My Blood: a Draco Malfoy story
9 Controle
Os primeiros raios de sol entram pela janela do quarto, iluminando os dois corpos deitados na cama, ambos em sono profundo.
Pacíficos.
Suas expressões em nada parecidas com as máscaras que insistiam em mostrar aos outros.
Tranquilos.
Como se não houvesse missão alguma a sua frente. Como se não estivessem passando por um momento de tremenda turbulência.
A filha d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado e o herdeiro dos Malfoy.
Por volta das 7h da manhã, a consciência vai, aos poucos, alcançando a garota de cabelos negros. Conforme vai acordando, percebe uma leve brisa que, de segundos em segundos, tocava seu rosto. A sensação era estranha, mas, ao mesmo tempo, prazerosa.
Ao abrir os olhos, entendeu o estranhamento: o sopro não vinha da janela aberta, mas do menino deitado a sua frente. Ainda dormia. Os olhos fechados e a expressão de imensa paz, bem diferente da faceta que tinha sustentado desde que se conheceram. Não parecia triste ou amargurado. Surpresa por aquela expressão, Pandora não sabia ao certo quanto tempo passara o observando.
Observando não, admirando.
Perdera as contas de quantas vezes já se pegou pensando no quão bonito ele era e, contrariando todas as afirmações de outras pessoas sobre a personalidade dele, o achava bom. Talvez um pouco perdido, mas definitivamente bom. Sabia de toda a sua história pelos corredores de Hogwarts, Daphne já contara tudo: a forma como destratava quem achava inferior a si, os privilégios que recebia por ser da Sonserina (muitos deles vindos de Snape) e todas as idiotices que fez durante o período que estava na escola. Tinha certeza de que, caso tivessem se conhecido antes, odiaria o garoto e Pandora não sabia ao certo quando aqueles comportamentos haviam parado, mas suspeitava que, em termos de temporalidade, batiam com sua missão.
Suspeitava também que a ideia de matar Dumbledore o afetava mais do que demonstrava. E olhe que já houveram momentos de demonstração e fraqueza.
A garota sentiu um sentimento quase insuportável de empatia lhe afundando o peito e, sem nem ao menos ter consciência disso, sua mão se dirige a uma mecha de cabelo dele que caia sobre a testa.
Contudo, antes que tocasse no local, ele acorda.
Pandora, mais ligeira que tudo, recolhe a mão e fecha os olhos na tentativa de fingir estar dormindo. Ela sente o corpo dele estremecer e percebe que ele estava rindo.
— Há quanto tempo está acordada? – ele questiona com uma voz que misturava sonolência e divertimento.
— Não muito. Só alguns minutos. – responde contrariada. Não esperava que ele a pegasse naquelas condições, como se fosse alguma stalker ou coisa pior. – Acho que são umas 7h. É melhor você ir.
Malfoy revira os olhos: — Você realmente tem o dom de mudar de assunto quando é conveniente.
— Só não quero que saibam que você dormiu aqui. – rebate na defensiva.
— Tem tanto medo assim de intimidade, Hawking? – pergunta, claramente brincando.
— Você é mais engraçado pela manhã, Malfoy. Sabia disso? – responde, enquanto se levantava na direção do banheiro. – Teve algum pesadelo esta noite?
Ele toma um tempo para pensar até que responde: — Estranhamente não... Você teve?
— Nenhum. – diz, enquanto escovava os dentes. – Deveríamos fazer isso mais vezes. – diz, brincando.
— Deveríamos. – Draco responde com o mesmo ar de brincadeira. – Sabe, não estou tão afim de levantar agora... – ele completa se aconchegando nas cobertas.
— Me diz uma coisa, Malfoy... O que acha que aconteceria se meu pai soubesse que dormimos juntos? – Aquela pergunta parece surtir o efeito esperado no garoto, pois o mesmo arregala os olhos e levanta da cama as pressas, andando em direção a porta. – Bom garoto. – Pandora completa com um sorriso no rosto.
Não diria a ninguém, mas sua preocupação não estava na possibilidade de seu genitor descobrir e o que pensaria desse fato, mas o que faria com Malfoy se aquilo acontecesse.
*
O dia passa sem muitas emoções. Pandora dedicara o dia a estudar o funcionamento do Armário Sumidouro em um dos livros que encontrara na biblioteca da mansão. Descobrira que não havia muito o que se fazer além do que ela e Draco estavam fazendo. Na maior parte das vezes, o concerto de um artefato como esse era basicamente um jogo de sorte.
Aparentemente, pensou ela, estamos numa maré de azar.
Sentindo-se frustrada, ela lança o livro pro outro lado do quarto, sem se preocupar muito com o estado mesmo. Nenhum dano poderia ser tão grande a ponto de um simples Reparo não o concertar.
Não se dera conta das horas passando e, ao olhar pra fora, vira que já era tarde. A garota dos olhos verdes se encontrava agora estirada em sua cama, tomada pelo mais puro e completo tédio. Olhava para o teto do quarto pensando em nada e em tudo ao mesmo tempo, mas a missão retornando aos seus devaneios mais vezes do que gostaria.
Levanta-se num ímpeto e vai atrás daquele que poderia tirá-la daquele tormento.
Bate na porta do aposento duas vezes e espera até a figura loira a abrir, dirigindo a ela um olhar questionador.
Pandora, no entanto, não aguarda nenhum convite e entra no cômodo, dizendo: — Espero que esteja vestido.
— Talvez você devesse ter algumas aulas de etiqueta. – ele diz contrariado.
— Você é estranhamente organizado, Malfoy. – ela atesta, observando todo o quarto e, em seu íntimo, um pouco decepcionada por ele não ter entrado na onda de sua provocação. Se dirige então, até uma prateleira com os mais diferentes objetos: um lembrol danificado, livros sobre os mais diversos assuntos, pequenas esculturas de prata de vários modelos de vassouras e algumas figuras famosas do mundo bruxo, incluindo Salazar Sonserina, entre outras coisas.
Não se via um pó de poeira em toda a extensão do local e todos os objetos pareciam estar nos seus devidos lugares. Para um adolescente do gênero masculino, Draco Malfoy era, como ela mesma disse, estranhamente organizado.
— Vou tomar isso como um elogio. – ele diz.
— Entenda como quiser. – ela responde, mas aquele era, de fato, um elogio. Só não diria a ele.
— O que veio fazer aqui? – o menino questiona.
— Estava entediada, então o que melhor a se fazer do que encher o seu saco? – ela lhe dirige um sorriso travesso, enquanto Draco bufa.
Pandora pega a miniatura de uma Nimbus 2001 e a olha com atenção. A réplica era perfeita. Mesmo nunca tendo montado em uma, já havia admirado o modelo e todos os seus detalhes haviam sido memorizados. Não gostava de vassouras, mas isso não queria dizer que a garota não poderia admirar os objetos.
— Sabe voar? – escuta ao fundo. Estava tão concentrada naquilo que se sobressalta um pouco ao escutar a voz de Draco.
— Claro que sei. – responde com pressa.
Malfoy semicerra os olhos. – Mentira! – diz, por fim.
— Como disse? – a garota fica surpresa com a audácia do menino, mas não consegue disfarçar o seu constrangimento e ele percebe isso.
— Não sabe voar. – afirma rindo e indo na direção de Pandora. – Suspeitei quando disse que não gostava de quadribol, mas não tinha certeza disso.
— Só porque disse não gostar de quadribol você imaginou que o motivo seria eu não saber montar numa vassoura? – ela pergunta, incrédula.
— Bem, todo mundo que já montou numa vassoura gosta de quadribol.
Ela ri. – Acho que você superestima o esporte.
— Talvez. – ele diz coçando o queixo, como se estivesse pensando em algo muito profundo. – Mas não podemos deixar isso continuar assim...
— O que quer dizer com isso? – ela questiona, desconfiada.
— Vou ensiná-la a voar.
— Eu não quero aprender a voar. – ela afirma, a voz carrega com algo parecido com... Medo? – Não acredito haver nenhuma necessidade disso.
— Qual o problema? – ele questiona agora com as duas sobrancelhas levantadas. Ela demora para responder, pois pondera se vale a pena mentir ou dizer o real motivo daquilo. – E então? O que te impede?
Ela opta pela verdade. – Tenho medo de altura.
— Desculpe? – ele pergunta, mas ela entende que ele só estava tentando faze-la repetir.
— Se acha que vou repetir isso só pra que você tenha algum tipo de satisfação, está redondamente enganado, Malfoy. – Pandora se vira na direção da porta, pronta para sair, mas é impedida por Draco que segura seu braço.
— Você é muito esquentadinha, Hawking... – provoca. – Vou ensiná-la a voar e, se der sorte, fazer com que perca um pouco o medo de altura.
— Não vou aprender a voar com você, Malfoy. – ela aproxima seus rostos na intenção de sussurrar dramaticamente. – Não acredito na sua capacidade de não me deixar cair.
Ela percebe a respiração do garoto descompensar um pouco, devido à proximidade de ambos, mas ele logo trata de disfarçar e responde: — Acredite, não vou deixa-la cair.
Não espera nenhuma resposta. Pega a mão de Pandora e a leva para a área externa da casa. O estômago da garota se revirando tão fortemente que, na verdade, a única capacidade que duvidava era a sua de segurar um possível vômito.
*
— Segure-se. – Malfoy diz pelo que parecia ser a milésima vez.
— Estou segurando! – Pandora responde ultrajada, pois nunca havia colocado tanta força nas mãos como nas últimas horas. Os nós de seus dedos já estavam brancos do esforço que fazia em segurar a vassoura entre suas pernas e os dois metros de distância do chão a deixavam tonta.
— Precisa exercer controle sobre a vassoura, caso contrário vai realmente cair. – ouve a voz de Draco vinda de algum ponto abaixo de si. Pra ele era fácil falar... Passara a vida toda aprendendo e desenvolvendo a habilidade de voo e, com toda certeza, tivera um professor muito mais paciente do que ele estava sendo.
A garota se inclina levemente para frente com o intuito de pousar. Consegue fazê-lo com sucesso e, assim que seus pés tocam o chão, desmonta do objeto e o entrega a Malfoy.
— Cansei disso. – afirma.
— Ah, pelo amor de Merlin, me poupe! – o que Malfoy faz em seguida a pega totalmente desprevenida: enquanto segura a vassoura com uma mão, com a outra enlaça a cintura da garota a colocando em posição de voo e, logo em seguida, subindo atrás dela. – Não é tão terrível assim. – diz quando dá o impulso para cima.
Pandora segura no objeto em movimento como se sua vida dependesse disso e amaldiçoando Malfoy até sua terceira geração.
— Abra os olhos. – Draco diz, em voz baixa, no ouvido dela. A garota balança a cabeça em negação. – Ora, vamos, Hawking! Garanto que não vai se arrepender.
Ela respira fundo inúmeras vezes até arranjar coragem e, quando finalmente abre seus olhos, entende o que ele quer dizer. A vista é sensacional e, por alguns segundos, consegue distrai-la da altura em que estavam. Os limites do jardim bem delineados pelas mais lindas flores, a mansão no centro e o lago logo depois. Era tudo muito bonito e, talvez em outra vida, a atmosfera daquele lugar realmente fosse tranquila e leve como parecia.
Mas não naquela.
— Sabia que meu pai sempre dizia que eu seria o apanhador mais jovem a pisar em Hogwarts? – ele questiona.
Pandora revira os olhos. Não era surpresa que toda a altíssima autoestima de Draco tivesse sido construída com base em seu pai. – Caramba, Malfoy, você era realmente seguro de si. – brinca.
Ele ri: — Cresci sendo ensinado que era melhor que todos, Hawking. – diz um pouco cabisbaixo. – Nada me preparou para a realidade do que seria a minha vida.
— Como assim? – ela questiona ao vê-lo numa posição vulnerável. Não pôde deixar de notar a sensação de querer confortá-lo que a tomou.
— Todo o planejamento que eu tinha pra mim acabou não se realizando. – ela esperou que ele continuasse, sem interromper. – Nunca fui o apanhador mais jovem a pisar em Hogwarts. Nunca fui o melhor aluno ou o centro das atenções. Todos esses cargos e atribuições foram ocupadas por outra pessoa.
— Harry Potter. – ela responde. – Não me surpreende a rivalidade que existe entre vocês dois.
— Você não entende? Não é questão de uma mera rivalidade e com certeza você vai me achar péssimo por isso, mas tudo o que eu sempre quis, o Potter teve de mão beijada, só porque...
— Os pais dele morreram. – ela completa, tentando fazer com que ele visse tudo por uma outra ótica. – Malfoy, queira ou não, você é privilegiado em diversos sentidos e mais ainda no quesito pais. Pode ter tido uma infância ruim ou insatisfatória, mas ainda tinha seus pais por perto. Entendo sua frustração, mas não acha que isso não passa de uma briga de criança? Existem tantas coisas que ainda podem ser alcançadas... Não acha que alimentar esse tipo de sentimento é ruim pra você? – Pandora pondera o que dizer em seguida, mas resolve colocar aquilo para fora. Já havia guardado aquilo por tanto tempo que, talvez, falar sobre seria algo bom. – Você queria saber o que tinha acontecido comigo anos atrás, certo?
Ele a olha, surpreso: — Não precisa me dizer...
— Mas eu quero. – ela interrompe e, ao não ser interrompida, respira fundo para continuar. – Quando eu era menor não tinha muito controle da minha magia. Sei que ninguém tem, mas comigo era mais sério. Todas as vezes que algo me tirava do eixo ou eu me sentia vulnerável, o meu poder simplesmente... Extrapolava. Qualquer coisa que estivesse muito perto recebia o impacto. E, bem... Não era algo bom. – ela para e respira fundo. Era difícil, mas conforme as palavras saiam, o peso que sentia diminuía e o fato de Malfoy a escutar tão atentamente também ajudava. – Um dia, Yaxley decidiu me deixar brincar com as outras crianças num parque do bairro depois de muito insistir. Veja, eu tinha 9 anos e nunca tinha tido contato com ninguém da minha idade, então era natural isso ser um desejo muito grande pra mim. Mas o que não sabíamos, era que dois meninos já tinham me visto praticando. – continuou. – Eles esperaram Corban sair de perto, por causa de um correio-coruja que havia recebido, pra me encurralarem. O parque estava cheio de pirralhas e eles se aproximaram junto com uma outra menina. Começaram a gritar comigo, exigindo que eu fizesse um graveto levitar e, quando eu disse não, aquilo tudo só aumentou. Eles gritavam, me empurravam... – a garota para. As lembranças dolorosas demais. Vívidas demais. – Até que simplesmente eu perdi o controle e uma energia surreal se desprendeu de mim, atingindo diretamente a menina. A próxima coisa que eu lembro é de pessoas desesperadas correndo na nossa direção, o barulho da ambulância, dedos acusatórios apontando pra mim, eu fugindo, mesmo estando extremamente tonta, uma mão tocando no meu ombro e então, tudo se foi.
— O que aconteceu? – ele perguntou.
— Yaxley apareceu e aparatamos. Nos mudamos em questão de horas e nunca tocamos no assunto. Ele nem sequer questionou o que tinha acontecido, apenas me manteve reclusa. Só depois de algum tempo que soube que a menina que atingi não tinha morrido, mas ficou com sequelas graves por causa daquilo.
— Porque está me contanto isso? – Malfoy questiona depois de algum tempo.
— Pra você entender duas coisas: a primeira delas é que nem todo mundo nasceu em berço de ouro, tendo tudo o que precisava, quando precisava e muito menos tendo o apoio daqueles que suspostamente o deviam dar; e segundo, da próxima vez que pensar que você é péssimo ou coisa parecida, lembre-se que existem pessoas piores.
— Está querendo me dizer que se acha ruim? – ele pisca com surpresa. – Hawking, você não fez por mal. Estava vulnerável, não tinha o controle do que fazia e...
— Quase matei uma garota.
— Por acidente! – Malfoy praticamente gritou, mostrando-se ultrajado.
— E estou prestes a, de fato, matar outra pessoa.
Draco congela ao ouvir aquilo, a realidade de todo aquele diálogo o atingindo com força. O medo de Pandora em matar Dumbledore não era somente pelo ato em si, mas porque já estivera bem perto de realizar aquilo antes. Ele não sabia o que fazer. Nunca tinha aprendido a como confortar alguém e, pra ser sincero, nunca precisou, mas sabia que ser verdadeiro naquele momento era algo crucial se quisesse ajudar de alguma forma.
Então, com todo o cuidado (e receio) do mundo, ele dirige sua mão direita até o queixo de Pandora e vira seu rosto para ele, percebendo instantaneamente a tristeza nos olhos da menina. Junto com as lágrimas.
— Hawking, entenda uma coisa: você não é uma pessoa ruim. – ela começa a protestar, mas ele a cala. – Escute! Nós sempre somos mais severos com nós mesmos e é isso que está fazendo. Você consegue ver bondade em mim ou qualquer coisa do gênero, mesmo sabendo de tudo o que eu já fiz, porque sim, eu sei que a Grengrass já fofocou sobre. – Pandora consegue soltar um riso fraco ao ouvir aquilo. – Mas não consegue ver em si, mesmo sabendo que tudo não passou de um acidente. – ele limpa uma lágrima que escorre por sua bochecha. – Olhe, eu já vi como age com seus amigos e até com pessoas que não gosta, como Crabbe e Goyle. Você não desfaz dos outros, não se acha superior, mesmo sendo puro-sangue. Pelo amor de Merlin, você lê literatura trouxa, os admira e os respeita. E, mesmo eu não entendendo o sentido de ser assim, se isso for ser ruim, eu também quero ser! – finaliza.
Pandora sorri fracamente. – Você é bom nisso.
— Nisso o quê? – ele questiona.
— Confortar. Ajudar. – ela vira o rosto pra frente e descansa a cabeça no ombro dele. A incomodava demonstrar tanta fraqueza, mas sentiu-se acolhida por ele. – Obrigada. – diz, por fim.
Ele sorri e, enquanto colocava o queixo sobre o topo da cabeça dela, diz: — A vida parece um pouco mais suportável quando você consegue apreciar momentos e vistas como essa. – ela sorri. Nenhum dos dois, orgulhosos como eram, admitiriam, mas gostavam da proximidade em que se encontravam no momento. Era bom. Era... certo. Aquele momento sendo só deles. – Quase ia me esquecendo... Feliz natal, Hawking. – ele diz entregando um pacote pequeno a ela.
— Hoje é natal? – ela questiona. Ele ri e afirma com a cabeça. Pandora pega o pacote de suas mãos. – Não precisava.
— Abre logo! – ele responde, revirando os olhos.
— Não me deixe cair enquanto isso. – ela diz e Draco obedece, apertando os braços ao redor da cintura dela.
A garota não fazia ideia do que poderia ser, então abre o presente com uma certa ferocidade e não consegue segurar a expressão de surpresa ao ver o conteúdo. Era um colar de prata, um pingente com o desenho de uma cobra e um símbolo que parecia muito com um triângulo preenchido com um círculo pendendo da ponta.
— Procurei algo da história de sua família e descobri que esse seria, supostamente, o símbolo dela. Não entendi muito o que significa, mas ele aparece em alguns artefatos da família Riddle e, como seu pai é descendente em algum grau de Salazar Sonserina, pedi para entalharem também a imagem da serpente. – Malfoy esclarece o significado da joia. – Imagino que, durante muito tempo, você não se sentiu parte integrante de nada, então quis dar algo que mostrasse que isso não é verdade.
Pandora se encontrava sem palavras. Nunca tinha recebido nada tão significativo como aquilo e não tinha ideia de que Draco tinha uma percepção tão apurada a ponto de captar esse sentimento dela.
— Obrigada. De novo. Significa muito! – ela diz, por fim. – De verdade! – completa o olhando nos olhos. – E me sinto péssima por não ter comprado nada pra dar a você. Desculpe!
— Não precisa me dar nada. – ele afirma. – Só de ter aceitado aprender a voar, mesmo que a contragosto, já é algo. – ela ri.
— Mesmo assim... – Pandora o olha com uma ideia surgindo aos poucos em sua mente. – Professor, mesmo que tenha adorado sua aula... – Malfoy gargalha pela ironia contida naquela frase. — ...Se eu der a desculpa de pegar algo pra dar a você, o restante da lição seria cancelado? – pergunta, esperançosa.
Malfoy solta uma risada de verdadeiro divertimento pela segunda vez. – Talvez! – responde, já colocando a vassoura em posição para que pousem.
Assim que tocam o chão, Pandora pega a mão do garoto e o puxa na direção da mansão. Ao entrar nela, vão direto ao quarto designado a garota e, não demora muito para que ela encontre o que procurava.
— Sei que não é uma joia e nada novo, mas gostaria que tivesse isso. – ela entrega nas mãos de Malfoy a cópia da obra A Sociedade do Anel. – É de segunda mão, está um pouco surrado e sei que você, como filhinho de papai que é, nunca ganhou algo assim, mas você queria me conhecer um pouco e... – ela para, pensando em como continuar. Merlin, aquilo era difícil. – Já sabe que não sou a pessoa mais fácil do mundo em me abrir com os outros, na verdade desconfio de todo mundo e não sou boa com palavras, mas uma das coisas que acredito fielmente é que boas histórias podem nos fazer bem. Nos levar pra mundos que nunca imaginamos e faz com que cresçamos como pessoa. – Pandora olha Draco nos olhos, tentando transmitir toda a verdade daquilo. – Sei que tem seus preconceitos, porque também tenho os meus. Porém, acho que esse livro, em especial, vai fazer com que seus horizontes se abram. E, sendo meu, espero que isso mostre que, em algum ponto, eu realmente me importo ou até gosto um pouco de você.
Malfoy não sabe o que dizer e fica parado a olhando o que parece ser minutos, horas... – Eu... – tenta construir alguma frase inteligente, mas percebe que não consegue.
— Não precisa me agradecer. – Pandora diz e faz algo ainda mais inesperado quando dá um beijo em sua bochecha. – Será que os elfos podem fazer algum lanche? Estou faminta. – conclui, andando na direção da porta como se nada tivesse acontecido, na tentativa de não parecer mais tão sentimental naquele dia.
— Hawking. – Draco a chama depois de algum tempo de estupor. – Hawking. – ela continua a andar como se ninguém a chamasse, ao passo que Malfoy desiste e vai atrás dela, ainda com olhos no livro em suas mãos.
Estava tão entorpecido pelo objeto que não percebe o corpo parado a sua frente até esbarrar nele. Ao levantar os olhos se depara com Pandora parada, encarando algo ou alguém e, ao olhar na mesma direção, não consegue frear o arrepio por sua espinha e, num movimento extremamente rápido, esconde o objeto atrás de si.
— Feliz em saber que retornei a tempo do natal? – Voldemort pergunta.
*
O que tinha ar de festa se transformou num enterro em questão de segundos.
A atmosfera da mansão havia se tornado insuportável desde a chegada do Lorde e todos tentavam demonstrar satisfação em vê-lo. Não tardou para que ele marcasse uma reunião com seus seguidores e, mesmo sendo natal, todos, sem exceção, compareceram à cerimônia que nada mais era que uma atualização sobre as atividades de cada Comensal.
— Dolohov, alguma novidade sobre nosso assunto com o fabricante de varinhas? – Voldemort questiona.
— Ele ainda insiste em dizer que não sabe nada, Milorde. – respondeu o homem de olhos castanhos e pele pálida. – Mas é só questão de tempo até dar com a língua nos dentes.
— Quanto tempo acha que esse período de silêncio durará, Antonio? Espero que não muito... – ele diz com um sorriso de falsa simpatia no rosto que faz um arrepio tomar, momentaneamente, o corpo do homem.
— Pouco, Milorde. Faria meu máximo para que se tenha a informação dentro de alguns dias e...
— Horas, Antonio. – Voldemort o interrompe. – E tenho certeza que dará o seu máximo. – completa, ameaçadoramente.
— Claro, Milorde. – o homem responde acenando freneticamente com a cabeça.
— Aos outros, espero que se mantenham no plano de espalhar pelo mundo de que seu Lorde retornou. Liberem o que há de melhor em vocês! Ver o terror nos rostos de bruxos e a vida deixar o corpo de trouxas me agrada bastante. Embora, nossos maiores desejos só poderão se desenrolar ainda mais depois da morte de Alvo Dumbledore. – o olhar dele se dirige aos dois adolescentes presentes na mesa. – Espero que o planejamento para o retorno das aulas seja mais satisfatório e que consigam terminar essa missão.
— Sim, Milorde. – respondem em sintonia.
Tom Riddle ri, parecendo realmente se divertir com toda a atmosfera de pânico que toma a sala, dizendo em seguida: — Gostaria de falar a sós com os anfitriões e Pandora, meus amigos. Estão dispensados.
Há uma grande movimentação enquanto os outros Comensais aparatam, deixando somente os Malfoy e Pandora na presença de seu Lorde e de Nagini. A tensão e medo em todos ali era palpável e Voldemort sentia isso.
— Pandora, como se lembra, havíamos combinado de praticar Oclumência, certo? – ele pergunta, já sabendo a resposta.
— Sim, Milorde.
— Podemos começar. – ele pega a varinha e aponta para a garota.
— Agora? – ela pergunta, o pânico tomando sua voz.
— Oh! Me perdoe, achou que haveria tempo de se preparar? – ele questiona.
— Pra falar a verdade, sim! – ela diz, se arrependendo na mesma hora ao ver a expressão que sua resposta provoca no homem a sua frente. – Quer dizer...
Pandora não tem tempo de concluir a frase, pois é tomada pela sensação de invasão. Uma invasão em sua alma, seus pensamentos. Naquilo que ela tinha de mais íntimo.
Em seguida, é tomada por memórias.
Uma garota de cabelos negros brincando e cantarolando sozinha num quintal.
A mesma menina observando por, entre as sebes da casa, outras crianças brincarem, um sentimento de solidão se apossando de seu peito.
Um parque extremamente familiar a ela.
Vozes gritando.
— Pare! – ela grita, tentando tirá-lo de sua mente. – É particular.
— Não para mim. – ele responde, forçando mais uma vez a sua entrada.
“Bruxa!”
“Aberração!”
“Assassina!”
Uma criança caída ao chão. O corpo mole.
Quase sem vida.
Dedos apontando na sua direção e corpos se direcionando a ela.
Ela ia perder o controle. Ela ia matar todos eles. Ela sabia disso.
Todos os seus temores iam se tornar realidade.
Ela ia perder o controle.
— Eu disse pra parar! – ela grita com todo o resto da força presente em seu corpo, fazendo com que um jato de energia se desprendesse de si.
Da mesma forma que acontecera anos antes.
A agonia cessara. A força de vontade também.
O mundo gira.
Ela sente seu corpo vacilar e, pouco antes de cair no chão, braços a envolvem.
— Interessante. – é a última coisa que escuta antes de tudo ficar preto.
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