My Blood: a Draco Malfoy story
11 Tempestade
A volta à Hogwarts não poderia ser mais solitária.
Além de não ter tantos amigos assim antes mesmo das férias, Pandora se mantinha a uma distância de tudo e de todos, o episódio do natal a assombrando durante todos os dias e horas. Temia perder o controle mais uma vez e colocar em risco outras pessoas. Pensava que já tinha sido capaz de escapar por duas vezes da possibilidade de causar um mal irreversível a alguém, portanto não gostaria de colocar a sorte em pauta de novo.
Por outro lado, ironicamente talvez, gostava da quietude que aquilo trazia. Os únicos pensamentos e problemas que a prendiam e atormentavam eram os dela e esses já eram mais que suficientes.
Os dias, quando não estava na sala de aula ou em seu dormitório individual, eram passados na biblioteca ou na Sala Precisa. Todos os seus esforços sendo gastos na tentativa de consertar, de uma vez por todas, o Armário Sumidouro, pois sabia que era só questão de tempo até seu pai perder a paciência.
Se é que isso já não ocorrera.
Estava tão focada em achar algo que a ajudasse que conseguira uma autorização com o professor Snape para expandir sua pesquisa até a Seção Reservada. Era admirável a quantidade de livros macabros presentes ali. Encantamentos utilizados em magias das trevas e páginas que gritavam conforme se abriam as obras. Não se admirava, contudo, com a necessidade de só ser possível acessa-las com autorização. Qualquer pessoa inclinada ou influenciável demais poderia se deixar levar pelas coisas escritas naqueles pergaminhos.
Um arrepio na espinha a toma quando pensa se seu pai teria tido acesso a qualquer um daqueles livros em seu tempo de Hogwarts. Acreditava que sim!
Depois de muita busca, encontrara um livro que poderia ajudar cujo título era “Artefatos Mágicos: das trevas à luz”. Procurou no sumário e, para sua surpresa e alegria, constava um tópico dedicado ao item em questão. Sentando-se a uma mesa, Pandora o folheou até achar a página indicada.
Um par de Armários Sumidouros funcionará como uma passagem entre dois lugares. Se um objeto for colocado em um, ele aparecerá no outro.
São capazes de afastar todos os feitiços conhecidos de proteção de qualquer lugar e, por isso, foram usados bastante na época da Primeira Guerra Bruxa por vários bruxos e bruxas para desaparecer anonimamente caso algum perigo espreitasse seus caminhos.
— Nada novo até então... – Pandora comenta para si, deslocando a leitura até o próximo parágrafo:
Podem ser considerados extremamente imprevisíveis, visto que se quebrado, podem transferir seu conteúdo – independente de ser um ser vivo ou não – até um limbo, onde o mesmo ficará e permanecerá perdido. Para consertá-los não é possível fazê-lo com simples Feitiços de Reparação ou algo semelhante. O encantamento mais adequado seria o Harmonia Nectere Passus, mas nem ele sozinho é capaz de realizar o conserto, pois a força vital e o desejo/sentimentos daquele que faz o reparo é o ingrediente mais importante na tarefa. Portanto, caso esteja nessa intenção, o responsável deve fazê-lo e não destinar essa questão a terceiros, pois a possibilidade de dar certo é mínima já que somente o desejante possui dimensão da importância ou necessidade daquilo.
Então, no final das contas, aquela era mesmo uma tarefa quase impossível de ser concluída por qualquer pessoa que não Lorde Voldemort. Se o desejo era o principal motor daquilo, ela nunca conseguiria e podia apostar que Malfoy também. Ambos estavam preocupados demais com o que uma possível entrada de Comensais da Morte em Hogwarts poderia causar aqueles que gostavam.
ADENDO: É possível que o resultado seja obtido por outras pessoas, mas o tempo de realização será, com toda certeza, maior. Não detalharemos o processo, visto a gravidade e quantidade de energia que esse tipo de magia consome. Sem mencionar os possíveis efeitos negativos nos sujeitos que envolvem perda de peso e desgaste emocional e físico.
Frustrada, Pandora joga o livro do outro lado da grande sala. De que adianta dedicar um capítulo inteiro sobre aquele tópico, se o autor não explana o passo a passo de todo o processo? Nenhuma informação ali a ajudaria, tampouco faria crescer sua vontade em consertar aquele objeto. Pensava em Daphne e em todos os outros alunos que poderiam cruzar o caminho de algum dos Comensais e virar um alvo. Seria a verdadeira definição de se estar no lugar errado e na hora errada.
E, ao mesmo tempo, outro medo espreitava sua mente: temia pela visão que todos teriam dela caso aquilo desse certo.
Estava num beco sem saída.
A garota aperta os olhos com força, a cabeça a segundos de explodir com seus pensamentos ensurdecedores até que escuta um pigarro. Ao abri-los novamente nota a figura sombria que era Snape na entrada da Seção Reservada.
— Professor. – ela cumprimenta.
— Interrompo? – pergunta.
— Na verdade, não. Já estava de saída. – diz, fazendo menção de se levantar.
— Gostaria de conversar com a senhorita. – Snape esclarece, andando na direção da cadeira ao lado da de Pandora. Ela aguarda pacientemente o professor tomar a palavra novamente. – Acredito que saiba...
— Que o senhor é um Comensal? Sim, já fui informada por Malfoy.
— Certo. Em que pé da missão estão? – questiona.
— Nenhum. – o professor a olha com clara dúvida em seus olhos. – Não tive progresso nenhum. O máximo que conseguimos foi transferir uma maçã.
— Entendo. – ele acena distraído em pensamentos. – Sei que já recusou minha ajuda, mas se serve de algo, conheço o funcionamento de Armários Sumidouros e, se me permite, darei um conselho. Sei que se preocupa com seus amigos...
— Não tenho amigos. – ela interrompe.
— Senhorita Hawking, é a segunda vez que me interrompe, peço que não o faça novamente! – ele diz, arisco. – Voltando... Sei que você e o senhor Malfoy se preocupam com outras pessoas, mas precisam querer com todo o seu ser que isso dê certo. Isso é muito mais do que um simples feitiço. É preciso que pense primeiro em si, acalme a mente, foque no seu desejo e determine sua intenção. Afinal, o que pode acontecer se falhar?
— Me diga você. – Pandora contesta, farta de toda aquela enrolação.
Snape solta um riso seco. – Acha que ele não seria capaz?
A garota paralisa, pois Severo não precisava terminar aquela frase. Sabia muito bem o que queria dizer e aquilo, dito por alguém que o conhecia, sanava todas as suas dúvidas: ele a mataria e mataria Draco sem pensar duas vezes. Sem hesitação. O adulto parece entender o que se passa na cabeça dela já que diz, em seguida:
— Você e Draco precisam se apressar. Você entende a verdade e sabe o que está em jogo. É a sua vida e não a de seus amigos que pode findar caso falhe. – ele levanta. – Não desperdice seu pouco tempo se preocupando com o que vão pensar de você depois disso. Não vale a pena.
Segundos antes do professor sair, Pandora questiona: — Porque se importa?
— Fiz um Voto Perpétuo. – e, com isso, tudo o que lhe resta é a visão da longa capa preta do homem desaparecendo.
*
Era por volta das dez horas da manhã do sábado quando o professor Snape chegou no Salão Comunal da Sonserina. Todos os alunos da Casa se juntaram perto da lareira, atentos ao possível comunicado que seu diretor passaria.
Pandora avista Daphne a poucos metros de distância sentada ao lado da irmã Astória. Ambas olhavam quase que hipnotizadas ao homem a sua frente. Não era segredo para Hawking que a garota tinha uma pequena queda pelo professor.
— Estou aqui para dar um rápido recado. A partir da próxima semana será iniciado o curso opcional de Aparatação ofertado pela escola em conjunto ao Ministério da Magia. – o breve burburinho causado pela fala é silenciado quando o mesmo lança um olhar mortífero aos alunos. – Ele durará onze semanas e ocorrerá aos sábados pela manhã no Salão Principal, visando não atrapalhar suas outras atividades escolares. É importante lembrar que, para obter a licença em tal questão, é preciso realizar o curso e, somente alunos com dezessete anos ou que o farão até o próximo 31 de agosto poderão se inscrever. – suspiros decepcionados são ouvidos em todo o local. Pandora não segura a revirada de olhos. – O curso custará 12 galeões e será ministrado por Wilkie Twycross. Os interessados que se enquadram nos requisitos devem deixar seus nomes nesse pergaminho até o final dessa semana. – ele diz enquanto prende o pedaço de papel no quadro de avisos. – Dispensados.
O tempo entre a calmaria e a confusão é o mesmo que o da saída do diretor do local. Assim que a porta se fecha às costas de Snape, os alunos que tinham interesse nas aulas correm na direção do quadro. Pandora agradece mentalmente por ser opcional, visto que a mesma já tinha aprendido aparatação com Yaxley e o mesmo só esperava seus dezessete anos para conseguir sua autorização no Ministério. Por isso, nem se dignou a se inscrever e, diferente de todos, faz o mesmo caminho que Severo havia feito momentos antes, indo até o único lugar que a importava naquele instante.
*
O corredor do sétimo andar estava vazio como em todos os finais de semana. Não era um local de muito trânsito de alunos o que era algo positivo na visão de Pandora, o caminho permanecia sempre livre pra transitar sem muitas surpresas ou pessoas indesejáveis. Contudo, mesmo com essa facilidade, a garota nunca deixava a guarda baixar e, quando se dirigia até a Sala, permanecia olhando ao redor a procura de alma viva que pudesse estar bisbilhotando.
Passa três vezes na frente do local até uma porta se materializar a sua frente e, com uma última olhada em seu entorno, entra na Sala Precisa.
O alvoroço dos mais variados materiais e objetos não a chocava mais. Passava tanto tempo ali que a bagunça se tornava algo convidativo. Andando devagar até o seu objetivo, Pandora observa com cuidado todas aquelas quinquilharias até encontrar algo que pudesse usar pra tentar consertar aquele maldito armário. Escolhe, por fim, uma peça de xadrez bruxo. Talvez, se começasse por algo pequeno, seria mais fácil. Precisava dar passos de tartaruga.
Chegando ao seu destino, encara o imenso objeto a sua frente, abrindo a porta e depositando a peça dentro dele. Respira fundo e relembra a frase dita por Snape algumas noites antes: pense primeiro em si, acalme a mente, foque no seu desejo e determine sua intenção.
Eu preciso que isso dê certo. Eu quero que isso dê certo. Eu desejo que essa peça vá até o outro armário. Pensa e, por fim, recita o encantamento: Harmonia Nectere Passus.
Segundos se passam e pode-se dizer que o queixo de Pandora cai ao abrir a porta: a peça de xadrez não estava mais ali. Ela abre um sorriso ao constatar aquilo. Nunca tinha conseguido transportar nada tão rapidamente. E, tentando acalmar os ânimos para evitar qualquer falha, fecha o armário e faz o mesmo ritual, mudando somente sua intenção e desejando que o objeto volte ao seu local original. – Harmonia Nectere Passus.
E, pela segunda vez, a garota se surpreende com o sucesso da atividade. A peça de xadrez havia voltado sem nenhum defeito.
— Isso. – ela fala. – Isso!! – comemora, dando pulinhos no mesmo lugar com as mãos apertando o objeto fortemente.
— Pelo visto fizemos algum progresso. – a interrupção abrupta faz com que Pandora se assuste e acabe derrubando a rainha que se estilhaça no chão.
— Malfoy! – exclama, colocando a mão sobre o peito que parece, a qualquer momento, capaz de explodir.
O garoto, com as mãos no bolso do casaco preto e encostado despretensiosamente numa mesa, a cumprimenta. – Hawking.
— Faz tempo que está aqui? – ela pergunta, contrariada.
— Alguns minutos. Não quis atrapalhar. – ele diz, permanecendo na mesma posição.
— Então preferiu ficar xeretando? – retruca.
— Como conseguiu fazer com que ele funcionasse tão rápido? – resolve ignorar a provocação. – O máximo que consegui foi fazê-lo funcionar no terceiro ou quarto encantamento...
— Recebi algumas dicas.
— Livros? – pergunta.
— Snape. – ela revela. Draco obviamente não esperava por aquela resposta, pois a cara de surpresa que faz é impagável. – Algum problema? – questiona.
— Se tenho algum problema com isso? É claro! Será que não percebe que a glória disso deveria ser nossa? – ele pergunta com raiva, finalmente saindo da posição de descontração que se encontrava antes.
— Que glória se tem em consertar um armário velho, Malfoy? – Pandora pergunta, sem entender o motivo de tal raiva.
— Você não entende... – diz, exasperado.
— Então explique! – retruca.
— Essa é uma tarefa nossa! Deveríamos estar desvendando e consertando essa merda juntos. Não contando com a ajuda de terceiros. – era perceptível a raiva que sentia naquele momento. Não só por seus gestos exagerados, mas pela tempestade em seus olhos. Tempestade essa que escondia algo mais. Um desapontamento, talvez? – Você passa semanas sem ao menos falar comigo e, do nada, surge com informações que podiam ajudar nós dois.
— Espere! – ela interrompe. – Está com raiva por eu ter tido um resultado bom com essa bosta de armário ou por não ter falado com você esse tempo todo?
— Os dois! – ele diz, se interrompendo logo em seguida, como se tivesse falado algo que não deveria.
O estômago de Pandora revira. Entendia o desapontamento pela falta de diálogo entre ambos, principalmente depois de alguns momentos e trocas que tiveram nas férias de natal, mas esperava que ele entendesse suas motivações.
Claramente, como tudo o mais em sua vida, ela não podia estar menos enganada.
— Esperava que, dentre todas as pessoas, você fosse a que mais entenderia o motivo da minha distância e ausência, mas é óbvio que estava errada. – ela diz, se dirigindo à saída. – E, se quiser tentar, vou lhe dar o mesmo conselho que recebi do professor Snape: pense primeiro em si, acalme a mente, foque no seu desejo e determine sua intenção. Depois de recitar o feitiço, o armário vai fazer o que você quiser. – se vira e vai embora.
*
Pandora não se lembrava de outra ocasião em que se sentiu mais miserável.
Tudo bem, tinha algumas em mente, mas aquela definitivamente entrava na lista. Estava cansada, derrotada e possuía a certeza de que aquele sentimento não se limitava ao esforço de mexer com o Armário Sumidouro.
Desejava realmente que Draco pudesse compreender o motivo de estar distante de tudo e todos. Na verdade, tinha quase certeza que entendia. Passara dias evitando contato até mesmo com Daphne que, depois de alguns dias de silêncio e recusa, simplesmente desistira de qualquer conversa ou interação por menor que fosse. Se sentia um risco pra qualquer um, inclusive para si mesma.
E, acima de tudo, se sentia perdida. Não tinha respostas para o que acontecia consigo. Pra ser sincera, não sabia nem que perguntas poderia fazer com relação a isso, caso fosse dada a oportunidade. Por isso a descoberta do funcionamento e possível conserto daquele maldito item havia a animado tanto: era a única resposta a algo que tinha recebido em tempos. Em anos, talvez.
Mas até isso era visto como egoísmo aos olhos alheios.
Merlin, como estava cansada de tudo aquilo. Desejava com todas as forças voltar para a vida pacata e solitária que tinha com Yaxley.
— Sua idiota! Reclamava tanto da sua vida que não imaginou que essa nova realidade poderia ser um verdadeiro tormento. – resmunga com a cabeça enfiada no travesseiro.
Uma batida na porta é ouvida e ignorada.
Depois outra.
E outra.
— Não tem ninguém! – ela grita, tentando passar o recado pra quem quer que estivesse do outro lado.
Outra batida.
Pandora levanta, indo em direção à porta. – O que é? – praticamente grita ao abri-la sem se importar com o alvo de tal grosseria.
Draco se assusta com a recepção, não esperando aquele tratamento. Decidindo ignorar, ele pergunta: — Posso entrar?
— Não. – ela responde, mas continua na mesma posição.
— Hawking, me deixe entrar. – ele diz e, olhando ao redor, completa: — Não quero conversar com outras pessoas escutando.
A garota olha na direção dos alunos no corredor. Alguns só de passagem, mas outros já ligados no tópico da discussão dos dois.
Ela olha com desdém para o garoto a sua frente. – E o que o faz pensar que quero conversar com você?
Draco revira os olhos e, mesmo sob olhares curiosos, segura os ombros da garota e a empurra pra dentro do quarto.
— Um verdadeiro cavalheiro. – diz Pandora, tentando se segurar nos cotovelos dele para evitar cair.
— Vai me ouvir? – ele questiona.
— Ainda estou decidindo. – responde, se livrando das mãos de Malfoy e sentando na cama.
— Me desculpe. – começa.
— Pelo quê exatamente? – a garota pergunta, mantendo o tom de superioridade, fazendo Draco juntar forças para que não perdesse a paciência.
Era o mesmo tom que estava acostumado a usar quando se dirigia a outros e aquilo o incomodava.
— Basicamente por ter sido um idiota. – ele percebe que Pandora não estava satisfeita com a resposta e complementa: — Se eu tivesse colocado no mínimo dois neurônios pra funcionar, eu teria entendido seus motivos.
— Não tenha dúvidas. – ela diz.
Ele revira os olhos: — Então, me desculpe. Entendo seus motivos e, se precisar de ajuda, pode contar comigo. Não é como se eu estivesse em posição de julgar ninguém, sabe...
Alguns segundos passam e o silêncio impera entre os dois. Malfoy temia ter dito algo que pudesse ser interpretado da forma errada, não sabendo a confusão que se passava dentro da mente da garota.
— Isso me assusta. – fala, por fim. – Esse... poder dentro de mim me assusta. – Draco anda lentamente na direção da cama, sentando ao lado da menina. Escuta atento cada palavra, pois sabia que aquilo era o mínimo que podia fazer. – Tenho medo de estar perto de alguém e explodir. Tive medo de ter causado algum mal pra vocês no natal. Nunca me perdoaria se algo acontecesse.
— Mas não aconteceu. – ele assegurou.
— Mas poderia! Se eu não tivesse te contado nada naquela tarde, com toda certeza, alguém teria se ferido. – ela diz. – E se for só questão de tempo, Malfoy? E se na próxima vez, eu machucar alguém ou... – Pandora se interrompe. Só a ideia de causar a morte de outra pessoa era insuportável.
— Ei. – Draco toca gentilmente no ombro dela. Sabia que não gostava de toques desnecessários, mas ao perceber que estava tremendo, a puxa para um abraço. – Se quiser, podemos tentar descobrir algo.
— Não sei, Malfoy. Estou cansada da falta de respostas, mas também não sei se estou pronta pra tê-las.
— Ué, podemos usar da sua nova amizade e intimidade com Snape pra tentar conseguir informações. – ele diz, brincando e ficando mais feliz do que admitiria ao ouvi-la rindo.
— É. Acho que podemos. – responde.
— E, caso não esteja pronta, podemos só ignorar tudo e fingir que nada aconteceu. – completa.
— Gosto disso. – ela sorri.
Ficam naquela posição por longos minutos. A mesma posição de Hogsmeade, com papéis invertidos. Pandora ri daquela ironia, fazendo um Draco confuso perguntar: — O que foi?
— É engraçado como as coisas são. Lembra de Hogsmeade?
— Ah! – ele sorri. – Entendo exatamente o que quer dizer.
— Seus olhos lembram uma tempestade quando está com raiva, sabia? – ela solta, de repente.
— Como assim? – questiona.
— Eles assumem um tom diferente. – ela responde, separando-se do abraço. – Ficam mais cinzas. Combina com você. Devia ficar com raiva mais vezes. – brinca.
— Vou me lembrar disso da próxima vez. – ele diz, soltando um sorriso o qual é correspondido pela garota.
— E da próxima vez, garanto que compartilho com você minhas descobertas. – Pandora garante.
— Fico grato por isso. – diz, por fim. – Inclusive, pode me dizer em detalhes como fez para o armário funcionar? – pergunta.
— Posso. – sentam-se ao chão e passam grande parte da noite e da madrugada discutindo sobre os novos caminhos que podem trilhar no cumprimento de sua missão.
Não que admitisse, mas Pandora ficara feliz em não estar sozinha pelo menos naquele momento.
*
O Salão Principal estava abarrotado de pessoas gritando e pouco se importando com as comidas dispostas nas mesas. Era dia do jogo de quadribol, Lufa-Lufa contra Grifinória, portanto os ânimos estavam nas alturas.
Pra alguém que dormiu pouco aquela noite, todo barulho era uma verdadeira tortura para Pandora Hawking. Sua cabeça pulsava e seu humor oscilava entre ruim e péssimo em pouquíssimos intervalos de segundo.
Esperava encontrar Malfoy antes do início do jogo. Haviam combinado de passar a tarde na Sala Precisa, mas não tinha condições físicas ou psicológicas para tal.
— Não gosta de quadribol, ein? – escuta uma voz ao seu lado perguntar. Ao se virar avista Blásio com um sorriso enorme no rosto e um pedaço de salsicha ainda maior em seu garfo.
— O esporte é um pouco superestimado demais pro meu gosto. – esclarece, observando enquanto o garoto come. Percebe que ele estava com o casaco de quadribol da Sonserina. Obviamente era fã, assim como 99% dos estudantes homens dali.
— Já te disseram que você é exigente? – questiona.
— Algumas vezes. – ela brinca. – Na verdade, nunca fui muito de gostar de esportes, então...
— Precisamos mudar isso! – Blásio diz.
— Não, não precisamos. – encerra o assunto, mantendo o tom de brincadeira. – Você viu Malfoy? – questiona.
— Você e Malfoy, né? Não o vi, mas soube que ele passou um bom tempo em seu quarto ontem. – Pandora o olha interrogativa. – As notícias voam em Hogwarts. Mais rápido que uma Firebolt.
— Nunca imaginei que houvessem tantos fofoqueiros em Hogwarts, principalmente em Sonserina. – ela diz.
— Ah, você não imagina... – diz, levantando e indo na direção da saída do Salão Principal.
Blásio era realmente uma figura ímpar no cotidiano da escola. Sua habilidade de plantar a discórdia só não se equiparava com a de Pirraça.
Pandora sacode a cabeça e resolve sair dali e, assim que atinge as escadas para as masmorras, esbarra com Malfoy.
Acompanhado de Pansy.
A garota de cabelos negros decide ignorar a sensação raivosa que se apossa de seu ser ao ver a cena.
— Malfoy, preciso falar com você. – diz.
— Pode falar. – ele responde, convidativo. Contudo, Hawking fuzila Parkinson com o olhar, na tentativa de se fazer entender. Por fim, ao perceber que nenhuma das duas meninas iam ceder, Draco intervém: — Pansy, você pode dar licença? – e, a muito contragosto, a referida se distancia dos dois, indo de encontro a Crabbe e Goyle mais a frente, todos os seus movimentos sendo acompanhados por um par de olhos verdes. – Posso saber o motivo de tanta raiva dela?
Pandora redireciona seu olhar para o garoto a sua frente. – Ela é chata. – resume. – De qualquer forma, vim perguntar se tem algum problema você resolver a questão do armário sozinho. Pelo menos por hoje! Não estou conseguindo manter meus olhos abertos e minha cabeça está me matando. – ela esclarece. – Se quiser posso fazer guarda dobrada da próxima vez.
— Não tem problema. – ele diz. – Consigo cobrir essa pra você. Mas saiba que vai ficar me devendo.
— Te devendo? – pergunta.
— Sim. – Malfoy confirma. – E saiba que sei cobrar favores como ninguém. – diz, sussurrando no ouvido de Pandora e andando na mesma direção que os amigos.
A garota o acompanha até ele desaparecer de vista, não antes de lança-la um olhar e um sorriso dignos de um: — Cafajeste. – ela atesta tomando, ela mesma, seu rumo.
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