My Dark Angel
52 I Was Here
Notas iniciais
Divirtam-se!
Beijos!
-Lizzi, estava analisando seus últimos exames e tenho uma conversa a tratar com a senhora, se possível com urgência. –ouvi certa preocupação sobressaltar na voz do médico.
Sondei a casa por alguns minutos, de dentro do carro, presa a meus devaneios, encontrando forças para entrar e esconder qualquer angústia que estivesse exposta em meu rosto. Embora chorasse ao longo do caminho, tudo que minha face entregava de antemão era cansaço.
-Lizzi! –anunciou Martha, com sua voz aveludada e condolente, assim que entrei, sorri fraco em retribuição. –Tem uma surpresa para você.
-Surpresa? –questionei.
-Sim, temos um novo morador. –disse sorridente. –Zayn, vem cá, garoto! –chamou e logo eu ouvi as patas estalarem no assoalho, ele deu um único latido, surgindo com seu pelo dourado e correndo até mim.
-Ai Meu Deus! Zayn –eu disse surpresa, abaixando-me para acaricia-lo. –Oh, garotão, estava com saudades. –disse, sentindo lágrimas arderem ao fundo de meus olhos.
-Andei conversando com Louise, a sua governanta, e ela disse que ele sentia muito sua falta e então achei que fosse adequado que ele passasse um tempo aqui. –disse ela.
-Não precisava fazer isso, Martha. É loucura. Ele vai fazer barulho, vai dar trabalho... –murmurei.
-Não, não, eu amo cachorros. Sarah sempre quis um, mas sempre deixávamos para depois e então nunca adotávamos um. Eu trabalhei com cães abandonados quando era mais nova. Tenho uma paixão por eles, são tão sinceros e carinhosos. –disse. Zayn se juntou a ela, recebendo um afago no alto da cabeça. –E ele também gosta mais e ficar perto da piscina do que aqui dentro, muitos passarinhos voam no jardim de trás, acho que ele gosta deles. –disse ela.
-Ah, Martha. Obrigada! –corri contra ela, abraçando-a.
Antes que anoitecesse, Zac invadira o quarto, trazendo nas mãos uma sacola azul-bebê. Serelepe, chegou sorridente, cumprimentando em quase um grito. Beijou minha testa e depois minha barriga, juntando-se a mim, sentado a beirada da cama.
-Trouxe uma coisa para ela. –comentou.
-O que? –perguntei. Entregou-me a sacola para que visse. Enrolado em um papel azul estava o pequenino casaquinho colegial, igual a que os jogadores de algum esporte do time da escola usavam.
-Queria que ela tivesse alguma coisa para se lembrar de mim. – murmurou.
-Deus! É lindo! –disse admirada. –Obrigada, Zac! –agradeci.
-Você está abatida. O que aconteceu? –perguntou.
-Precisamos conversar. –disse séria, pondo de lado o presente.
-Eu fiz alguma coisa de errado, porque se eu fiz... –cortei sua frase.
-Não, não, Zac, não fez nada de errado. –havia certa exaustão na minha voz aveludada.
-O que foi então? –perguntou curioso.
-Fui ao médico hoje. Fiz uns exames há alguns dias atrás e ele se surpreendeu com algo no laudo. –expliquei.
-Algo de errado com o bebê? –questionou.
-Zac... –tentei buscar palavras que pudessem ser o bastante para explica-lo a situação, mas não tive bons resultados. –O médico disse que eu estou enfrentando uma gravidez de risco...-disse hesitante, temendo sua reação.
-E...e o que isso quer dizer? –no desespero que se formava em sua face eu pude entender que mascarava com a confusão o medo de acreditar no que havia dito.
-Eu...Eu posso morrer durante o parto. –sua face paralisou. Balançou a cabeça em sinal de negação.
-Não, não... –riu sombriamente. –Tá querendo dizer que pode...? Não isso não é possível, não pode acontecer –levantou-se, andando de um lado para o outro do quarto.
-Zac, por favor, por favor, eu preciso que me escute... –supliquei, sentindo uma lágrima molhar meu rosto. Fitou-me em feição de dor vaga, aproximou-se, sentando novamente na cama.
-Quais são as possibilidades de as coisas darem errado? De você... –não pode terminar a frase.
-70 % a 80%. –respondi. Lágrimas, acenderam-se ao fundo de seus olhos. –Zac, Zac...-segurei sua mão, tentando evitar que novamente levantasse. –Eu preciso que você seja forte, independente do que aconteça e se for o caso...E preciso que cuide de Martha e principalmente de Sarah, ela já passou por isso antes, perdeu o irmão, não sei se ela suportaria passar por tudo isso de novo, mas eu preciso dela viva, preciso que ela ajude Axl a criar minha filha.
-Isso não vai acontecer, não va... – o cortei, segurando seu rosto para que me olhasse.
-Vocês vão ter de ser forte. Quero que se certifique que minha mãe ficará bem e de que Axl não vai fazer nenhuma besteira. –ele abraçou meu peito e então desatou em lágrimas. –Eu não quero que mais ninguém saiba disso agora, apenas você sabe e você precisa enfrentar isso. –acaricie seus cabelos. –Independente do que aconteça eu vou estar aqui com vocês, mesmo que não mais em corpo. Por favor, seja forte. –ele continuava a prantear continuamente.
-Você não vai, você não pode ir, eu não vou te deixar ir... –disse entre lágrimas.
-Se eu for, eu irei em paz, Zac, sabendo que eu fiz minha parte aqui, eu vou feliz por ter conhecido vocês, por ter realizado meus sonhos, por Axl ter entrado na minha vida, por poder torna um último sonho real: ser mãe. –eu disse, não tentando conter as lágrimas que caiam de meus olhos. –Eu só não quero vê-los chorar por isso.
Aquele certamente fora um dos dias mais difíceis da minha vida, porém, eu estava bem. Não era dominada pelo medo de morrer, sabia que se tivesse de partir eu iria com a certeza de que eu vivi e que eu fiz minha parte naquele mundo. Eu iria com todas as lembranças boas, as minhas risadas ao lado de Sarah, minhas declarações de amor a Axl, o amor maternal e benevolente de Martha, a temporada ao lado de Duff, a afeição de minha mãe e o apoio de Zac.
Não queria ser pessimista, não me declarava morta, apenas queria garantir o bem estar daqueles que eu amava, e este era meu maior temor naquele momento.
-Estou preocupada. –respondi a Sarah, que me fitava em sua feição infantil de curiosidade.
-Com o que? –perguntou. Balancei levemente a cabeça em sinal de negação, fazendo um breve silêncio enquanto fugia-lhe os olhos.
-Não tenho notícias dele a mais de uma semana. Ele dispensou Louise, não me deu um sequer telefonema...Estou com medo do que ele possa ter feito. –expliquei, em tom de angústia.
-Já tentou falar com algum dos... amigos dele? –perguntou ela, não demonstrando nenhum interesse ou preocupação pelo estado de Axl, o que já era de se esperar.
-Não consigo falar com eles... Pensei em ir até a casa dos garotos, ou mesmo voltar em casa, mas tenho medo. –eu disse.
-Não, você não vai... Não reconhece que eles não são normais? Sei lá, pode estar em um complô com o Axl, ou o Axl pode fazer, algo, sei lá... –disse ela, alterando o tom de voz a medida que interpretava minha palavras e criava novas possibilidade insanas.
Ri nasalado.
-Você é psicótica, Sarah! –zombei.
-Psicótico é seu marido. –rebateu.
Ficar longe dele certamente não era fácil, cada dia era mais complexo e ao mesmo tempo mais renovador. No entanto, eu sabia que aquela sensação não duraria para sempre, e dali a alguns meses eu teria de relutar contra os meus extintos que gritariam por ele. Eu teria de cala-los de alguma forma.
A luz branca de uma manhã chuvosa caía sobre mim como cascata, refletindo-se em meus olhos que insistiam-se em manterem-se fechados. Sabia que houvera esquecido a janela aberta na noite anterior pelo cantar dos passarinhos que se intensificava em uma melodia destinta, acompanhado do som das árvores médias da rua que bruscamente balançavam-se em conjunto, decorrência do vento que alterava-se constantemente. Recusei-me a levantar. Sentia um leve cheiro de café e flores chagando a minhas narinas. Torci o nariz. Até que então um perfume se aprofundasse, agarrando-se as paredes de meu pulmão e impregnando minhas vias respiratórias.
Abri levemente os olhos sentindo a pressão da luz contra minha visão. Mesmo que não pudesse enxergar com facilidade ergui o corpo, obrigando meus olhos a abandonarem a cegueira e a minha lucidez apressasse até mim. O cabelo ruivo destacando-se na silhueta era como névoa até que meus olhos recobrassem a visão perdida durante o sono.
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