My Dark Angel
31 Rainbow
Notas iniciais
Divirtam-se.
Beijos.
–Eu vou ao Rainbow hoje com os garotos. Não quer vir? -perguntou.
–O que é Rainbow? -perguntei incrédula.
–É um bar. -ele disse dando de ombros.
–Não. Nem pensar, eu não quero ter de encontrar com Axl. -neguei imediatamente, balançando negativamente a cabeça.
–E quem disse que ele vai? -perguntou e eu fitei seus olhos, com lábios ligeiramente entre abertos, por alguns segundos. Ele escondia um sorriso debaixo dos lábios. -Axl não estará lá. Não que os garotos não tenham chamado, mas ele está depressivo demais para isso. Prefere ficar trancado, sozinho, com garrafas de bebidas e seus pensamentos...obscuros. -Fechei os lábios, fugindo de seus orbes, e tornando a olhar para frente. Ainda em silêncio, pensava em Axl, pensava em o quanto acabado ele estava por minha causa. A saliva que se acumulara em minha boca desceu arranhando minha garganta, como seu eu acabara de engolir uma bola de espinhos.
Era aterrorizante demais para mim pensar no estado em que ele se encontrava. Meu Axl. Uma parte gritante de mim dizia-me que eu era um monstro, mas a outra parte, menor, que tinha a intensidade de um sussurro, murmurava sutilmente "Não faz diferença" .
Não era a hora de ouvir o coração.
–Tudo bem. Eu vou. -respondi, amarga e decidida. Ele me olhou sorrindo e eu forcei um sorriso amarelo também. Selou-me rapidamente.
Levantei-me da cama, vestindo apenas uma calcinha. Fui até o guarda-roupa escolher o que eu vestiria. Tirei de lá um short vermelho e uma blusa preta. Os sapatos eu poderia deixar por último.
Antes que eu pudesse chegar ao banheiro, Duff se aproximou, vestindo sua cueca boxe preta. Envolveu-me com seus braços e beijou minha nuca. Mordi o lábio ao sentir sua respiração quente bater em meu rosto e ecoar em meu ouvido.
–Posso tomar banho com você? -perguntou.
–Não. -respondi e ele resmungou. -Podemos fazer isso depois que voltarmos. -disse a ele.
–Você é má. Vou ter de esperar até mais tarde. –choramingou.
–Ah Duff, não seja bobo. Acabamos de transar. Vai morrer se tiver que esperar até mais tarde? -questionei erguendo uma das sobrancelhas.
–Tudo Bem. — ele disse em um suspiro.
Saí do banheiro já vestindo a roupa escolhida, inclusive o sapato, deixando no rosto de Duff uma expressão surpresa.
–O que foi?
–Você não costumava se vestir assim. -ele disse. -Está linda. — Talvez ele se referisse as roupas mais escuras e mais...vulgares do que eu costumava a usar. Os saltos imensos, a maquiagem bem marcada nos olhos, o batom vermelho na boca... Esse tipo de vestimenta já era utilizada por mim desde quando resolvi renovar todo o meu guarda-roupa, mas naquela noite minha mudança ficou ainda mais exposta.
–Ah! Obrigada! -forcei um sorriso.
O caminho até o tal Rainbow foi rápido. Logo pude enxergar um letreiro iluminado, de fundo colorido, como um arco-íris, fazendo juiz ao nome. Sua parte interna tinha decoração amadeirada, quadros com fotos nas paredes e cheiro de fritura. Era confortável e barulhento.
Slash, Izzy e Steven estavam reunidos em uma mesa mais ao fundo. Percebi que haviam duas mulheres louras junto a eles. Duff puxou-me pela mão, logo atrás dele. Aproximou-se da mesa, e eu pude ouvir Steven anunciar sua chegada.
Cumprimentou rapidamente os amigos, que curvavam o pescoço na tentativa de enxergar a garota que fazia "esconderijo" em suas costas. Posicionei-me ao lado dele, ostentando no rosto um sorriso.
–Lizzi?! -Slash disse incrédulo. -Nossa! Você está incrível.
–Obrigada. -agradeci o elogio.
–Está mesmo...linda. -disse Izzy, observando-me imóvel, com sua expressão surpresa.
–Ah, muito obrigada. -agradeci novamente e um certo silêncio se fez. -E não vão me apresenta-las? -perguntei referindo-me as garotas que ali estavam.
–Ah! -Slash suspirou. -Essa é Mariah. -disse apontando para a garota ao seu lado. A olhei sorrindo e ela retribuiu com um sorriso simpático.
–E essa é a Lurdes. -disse Steven e eu sorri para ela recebendo um novo sorriso em retribuição.
–É um prazer conhece-las. -eu disse.
Duff se sentou e me puxou para que eu me sentasse ao seu lado, envolvendo meus ombros com um de seus braços.
A noite estava sendo muito divertida. Dávamos boas gargalhadas. Eu surpreendia os garotos com a minha nova forma de agir. Equilibrava-me entre o copo com a bebida alcoólica e o cigarro preso nos dedos. Divertia-me mais ainda ao vê-los boquiabertos com meus atos. Pareciam adorar a nova Elizabeth.
Entre alteração de voz, garrafas de cerveja, fumaça de cigarro, palavrões e brincadeiras toscas abríamos sorrisos alegres e quase bêbados, no caso dos garotos que passavam dos limites com a bebida. Nunca havia me divertido tanto. Acho que nunca pude, estava reprimida demais por Axl e Sarah.
Tão loucos e engraçados, agora sim eu conhecia aqueles que Axl tanto me impedira de conhecer.
Em meio às brincadeiras e risadas tudo estava perfeito demais, até que fui posta a prova. A droga começou a rolar pela mesa, deixando-me assustada, paralisada, de alguma forma aquilo me amedrontava.
"Ela não vai se poluir com essas coisas podres, não vou deixar que aconteça com ela o mesmo que aconteceu comigo." "Aluno morre depois de uso abusivo de drogas." "Overdose." "Mike começou a abusar de drogas, trazia problemas para casa." "Começou a roubar coisas de casa, gritava com todos, chegou a me bater." "Não quero que se polua com essas sujeiras."
Um filme passava por minha cabeça, em alta velocidade, porém não me impedindo de ouvir a fala de nenhum personagem.
–Sua vez Lizzi. Experimente. -disse Steven. Fiz silêncio, com os olhos arregalados, gritantes em dúvida.
–Experimente, Lizzi. -disse Duff.
–Tenha certeza, é muito bom. -indagou Mariah.
Não posso. Não devo. Mas parecia tão excitante, excitante demais para alguém que buscava algum tipo de prazer na vida. Eu queria. Queria usar aquilo. Estava me afogando no pensamento de querer. Mas será que queria mesmo? Ou criei esse pensamento tornando-o verdade, como fizera com outras coisas, apenas para provocar aquele que eu tanto amava, mas por quem agora fervia de ódio?
Estava prestes a cometer um erro por causa dele, ou prestes a provar de uma boa sensação pelo qual meu corpo clamava?
Eu precisava daquilo? Eu deveria fazer aquilo, mesmo correndo o risco de me arrepender depois?
Suspirei. Fechei os olhos por alguns segundos. Engoli a saliva de desespero que se acumulara em minha boca, ouvindo o caminho que ela fazia por minha garganta. Abri novamente os olhos, enxergando minha mão a puxar para mim o papel com a droga.
Sentia-me sobre pressão naquele momento. Como se estivesse em uma árdua disputa onde todos torciam, acreditavam em mim, gritavam o meu nome. Mas aquela situação era bem diferente.
Então de que aquela tola, ali posta à prova tinha medo? Seria apenas uma vez. Apenas um experimento.
Mesmo perante as frases incentivadoras que surgiam em minha mente eu me sentia pressionada. Temia algo que nem eu sabia o que era.
Peguei o canudo de papel. Fitava o outro, que continha um pó branco. Eu não conseguia mais ouvir nada a minha volta. Como se estivesse sozinha ali. Era capaz de ouvir apenas dois sons, que para mim eram desesperadores, o de minha respiração pesada e o meu coração acelerado. A mão suou frio, tremeu bruscamente, o canudo quase caiu de meus dedos.
Ainda com os olhos esbugalhados, desencostei-me levemente do assento. Meus lábios estava entre abertos, deixando minha respiração acelerada ainda mais audível. Mas antes que eu me aproximasse do papel para concluir meu ato um novo som rompeu o ar interrompendo-me.
–Você não vai fazer isso. -eu reconhecia muito bem aquela voz, escondida por trás de um som de angústia. Axl parecia uma assombração, parado próximo a mim, em frente à mesa. A frase saiu lentamente de sua boca, entre dentes, fazendo com que eu o olhasse, assustada. Era mesmo uma assombração, a minha assombração, que me perturbava todos os dias, que me fazia derramar lágrimas na calada da noite, que comprimiu meu coração de uma só vez, apertando-o, sem dó, em suas mãos. Só que dessa vez minha assombração estava ali, de carne e osso, parado próximo a mim, com seu olhar angustiado e sua expressão dolorosa.
Olhei dentro de seus olhos por poucos segundos e então levantei-me, rapidamente e saí correndo do local, como uma criança assustada, com medo. Foi involuntário, nem sei porque fiz aquilo, mas no momento em que sua voz ecoou em meus ouvidos, foi como se eu voltasse a minha infância e ouvisse uma ordem de meu pai, ao mesmo tempo um medo insano acometeu-me. Não tinha coragem de ver o rosto de Axl daquela forma, não conseguia, aquilo me machucava.
Reprimida por meus medos infantis, deixei que lágrimas escorregassem por minha face, enquanto andava apressada para sair do local.
–PORRA, AXL. -pude ouvir um grito de Duff depois que levantei-me apressada, um grito acompanhado de um estrondo na mesa de madeira, decorrência do soco que ele deu ali com as mãos, enfurecido.
Empurrei a porta saindo do local. Na rua onde deveria haver barulho e movimentação, havia apenas o silêncio de uma noite vazia, pelo menos era tudo que eu podia enxergar. Tudo parecia estar entranho naquela noite fria e silenciosa. A lua e as estrelas não davam brilho ao céu escuro, mais escuro que o normal, como se anunciasse uma chuva.
Sentei-me imediatamente na beirada da calçada e pus a cabeça entre os joelhos. Deixei que as lágrimas encharcassem minha face borrando completamente a maquiagem preta. Logo ouvi os passos de Duff se aproximando. Abaixou-se, envolvendo meus ombros com seus longos braços e beijando o alto de minha cabeça.
–Desculpa, não deveria ter te trago. –Sentou-se ao meu lado e eu recostei minha cabeça em seu ombro. –Ah, meu amor! Não chore, por favor. –Apertou-me sutilmente contra ele.
–Me. Tira. Daqui. Por. Favor. –disse pausadamente, buscando voz no fundo de minha garganta e permitindo que ela saísse de minha boca trêmula em meio a soluços.
Duff fez o que pedi. Tirou-me dali e quando percebi já estava de volta a minha casa.
Assim que cheguei fui até o banheiro. Lavei o rosto grudento em decorrências das lágrimas que ali secaram. Olhei a face molhada no espelho por alguns segundos, antes de seca-la. Por fim acabei voltando à sala. Duff se encontrava sentado no sofá. Ainda em silêncio, deitei minha cabeça em seu colo. Sua mão caminhou pelo comprimento de meu cabelo, fazendo com que minhas pálpebras pesassem. Senti sua mão correr até meu ombro empurrando sutilmente minha blusa para baixo.
–Por favor, Duff. Hoje não. –murmurei.
–Desculpa. Quer que eu vá embora? –perguntou cauteloso.
–Não. Por favor, fique. Eu... –forcei-me a continuar a frase. –Eu preciso de...você, aqui. -pude imaginar o sorriso que abrira quando disse isto.
–Tudo bem, eu fico.
Acabei por deixar que o sono me embalasse definitivamente.
Despertei em um pulo. Ergui o tronco e olhei o lugar em que estava, assustada. Era uma grande sala escura, iluminada apenas pelos raios de luz que ultrapassavam os vidros da janelas coloniais pequeninas, que quase encostava no teto alto.
A sala era cheia de espelhos, estavam por todas as partes. Fechei os olhos por alguns segundos e os abri novamente. Eu estava na mesma sala, só que dessa vez iluminada, parecia perfeita. O assoalho brilhava, os espelhos não tinham um floco de poeira. Aquilo me lembrava algo.
O cheiro de madeira e hortelã me era peculiar. Minha memória agiu rapidamente, trazendo a minha mente imagens de minhas aulas de balé, minhas primeiras aulas, quando eu era uma pequena criança que corria saltitante por toda aquela academia. Minha primeira academia de balé. Minhas aulas de balé ali duraram 2 anos. Logo depois mudei de academia. Após 1 ano da minha saída soube que ela havia fechado.
Ouvi o som da grande porta dupla de madeira escura se abrir.
–Elizabeth. –chamou a mulher, parada na soleira da porta. Tentei reconhece-la. Conhecia aqueles traços suaves em seu rosto, estava certa disso. Claro, como pude me esquecer. Giulia, minha professora de balé. Como ela me reconhecia? E seu rosto? Era o mesmo da última vez que havia lhe visto, há 13 anos. Nenhuma marca de velhice, ela parecia ter ainda seu jovens 24 anos. –Ó pequena Lisa, o que faz aqui? –perguntou chamando-me da mesma forma de sempre, se aproximando.
Pôs o dedo indicador em baixo de meu queixo, olhando em meus olhos, como fazia quando eu era pequena.
–Ele te largou não foi? –ela disse e eu franzi o cenho. Ele? Como ela sabia sobre Axl? –Não se faça de boba, eu sei. –sua íris ficou vermelha, da cor do sangue, e sua voz soou demoníaca, rouca, monstruosa, fazendo-me estremecer, ao ver sua face formar uma cara feia. Aquela não era a minha professora. Dei alguns passos para trás, assustada, mal conseguia me mexer.
O corpo possuído andou para trás enquanto eu via a sala iluminada transforma-se na escura sala abandonada de antes. A “professora” inclinou seu corpo para trás, soltando uma gargalhada zombeteira com aquela voz amedrontadora.
Tremi de medo, sentindo meu corpo gelar. Tentei manter os lábios entre abertos, respirando ofegante.
–Ele não está com você, não é? Ele te deixou. Ah querida Lizzi, ele te deixou. –dizia com a mesma voz, aproximando-se de mim. Os cabelos da “professora”, antes presos em um coque perfeito se soltaram. Sua cabeça girou, duas voltas completas, deixando-me assustada. Quando pude ver seu rosto novamente, tudo que havia ali era uma face terrível, machucada, de cor esverdeada, mostrando seus dentes podres, e deixando que uma espuma escorresse por seus lábios escuros.
Não podia negar o quanto estava com medo. Afinal, onde estava a sombra negra de capa rasgada? Onde estava a imagem dos meus pesadelos? Aquele parecia pior, muito pior, mas eu estava fervendo de ódio daquela situação. Não suportava mais sentir medo toda vez que fechava os olhos, a noite. Aquilo já chegara ao limite.
Trinquei os dentes, bufando. Um grito roco e enfurecido saiu de meus lábios.
–CHEGA! –gritei. –ME DEIXE EM PAZ. –disse no mesmo tom de voz, ouvindo uma gargalhada maligna da imagem tenebrosa a minha frente.
–Por que não chama por ele? –ainda tentava entender o porquê dela se referir a Axl o tempo inteiro. –Ele te traiu, não foi? Acho que ele não te ama mais, pequena...Lizzi. –disse em tom de deboche e por fim pronunciou meu nome em tom de sussurro longo.
O sangue pareceu ferver em minhas veias, o jeito como falava de Axl, como tocava na ferida ainda aberta. Agora, chega!
Corri na direção da figura monstruosa. Cravei minhas unhas em seu rosto e acertei-lhe um soco sentindo uma terrível ardência em meu punho. O tal “monstro” tinha uma face dura como um mármore, áspera como uma lixa de unhas e gosmenta a ponto de me embrulhar o estômago. Levantou a cabeça depois do soco, não mostrando nenhuma nova ferida em seu rosto nojento. Exibiu seus dentes podres em um sorriso debochado e maquiavélico.
–Você acha que isso dói? –perguntou dessa vez quase num sussurro. –Vai doer muito mais em você. –disse ela.
Senti algo pressionar meu pescoço, mesmo que suas mãos estivessem longe de mim. Ela continuava com seu riso zombeteiro, inclinando a cabeça para o lado esquerdo, enquanto eu trincava os dentes, levando minhas mãos ao meu pescoço tentando tirar de lá o que me sufocava. A tentativa fracassava, pois não havia nada em meu pescoço.
Estava completamente sufocada, não conseguia respirar. Tentava a todo custo arrancar as garras invisíveis de meu pescoço. Meu corpo já levitava quando percebi que ela erguia a mão, como se controlasse o que fazia de longe.
Nada se igualava a sensação de sufocamento, a tentativa frustrada de salvar sua vida, de respirar. De repente algo que parecia tão simples se torna tão importante. Será que aquela era a hora anunciada? O momento que temi a vida toda? A morte durante o sono?
Nunca esperei que aquilo fosse acontecer, não naquele momento. Não senti medo, mesmo não tendo me preparado para aquilo, eu não tinha medo, apenas um desejo não realizado, um último beijo daquele que amo. Mas se aquela era a hora, que eu fosse em paz.
–Dói, não é? Então por que não chama por ele? –disse ainda em tom de sussurro. –Ah, deve ser porque você pediu para ele ficar longe. –Fez-me lembrar de minhas palavras da noite em que descobri toda a verdade sobre Axl. Aquilo machucava dez vezes mais do que a pressão sufocante em meu pescoço. – Eu sabia que ele não poderia te proteger de mim por muito tempo. Eu iria conseguir, pequena Lizzi, eu sempre consigo. –A essa altura minha cabeça já estava próxima do teto. –ANDE, LIZZI. GRITE POR ELE, VAI. GRITE. –alterou o tom de voz. –Acho que não consegue não é? Então deixe que eu faço por você. AXL EU ESTOU COM A SUA GAROTINHA, vem pega-la. Ah! Que pena, acho que ele não te ama mais. Será que ele pode me ouvir? –acompanhou a frase de um riso final. Minha garganta pareceu contrair-se e fazendo um grito desesperado conseguisse escapar de meus lábios, involuntariamente, soando como um grito de dor. –Não, ele não pode ouvir. –disse ela.
Duff Point Of View On
Acordei em um pulo, acendendo o abajur da mesinha de cabeceira. Olhei para o lado, assustado e vi o corpo de Lizzi arqueado. Ela se debatia incessantemente, com a boca aberta, como se tentasse respirar. Estava sufocada. O rosto antes branco já tinha coloração azulada, enquanto eu tentava a todo custo acorda-la.
Até que algo me assustou ainda mais. Entre as braçadas apressadas e movimentos de perna bruscos, seu corpo levitou, saindo por completo da cama. Um choque percorreu minha coluna me deixando arrepiado.
–Ai Meu Deus! Que porra é essa. –murmurei comigo mesmo, visivelmente desesperado. –LIZZI, POR FAVOR, LIZZI. ACORDE! –gritei puxando seu corpo para baixo e sacolejando lhe. Seus olhos abriram, arregalados, ardiam em medo. Ela respirou ofegante enquanto eu a puxei para que ela se sentasse na cama, tão nervoso quanto ela, e abraçando-a contra meu peito. –Ah meu amor, o que foi isso? Você me assustou. Você está bem? –perguntei, checando seu rosto, completamente desesperado. Ela estava desnorteada, perplexa, fitava o nada, parecendo tentar sair por completo daquele pesadelo terrível. Sua mão apertou meu ombro e ela aconchegou-se em meu peito, em silêncio, abracei-a fortemente, sentindo a temperatura gelada de sua pele naquele momento.
Duff Point Of View Off
[...]
Já sentada no sofá da sala, ao lado de Duff e subitamente mais calma pude-lhe explicar melhor o que havia acontecido.
–Desde pequena tenho pesadelos toda vez que durmo. Todos semelhantes. Certa vez a sombra negra que fazia parte de todos fechou suas garras em meu pescoço, deixando-me da mesma forma como hoje, mas antes que eu pudesse morrer sufocada mamãe me salvou. Escondida de meu pai minha mãe buscou ajuda espiritual, mas ninguém sabia dizer ao certo o que era aquilo. A única informação que se tinha era que uma morte durante o sono estava premeditada. Em uma certa época os pesadelos se foram inexplicavelmente, atormentavam-me pelo menos duas vezes no mês, mas a frequência já não era mais a mesma. Logo que me mudei para Los Angeles eles voltaram, mas estranhamente depois do inicio de meu namoro com Axl eles já não existiam mais, eles nunca mais apareceram. Depois que terminamos eles voltaram aos poucos, aumentando sua intensidade de terror a cada pesadelo, mas estou certa de que hoje com certeza foi o pior de todos que eu já tive. –expliquei-lhe que ouvia a tudo atentamente.
–Isso quer dizer que você corre o risco de morrer a qualquer momento? –perguntou.
–Toda vez que durmo ponho minha vida a prova. –respondi.
–Mas você disse também que depois do seu namoro com Axl os pesadelos não existiam mais...? –ele disse.
–É, talvez uma coincidência ou sei lá... –eu disse observando sua expressão pensativa.
–Axl também tem demônios presos no corpo dele.
–Tem? –questionei.
–Tem. Eu lembro que uma vez ele se estressou com o cara na rua e os olhos dele ficaram vermelhos, ele estava meio que possuído por algo. –ele explicou e minha memória encaminhou-me para o dia de nossa briga. Os olhos vermelhos. A voz monstruosa. A força descomunal. As lembranças me acertaram como uma enxurrada de água fervente. Então outras lembranças invadiram minha mente.
“ Ele não está com você” “Ele te deixou” “GRITE POR ELE” “ AXL EU ESTOU COM A SUA GAROTINHA” “Ele não poderia te proteger de mim por muito tempo” . As lembranças rodeavam minha mente, deixando-me cada vez mais assustada. Aquilo não podia ser verdade. Levantei-me e perambulei pela sala, de uma lado para o outro.
"Nele está a sua proteção". Lembrei-me dos dizeres de vovó.
–NÃO! –eu gritei sentando-me no sofá.
–O que foi? –perguntou Duff.
–Era ele quem me protegia dos pesadelos, Duff. De alguma forma os demônios dele afastavam os meus. –murmurei.
–Então se você não voltar para ele essas coisas podem te matar?-perguntou e eu me calei, deixei que ele chegasse a resposta sozinho.
–Eu não vou voltar para ele, Duff. –eu disse. –Eu não posso, não consigo. –completei me desfazendo em lágrimas.
– Será que não tem outra forma de você fugir disso? –perguntou desesperado.
–Não. Já tentei de tudo. É o meu destino, Duff. Tenho de deixa-lo se cumprir. –murmurei.
–NÃO! –ele gritou levantando-se enfurecido. –Não posso deixar que isso aconteça, Lizzi. Eu suporto até te ver com ele, mas não te ter mais viva... –murmurou quase tendo uma crise de choro.
Aquela noite eu não consegui voltar a dormir. Passei horas na varanda, com a visão do amanhecer que chegava aos poucos. Duff ficou ao meu lado até que o sono o fosse buscar. Concordou em não voltar ao assunto. Minha mente já estava atormentada demais.
Foram anos de busca para uma resposta sobre aquilo. Foram anos sofrendo toda vez que fechava os olhos. Anos de medo, apreensão, anos tentando prever o futuro, anos tentando encontrar a cura. A cura apareceu de repente, esteve ao meu lado por um ano, livrou-me daquele submundo, e eu mal percebi que tinha em mãos aquilo que tanto busquei. Agora a cura tinha partido, deixando apenas as marcas, deixando vulnerável meus sonhos. Pensei se ele era o único que podia. Termos sido feitos um para o outro fazia mais sentido então. Não era uma ilusão, não era uma blasfêmia, era um fato, era uma salvação.
O cadeado de proteção estava com ele, sempre esteve e num descuido das trevas o cadeado veio parar em minhas mãos. Tarde demais, ele já se fora pelo ralo, se decompunha nos esgotos da cidade. Era a última chance a me esvair pelos dedos, era a morte vencendo, eram aqueles demônios ganhando. Não havia mais nada a fazer, eu era deles. Tudo que tinha a fazer era esperar.
Digo que chorei um oceano aquela noite. Chorei por horas, chorei o que não poderia chorar em meu próprio enterro. Aquele oceano de lágrimas então transformou-se em uma tsunami. Levou mais uma vez embora meus tijolos fracos que antes estavam de pé. Levou também qualquer vontade que ainda houvesse de reerguer as paredes.
Medida pela aquela noite pensei se teria a chance de ao menos ver Sarah pela última vez. Será que ela sentiria minha falta? Será que a dor de me perder seria semelhante a de ter perdido Mike? Pois eu preferia que ela me odiasse do que sofresse como sofreu com a morte do irmão.
Mas a possibilidade da dor de Sarah nada era comparado ao meu desespero em pensar em minha mãe. Eu sei que ela se culparia, culparia papai por não tê-la permitido ter a última imagem de um sorriso meu, por não ter tido a oportunidade de se despedir de mim.
Quanto a Duff. Ele era forte, mas não sei se aguentaria. Ele tinha de suportar. Seria terrível vê-lo chorar minha morte. Provavelmente era com ele que eu mais me preocupava. Ele me amava com todas suas forças, ele me amava de forma que nunca vira antes. Não me restavam duvidas de que ele seria capaz de trocar sua vida pela minha.
Eram cinco da manhã quando fui até o quarto, vê-lo dormir. Acabei deitando-me ao seu lado. Observei atenta cada detalhe de seu rosto relaxado. Dormia como um anjo. Tão quieto, mais parecia um doce menino, ingênuo.
Toquei seu rosto delicadamente, com a ponta dos dedos. Acariciei por alguns minutos, preparada para me afastar caso houvesse alguma reação de desconforto.
–Meu anjo. –murmurei baixinho. –Obrigada por ter estado ao meu lado por tanto tempo. Não sei o que seria de mim se não estivesse aqui. –completei sem que houvesse nenhuma movimentação por parte dele. –Por favor, não chore quando eu for. Eu vou olhar por você. Desculpe se não fui capaz de sentir nada. –terminei e então fechei os olhos para permitir que mais algumas lágrimas caíssem.
Fora toda uma vida sem temer aquele dia, mas o que antes era uma possibilidade se tornou para mim uma certeza. O acontecimento estava próximo. Eu tinha de me preparar.
Assim que o relógio bateu o horário eu saí para a escola. Tinha de continuar seguindo minha vida até onde eu podia.
Foi quando abri o caderno, já em sala de aula, que novas lágrimas arderam em meus olhos. Eu acabara em uma folha onde havia apenas um grande coração. Dentro ele trazia escrito em letras de forma LIZZI AND AXL FOREVER.
–Quero ficar ao seu lado para sempre. –disse ele.
–E quem disse que para sempre existe? –perguntei.
–Eu não acreditava neles até que você me provasse que existem coisas que duram para sempre, e o que sentimos um pelo outro é uma delas. –respondeu.
–Obrigada por me fazer acreditar em para sempre, Axl. –murmurei comigo mesma.
Duas semanas de angústia. Duas semanas vendo o medo e o desespero estampados no rosto de Duff. Duas semanas sem que ele voltasse para casa. Duas semanas vendo meus pesadelos piorarem e fracassarem em algumas noites. Parecia que havia algo muito forte lutando contra aqueles demônios, impedindo que eles concluíssem se trabalho.
Sozinha, em meu quarto, certa vez, perguntei-me se talvez não fosse vovó. Foi quando o diário que acabara de usar caiu ao chão, aberto exatamente na página onde estava sua foto. Ela estava mesmo fazendo de tudo para me proteger.
Era uma linda tarde de domingo quando Duff me convenceu a irmos ao cinema. Tomei meu banho e vesti-me. Saímos sem ideias de filme. A escolha veio de Duff, um filme cujo nome eu mal sabia qual era.
Depois de um súbito romance de Hollywood acabamos em uma soverteria as gargalhadas. Até que Duff teve uma ideia não muito plausível. Quis levar-me a casa dos garotos. Com a insistência não hesitei. Aquele lugar não me trazia boas lembranças. Já se passara três meses desde a última vez que estive ali. Se foram três meses desde a pior noite de minha vida.
Nada era a visão da fachada comparada a sensação de aproximar-me da porta de entrada novamente. Pior ainda era por os pés naquela sala de novo. Mas aquela sensação não teve tempo de florescer. Assim que pus os olhos dentro da sala eu e Duff fomos recebidos pelo desespero terrível dos garotos.
–Ainda bem que chegou, Duff. –disse Slash desesperado.
–O que foi? –perguntou Duff.
–Axl, se trancou com uma arma no quarto. Já insistimos, ele não vai abrir a porta. Ele quer se matar. –suicídio nunca fora uma palavra ofensiva para mim, até aquele momento. A morte se tornaram algo mais atormentador para mim do que nunca. Em uma confusão de pensamentos, fitei o chão, desnorteada. Minha cabeça ardeu, meu corpo estremeceu de imediato.
Varri o local com os olhos perplexos por menos de um segundo. Joguei sobre o sofá a bolsa e soltei-me da mão de Duff, correndo para a escada.
–Ei, Lizzi, onde vai? –perguntou Duff.
–Não posso deixa-lo fazer isso. –respondi.
–Eu vou com você. –disse ele preparando-se para se mexer.
–Não, Duff! Você fica. –eu disse.
–Você não sabe o que ele é capaz de fazer. –murmurou atormentado.
–Ele não vai me machucar. –eu disse confiante.
Subi correndo as escadas. Cada degrau parecia ser a perda de um batimento cardíaco de Axl. Cada passo meu era o dilacerar de um coração desesperado. Respirei fundo quando cheguei a porta do quarto.
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