Notas iniciais
"Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente." - William Shakespeare

– Até de Noite velho Thomps – Sai em passos largos sem nem ao menos olhar pra trás.

A chuva caia com força em quanto eu andava pela estrada que iria levar até o centro da cidade, andava com a minha mochila nas costas, já não me importava mais com as grossas gotas de chuva que caiam, na verdade eu até gostava da sensação, consequentemente meu cabelo ficou bastante molhado e o que antes ficava mais volumoso agora está um pouco grudado na minha testa.

Passo a mão pelos meus cabelos bagunçando e por um momento eles voltam a ficar de pé, tiro o excesso da água e olho os meus pés, as botas de exercito realmente são bem uteis em dia de chuva, suspiro pelas lembranças que aquilo me acarreta, mas rapidamente decido esquecer o assunto e me concentrar na caminhada que eu faço.

Paro em frente de uma pequena venda e entro, conforme abro a porta aquele barulho do sino se instala e logo estou dentro do que seria uma venda, mas que se tornou um bar, largo minha mochila perto do balcão e me sento no banco, faço o pedido de todos os dias e me concentro em assistir a TV.

É então que a senhora da venda aparece e resolve me cumprimentar, ela era bem especial ao seu modo, já que cuidou de mim, era a Ms. Peterson.

O bar era aqueles típicos de beira de estrada, todo escuro com uma TV no balcão, uma mesa de sinuca e algumas mesas espalhadas pelo bar, o incrível era a velharia de tocador que eles tinham do outro lado da venda. Nas sextas-feiras os caminhoneiros veem pra venda pra festejar e é o dia que eu tiro uma grana extra trabalhando.

– Como foi o dia ontem?

Ela colocou meu pedido sobre o balcão e secou as mãos no pano e me analisava como uma mãe faria, eu apenas dei de ombros e murmurei qualquer coisa e comecei a tomar o meu café da manhã.

– Se precisar de mais alguma coisa meu garoto.

Veja bem não sou do tipo social, a presença das pessoas me irrita certas vezes, eu estou no meu ultimo ano de escola, não serei hipócrita e dizer que tenho muitos amigos quando na verdade não tenho nenhum.

Termino de comer meu café, Ms Peterson não cobra nada de mim, então apenas saio de volta a estrada, penso em pegar a moto que ganhei e é isso que acabo fazendo, vou até os fundos da loja onde normalmente guardo minha moto.

Tenho uma Harley Davidson 500, não se enganem não fui eu que comprei, não sou como os playboys riquinhos da minha escola, ela é toda preta, é usada e é justamente por esse motivo que eu a tenho, subo nela e ponho meu capacete, ligo a moto e logo escuto o alto ronco do seu motor, acelero segurando a embreagem apenas pra sentir toda a força do motor e logo começo a sair voltando pela estrada.

Entendam que não é só por ser um cara solitário que gosto de motos, é uma paixão de família e é herdada de certo modo, assim como a carreira militar, se você pegar minha árvore genealógica todos os homens foram do exercito e até algumas mulheres serviram no próprio exercito de alguma forma.

Não demora muito e chego à escola, antes que eu esqueça estudo no Avalon High School, mas costumamos chamar a escola de Dark High School por ter umas histórias macabras no local.

A Escola fica em New Iberia, Luisiana, estaciono minha moto em um local um pouco afastado, desligo tiro meu capacete e prendo-a em uma corrente, dou uma nota de cinco dólares pra um cara que normalmente fica olhando minha moto, segurando minha mochila com apenas um dos ombros chego à escola passando pelo campo de futebol americano.

Sinceramente eu tenho certa paixão por esportes, mas os playboys da escola faz isso se tornar uma coisa ridícula, passo pelas lideres de torcida sem cumprimentar, ajeito minha mochila na jaqueta preta e subo as escadarias que fica na parte de trás da escola.

Como em toda escola tem suas subdivisões, eu particularmente abri uma divisão nova do “não tô nem ai”. Eu sou até popular, não tem ninguém que não me conheça na escola, não sou do tipo valentão, mas também não deixo nada barato, tempos atrás recebi o apelido de uma das lendas que rolam pela escola. O Anjo Vingador, confesso que me afeiçoei ao nome e atendo se me chamar assim.

Passo pelos corredores, alguns me olham torto, algumas meninas me olham como um pedaço de carne, não fiquei com ninguém da escola, mas sempre alguma vadia inventa uma história de “Sai com o Vingador.” Alguns anos fizeram a mesma coisa, eu ignorei a menina na frente de todo mundo e ainda dei um fora nela.

Preferia ter ficado na minha, hoje a garota não larga do meu pé e tenta de tudo pra ficar comigo ou afasta quem tenta. Olha, não sou do tipo de me gabar, mas a Gabriela Madson é a garota que todos os garotos querem, mas que só eu conseguiria ficar e me sinto enojado por isso. Por mim, ela ficaria com o capitão do time de Futebol.

A escola está mais lotada, é o primeiro dia de aula depois das férias de meio de ano, pelo menos não pra mim que consegui uma detenção e tive que fazer serviços comunitários, pelo menos era melhor do que ficar em casa. Aquela casa acarreta lembranças e tristezas, quanto mais eu fico lá, mais eu enlouqueço.

Entretanto eu tenho que ficar pelo Velho Thomps, um antigo herói de guerra, já foi condecorado pelo país, hoje está cuidando de um cemitério e esquecido pelo país que protegeu e que também que custou uma parte da perna direita.

Finalmente chego ao meu armário coloco minha senha rapidamente, olho pros lados e abro a portinha, preciso usar um pouco de força já que ela é um pouco emperrada, tiro minha jaqueta e penduro na porta que ficou aberta, ela pinga água de tão molhada, olho minha camisa de tom verde musgo também encharcada e espirro.

“Ótimo, melhor tirar.”

Abro minha mochila e pego uma camisa branca, e volto a olhar os corredores, parecia não ter ninguém então não me importei e tirei minha camisa, peguei a molhada e também pendurei na porta aberta, por um momento me senti sendo vigiado, olhei por cima do meu ombro e jurei ter visto um vulto, mas resolvi não me importar, coloquei rapidamente minha camiseta branca, peguei minha jaqueta e sacudi tirando o excesso da água e voltei a coloca-la.

Olhei meu novo horário, peguei minha camisa molhada e coloquei numa sacola qualquer, guardando no armário, sinto algo gelado no meu peito e logo puxo um colar com uma plaqueta do exercito tinha o nome “Soldado Johnny Smith” entalhado nele, voltei a colocar por dentro da camisa, fechei a porta do meu armário e novamente olhei na direção onde tinha visto o vulto, resolvi dar de ombros e seguir meu caminho.

–-x--

Foco. Eu precisava encontrar rapidamente! Eu podia sentir meu rosto queimar, afinal não era tão difícil eu ficar vermelha, tímidas não tem sequer uma vantagem. Pensei na possibilidade de ir ao banheiro e lavar o rosto, mas... Ops! Eu não sabia onde era o banheiro!

Devo acrescentar que ser aluna nova no último ano escolar tinha uma vantagem de -1. Respirei fundo e olhei o relógio, não teria tempo de sair para procurar o banheiro, eu tenho um problema genético chamado pontualidade que era irritante até para mim, às vezes.

Andei de pressa com a folha dos horários na mão. Primeiro período seria história na sala 103. Eu amava história, não poderia ser tão ruim assim meu primeiro dia, certo? É... Acho que não. Entrei na sala apressada e notei uma única cadeira vaga nos fundos. Perfeito... Pensei e logo prendi o ar. O garoto do corredor, logo ao lado... Merda.

Vejam bem, não sou do tipo que fica babando por garotos, flertando ou jogando charme. Não, isso é fútil. Mas o garoto do corredor pediu pra ser notado... Eu estava perdida (como sempre) procurando meu armário e quando viro à direita... BUM! Lá estava ele tirando a blusa e exibindo músculos muito... Perfeitos. Ele devia ter quase 1.80m de altura e tinha os cabelos castanhos escuros, quase pretos.

Na antiga Grécia eles gostavam do perfeccionismo em suas estátuas e o corpo era de suma importância. Tenho certeza que ele seria um ótimo exemplo... Sem nenhuma falha, todos os músculos saltados nos lugares certos e com certeza não eram falsos.

Por mais que eu não goste de admitir eu estava babando, com certeza. Voltei do meu transe só quando ele colocou a camiseta branca de volta. Levei um susto quando ele fechou o armário e sai às pressas pra que ele não me visse o olhando com uma poça de baba nos meus pés.

Sim, esse foi o motivo porque fiquei vermelha. Idiota? Com certeza, mas vejam o meu lado: eu estudei a minha vida inteira em escola só para garotas e apesar de muitas terem revistas com homens exibindo o peito nu, era incomum eu ver uma cena como aquela no corredor.

Sentei na cadeira vaga e tentei não olhar para o garoto mesmo sendo difícil já que imaginava ele sem camisa e apresentando aqueles músculos dignos de virarem uma escultura lendária.

Balanceia a cabeça, foco. Eu precisava ter para um bom futuro. Minha vida sofreu mudanças radicais e eu não podia decepcionar aquela que me mantinha com muita dificuldade, Vovó Atena.

Depois da morte do vovô as coisas se complicaram tanto que por pouco não fomos morar na rua, mas como ela mesma disse "Problemas são criados para alcançarmos o pleno sucesso".

Sorri minimamente já me animando com a ideia de chegar em casa com o cheiro do bolo de chocolate no forno e o chá de menta que vovó era especialista em fazer, guardei meu celular. Eu iria prestar atenção na aula de história, já nas outras não garantia nada.

O professor entrou na sala e se apresentou como Quiron. Achei um pouco irônico, mas resolvi não fazer muitos comentários. Ele era o típico professor que qualquer aluno gosta, iria me dar muito bem com ele. Foi o que eu pensei até ele me chamar a frente para me apresentar.

Parece que a tal escola não era acostumada com novos alunos já que todos os olhares se pregavam em mim. Eu odiava isso, de verdade. Mas sabia que era temporário por ser uma novidade para eles. Respirei fundo e levantei determinada.

Não podia mostrar minha frustração ou vergonha diante deles, vovô sempre me dizia para ocultar meus pontos fracos. E devo dizer que sou excelente nisso em modéstia parte. Dei um sorriso leve e encarei o meu público que estava tão animado quanto eu. Espero que isso tenha soado irônico.

–Me chamo Morgana Curts e vim de Long Island da Escola Privada de Santa Rosa. Me mudei recentemente com a minha vó.

Olhei para o professor e ele deu um leve aceno com a cabeça. Nem muita informação, nem pouca. Era o suficiente para manter minhas falhas ocultas e poder observar o "inimigo" como diria meu avô.

Voltei a sentar e passei meus olhos pela sala, nada que eu pudesse me surpreender muito patricinhas, nerds, jogadores metidos a galã e claro os excluídos. Ou o excluído. O garoto dos músculos perfeitos tinha uma feição fechada e ninguém ousava olhar pra ele.

Deduzi que fosse algum tipo de badboy que colocava medo nos outros para esconder suas frustrações, todavia algo me dizia que não deveria me meter com ele.

Dei de ombros e voltei atenção na aula. Podia estar errada, mas era só a minha primeira impressão. Anotei algumas coisas no caderno e logo o sinal tocou. É não ia ser tão ruim assim meu primeiro dia. Era o que eu pensava, e como sempre fui precipitada.

Notas finais
Agradeço desde já e voltem sempre.