos dela, achou que pudesse mesmo construir algo comigo, mas por mais que quiséssemos nunca seria possível. É você que ela ama e que ela vai sempre amar e você é cego demais para perceber isso. Você é um imbecil que não percebe que ela está lutando para continuar aqui e não voltar para os seus braços. A questão é que ela não acredita mais em você, ela não acredita mais que você possa mudar.

-E por que você me diria tudo isso? –perguntei, incrédulo.

-Porque eu amo Elizabeth, a ponto de deixa-la ir se fosse para vê-la feliz. Mas se for para vê-la sofrer ao seu lado de novo, como antes, pode ter certeza que eu vou fazer de tudo para destruir esse casamento. –disse ele. Senti um grave golpe no estômago causado pela digestão de suas recentes palavras.

Virei-me para Lizzi novamente, analisando a enquanto dormia, imaginando então todo mal que poderia ter causado a ela.

-Até porque eu nunca acreditei nesse seu falso amor ridículo por ela. Pra mim você sempre será o imbecil que matou a garota que eu amo. –o sangue imediatamente ferveu em minhas veias. Em um ato repentino e inconsequente virei-me para ele acertando-lhe um soco no rosto.

-VOCÊ NÃO SABE DE NADA! –gritei enquanto ele erguia-se, mirando o punho em minha face.

-SEU IDIOTA! –gritou enquanto atracava-se a mim.

-EI, PAREM, PAREM! – a voz de Lizzi paralisou-me, bem como ele, e quando percebi ela já estava de pé, próximo a nós. Entrou entre nossos corpos que vibravam em fúria. Da porta logo surgiu Sarah e Martha.

Saí rapidamente, sem esperar uma mais palavra de qualquer um.

-AXL! AXL! –ouvi Lizzi chamar-me, mas preferi ignorar.

Logo estava no silêncio do carro, arrancando pela rua, lembrando-me do caminho de casa. Enquanto minhas mãos apertavam a capa de couro do volante era impossível não recordar as palavras de Zac que berravam em minha cabeça, cortando minhas entranhas e perfurando minha alma, quase despertando lágrimas em meus olhos.

O pior entre tudo era saber que cada palavra que dissera estava certa, e perceber que deixara tão evidente algo que não era verdade, deixar transparecer que eu não mais amava Lizzi, então até mesmo ela passara a enxergar isso, estava certa em não mais acreditar que eu deixara de ama-la, depois de meus atos tolos e incorrigíveis.

Minha primeira opção naquela noite era causar um acidente que me fosse fatal, no entanto não podia, não poderia morrer e deixar que Lizzi acreditasse naquela mentira de que eu não mais a amava, estava decidido a reconquista-la, a mostrar que eu poderia ser a ela o marido que um dia eu houvera prometido. Eu fizera a escolha de continuar respirando para fazê-la feliz, recompensar a vida que ela houvera me dado e tratei com irrelevância, continuaria por ela e por nossa filha.

Lizzi Point Of View

Já estava acordada há um pouco mais de duas horas, embora sentisse falta de uma lucidez completa apagada durante o sono. Bebi um pouco mais do café quente na xícara de porcelana francesa, que acrescentava na vasta coleção que Martha exibida em sua cozinha.

Estava distante, presa aos devaneios que encaminhavam-me a noite anterior. Eu não pudera esquecer por um segundo sequer o acontecimento em meu quarto. Estava dominada pela angústia torturante nos olhos de Axl, e a força da fúria aplicando-se a seu corpo. A calmaria que eu estava me acostumando a ver se desfez tão repentinamente no transtorno. Entretanto, era Zac que certamente me deixara irritada, pois eu os conhecia tão bem a ponto de dizer que Axl havia respondido a uma provocação.

-Pensando na noite de ontem? –ouvi a voz de Sarah afastando-me dos pensamentos corriqueiros.

-Você sempre sabe o que está se passando em minha cabeça, não é?! –murmurei com um sorriso benevolente nos lábios. Retribuiu-me com uma fileira de dentes a mostra enquanto aproximava-se de mim.

Escorou-se no mármore, parando a meu lado e envolvendo minha cintura com um único braço.

-Somos irmãs, sempre podemos sentir a dor uma da outra, a alegria uma da outra... Estamos conectadas por um laço além da vida, se é que isso existe. –argumentou ela.

-É, acho que no nosso caso existe sim. –confirmei. Abracei-a, sentindo-me novamente segura em seus braços. –Independente do que aconteça, Sarah, por favor, nunca esqueça que eu te amo e que eu sempre vou estar com você, sempre. –murmurei, sentindo lágrimas arderem em meus olhos. –Obrigada por tudo! –de alguma forma aquela fora uma brecha para uma despedida antecipada.

Quando soltou-se de meus braços, ouvi o telefone e propus-me a atender.

-Oi –disse.

-Lizzi?! –pudera identificar a voz de Axl imediatamente.

-Oi Axl! –respondi.

-Passarei aí para te pegar daqui à uma hora, ok? –disse apressadamente. Deixei transparecer uma feição de confusão, enquanto escolhia a primeira pergunta fazer.

-Como? –perguntei.

-Quero te levar a um lugar, quer dizer, se você quiser e puder ir. –respondeu.

-Mas aonde? –ainda estava plenamente confusa.

-Verá quando chegar. –já podia deduzir que queria surpreender-me, no entanto, a maior surpresa chegara já no convite.

Quando desliguei o telefone, convencida em sair com Axl, e extremamente curiosa em decorrência da tal surpresa, corri para quarto, tentando evitar qualquer atraso. Não cedi muitas explicações a Sarah, sabia que deixar tudo diretamente claro iria fazê-la trancar todas as portas e janelas e desaparecer com as chaves, impedindo-me de ir. Sarah ainda tinha suas dúvidas correlação a Axl, ficaria extremamente temerosa em saber que sairíamos e que seu intuito era uma surpresa. Levantaria imediatamente a hipótese de um sequestro.

Axl não teve um sequer minuto de atraso, pontualmente eu pudera ouvir a buzina do carro. A tarde estava prestes a ter inicio, o sol irradiava no céu límpido, vividamente azul. Da porta principal Sarah observava-me a entrar no carro, sentia suas dúvidas gritando ao sondar Axl com olhos ameaçadores. O maxilar estava rígido, no entanto, eu estava convicta de que não se tratava de raiva o que a dominava, e sim medo, temia desesperadamente. E em palavras surdas ela certamente dizia a Axl que destruiria sua vida caso algo acontecesse a mim. Sarah era capaz de ultrapassar os limites da superproteção de uma mãe neurótica.

-Eu adoraria saber onde estamos indo...-comentei, na esperança que houvesse uma resposta concreta de sua parte.

-Quando chegarmos lá, você saberá. –respondeu ele, entre um sorriso vitorioso e imediatamente eu revirei os olhos, renegando sua persistente mania de surpresas.

Seguimos por uma estrada silenciosa, cercada por algumas rochas naturais, circundadas pela areia avermelhada. A outro lado estava à encosta fazendo curvas pelo seguimento empoeirado. Havia folhagem seca se espalhando por algumas extremidades, e o vento daquele ponto era forte e tipicamente frio, como uma brisa de verão rotineira.

Uma névoa gélida ocupava o carro, e o cheiro fresco a intensificar-se em minhas narinas lembravam-me de já ter estado ali antes. Mesmo que a velocidade em que passávamos pela paisagem fosse extremamente alta, eu não pudera perder de vista alguns detalhes que me faziam crer que conhecia aquele lugar.

Ouvi o som das gaivotas ecoando ao norte, e em grande distância, o som de ondas rebentando furiosamente em rochas invadiu o silêncio. Uma enxurrada de memórias acometeu-me, porém antes que as levassem a uma conclusão, Axl fez uma rápida manobra, desligando o motor do carro ao fim. Saiu rapidamente, correndo até o outro lado, onde abriu a porta do carro e esperou que eu saísse. Com um sorriso travesso nos lábios cor-de-rosa examinou minha feição de surpresa e certa confusão contendo-se para não gargalhar.

Era exatamente onde estivemos um pouco mais de um ano antes, na comemoração de meu primeiro aniversário em Los Angeles. A praia deserta, que dessa vez era de grande uso a surfistas, que equilibravam-se sobre suas pranchas, nos caminhos perfeitos das ondas fazendo curvas a certa distância da areia úmida. Repetiam seu percurso, voltando para onde o oceano encontrava o céu, em um abraço fraternal, a linha tênue onde o sol se perdia, afundando no azul celeste, quase infinito perante aos meus olhos.

Gaivotas sobrevoavam o mar, rodopiando ao alto e uma valsa barulhenta, fazendo conjunto com o som das águas galopando aos ouvidos de quem se aproximava.

-Lembra daqui? –perguntou Axl, próximo a mim, em um quase sussurro. Eu pudera vislumbrar o sorriso travesso em seus lábios, mesmo que meus olhos naufragassem na beleza inconstante e admirável.

-Como eu poderia esquecer? Eu passei um dos dias mais memoráveis da minha vida aqui. –respondi, prendendo os cabelos que insistentes chicoteavam meu rosto.

Percebi seus olhos pesando sobre mim no silêncio que permitiu prolongasse. O fitei incrédula e ele retribuiu com uma doce gargalhada.

-O que foi? –perguntei.

-Nada. –disse controlando o riso. –Você tem uma ligação forte com o oceano mesmo que o tenha visto tão poucas vezes. Sempre se perde quando observa. Exatamente como há um ano. –indagou e eu tornei a olhar as ondas.

-Você estava aí, parada, como uma criança que acabara de descobrir o centro do mundo, o maior segredo de todos os tempos, uma forma de chegar à galáxia em um passo. –prolongou-se, ainda me fitando, mesmo que estivesse visivelmente focada ao mar. –Foi uma das cenas mais bonitas que eu já havia presenciado na minha vida, eu nunca mais vou esquecer aquela imagem, nem essa. –murmurou.

-Por que me trouxe aqui? –meu tom foi um tanto duro.

-Eu queria que se lembrasse de coisas boas, coisas que passamos juntos e que eu nunca vou esquecer. –respondeu, o sorriso se fechando à medida que perdia seus olhos dentro dos meus. –Eu queria ter aqueles momentos de volta, eu daria tudo por isso, ter a vida que eu tinha naquela época, com você, de novo, apenas como você. –antes que prosseguisse, achei que era hora de para-lo.

-Axl...-disse, sem encontrar a palavra certa para continuar e imediatamente ele interrompeu-me.

-Não, não precisa dizer nada. –aproximou-se de mim. –Eu sei que não vai voltar para casa nem hoje, nem amanhã, e não foi para isso que a trouxe, nem para que me perdoe pelos meus erros. No seu lugar eu também não perdoaria. Eu só queria que lembrássemos o que costumávamos ser. Te trouxe aqui pelo mesmo motivo de um ano antes: te ver sorrir. –completou.

Senti-me perdida por uma fração de segundos, sem nem mesmo uma resposta plausível. Fitando seus olhos, tudo que fiz foi suspirar e sorrir fraco, timidamente. Deixei minha visão cair sobre o solo rochoso e avermelhado debaixo dos meus pés.

Não esperou uma resposta, sabia que não a teria, então, puxou-me pela mão, carregando-me até a areia. Não tinha a mesma facilidade de descer pelas pedras de meses antes, no entanto, Axl fora extremamente cuidadoso quanto a isso, ajudando-me a descer pelo caminho complexo com minha barriga inchada.

Axl não tentara nada naquele dia, fora extremamente complacente e zeloso, embora eu pudesse ver a suplica que saltava de seus olhos, clamando avidamente por mim. O desejo de minha parte por também tê-lo foi arduamente domado. Por mais difícil que fosse para ambos estava certa de que seria melhor assim.

Tinha de confessar que conforme gargalhávamos de besteira a beira mar eu me surpreendia a cada minuto mais com a maturidade que engolia Axl com o passar dos dias. Era determinado, sério e preocupado, porém, também era engraçado, tendo como maior objetivo explicito transformar aquele dia em o máximo prazeroso para mim. Podia sentir a ânsia que o tomava por uma risada minha, e ela sempre vinha, pois, ainda mais do que antes, tínhamos uma sintonia perfeita e então eu voltava a enxergar o Axl que houvera conhecido recobrar seu lugar no ruivo, todavia, trazia consigo maturidade e responsabilidade. Era um homem por completo desta vez.

Estava incondicionalmente satisfeita em vê-lo sorrir ternamente, bem como ver um brilho voltar a acender-se ao fundo de seus olhos. Tê-lo daquela forma me fazia pensar em como seria quando eu não estivesse mais lá, se as coisas dessem errado depois do parto. Temia ser injusta, porém, deixava-lhe um motivo para continuar e sorrir um dia. Rezaria para que ele lembrasse-me desta forma: sorrindo, sob a luz do sol oscilante, com a sombra luminosa de uma felicidade nos olhos. Imaginei como poderia ser difícil para ele, entretanto, eu sabia o quanto ele era forte, e que ele suportaria, tinha de suportar.

Ao chegar em casa, embora exibisse um semblante de felicidade em consequência da fascinante e formidável tarde que tivera, estava mentalmente abalada pelo pensamento que surgira no passeio. Porém, mesmo que o maior foco fosse Axl, eu não podia deixar de lembrar-me Sarah, Zac e Lara. Mesmo que Zac já soubesse de meu diagnóstico e possível futuro tinha a certeza de que a notícia de uma morte durante o parto lhe seria massacrante, entretanto, eu confiava nele, sabia que ele era forte o bastante para enfrentar tudo aquilo. Já Sarah e Lara eu não poderia prever, detestava vislumbrar o quanto seria difícil para ambas. Quanto a Axl, eu sabia que dentro do demolidor havia uma criança sentimental que dificilmente era revelada, e pudesse deixar que suas fraquezas viessem à tona e decidissem seu futuro.

Tornei a uma viagem do tempo, lembrando-me com perfeição a imagem de Axl com uma arma na cabeça, destruído após nossa primeira separação. “Eu prefiro morrer se tiver de continuar sem você, Lizzi.” –o eco das antigas palavras tantas vezes ditas era constante em minha mente.

Não posso deixa-lo” gritou me intimo. “Preciso lutar por eles” prosseguiu em voz aguda e sobressalente.

-Não a vi chegar. –comentou Sarah, interrompendo minha onda de devaneios.

-Ah, não cheguei há muito tempo. –disse a ela.

-Não sabe o quanto fiquei preocupada com o que ele poderia estar fazendo com você. –indagou, torcendo o nariz, enquanto sentava-se na beirada da cama.

Deixei que uma risada sombria escapasse.

-E eu que achei que a relação de vocês estivesse um pouco melhor. Nunca vai confiar nele, não é? –perguntei.

-Hum...-fitou os lençóis da cama, com um profundo olhar frio, algo que não era costumeiro em Sarah, já que sempre fora doce. Apenas quem muito lhe conhecia para presenciar seu lado ameaçador. Desceu os olhos até os meus, erguendo apenas uma sobrancelha. –Talvez um dia eu possa tolera-lo, simplesmente ignora-lo, mas nunca confiarei nele e nada fará com que isso aconteça. –eu podia ver as brasas ardendo em seus olhos. Mesmo que a visão não fosse uma das mais agradáveis, ou sequer otimista, Sarah era um ser moldável e talvez até mesmo nesse quesito.

-Talvez eu possa conviver com essa situação que vocês mantêm. – Provavelmente não teria de conviver com a tal situação por mais muito tempo.

-Mas então, o que fizeram? Não queira que acredite naquela história de que estava preocupada com o bebê depois de um pesadelo e Axl se ofereceu a leva-la ao médico. –relembrou a desculpa que lhe dera antes de sair, pela manhã. –Não sou tão fácil de ser enganada, Lizzi Rose!

Permiti-me uma risada.

-Fomos até a praia que a qual havíamos ido antes, no meu aniversário de 17 anos. Ele queria me fazer uma surpresa e sabia o quanto eu amava aquele lugar. –contei.

-E o que aconteceu entre vocês durante esse passeio? –perguntou curiosa.

-Nada. Axl foi...compreensível. –examinou minha expressão, provavelmente procurando traços de uma mentira, porém, em sua breve frustração pude perceber que ela não encontrou nenhum sinal em mim que contradissesse o que lhe havia contado.