My Blood: a Draco Malfoy story
10 Quebrada
Antes mesmo de abrir os olhos, a primeira coisa que Pandora sentiu foi a dor. Incapacitante, desesperadora e que percorria todo o seu corpo. De cima a baixo. De dentro pra fora.
Aquela sensação não lhe era desconhecida. Já sentira aquilo antes.
Já sentira aquilo anos antes.
Com o que parecia ser o maior esforço do mundo, consegue abrir seus olhos. Pelo que pode notar, mesmo o mundo lhe parecendo meio desfocado, era noite. Não havia nenhum indicativo de quanto tempo havia apagado, mas imaginava que tinha sido muito... Da última vez, havia passado quase dois dias, mas esperava que não tenha chegado a tanto já que hoje era uma adolescente e não uma criança.
Seus ouvidos captam um leve farfalhar de tecidos e, logo depois, algo parecido com um clique. Com mais uma batalha, consegue virar o rosto levemente na direção do som, mas não encontra nada. Estava sozinha no quarto que parecia imenso naquele momento. E mais escuro que nunca.
Estranho. Eu podia jurar... Seus pensamentos são interrompidos com o barulho da porta abrindo. Não era possível que estava imaginando coisas novamente!
Ao virar na direção, encontra Draco e um elfo doméstico minúsculo ao seu lado, entrando no aposento.
— Obrigado, Splinter. – diz baixinho pra criatura que sorri agradecida e desaparece com um clique.
É aí que a ficha cai. – Colocou um elfo pra me observar enquanto dormia? – a garota se assusta com a voz que sai da boca, pois não parecia nem um pouco com a sua. Estava fraca. Frágil.
— Ficamos preocupados. Então achei melhor alguém estar aqui quando acordasse. – ele diz, cauteloso.
— O ‘nós’ implícito diz respeito a quem? – Malfoy dá um sorriso como se lamentasse, mas não fala nada. Como se fosse preciso... Pandora havia entendido a mensagem: o ‘nós’ se aplicava ao garoto e seus pais. Não ao dela. — Quanto tempo dormi? – questiona tentando desviar o assunto e levantar. Sem obter sucesso na última ação, permanece deitada.
Ele suspira, já acostumado às repentinas mudanças dos tópicos das conversas. – Algumas horas. Imaginei que passaria mais tempo apagada, depois do que aconteceu... – Draco era orgulhoso demais para admitir, mas o que havia acontecido o deixava apavorado. Nunca tinha visto nada parecido e, mesmo que, por ironia do destino, tenha escutado o relato da garota horas antes, não se comparava a presenciar aquilo.
— O que aconteceu exatamente? – Pandora pergunta. Estava sendo sincera no questionamento. Não sabia em detalhes como e porquê a explosão acontecia. Nunca tinha tido conversa alguma com Yaxley sobre o evento de anos antes e muito menos com as pessoas presentes no dia. Poder ter alguém, de fora, com quem conversar sobre talvez a ajudasse a entender.
Além de prevenir ou até impedir de ocorrer novamente.
— Foi do nada. Você estava numa espécie de estupor. – ele diz, enquanto sentava na beirada da cama e a observava. Era perceptível que ele falava tudo com muita cautela, como se receasse a reação da garota. E ela não podia culpa-lo por isso. – Parecia fora de órbita. Pediu para ele parar, mas não foi atendida. E então, começou a falar coisas aleatórias como ‘eu não quero machucar ninguém’ e ‘não sou uma aberração’. – Draco para e balança a cabeça, como se o movimento demonstrasse sua incredulidade. – Tudo aconteceu muito rápido. Em um instante, você estava em transe e, no outro, uma espécie de energia ou campo de força simplesmente irrompeu do seu corpo. – ele a observa, atentamente. – Hawking, vou ser bem honesto, nunca vi nada parecido. Você não precisou de varinha ou nenhum artifício. Você só... – movimentou as mãos, imitando uma explosão, pois sabia que nenhuma palavra seria suficiente para descrever o fenômeno. – Consegui chegar até você segundos antes de cair no chão e te trouxe pra cá com a ajuda da minha mãe.
Pandora tenta processar todas as informações. Tudo outra vez... Toda a dor. Todo o descontrole. Todo o perigo a quem estiver ao seu redor.
— Eu feri alguém? – pergunta desesperada.
— Não! – o garoto se apressa em responder. – Consegui criar um campo de força ao meu redor e dos meus pais. Seu pai conseguiu se defender sozinho. Então não, não machucou ninguém!
— Como conseguiu ser tão rápido? – ela questiona.
— Digamos que eu já estava preparado. – Draco percebe que ela não havia entendido. – Empunhei a varinha no momento em que você gritou a primeira vez...
— Já esperava que isso acontecesse?
— Na verdade, não... – ele responde, desviando os olhos para o chão, deixando à Pandora a tentativa de decifrar se haveria algo a mais naquelas palavras. — Bem, podemos dizer que causou alguns danos a sala de estar dos meus pais, mas nada que não possa ser reparado.
Ela consegue soltar um riso, se arrependendo no mesmo segundo e soltando um gemido de dor pelas costelas doloridas. – E meu pai? – pergunta, ignorando o olhar preocupado que Malfoy lhe direcionava.
— Hawking... – ele começa.
— E meu pai, Malfoy? Como ele reagiu a isso? – insiste. – Não quero que poupe detalhes. Quero saber!
Draco engole em seco antes de responder. – Ele... Ele simplesmente virou na direção oposta e aparatou. Não o vimos desde então...
A dor em Pandora parece aumentar exponencialmente. Sabia que Lorde Voldemort não demonstrava zelo e proteção, exceto quando se tratava de sua cobra Nagini, mas a garota imaginava que, ao presenciar tal situação, talvez algo nele despertasse. Algum instinto paterno. Alguma consideração.
Não podia estar mais enganada.
Ela percebe o tremor em suas mãos ao mesmo tempo que Malfoy. Contudo, no instante em que ele abre a boca para falar algo, Pandora o interrompe: — Você poderia... – ela não consegue completar, então só olha na direção da porta. Estava cansada demais.
Quebrada demais.
Felizmente, ele entende o recado e assente: — Se precisar de algo, é só chamar algum dos elfos, de preferência o Splinter. Vai gostar dele. – com isso, se dirige a saída, fechando a porta atrás de si.
As lágrimas caem de seus olhos antes mesmo de se dar conta disso. Já se acostumara a solidão, mas nunca ao descaso.
Esperava o dia que poderia conhecer o mundo para além da Londres trouxa, onde passara toda a infância e parte da adolescência. O dia que se apropriaria de sua real realidade e identidade. O momento em que se afirmaria como uma bruxa de verdade. Aguardava também o dia em que conheceria seu genitor. Gostava de Yaxley, mas ele não era seu pai.
Ela só nunca imaginou que a coisa seria tão ruim com Voldemort. Que ela se decepcionaria tanto.
Nunca tinha se sentido tão inútil. Tão descartável. Frustrada.
Tão invisível.
Tão... Vazia.
*
Os dias passaram-se com Pandora afastada de todos os bruxos dali, fossem os donos da mansão ou os visitantes. Passava seu tempo trancada no aposento destinado a si, praticando feitiços, observando a paisagem ou simplesmente permanecendo deitada em sua cama, pensando em nada e em tudo ao mesmo tempo.
Seu primeiro café da manhã pós-explosão tinha sido extremamente desagradável. A tensão no ar era palpável e podia sentir que todos estavam evitando tocar no assunto indesejado. A garota não conseguia olhar ninguém daquela família por mais de 5 segundos e, depois disso, suas refeições eram realizadas no quarto com o auxílio de Splinter, o elfo doméstico, criatura que achava bem agradável. Não era rabugento ou resmungão e, ao mesmo tempo, não era um poço de alegria e felicidade. Era equilibrado, embora nos primeiros dias de contato, tenha tentado usar de muitas piadas e palhaçadas na tentativa de animar a adolescente, mas ela logo pediu para que ele parasse com aquilo e, como um bom elfo, ele acatou a ordem.
Achava bom ter um tempo sozinha. Ruim era estar presa aos seus pensamentos.
— Minha senhora gostaria de um lanche? – pergunta Splinter ao aparatar de repente no quarto.
Pandora, totalmente concentrada na arrumação de seu malão, toma um susto. – Por Merlin, Splinter! Qualquer dia desses você me mata do coração... – diz, colocando uma mão sobre o peito.
— Splinter nunca quis mata-la, minha senhora! Não, não! Nunca!! – o elfo afirma, apressado.
Ela ri. – É só uma expressão. Quis dizer que me assustou. E não, não quero nenhum lanche, obrigada.
— Mas a senhorita Hawking não comeu nada hoje. Talvez um chá? – sugere.
— Estou bem, Splinter. – ao perceber que ele ia rebatê-la, ela diz: — Se precisar de algo, chamo por você, está bem? – Pandora nota que o elfo parece muito aflito com sua decisão de optar pelo jejum. Batia os pés e esfregava as mãos num claro gesto de nervosismo. – Algum problema?
— Ah, não, senhorita! É só que... – ele para e engole em seco. – É que...
— É só que o quê? – ela questiona.
— Splinter tem ordens de mantê-la alimentada. Splinter não pode sair daqui sem dar comida a senhora! – ele diz, em súplica.
Pandora suspira, pois sabia muito bem de quem eram aquelas ordens e, por achar que um dos presentes no quarto já estava sofrendo o suficiente, resolve acabar com o sofrimento de, pelo menos, um: — Tudo bem, pode me trazer um chá! – o elfo guincha de alegria e desaparece. – Elfos...
*
A Plataforma 9³⁄₄ estava abarrotada de estudantes e familiares. O cheiro inebriante de fumaça misturado ao adocicado preenche as narinas de Pandora trazendo a sensação de estar em casa. Não entendia muito bem como essa mistura tão incomum podia causar isso, mas podia imaginar algumas explicações.
— Bom retorno, meu filho. Escreva-me, está bem? – Narcisa diz a Draco, assim que alcançam os degraus de um dos vagões do Expresso de Hogwarts.
— Senhora Malfoy, podemos conversar? Garanto que é rápido. – Pandora a chama.
A matriarca dos Malfoy tenta disfarçar o leve susto que levou ao ouvir a voz da garota. Fazia semanas que não se falavam, visto que a mesma evitava a todos.
— Claro! – responde com doçura.
— Vou esperar você. – Draco diz.
— Não precisa. Pode ir na frente. – recebe como resposta. Ao chegarem num local um pouco mais afastado, a garota começa: — Senhora Malfoy...
— Narcisa. – a mulher a interrompe, sorrindo.
— Narcisa. – ela corrige. – Queria me desculpar pelo que aconteceu. Sinto muito! Não foi minha intenção machucar nenhum de vocês e muito menos causar nenhum dano na sua residência e...
— Pandora. – Narcisa Malfoy a corta e, colocando as mãos nos ombros da menina, diz: — Não é preciso se desculpar. Sei que não foi sua intenção. Todos nós sabemos disso! – garante. – Se alguém deve sentir muito, esse alguém sou eu! – ela percebe a expressão de confusão no rosto de Hawking, pois continua: — Poderia ter oferecido ajuda depois do que aconteceu, mas não consegui entender e isso me paralisou, mas não quero que entenda isso como desamparo ou como se estivesse sozinha. Simplesmente não sabia o que fazer...
— Não era sua responsabilidade. – responde, olhando para seus pés. No final das contas, a responsabilidade era de outra pessoa: de seu pai.
— Sei disso! – sinaliza entendendo o implícito. – Mas já tomei parte dessa responsabilidade no momento em que a recebi em minha casa.
Pandora consegue sorrir. – Obrigada!
— Não há de quê. – diz, abraçando-a. A adolescente, num primeiro momento, congela com a demonstração de carinho, mas logo a retribui. – Se sentir vontade, me escreva. Quero saber como está a escola, sim?
— Certo. — o apito do trem se faz ouvir. – Até logo!
Pandora corre na direção do trem e, antes de entrar, dá uma última olhada na mulher de cabelos loiros, torcendo para que ela entendesse o agradecimento em seus olhos pelo primeiro abraço verdadeiro que havia recebido na vida.
*
Os corredores estavam cheios de gente e barulho. Todas as cabines infestadas de estudantes animados por estarem juntos novamente e o vagão sonserino não estava diferente. Exceto, talvez, pelo barulho que era muito menor que no restante do transporte.
Pandora avista Draco deitado despretensiosamente com a cabeça repousada no colo de Pansy Parkinson e a garota com uma expressão de eterna felicidade por estar tocando nos cabelos sedosos e quase brancos do menino. A revirada de olhos é inevitável ao ver aquela cena que beirava o deplorável.
Segue em frente, saindo do espaço reservado a sua Casa, a procura de uma cabine vazia. Não estava com humor suficiente pra socializar e não chegou a ver Daphne em lugar algum. Ao achar um compartimento, evitando ser vista por qualquer pessoa, pega um de seus livros de dentro de sua capa e o abre numa página aleatória.
Depois de alguns minutos tentando absorver qualquer coisa, desiste. Aquilo não consegue prender sua atenção, tampouco. Seus pensamentos confusos e barulhentos demais para permitir que se concentrasse em alguma coisa.
Então, apoia a parte de trás da cabeça no vidro da janela e fecha os olhos, se perdendo na imensidão de seu inconsciente.
*
— Ei! – uma voz é ouvida. – Ei! Chegamos. – agora uma mão a sacode.
— Só mais cinco minutos. – a garota resmunga, sonolenta.
— Mais cinco minutos e você estará no caminho de volta a Londres. – aquilo é suficiente pra fazer Pandora acordar. – Finalmente...
— Quem é você? – ela pergunta a bruxa parada em sua frente.
Suas vestes possuíam cores sóbrias e o cabelo dela tinha um estranho tom castanho com sutis toques de roxo. Mas o que mais chamava a atenção era a aparência cansada e deprimida de seus olhos que fez Pandora se perguntar qual motivo de tanta tristeza.
— Bem, primeiramente um agradecimento seria bom. – ela diz.
— Obrigada. – Hawking murmura. – Quem é você? – pergunta novamente.
— Sou Tonks. – a mulher se apresenta. – É melhor se apressar caso queira continuar o ano letivo.
As duas mulheres se dirigem a saída do trem. Vários minutos haviam se passado desde que chegaram à Hogwarts, Pandora conseguia perceber. Não havia ninguém na locomotiva, além delas.
— Então, o que você é? – Hawking pergunta. Tonks a olha sem entender. – É professora nova ou...?
— Ah, sou uma auror. – esclarece. – Capturo bruxos das trevas? – diz, depois de observar a expressão de dúvida na menina.
— Sei o que são aurores. É só que você não parece um. – afirma.
— Fico lisonjeada. – a mulher brinca.
— Quero dizer... Me desculpe, sei que fui indelicada! – Pandora se apressa a dizer. – Só quis dizer que tinha uma visão bem conservadora e antiquada de como os aurores se pareceriam... Enfim, não queria ofender.
— Não ofendeu. – assegurou, a olhando com atenção, enquanto se dirigiam a entrada da escola. – Então, agora os sonserinos se desculpam depois de ofender alguém? – questiona.
— Essa sonserina sim! – a mais nova responde.
— Qual o seu nome?
— Pandora Hawking. – diz, se apresentando.
— Hawking? Nunca ouvi esse sobrenome antes... – Tonks afirma, pensativa.
— Sou filha de Corban Yaxley. – Pandora responde com pressa, temendo quaisquer perguntas as quais não tenha resposta. Afinal, devia ser difícil enganar aquela mulher, visto que era uma auror. – Deve conhece-lo do Ministério.
— Ah, a famosa, porém desconhecida filha de Yaxley. – diz. – E sonserina... Ele deve estar orgulhoso de você. – comenta. – Imagino que conheça meu primo.
— Seu primo?
— Draco Malfoy. – aquele comentário faz Pandora paralisar.
— Draco Malfoy? – questiona, assustada. – Como...
— Como somos primos? Esse é um grande mistério, não é? – retomam a caminhada. – Minha mãe é irmã da mãe de Draco, obviamente. Elas não têm contato, mas não se pode apagar o sangue.
— Nunca imaginaria. – a garota diz.
Tonks ri. – Não me surpreende.
Permanecem em silêncio até alcançarem os portões da escola. A adolescente sustenta seu olhar fixado na mulher ao seu lado. Mesmo tentando passar uma postura de determinação e segurança, para olhos mais atentos, era possível notar certa fragilidade: uma pisada em falso, um leve tremor nas mãos, a forma como mordia levemente os lábios, como se perdida em pensamentos. Seja o que fosse que estivesse passando, não era fácil. Pandora entendia aquilo.
Ao chegarem na entrada de Hogwarts, a garota nota uma figura preta a sua espera. Reconhece de imediato o professor Snape.
— Por mais que deteste retirar pontos de minha própria Casa: menos 10 pontos para Sonserina. – diz, no momento em que elas chegam mais perto.
— Boa noite também, professor. – ela responde.
— Não me faça retirar 30. – é a resposta. – Vamos. Está perdendo o jantar. – nenhuma palavra é trocada pelos adultos, somente breves cumprimentos de cabeça.
Antes que o clima pesasse, Hawking se dirige para dentro, atrás do diretor de sua Casa, mas não antes de se despedir da mulher que a ‘salvou’ de voltar a terrível Mansão Malfoy: — Até mais, Tonks. A gente se vê por aí! E obrigada.
— Não há de quê. – responde, retornando pelo caminho que acabaram de trilhar.
A caminhada até o Salão Principal parece infinita. Estar na companhia de Severo era torturante, muito diferente da agradável que teve segundos antes.
Porém nada, nada poderia tirar o fiozinho de felicidade no peito de Pandora por finalmente voltar para o que ela poderia chamar de casa.
Mal sabia ela o que a aguardava.
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