My Dark Angel
46 A Little Piece Of Me
Notas iniciais
Enfim, divirtam-se.
Espero que gostem.
Beijos!
O som a meus ouvidos não era tão silencioso quanto antes, a volta dos sentindo e a falta de lucidez anestesiavam-me. O cheiro de eu eucalipto ardendo em minhas narinas, enquanto minha visão embaçava uma mancha azul; meus ouvidos capitando o som distante de uma máquina hospitalar e uma tensa respiração aproximando-se em ânsia e alivio. O corpo, subjugado pela sensação de peso e exaustão a cada ponto imóvel. Estava quase paralisado por completo. O ar não invadia meus pulmões com perfeição, porém me era o bastante. A estranha impressão de se coberta com panos que não me pertenciam, não encaixavam-se ao meu corpo intensificando-se. Era terrível. O frio chegando como brisa, os olhos entendendo a fraca iluminação não agressiva a minha visão. Movi os lábios secos sentindo o gosto amargo que tomava a extensão de minha língua. A visão me era plena novamente, estranhando o novo espaço ao seu alcance, de cores mortas, destacando-se o azul claro e o branco-gelo. Ouvi uma outra respiração, desta vez mais rápida e delicada, soava com entusiasmo. Postos a cada lado, acompanhando aquelas máquinas, estava Sarah, com seu olhar empolgado, em certo alívio espesso, fitando-me atentamente com vestígio de sorriso nos lábios.
-Onde está... –só então enxerguei ao outro lado, Axl, olhando-me apreensivo, temeroso, em olhos de angústia, parecendo martirizar-se. –Axl. –eu disse aliviada, puxando para mim sua mão direita que ocupava a beirada da cama. Ele curvou-se em minha direção, beijando minha testa.
-O que aconteceu? –perguntei, confusa, não conseguindo recordar-me o que se passara a partir do momento após a discursão, quando sai correndo de casa.
-Você saiu correndo e foi atropelada pelo vizinho que está se mudando da casa ao lado da nossa. –respondeu Axl.
-Tudo culpa dessa coisa. –disse Sarah, referindo-se a Axl em repulsa e ele calou-se, a angústia em seus olhos tornando-se mais evidente, o remorso tomando sua face.
-Sarah, será que eu posso conversar com Axl a sós. –pedi. Insatisfeita lançou um olhar de ameaça a Axl que não quis revidar com qualquer palavra agressiva.
-Qualquer coisa estou lá fora. Vou avisar ao médico que já acordou. –disse ela, deixando o quarto.
-Deveria estar brava comigo. –disse Axl.
-É, não estou. Estou brava comigo mesma. Eu lembro do que eu disse e depois que apaguei tive a sensação de estar morta, e então eu nunca mais te veria, eu morreria com o peso das minhas palavras. Percebi que tudo que eu disse foi idiota demais, porque eu não posso fazer nada se você não estiver comigo. Eu preciso de você, mas do que eu preciso de ar pra respirar, Axl. –murmurei. –É insano demais esquecer tudo que vivemos antes. Eu não consigo fazer isso. –completei.
-Desculpa. Desculpa por ter sido tão idiota com você. Desculpa por ter falado tantas besteiras. Eu nunca quis te machucar. –o tom de suplica em sua voz era quase massacrante. –Não sabe o quanto foi desesperante para mim te ver no chão, desmaiada. Por um momento eu achei que tivesse perdido tudo que tinha. E a um tempo atrás eu diria que tudo isso era tosco demais, ou pura blasfêmia, mas a verdade é que eu não sou nada, NADA, sem você, Lizzi. –sua verdade quase sufocava-me, lembrar de tudo que lhe dissera sem dó nem piedade naquela sala de estar, na nossa casa, era espantoso. –Eu te amo, mais do que a mim mesmo, por favor, em hipótese alguma, nunca deixe de acreditar nisso. –murmurou, beijando-me os lábios.
Axl recuou alguns passos ao som do abrir da porta, por onde passou o médico esguio, de cabelos acinzentados e porte atlético. Nas mãos carregava uma prancheta tomada de papéis.
-Vejamos o que temos aqui. –disse ele em seu tom de voz rouco. –Senhora Elizabeth Rose acordou. –indagou entusiasmado.
Fez-me perguntas rápidas sobre como eu me sentia. Conferiu meus olhos e meus batimentos rapidamente.
-É, acho que alguém logo, logo vai receber alta. Teremos apenas que esperar amanhecer, acho que não vai querer sair do hospital as 04:00 da madrugada, não é? –perguntou, checando o horário em seu relógio de pulso. –Desculpa não ter dado noticias detalhada, tive uma cirurgia de emergência para realizar. Perdão. –o tom de voz sério agora direcionava-se a Axl que assentiu. –Mas como disse antes Lizzi está bem. Logo poderá ser liberada, mas devo dizer que o caso dela pode ser considerado quase um milagre.
-Milagre? –perguntou Axl, incrédulo.
-Sim, são raros os casos de atropelamentos como esse que uma gravidez tão recente pode resistir, mas de fato está tudo bem tanto com ela quanto com o bebê.
Minha paralisia foi imediata. Um choque intenso percorrendo a extensão de minha coluna enquanto eu sentia meus músculos petrificarem e apenas minha barriga permanecer intocável, quase que envolvida por algo indestrutível. A pedra que envolvia minhas mãos tornou-se gelo, arrepiando-me de forma quase que inconsciente. Assustava. Assustava aquelas inúmeras sensações indescritíveis em uma fração de segundos. A pressão abaixo de minha barriga foi sentida, como se algo ali fizesse peso, fizesse moradia. Uma série de espasmos dominando meu corpo, comichões tomando meus pés em sentindo as pernas, por fim os braços. Eu mais parecia um fio de alta tensão desencapado naquele momento, correndo em grande eletricidade. Meus olhos por alguns segundos corriqueiros não mais enxergavam, porém antes que meus ouvidos também não mais pudessem captar qualquer som ouvi a voz de Axl sobressaindo a surpresa:
-Grávida? Lizzi está...grávida? –perguntou em uma incredulidade paralisante.
Eu, nada podia dizer em minha pressão elétrica contida, a notícia ainda entalada em minha garganta, sufocando-me, e de alguma forma, era um bom sufocamento, era uma prazerosa falta de ar. Em minha insignificante vida não vira aquele momento em nenhum dos meus devaneios. Eu sempre desejara filhos, ao menos a partir do momento em que conheci Axl, porém não esperava que viessem de forma tão repentina e inesperada. E o susto talvez tivesse sido menor se tivesse prestado mais atenção em mim mesma nos últimos dias. Enjoos, fome, sono, mudanças de humor constantes, e claro, minha menstruação atrasada. Parecia estranhamente cega perante tais acontecimentos, talvez porque nunca conseguiria acreditar tão facilmente em uma gravidez, mesmo que a tal fosse tão óbvia.
Quase que uma previsão dos próximos meses correndo em meio meus pensamentos frenéticos. O sonho que tantas vezes tivera, o filho de Axl como um dia desejara. Algo crescendo dentro de mim, algo que me pertencia, era meu, era um pedaço de mim unido de forma imprescindível a um pedaço do homem que eu amava. A junção de nós dois em um pequeno ser. A criança que correria pelo jardim de nossa casa, que tiraria comida do prato para dar a Zyan, que pularia em nossos braços na piscina, que correria para nossa cama em noite de chuvas e trovoadas, que nos gritaria depois de um pesadelo, a quem Axl ensinaria as primeiras melodias no piano, aquele que me molharia quando eu o fosse banhar. Aquele que desceria correndo as escadas na manhã de natal aos gritos, dizendo que papai-noel deixara seu presente. Uma criança que me chamaria de mãe, que de alguma forma dependeria de mim. Que encheria as fitas das gravações de vídeos de família.
Então, nada mais me seria importante, nada mais me faria diferença, meu mundo giraria em torno de um ser pequenino. O meu pequenino ser. Junto a alegria recém-despertada vinha o medo, de não ser a ele tudo que ele precisava que eu fosse, de não saber como lidar com uma criança. Não importava, eu o daria todo amor que uma mãe poderia entregar a um filho. Eu seria o que ele quisesse que eu fosse. De repente, eu já o amava, o amava de forma desesperada, um amor...materno.
Um sorriso se fez em meus lábios de forma involuntária, enquanto uma lágrima banhava a maçã de meu rosto, molhando, por fim, meus lábios. Quando minha visão pode alcançar tudo que me cercava novamente percebi o vulto do médico a deixar sala.
-Eu não...Oh meu Deus! Eu vou ser pai. –disse Axl, mal podia conter-se em tamanha alegria. –Vamos ter um filho! –disse ele tomando meu rosto nas mãos e beijando meus lábios.
Entre choques de alegrias estávamos em festa, ainda não cobertos pela aceitação completa do fato. Ainda não conseguíamos acreditar inteiramente. Parecia-nos tão fantástico, tão fascinante e ao mesmo tão desesperador. Comemorações a parte eu pude deixar o hospital pela manhã, seguida por Sarah faiscante, porém mesmo em sua tamanha alegria com a notícia sua euforia não era tão grandiosa quanto à de Axl. Ele mal cabia dentro de si, estava feliz como nunca vira estar antes. Era quase que contagiante toda aquela felicidade. Desde então, não permitira-se abandonar-me nem mesmo por um segundo.
Porém, mesmo em meio a tanto eu fizera um pedido a ele e a Sarah. Sabia o quanto era errado o que estava fazendo, mas não queria que Zac soubesse nada de antemão. Tendo em vista de seus visíveis sentimentos por mim, tive medo que a noticia de um filho não lhe soasse de forma muito aceitável.
A chegada em casa fora um tanto engraçada. Zyan latia, incontrolável, em saltos, em tamanha alegria, como se também soubesse e comemorasse a notícia de alguma forma. Louise não foi tão surpreendida, talvez por que já tivesse percebido meus sintomas antes mesmo de mim. Em vista de meu cansaço pelo clima hospitalar, Axl me acompanhou até o quarto, quase obrigando-me a permanecer em repouso como o médico recomendara.
Depois de um banho que me pudesse livrar do cheiro hospitalar impregnado em minha pele, vestindo apenas uma lingerie branca acabei estacionada em frente a um espelho, checando minha barriga, tocando cada ponto, procurando um sinal mais evidente de que ele estava ali. Era quase impossível aquela altura, a probabilidade era de que eu estivesse em meu primeiro mês, provavelmente prestes a completar dois meses. Tudo com o que ficara fora a certeza de que ele estava ali dentro.
-Dona Lizzi? –chamou Louise.
-Oi Louise. Tô no closet. –disse só então revirando as roupas, buscando uma blusa qualquer que me coubesse em um quase vestido, a encontrei em umas roupas espalhadas de Axl.
-É sua mãe no telefone. –alertou ela.
-Tá, já vou atender. –disse, enquanto vestia a camisa.
Saiu, fechando silenciosamente a porta do quarto. Ocupei a cama, sentando-me ao lado da mesa de cabeceira, onde estava o telefone.
-Oi mãe. –disse em entusiasmo, mesmo que a exaustão sobrepusesse minha voz baixa.
-Oi minha filha. Sarah me contou sobre o acidente. O que aconteceu meu anjo? O que deu em você para sair assim? –seu tom de preocupação era inegável, o desespero tomando-a a voz. Revirei os olhos ao ouvi-la falar de Sarah. Claro, Sarah precisava preocupar minha mãe com bestices.
-Calma, mãe, não foi nada demais. Foi só um incidente, acontece. –disse a ela.
-Você discutiu com Axl, não foi? Sarah me contou horrores dele. Foi por causa dele que você atravessou a rua e foi atropelada. Minha filha, algo pior poderia ter acontecido. –pela primeira vez seu tom de voz indicava insatisfação ao falar de Axl, fazendo-me praguejar até a última geração de Sarah, por permitir que sua infantilidade e pré-conceito correlação ao meu marido alterasse as coisas desta forma.
-Mãe, eu discuti com o Axl sim. Mas eu estava nervosa, não sei nem o que eu estava fazendo, ele foi atrás de mim, mas eu corri e não vi o carro. Não foi ele, fui eu. –expliquei, impaciente.
-Se algo acontecesse a você, eu nunca o perdoaria por isso, eu praticamente entreguei sua mão a ele, acreditei no que ele sentia por você, acreditei que ele pudesse cuidar bem de você. Estou começando a criar dúvidas correlação a esse rapaz. –seu voz de tom diminuíra consideravelmente a medida que sua preocupação se esvaia.
-Ele cuida de mim muito bem, ele me ama, e eu mesma nunca duvidaria disso, porque tenho toda certeza do mundo, eu confio nele. Mas como a senhora disse, existem brigas em um casamento e nós só precisamos aprender a como lidar com elas de forma mais...pacífica. E quanto a dúvidas correlação a ele, não tenha, até porque se não fosse ele você... –não terminei a frase, rindo nasalmente a pensar como ela receberia a notícia. Balancei a cabeça sutilmente enquanto tocava a colcha da cama, analisando-a.
-Eu o que? –perguntou curiosa.
-Você não estaria prestes a ser avó. –completei.
-Ó Deus, então é mesmo verdade? –disse em euforia.
-Como assim, “é mesmo verdade”? Como sabia? Ah, não acredito que Sarah contou. –disse apressada.
-Não, não. Sarah não me contou nada. Eu percebi que havia algo mudado em você desde a última vez que nos vimos. Seu jeito calmo de falar, e não era inibição, era maturidade. E mesmo com problemas tinha um brilho no fundo dos seus olhos, pra falar a verdade eu nem sei como eu cheguei a essa conclusão, não sei se isso é coisa de mãe, mas era como se algo me dissesse, me desse certeza disso. Mas confesso que ainda não consigo acreditar, minha menininha grávida. Ai Deus, o tempo tá passando e eu não tô vendo. –disse o último em resmungos chorosos.
-Nem mesmo eu consigo acreditar. Tudo aconteceu tão rápido, tão de repente...Há pouco mais de um ano eu estava perdida por Los Angeles, desesperada por estar sozinha em um novo país, vestindo um vestido rosa com desenho de cerejas e agora eu vou ser mãe. Sabe, eu tô com medo de não ser uma boa mãe, eu não sei como lidar com crianças, não sei como cuidar de uma criança. –murmurei confusa.
-Eu pensava da mesma forma, querida. Eu achava que eu não seria o bastante para você, que eu poderia te deixar cair no chão ou se afogar na banheira. Tinha medo de dormir quando te colocava para mamar deitada e rolar sobre você, de não te ouvir chorar durante a noite...Mas quando se tem um filho as coisas mudam, o cuidado vem de natureza, e você aprende a lidar com eles, porque são seus, e se você não souber ninguém mais vai saber com tamanha perfeição. Você é madura, delicada, calma, paciente, dedicada, carinhosa...Vai saber como lidar com esse bebê na hora certa. Apenas confie em si mesma. –disse ela. –Assim que possível vou estar em Los Angeles, quero te ver de barrigão e depois o meu netinho ou netinha.
A certo ponto aquela conversa com mamãe me tranquilizara, mesmo que não por completo, mas tal acontecimento nunca seria possível, mesmo depois do nascimento do bebê. Não tive outra escolha que não fosse prosseguir em meus devaneios até que o sono me embalasse. Ao fim dormi, distanciando-me de toda aquela linha frenética de pensamentos e previsões, algo que me aconteceria ao menos nos próximos oito meses.
A risada doce intensificou-se, atravessando a penumbra, infectando meus ouvidos. Tão doce e pura que chegava como uma melodia, a melodia do mar rebentando na beira da areia, aliás, aquela risada aguda e espontânea era ainda mais graciosa. Parecia unir as belezas mais naturais daquele mundo insano e corriqueiro, aperfeiçoando até mesmo o imperfeito. Era a brisa gélida da manhã frente ao oceano, unido a húmido e aconchegante orvalho da noite perdida. A iluminação leitosa da lua na treva. O esplendecente brilho crepitante de uma constelação estrelar tido em mãos.
Abri os olhos. Não havia luz que me cegasse, porém, não havia também escuridão. Havia apenas feixes de luz solar adormecidos a beirada do sofá da sala de estar. Era a luz serena do sol que logo se punha, permitindo o crepúsculo. Talvez bastasse mais algumas horas, era tão belo que o próprio parecia ter em vista sua beleza, recusando-se a apaga-la de imediato.
Meu corpo levitou, quase pondo-se de pé sozinho. Uma estranha leveza mental rondando-me, a aterrorizadora paz interior habitando-me, de forma que eu quase poderia cuspir pombas brancas. Ah, que insano pensamento o meu. Insano pensamento, o tal que ocupara preocupações e temores, onde estavam estes? Novamente as risadas dançaram pela sala, fazendo curvas na luz amarelada, que quieta se punha no tapete felpudo.
O cheiro de maresia pousou em minhas narinas. Tinha cheiro de aurora também, aurora vista da varanda do quarto, deitando na resplandecência do céu, acolhendo-se na maciez da grama verde logo abaixo. Pois a aurora só exalava aroma para mim, a que me lembrava. E quando aquela mistura refrescantemente adocicada me abandonou os pulmões, fez-se então o cheiro doce e suave de bebê, cheiro de riso pequenino, talco esparramado, cheiro de leite derramado...Surgia também, em uma intensidade parecida, um aroma amadeirado, que a minha mente despertava lembranças do corpo a qual costumava exalar. E eu já conhecia cada trecho de pele onde aquele perfume fizera moradia.
Quase que de forma involuntária, caminhei, sem ter mínimo controle sob minhas próprias pernas, sendo guiada pelas risadas que a pouco tornavam-se mais próximas. Desta vez, sobre aqueles risos adocicados, uma ganhara volume, trovando por ela. Paralisei, meus pés já tocando a cerâmica fria da cozinha. Quando então identifiquei a quem pertencia, apressei-me, desta vez por vontade própria.
Os feixes de luz então abraçaram-me, em entrada ao jardim dos fundos. Quando meus olhos então localizaram a imagem de onde os risos ressonavam. De repente, era como se eu acabasse de abrir os olhos ao mais belo paraíso. Na alegria que deliberava aqueles puros sorrisos eu tinha tudo que me faltava, que antes me fizera um impreenchível buraco no coração. Agora era completa, acalentada nas ondas da brisa fresca que desta vez soprara mais forte, embalada pelo mais maravilhoso som que o mundo pudera criar.
Os cabelos alourados, de um súbito liso, brilhavam, a medida que corria em seus passos ainda cambaleantes. O rosto tinha aparência de uma perfeita porcelana, esculpida em grande parte em traços de Axl. Os grandes olhos alternavam entre os mais vivo verde e um lindo azul-acinzentado. As bochechas eram grandes e redondas, tomando grande parte da face, em seu leve rubor nas maçãs, aquilo eu sabia, pertencia a mim. Os braços pequeninos, arredondados, as mãos miúdas e gorduchas, correndo abertas. Os lábios finos curvavam-se a cada sorriso aberto. Era o provável garotinho mais bonito que eu vira em toda a minha vida. O mais gratificante em tal fato era a certeza de que ele me pertencia. Era meu, meu e de Axl.
E Axl faiscava, enquanto corria atrás dele pelo jardim, o corpo tão encharcado quanto o do bebê, a prova de que acabara de usarem a piscina onde bolas e boias coloridas habitavam. E nos passos apressados de ambos, a luz do sol dançava exultante, parecendo tão feliz quanto ambos.
Latidos romperam o jardim, berrantes, que nada se assemelhavam aos latidos do pequeno Zyan. O mesmo surgira com seu pelo dourado e seu grande porte, os rodeando, entre latidos, arrancando ainda mais gargalhadas do menino. Axl então o alcançou, pegando-o nos braços, o erguendo ao alto, de forma que a risada do garotinho tornou-se berrante. Ao fim o desceu, segurando-o junto ao corpo, o braço apoiando o pequeno tronco, com habilidade.
A partir de então a visão tornou-se nebulosa, esvaindo, desfazendo-se rapidamente enquanto a inconsciência me abandonava, trazendo-me de volta a lucidez do despertar.
Suspirei alto, como quem fora salvo de um possível afogamento.
-Lizzi. –ouvi a fisgada de preocupação no tom de voz de Axl.
Abri os olhos de imediato. Sua mão fazia apoio na cama próximo a meu rosto. Ergui os olhos, o fitando, sua face contorcida em dúvida.
-Está bem? –perguntou incrédulo.
-Estou. –respondi, ouvindo meu tom quase choroso.
-Estava tendo um pesadelo? –questionou.
-Não era só um...sonho. Eu só não queria acordar dele. –respondi.
Ele beijou minha testa, reconfortando-me.
-Será que posso saber o que sonhou? –murmurou com vestígio de sorriso nos lábios.
-Depois eu conto. –respondi sorrindo fraco.
Afagou meus cabelos, observando-me por alguns segundos.
-Os garotos estão lá embaixo, eles queriam te ver, apesar de eu achar isso um abuso eu tenho... –o interrompi.
-Contou a eles? –perguntei.
-Sim. –respondeu e eu fechei os olhos de imediato, preocupando-me primeiramente com a reação de Duff, que talvez pudesse ocasionar problemas entre eles. Abri novamente os olhos afim de questiona-lo sobre o como Duff recebera a nova notícia, temendo que de alguma forma Axl se irrita-se com minha preocupação com ele. O olhei em ânsia. –Não se preocupe, Duff está bem. Acho até que se o que ele fez não foi encenação ele recebeu muito bem a notícia. Claro que não está soltando fogos, mas também não está tentando se matar. Não que eu saiba pelo menos. –respondeu, antes mesmo que eu pudesse pergunta-lo. Respirei em certo alívio.
Busquei no closet algo adequado a vestir, fazendo ajustes em meu cabelo e em minha face. Depois de vestida pela camiseta cinza e o short jeans, tendo o cabelo preso em um alto rabo de cavalo, senti-me liberta a atravessar as escadas em caminho a sala de estar, sem preocupar-me com os pés descalços.
Notas finais
Então, até semana que vem!
Beeeeeijos, meus amores!
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